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Capítulo 5 de 13

A Narrativa Iniciática

Bezerra de Menezes e Narrativa Iniciática · Osvaldo Polidoro

Havia mais de vinte anos que Séfora comprara a fazenda, ali residindo em companhia de dois irmãos, Pedro e Pantaleão. Depois de enviuvar, deixara o professorado e dera-se ao amanho da terra. Sempre fora encantada pelas coisas da natureza, sempre soubera compreender a grandeza do que é puro e simples. E seus dois irmãos, experimentados na arte de administrar, fizeram-lhe o gosto em admitir a administração. Foram correndo os dias, que se alongaram por vinte anos, sem haver alteração alguma digna de nota. As estações transcorriam, vinham as épocas de preparar a terra, de semear e de colher, de ensacar e de exportar. A natureza mantinha em suas mãos aquela sabedoria que Deus lhe imprimira; e os homens viviam segundo como viessem os tempos. E se alguém nascesse ou morresse, por dentro da fazenda, isso ocorria como todos os tempos e lugares, segundo como eles julgavam, pois na terra a vida sempre se estampara na morte e vice-versa. Daquela morte em diante, isto é, desde que Pantaleão deixara o mundo, algumas coisas começaram a desandar; é que Séfora passara a sofrer pesadelos, começara a ver seu irmão em apuros, correndo pela fazenda feito louco, tendo atrás de si dois homens a persegui-lo, e dois homens que ela reconhecia serem dois antigos colonos. Eles haviam ido pescar e lá ficaram, rolando rio abaixo, porque deviam ter escorregado e caído; pelo menos era o que diziam ter acontecido, visto como ambos tiveram seus corpos não encontrados, deixando apenas na margem do rio, os seus utensílios de pesca. E Séfora agora os via, e mais o seu irmão Pantaleão, correndo fazenda, berrando feito loucos, num pega e não pega sem fim! Depois de conversar com o irmão restante, Pedro, ouviu deste que melhor seria ouvir um médico, pois a coisa era alucinação, devia prender-se à idade e ao abalo sofrido com a morte do irmão. E com isso começou a jornada clínica de Séfora, a fazendeira. Alguns médicos tinham certeza, outros nada tinham, mas todos foram receitando e cobrando, enquanto Séfora tudo foi tomando, inclusive, por fim, uma verdadeira aversão por tudo quanto cheirasse a médicos e a medicinas. Quando já cansada de tomar remédios, depois de recomeçar o repertório indagativo pela trigésima quarta vez, e sem que o irmão e seus algozes tomassem jeito, decidiu nada mais tomar nem consultar a mais ninguém. — De hoje em diante — disse a Pedro — nem mais uma gota de remédio! Estou farta de tudo!... — E os fantasmas?... — perguntou-lhe o irmão, enigmático. Séfora encarou o irmão com bastante severidade, respondendo: — Para eles ninguém receitou coisa alguma! E com isso foram, cada qual a seus afazeres. No dia seguinte, antes de mais nada, sem mesmo cumprimentar a irmã, perguntou-lhe Pedro: — Viu alguma coisa, irmã? — Vi, como não? Vi o nosso irmão, como de costume, sendo corrido pelos dois colonos. Arrazoando, Pedro murmurou: — Que adiantou tomar tanto remédio? — Nada! — respondeu a irmã. Pedro meditou, volvendo a murmurar: — Que adiantou não tomar remédio esta noite? — Nada! — repetiu Séfora, com secura. Tomaram o café da manhã, falando de tudo, menos de fantasmas. Quando Pedro ia saindo, olhou para trás, perguntando: — Quer procurar alguma outra coisa, Séfora?... Ela olhou-o de esguelha, indagando: — Que coisa? O irmão balbuciou, tímido: — Algum... Algum... Curandeiro... A irmã soltou tremenda gargalhada, abanou a cabeça algumas vezes e disse, em tom irônico: — Algum curandeiro!... Meu irmão pensa que estamos na Idade Média ou no tempo em que todo mundo era analfabeto!... Que grande irmão!... Pedro virou-lhe as costas e se foi, rumo ao seu trabalho. Andou a cavalo e fiscalizou o trabalho em curso, tendo retornado para almoçar ali pelas dez horas. E não ficou satisfeito, quando a cozinheira lhe disse: — Patrão, sua irmã está ficando impossível. Não se pode falar com ela, que lá não venha com mil e um xingamentos. Além disso, começou hoje cedo a falar sozinha, a esbravejar, tendo atirado objetos em alguém, creio que nalgum fantasma, pois eu nada pude ver, nem a minha filha Joana. Pedro perguntou-lhe: — Você, Maria, acredita em fantasmas? — Eu não acredito, patrão... Eu não acredito... Pedro indagou-a: — Por que não acredita, Maria? Tudo pode ser neste mundo de Cristo. Se ela fosse uma doente, certamente os médicos teriam dado um jeito, não acha? A cozinheira sorriu, comentando: — Nem a Religião nem a Medicina, dizia meu pai, poderão evitar a morte. A importância está no conhecimento... Como fizesse aquele silêncio reticencioso, Pedro teve de perguntar: — Conhecimento?... Mas você não acredita em coisa alguma!... A cozinheira deu uma espiadela, a ver se a fazendeira não lhe ouvia, tendo após respondido: — Eu sei, patrão!... Eu sei... A gente nunca deve apenas crer nisto ou naquilo, compreende o senhor? A gente precisa é de conhecer!... Pedro tomou um aspecto feliz, perguntando: — Como você fez para conhecer, Maria? E a cozinheira explicou-lhe, falando baixinho: — Meu pai era católico fervoroso, desses de furar o peito de tanto bater, como todo português daqueles tempos. Um dia, em certa fazenda, uma doença começou a matar toda a criação. Aquilo ia limpando tudo, só se via morte por todos os lados! E foi quando o fazendeiro, depois de dar tudo quanto sabia aos animais, resolveu chamar um tal curador, um homem que sabia benzer de tudo! — Compreendo, compreendo. — O senhor devia ter visto! — continuou ela — O tal benzedor chegou, olhou, ficou muito triste e entrou casa a dentro. Ali na sala de jantar, meteu os joelhos no chão, ouviu os espíritos e mandou buscar as ervas curadoras... Mas a fazendeira entrou naquela hora, surpreendeu Maria a dizer aquilo para o irmão, passando-lhe tremendo ralho: — Já estou farta de ouvi-la dizer isso! E este palerma do meu irmão a lhe estender os ouvidos, como se fosse um analfabeto! Pedro indagou à irmã: — Ela tem-lhe dito alguma coisa sobre isso? A irmã respondeu-lhe, irada ao extremo: — Todas as noites me acorda para dizer isso! Todas as noites!... Pedro foi à cozinha, perguntando à cozinheira: — Por que você acorda minha irmã todas as noites, para lhe dizer isso? Não poderia ter dito a mim, que estou bom de saúde? A cozinheira respondeu-lhe, encolhendo os ombros: — Eu jamais lhe falei em semelhantes coisas. Ela deve estar muito fora de si, para inventar tudo isso. Eu tenho medo da incredulidade de sua irmã. E se o senhor achar que sou aqui inconveniente, por causa de sua irmã, ou pelo que ela diz a meu respeito, posso despedir-me quando o senhor quiser. Pedro convidou-a a acompanhá-lo, tendo-a levado à presença da irmã, que comia o seu almoço, porém de modo estranho, qual se fora uma doida varrida, metendo as mãos no prato e besuntando-se toda. O irmão, vendo aquilo, olhou para a cozinheira e mandou-a voltar para a cozinha, recomendando-lhe: — Não faça caso de nada, Maria, que minha irmã está ficando muito mal... A irmã, tendo-o ouvido falar assim, irrompeu: — Muito mal está você, seu imbecil!... O irmão nada disse, ficando apenas a meditar, revelando porém a grande mágoa que lhe ia na alma. E depois de ter almoçado, mandou encilhar o cavalo, partindo sem dizer para onde ia, nem fazer o quê.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.