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Capítulo 6 de 14
Parte 6 de 13
Um Médium de Transportes · Osvaldo Polidoro
Livro_MEDIUM_V6.indd 86Livro_MEDIUM_V6.indd 86 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes Seria impossível evitar uma emoção, ao menos. Por isso mesmo, afaguei-a com carinho e fui-me para o quarto. Todo o meu ser, porém, vibrava em clarinadas de esperança. Um novo dia surgia nos horizontes de minha vida. À tarde, quando os filhos vieram da aula, embora fossem demasiadamente tenros para cogitarem de tais assuntos, fi-los saber de meus intentos. Tomei-os ao colo e falei-lhes como a adultos: — Isabela e André, quero que vocês saibam de uma coisa. Papai vai casar-se de novo. Vocês precisam de carinho materno e de outros cuidados... Sinhá Marta disse que Deus a está a chamar, e que irá embora, deixando-nos. Que dizem vocês? Eu quero que vocês digam o que pensam, porque são os que estão a sofrer mais. Eles sorriram, mas nada disseram. Quis eu falassem, mas de nada valeu. Tornei a dizer-lhes, então, que isso era de necessidade, mas que desejava fazê-los cientes de tudo. E de nada valeu, porque um olhava para o outro e calava. Procurei, ainda, que falassem: — Catarina é... Não avancei, porque prorromperam num delírio de alegria. Eles nada entenderiam de ca-
Livro_MEDIUM_V6.indd 87Livro_MEDIUM_V6.indd 87 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro samento, ou coisas que dele pudessem derivar; mas sabiam que Catarina lhes fora amiguinha de brinquedos, e que era triste ter ido para a outra fazenda, de onde só vinha de longe em longe. Quando saí de casa, ao crepúsculo, para como de costume sentar-me debaixo da jaqueira, fui abordado por Sinhá Marta, que me quis dizer: — Não perca tempo, Sinhô... Fale com Catarina, fale com seus pais... Fui sentar-me à sombra da jaqueira, fazendo minha invocação de costume. E senti, imediatamente, a aproximação de alguém. Mentalmente, repeti: — Venha, espírito amigo: mãe, pai, ou quem seja, da parte de Deus!... Venha! Senti-me adormecer, e, levemente, como uma pluma, fui deixando o corpo, para acompanhar minha mãe e muitas entidades mais. Mas era minha mãe, que me levava pela mão, como de outras feitas. — Temos para si ótima surpresa, Cabral. — Por tudo que fazem, dou graças e sou agradecido, mamãe. — Nós sabemos disso, e por isso mesmo o auxiliamos com desvelo. Esteja com os seus deveres em dia, e com os pensamentos ligados
Livro_MEDIUM_V6.indd 88Livro_MEDIUM_V6.indd 88 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes a nós, que tudo nos será possível, assim como Deus queira e determine. Como falasse em deveres, ventilei, por isso mesmo e muitas outras razões, pensamentos que me vinham à tona das cogitações: — Que mais importa fazer, mamãe? Ter as preces em dia ou ter os pensamentos e obras em dia? Ela afirmou: — Tudo em dia, deveres, pensamentos e preces. Mas o cumprimento do dever é primordial, é quem de fato qualifica o merecimento da prece. — É como eu penso, mamãe. Ela perorou: — Há leis que são do mundo carnal só, como delas há que têm valimento por estas esferas, onde tudo é mais sublimado. Pode-se mesmo dizer, que nenhuma lei é inútil em meio qualquer, sendo de mais ou nenhum uso, num ou noutro meio. Esta questão, porém, que diz respeito aos deveres individuais, é infinita e eterna, porque jamais deixa de haver obrigação de deveres, para quem quer. E como as necessidades da vida são complexas, seja onde for, porque ao fator vida se aliam os de serviços, cumpre nunca esquecer a recurso algum. Fundamentalmente, porém, temos os deveres que são: amar, saber, querer,
Livro_MEDIUM_V6.indd 89Livro_MEDIUM_V6.indd 89 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro ponderar, obedecer, tomar iniciativas, prestar contas e assumir responsabilidades. Tudo isto, como vê, demanda necessidade de sintonia com o Sagrado Princípio, e para com as Potestades Individuais que Lhe executam os desígnios. Sem a prece, que é instrumento de contacto, contaríamos com uma dificuldade a mais, não acha? Lembrando-me de certa pessoa, argumentei: — Conheço uma pessoa, e a senhora deve conhecê-la, que não ora, por afirmar ser o procedimento o melhor modo de orar. Essa pessoa está em falta ou é menos assistida? Ela esclareceu: — Nem uma coisa e nem outra; essa pessoa é muito assistida e não está em falta, por viver em perene contacto mental com o Supremo Ser, que é Íntimo a tudo e todos, e conosco também, vivendo, além disso, para fazer o que pode de bem pelo próximo, na ciência plena que tem, de que Deus assim quer seja feito. Essa pessoa, que já alcançou elevado grau de espiritualidade, vive em estado de prece. E isso é muito mais interessante do que parece, pois os que oram de quando em quando também erram de quando em quando, em virtude da pouca evolução. Assim é que lhe digo, haver modos infindos de errar e acertar. Tudo é questão de saber como anda o foro
Livro_MEDIUM_V6.indd 90Livro_MEDIUM_V6.indd 90 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes íntimo do indivíduo. Lá no recesso do ser é que pode andar a lâmpada em brilho ou às escuras, ou mesmo em intermitências de luz e sombra. — Gostei muito do que disse, mamãe. — Eu já tinha estudado o que você trazia em mente, há dias. — É interessante. Agradeço muito. — E saiba que faço isto, ou antes, fazemos, não por ser meu filho, ou por havê-lo sido, e sim pelos seus merecimentos pessoais. É de cima que vem a ordem, e eu me comprazo em servir a quem me foi tão caro. Isto, saiba-o, é uma graça para mim, pois, sendo mãe e ainda inferior, não posso amar universalmente, como seria de desejar, isto é, como Jesus Cristo exemplificou. — A senhora é modesta, mamãe. Ela retorquiu: — Desejo que me interprete como falo, meu rapaz. Quem foi sua mãe na última encarnação; nem sempre lhe foi mãe e nem dócil. Sobre tudo, somos ainda inferiores em hierarquia, razão porque nos usa Deus, segundo laços particularistas. Nós ainda somos, como já foi dito, bons pais e boas mães, bons filhos e boas filhas. E, na Terra, os bons pais arrancam os olhos aos filhos dos outros, por causa de seus filhos. E assim por
Livro_MEDIUM_V6.indd 91Livro_MEDIUM_V6.indd 91 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro diante... Sabe o que é, agora, amar universalmente? — Sei o que diz, mamãe. — Pois é isso, meu rapaz. Dia chegará em que teremos a todos os pais como a um pai, a todos os filhos como a um filho, a todos os irmãos como a um irmão. No dia em que assim pensarem todos os habitantes da Terra, e assim se derem a viver, Jesus poderá dizer que cumprida está Sua função, no mundinho em o qual Lhe cumpriu ser Mestre. Mas, consideremos, isso ainda está muitíssimo longe. Estacou a ponderar qualquer ideia que lhe ocorrera, sussurrando com gravidade: — É isso mesmo... Nós ainda somos incapazes de respeitar, em qualquer caso, à pura justiça; vemo-la bem ou mal, segundo os interesses mais imediatistas, que soem ser os de sangue, cor, raça, religião, etc. E, em face da Suprema Justiça, ai daquele que a silenciar, em virtude de qualquer desses paliativos. Em verdade, a Divina Justiça não é facetista. Pensem como quiserem os que se prezam de seus exclusivismos, mas isso nunca deixará de ser assim. Responde pelas obras o espírito em si, não seus forros ou preconceitos, não suas presunções ou validades temporais. E é por isso que a morte, sem ser traiçoeira, a muitos apanha em flagrante, atirando-os aos planos de treva e dor.
Livro_MEDIUM_V6.indd 92Livro_MEDIUM_V6.indd 92 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes — Onde estamos? — exclamei, em vendo Eliseu e Gisa diante de mim, num repente. Minha mãe sorriu, o seu costumeiro e contagiante sorriso, explicando: — Eu não falei em surpresa, logo de início? — Muito bem... Muito grato... Estamos na casa deles, não é isso? — Temos um sério trabalho por executar. E você nos irá auxiliar, contribuindo com o seu coeficiente de fluidos eletromagnetizados... Ponderou por alguns instantes e completou o pensamento: — A seu modo, é certo, pois cada ser, assim como possa sentir, pensar e agir, assim expelirá à proporção; creio que você já sabe destas coisas. Informei: — Sim, mamãe, eu sei que segundo como se dê o ser a pensar, sentir e agir, assim radiará em cores tais ou quais, sendo que seus fluidos serão melhores ou piores, também. E sei que é impossível trair essa lei, pois o pensar atua forçadamente sobre o campo reflexivo ou astral do indivíduo, vindo assim a expô-lo, abertamente, em face do mundo espiritual. — Pura e rasa verdade! — anuiu minha mãe
Livro_MEDIUM_V6.indd 93Livro_MEDIUM_V6.indd 93 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro com entusiasmo. Os trabalhos já iam avançados no solar do ex-vizinho, do grande amigo e confrade que era Eliseu. E se minha primeira impressão fora de alegria, logo a seguir comecei a sentir profunda mágoa; é que lhe queria falar, saudar, dizer coisas, estando em situação de não poder fazê-lo à vontade. Pensava assim, quando minha mãe me ciciou aos ouvidos: — Isso é mais do que possível... Mas primeiro temos um trabalho a realizar. Senti-me penhorado por tantas dádivas, mas nada disse. E ela convidou: — Assim que chegar a vez de certa consulente, iremos tratar do caso. E é bem interessante que tenha podido vir conosco. — De que se trata? — De uma irmã, muito avançada em idade, e que está no finzinho da missão terrena. Precisamos auxiliá-la um pouco. Estranhei, por ser idosa e estar no finzinho, havendo inquirido: — Se é idosa e está no finzinho, para que tanto cuidado? Afinal, pela mesma razão porque é
Livro_MEDIUM_V6.indd 94Livro_MEDIUM_V6.indd 94 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes interessante viver, em certos casos também é interessante morrer ou mudar de estado. — Não atina com a coisa, meu rapaz — observou ela, complacente. — Não se trata, verdadeiramente, de morrer ou nascer, ser daqui ou da carne; trata-se do estado moral, para efeito de responsabilidade. Ela terá de vir em melhores condições, e, para tanto, só tendo mais um poucochinho de tempo. Não compreendendo, tornei à razão de origem: — Mas, então, o que não fez em tantos anos terá de realizá-lo em poucos meses? Abanando a cabeça, explicou: — Poucos meses? Mas quem falou em meses? Ela viverá, quando muito, alguns dias. E o que há por realizar é em sentido profundamente íntimo. Trata-se de um reequilíbrio moral, que só a dor e a ponderabilidade mental poderão realizar. E nós, à custa de seus fluidos, vamos forçá-la a viver mais uns dias, para que, vivendo e sofrendo, possa conquistar melhor estado psíquico. É um espírito cheio de créditos, merecendo, portanto, purgação imediata. E você deve convir em que estamos fazendo obra de amigos. Porque interessa que venha em melhores condições e não em piores.
Livro_MEDIUM_V6.indd 95Livro_MEDIUM_V6.indd 95 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro — Então, até a dor chega a ser graça? — Tudo pode vir a sê-lo, tanto bastando intervenha a tempo e propósito. De que valeria a ela, ou a nós, viesse já e sem sofrimentos, se o bem futuro significa mais, muitíssimo mais, e é tão fácil de ser conseguido? Quando Eliseu, o presidente de mesa, leu certo nome, minha mãe clamou: — Vamos com Aidar! Aidar era o guia receitista. E nós o acompanhamos até certa casa, onde, num leito, estirado, quase fora do corpo, um espírito lutava contra embaraçante estado. Quase saía de vez, depois voltava, permanecendo nessa intermitência, enquanto o corpo ressentia-se, ora balbuciando coisas, ora contorcendo-se. — Não há ordem de cortar o liame fluídico, e sim de auxiliá-lo a ficar mais uns dias, como já lhe falei. Vamos, pois, fazer o possível? — Eu nada entendo disso... — Encoste-se nela... Deite-se no leito ao lado da moribunda. Naqueles dias, nada entendia do mister: mas agora sei o que é fornecer fluidos animais eletromagnetizados a alguém, seja encarnado ou desencarnado. E saí de lá carregado, sim, se-
Livro_MEDIUM_V6.indd 96Livro_MEDIUM_V6.indd 96 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes nhores, de tanta fraqueza! Fiquei tão esgotado, tão fraco, que me parecia ir morrer. Nem sequer conseguia falar! Quando de novo me vi no recinto de Eliseu, não tinha mais vontade de lhe falar, tal o estado de debilidade em que me achava, que me ocasionava até desânimo. — Quer comunicar-se? — alvitrou minha mãe, olhando-me com bondade. Fiz sinal que não, pois difícil seria falar. — Convém fazê-lo. — articulou ela, apanhando-me pelo braço e, aproximando-me de Gisa. Assim que me senti preso à organização mediúnica de Gisa, comecei a sentir um fortalecimento que vinha, ou parecia então vir, das profundezas do eu. E quando o bom Eliseu me falou, julgando-me um sofredor, pude falar-lhe regularmente. Notei a dúvida que se levantou no cérebro do bom amigo, o que me fez entristecer um pouco. Sabendo, porém, de coisas do mister, alvitrei: — Fale com o seu amigo, o guia Aidar. Ele alegou tantas coisas, não querendo fazê-lo. Achava que um encarnado dificilmente poderia conseguir isso. Mas, insistindo eu, aquiesceu. E Aidar lhe contou como as coisas se estavam
Livro_MEDIUM_V6.indd 97Livro_MEDIUM_V6.indd 97 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro passando, com o que ele acedeu, mas, permanecendo em dúvida, pelo que sua mente radiava. Quando tornei à fala, por me ceder Aidar o lugar, ele me disse: — Pretendo visitá-lo dentro em breve, se Deus quiser; seria capaz de lembrar-se deste fato e falar-me dele, então? — Que fique tudo na vontade de Deus... Eu quero, mas, não sou autoridade para prometer tanto. De outras vezes, tenho tido toda lembrança. Quem sabe? Perguntou-me de tudo e todos, de casa, dos conhecidos, ao que respondi como melhor pude. Isto fez melhorar o seu estado mental, fez diminuir a prevenção contra mim. E me senti bem com isso. Quando minha mãe me convidou a sair, afirmei que o esperaria como visita, retirando-me. — Gisa há de vê-lo! — afirmou minha mãe. E assim o fez. Logo mais, retirando-a do corpo, apresentou-ma, com o que ficou muito alegre. Minha mãe lhe disse: — Procure lembrar-se disto, porque Eliseu desconfia de mistificação. Gisa estava, todavia, muito perturbada. Sua faculdade era outra, não lhe permitindo boa estada
Livro_MEDIUM_V6.indd 98Livro_MEDIUM_V6.indd 98 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes em tais condições. E terminada a sessão, partimos. Quando dei acordo de mim, o crepúsculo estava em meio. A tarde findava e tudo era poesia no sertão. Havia pios na mata e saudades na alma da gente. Olhando para trás da jaqueira, vi a um colono, Terêncio, e lhe perguntei: — Que faz aí, rapaz? — Vigiava... — disse ele, aproximando-se. — Eu entendo dessas coisas... O senhor esteve trabalhando no espaço?... Ouvi muitas coisas do que disse... Quando o espírito vaga, em certos casos, os atos e palavras repercutem no corpo que ficou na Terra... — Isso me alegra, Terêncio. E fico-lhe grato. — Eu é que sou agradecido, senhor Cabral. Aqui, nestes sertões, não se tem onde assistir sessões... — volveu ele, em tom súplice. — Minha casa lhe está ao dispor. Você é médium de que faculdade? — Era falante, mas, faz tanto tempo que não trabalho... A gente faz coisas e depois sofre... — Você é novo na fazenda, e não tenho gosto por saber da vida alheia, nem em se tratando de
Livro_MEDIUM_V6.indd 99Livro_MEDIUM_V6.indd 99 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro quem vive ao meu lado. Mas, como você entende dessas coisas, se me quiser dizer alguma coisa de sua vida, hei de ouvi-lo com atenção e respeito. Depois de o rapaz dizer o que quis e pôde, compreendi que era uma alma romântica, amiga de novos amores, novos horizontes e outros serviços. Ele mesmo disse, de males que daí lhe advieram, fincando ideia no provérbio que diz, não criar musgo a pedra que rola e nem cerne a árvore que não dura. — Bem, — disse-lhe, — se você quiser durar aqui, posso fazer algo por si. Tudo está na sua vontade, sobre o cerne da árvore ou o musgo da pedra... Ele prometeu ficar, com o que me alegrei, convidando-o à merenda. Merendamos e proseamos por bom tempo. Partido ele, fomos deitar, que tarda ia a noite. No dia seguinte, cedinho, pus-me de pé. Só pensava em falar com Catarina. Todos os porquês da vida, agora, cifravam-se em Catarina. Ela era o denominador comum de todas as equações do momento. Que fazer se não procurá-la? Pelas sete e meia, portanto, montei e parti. A alma ressumbrava esperanças e o dia parecia feito de ouro e esmeralda. Tudo estava mais vivo,
Livro_MEDIUM_V6.indd 100Livro_MEDIUM_V6.indd 100 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes os pássaros, as borboletas, a brisa; havia cânticos em tudo, ornitura em todas as coisas. E por isso, não notei sequer a distância. Sonhava o bom sonho e, como de tradição, fugaz ia o tempo ao encalço da feliz colimação. Quando apeei do animal, a três metros da casa de Viçosa, tinha a alma em sobressaltos. O coração pulsava a mais não poder, minha mente transitava por cumes emocionais indomáveis. Pensei bem, concentrei a mente no realismo da vida e suas atinentes questões; mas, tudo prosseguiu saltitando dentro de mim, como se fora um mocinho inexperiente, de dezessete ou dezoito anos. Que fazer? A razão baqueava em face dos argumentos indecifráveis do coração, assim como sempre há de ter sido, em ocasiões tais e para tais fins. — Bom dia! — exclamou dona Augusta, saindo à porta. — Bom dia, dona Augusta. — correspondi, forçando o estado de nervos. Em seguida, quase sem ter como trelar conversa, indaguei: — Onde está o senhor Viçosa? Ao que dona Augusta, um tanto surpresa, respondeu:
Livro_MEDIUM_V6.indd 101Livro_MEDIUM_V6.indd 101 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro — Viçosa?... Mas o senhor quer mesmo falar ao Viçosa?... — Sim, dona Augusta... Quero falar-lhe. É preferível. Ela meneou a cabeça, em tom de incompreensão balbuciando a seguir: — Bem, ele está na várzea... Onde vão plantar arroz. Mas volveu logo à fala, para emendar, suspicazmente: — Espere pelo almoço aqui, pois Catarina o está aprontando. Viçosa disse que viria na hora exata. Ao ouvir o nome de Catarina, devo ter mudado de cor e perdido o jeito de falar. E embora lutasse contra tal estado emocional, nada podia fazer. Creio haver ela notado isso, razão porque saiu e veio ao meu encontro, exclamando: — Senhor Cabral, entre um pouquinho!... Nem papai e nem o almoço hão de tardar. Não senti que devesse dizer outra coisa. E assenti: — Catarina, terei prazer em fazer sua vontade. E amarrei o animal no palanque. Estava decidido e, sobressaltos do coração não me atariam em nada o desiderato premeditado. Fui de en-
Livro_MEDIUM_V6.indd 102Livro_MEDIUM_V6.indd 102 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes contro ao que mais me titicava o ânimo, dizendo de chofre: — Senhora Augusta, supõe pelo que aqui venho? Pondo-se vivaz em um momento, e calculando antes de falar, respondeu: — Nós presumimos saber qualquer coisa, e esteja certo de que gostamos muito de assim ser... O senhor é que está com os tentos nas mãos... Para poupar-lhe mais falar, mais contornos empregarmos todos, venci um pouco mais do fervilhar íntimo e dubuxei: — Pois desejo dar nova mãe a meus pequerruchos, e sei ter acertado com as qualidades de caráter e bondade da esposa escolhida pelos meus sentimentos. E embora nada tenha dito à puridade a Catarina, creio não fará isso venha a ressentir-se seu pulcro espírito. Afinal, temos vivido e crescido no mesmo rincão, o que nos confere sobejas razões de conhecimentos e apreciações mútuas. O que desejo é saber o pensar do senhor Viçosa, pois o seu, como o de todas as mulheres, guia-se mais pelo sentir do que mesmo pela razão. Dona Augusta, comovida, expôs: — O senhor tem sido, em sua vida, todo brio
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