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Capítulo 5 de 14
Parte 5 de 13
Um Médium de Transportes · Osvaldo Polidoro
Livro_MEDIUM_V6.indd 69Livro_MEDIUM_V6.indd 69 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro lizes sombras, doentias em si mesmas, capazes só por si de perversões as mais hediondas! E quem destes postos de observação pode encarar a fila dos que ingressam nas paragens da morte, lamenta-se de ver ao que vê, também pode falar em nome da Lei que rege de fato, a respeito dessa coisa. Quem testemunha em favor do que afirmamos é o fato que a própria fila de caravaneiros expõe — os mais credenciados, quase sempre ficam ao rés do chão ou descem qualquer coisa! Títulos nobiliárquicos, engodos igrejísticos, notabilidades do mundo temporal; privilégios premeditados, coroas do mundo a custo conseguidas, veleidades e outorgas de todo jaez, ficam para trás. Surge apenas o ser, como melhor ou pior que tenha sido, fosse lá profitente da função que fosse, em qualquer ramo de atividade humana. A Justiça Divina só quer saber se o indivíduo foi, como irmão de seus irmãos, bom ou mau, amigo do progresso das almas ou inimigo de suas mais prementes necessidades. A cor das auréolas do mundo, o material de que as fizeram, isso de nada serve; o que determina valor é a aplicação, o produto extraído, a alma da questão. Demais, o soberano de hoje se converterá no escravo de amanhã, o pontífice será
Livro_MEDIUM_V6.indd 70Livro_MEDIUM_V6.indd 70 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes feito, em edição nova, o pedinte de esmolas ou o chaguento das esquinas, etc. Há no fundo de todo o ser, por natureza, uma fonte que não dá má água — é a capacidade de bondade! Quem a explora não sofre confusão. De resto, os demais ofícios podem ser exercitados até por tarados... O mundo já estava juncado de bons saberes até a vinda de Jesus Cristo; depois de Sua passagem, mais se encheu de lídimos conhecimentos e conquistas científicas; mas, em serviços de amor, quem deu melhor testemunho? A Terra está cheia de carniceiros que se galardoam de libertadores, ou que assim são galardoados pelos infelizes que, sendo cegos, por cegos se deixam conduzir. Mas os quadros do cristianismo estão quase vagos!... Embora corra no mundo muito dinheiro, muita pompa, falazes promessas, e trunfos e dignidades enxameiam o retábulo das gentes, os arrancos do coração não são vistos, e menos ainda da parte daqueles que se presumem senhores da VERDADE! Não é que a hipocrisia ande à solta; é que vive em excesso festejada! E quem contribui para as sortidas máximas dessa megera? A falta de Revelação, a pobreza de intercâmbio com os planos dos que já pu-
Livro_MEDIUM_V6.indd 71Livro_MEDIUM_V6.indd 71 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro deram beber a linfa pura. Todos os que fogem ao contacto do plano astral, pouco mais, pouco menos, enveredam pelas sendas do farandulismo comprometedor, vindo a ser presa de maus hábitos de culto. E, assim, os erros de credo se fazem doenças da maioria, endemias tristes, quase impossíveis de debelar. E a prova temo-la, naqueles que, regularmente esclarecidos, ainda carecem de dobrar em face dos reclamos inferiores. Há, e bastante, nos meandros espíritas, criaturas que cedem aos proclamos de entidades medíocres, habitantes de zonas obumbrosas, que pedem batismos, crismas, casamentos, etc. Tudo isso é sinal de inferioridade, é prova de involução, significa agrilhoamento e perda de tempo. O sinal de superioridade espiritual está aqui — consciência do dever para com o próximo, para que o dever para com Deus, seja espontâneo. E esta conduta não carece de besuntamentos pseudorreligiosos. Vale por si. Feliz daquele, portanto, que por saber e sentir Deus em si e em tudo, procura obrar decentemente. Esse é o mandamento que jamais passará! Consulte-se sempre ao que é mais sábio e amorável, e o resultado será cem por cento favorável, em face da morte.
Livro_MEDIUM_V6.indd 72Livro_MEDIUM_V6.indd 72 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes CORRIAM OS DIAS Sim, os dias corriam e tudo era um desabrochar contínuo de fases novas, de acontecimentos que se revezavam, mas trazendo tudo o cunho indelével de melhoras em geral. Saber que a vida é uma função de responsabilidade, ter em presença a convicção de que tudo o que é bom temos em nós mesmos, não é pouca razão para se teimar em roteiro seguro. Principalmente, em se sabendo que bens há de imediata manifestação, enquanto que outros de floração tardia. Aquele que de imediato quiser colher o produto de todas as suas obras, com facilidade, se atraiçoa. Há semeaduras para já e para mais tarde no rol da vida, sendo de prudente medida não agir com precipitação. Quem tudo faz pelo imediato resultado, por certo que faz tudo tosco e brutalmente material. Convém semear aquilo que demore em ser colhido, que só possa ser feito em dias do post-mortem. Egoísmos, vaidades, orgulhos, tais são os motivos da pressurosidade. Exigir troco imediato das ações é obra de plumitivo, senão de caráter animalizado. Já disse alguém destas moradas do universo, que bens há impossíveis de serem ofertos pelo cadinho da vida carnal. O plano é por demais denso, não facilitando oportunidade de manifestação
Livro_MEDIUM_V6.indd 73Livro_MEDIUM_V6.indd 73 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro a tons gloriosos de ser e estar. E se a criatura os não tiver preparado? Como fará para vir a gozá-los? Fará isto — volverá à carne e, em nova ou novas experiências, creditar-se-á à eleição! Porquanto, nunca se soube de quem estivesse em gozo de bens sublimados, à custa de méritos alheios, das virtudes de terceiros. Há, pois, ações que devem ser praticadas e outras deixadas em mora. Nos tabernáculos do Senhor, nada fica em esquecimento; mas, certas conquistas não cabem numa vida ou em planos de alta densidade física ou ambiental. Quando o ser imortal transpuser as barreiras do mundo corpóreo, invadir cheio de méritos os prados vibrantes e multicores da erraticidade, então compreenderá o valor de semear em campos férteis, deixando o resultado à mercê de outra Justiça. Colhia eu, amiúde, os proventos de bem pensar. Tinha a facilidade de investir pelos mananciais transcendentes e aí deparar com as coisas belas do Senhor. Aquela jaqueira ficou sendo muito visitada. Sempre que carecia de uma aproximação, por sentir a alma vazia, ela me ofertava duas espécies de sombra. Ela me conferia azo a deslocamentos que valiam por prodígios do Céu! Uma tardinha, sob ela acomodado, sentindo em torno a cabeça pruridos
Livro_MEDIUM_V6.indd 74Livro_MEDIUM_V6.indd 74 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes suavíssimos, dei-me a querer ver o que havia. Mas nada vi. Ouvi, todavia, uma voz a dizer: — Faça que Sinhá Marta lhe diga o que anda a matutar. Será bom para si e para os seus. Aquela voz não era de espírito conhecido. Mas era doce, acariciante. E Sinhá Marta vivia mesmo a matutar coisas de mim não conhecidas. Fazia que falava, dava umas voltas, sorria ocultamente, tentava; mas, tudo ficava nos ensaios. Que teria em mente a santa velhinha? Como nada mais ouvisse, fiquei à vontade. E já tinha mais em que pensar. À hora do jantar, arrisquei: — Sabe o que me disse hoje um irmão, quando descansava debaixo da jaqueira? Ela, olhando-me com firmeza, pôs-se cismática. — Sim, disse-me que tem uma coisa para me dizer. — Uma coisa para lhe dizer?!... — repetiu, admirada. — E boa para todos os meus... Assim me foi dito, assim lhe digo. Ela sorriu, pondo à mostra uma alegria há bom tempo desaparecida. — Diga-me o que é, Sinhá. Fale-me, que sinto
Livro_MEDIUM_V6.indd 75Livro_MEDIUM_V6.indd 75 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro uma cócega na alma curiosa. — Hoje não... Amanhã... — monologou. E não adiantou rogar. Era assim Sinhá Marta, a santa mulher que tanto por nós fizera. Ela fora uma semeadora do porvir. Semeara e deixara em mora. Mais tarde, não lhe disseram apenas, e em prosa, de ter feito o bem no mundo — deram-lhe galardões imortais! Como iria receber mais no mundo, uma criada de servir, quase escrava, sem letras, sem mais poder dar que serviços caseiros? Tinha o que nós tínhamos, comendo e bebendo, vestindo e calçando como bem quisesse, segundo como sua modéstia determinasse. Que mais lhe poderia dar? Mas, pouco depois de safar-se à carne, nos celeiros do Céu encontrou o que na Terra não poderia ter encontrado. Há bens que a Terra não pode conferir, nem querendo. Ao tomar café na manhã seguinte, voltei ao assunto: — Sinhá, hoje é o amanhã de ontem... Ela fez um gesto de reprovação e estipulou: — Até a meia-noite é hoje... Mas lhe falarei depois do almoço. Tenho de falar de novo com certa pessoa, antes de lhe poder dizer coisa. Tenha paciência, que tudo sairá bem... Se Deus quiser. E como se fechasse em copas de silêncio, de-
Livro_MEDIUM_V6.indd 76Livro_MEDIUM_V6.indd 76 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes bandei rumo à nova propriedade, onde o senhor Viçosa estava agindo como gerente. Em chegando ao domicílio deste senhor, dona Augusta estava sentada a uma mesa e procurava contacto com um guia, por via de alguém, doente, a quem pretendia servir. Deram-me entrada, havendo-me postado ao lado de Catarina, que era no momento a presidenta do trabalho. — Fique o senhor o presidente, que tem mais prática — arguiu Catarina, em tom definitivo. — Ora, você sabe melhor como estas coisas são comumente feitas — redargui, convicto. O espírito comunicante disse: — Esta questão de ser presidente, em verdade, é um caso muito sério. Podemos dizer que o Espiritismo conta com elevadas instruções, miríades de bons médiuns, muita gente dedicada em extremo à causa; mas, no setor dos presidentes de trabalhos, conta ele com o que se pode chamar de pobreza! Convenho em que, de fato, os maus presidentes, ignorantes e pusilânimes, são os corruptores de muitos bons médiuns. Não acho, pois, um ato de etiqueta a atitude de qualquer de vocês. Creio os mova a mais preciosa vontade de servir da melhor forma, embora inconscientes de uma realidade que muito nos faz pensar e até mesmo penar.
Livro_MEDIUM_V6.indd 77Livro_MEDIUM_V6.indd 77 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro Em seguida, sem perda de tempo, tratou do caso que motivava a reunião, ordenando pressa no desempenho. Volvendo a mim, indagou: — Quer dar passagem a um irmão que o segue, e que necessita de si? — Que Deus seja atendido! Ser útil é que é ser religioso. — Então, deixe-o chegar-se. Entreguei-me ao primeiro lance fluídico que senti, e notei que minha mãe me puxava pela mão, convidando a sair do corpo. Quando estava à vontade, fora da carne, vi ao tal que devia ser doutrinado, e que era um vaqueiro, segundo os trajes. Falava a esmo, estava como se fosse um avariado mental. Quando olhei para Catarina, estava ela sob o influxo de uma senhora de cabelos alvíssimos, das mãos de quem fluíam tênues jatos luminosos, sendo que cada extremo de dedo emitia raio diferente em coloração. Catarina chegava a oscilar um pouco, premida por aquela tangência astral. E o vaqueiro foi orientado do melhor modo, sendo que, para certificar-se melhor da transição de estado, levaram-no a ver os lugares onde havia vivido, e onde desencarnara, em rápida sorti-
Livro_MEDIUM_V6.indd 78Livro_MEDIUM_V6.indd 78 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes da. Ao tornar ao médium, estava cem por cento convicto de sua desencarnação. E acho mesmo que essa é a melhor forma de doutrinar, além de evitar mistificações grosseiras. Depois de o presidente falar, cientificando-o de já ser desencarnado, de estar numa mesa espírita, de falar por um corpo de médium, e de tudo isso dar-se pela Vontade de Deus, para que venha a melhorar em geral, a melhor coisa é entregá-lo por um pouco aos guias e trabalhadores do espaço. Porque estes, sendo favorecidos por um ambiente psíquico de escol, podem fazer muito em pouco tempo e com pouco esforço. Temos visto o que tem acontecido a certos empreiteiros em mistificações, com esta medida doutrinária. Trava-se uma luta desproporcionada, onde o elemento guia destroça cabalmente ao infeliz que, vivendo para mentir, se acredita triunfador. Depois de avisar ao doutrinando, pois, daquilo que deve de início ser intelectualmente informado, o melhor é mandá-lo sair com o guia do médium. Todavia, o pior mistificador não é o que se finge de sofredor, pois, acima de tudo estes formam um número quase inexistente; o pior elemento desta espécie é o que se apresenta com nome pomposo, dizendo-se santo, etc. Em geral, escolhem de preferência os ambientes presumidos, engalanados, onde criaturas encarnadas deixam de parte a supre-
Livro_MEDIUM_V6.indd 79Livro_MEDIUM_V6.indd 79 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro ma obrigação — simplicidade. O mundo espiritual é muito mais complexo, em apresentação de caracteres, do que pensam os encarnados. Dado que a crosta é circundada de zonas e mais zonas astrais, como já foi dito, em forma de faixas concêntricas e superpostas, e sendo que para o exterior crescem em expressão psíquica, o quanto em sentido inverso decrescem, e levando-se em conta que o elemento inferior encontra mais facilidade de acesso, em virtude das insuficiências humanas, chega-se com precisão a esta conclusão — o próprio meio humano dá azo aos menos evolvidos, para mais se imiscuírem em tudo. Pensassem os espíritas em geral, em melhoras contínuas intelecto-morais, e a coisa mudaria, forçada pela imposição do próprio meio. De resto, temos visto muito disto — espíritos brilhantes se apresentarem com um nome vulgar, e elementos abaixo de vulgares, se apresentarem como se fossem mais do que brilhantes. Dizerem-se de muita luz, de muitos merecimentos. E o pior em tudo isso, é que vão sendo aceitos, simplesmente porque dirigentes de trabalhos práticos não são capazes de saber que, em um espírito decente, não faz morada resquício de cabotinismo. A um espírito de escol basta trabalho de escol.
Livro_MEDIUM_V6.indd 80Livro_MEDIUM_V6.indd 80 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes Terminada pois a sessãozinha, fiquei aguardando a chegada do senhor Viçosa, que devia vir ao almoço. Enquanto isso, como já havia notado o quanto Catarina era dócil e inteligente, na sua condição de moça pobre e simples, dei-me a pensar de novo em pedi-la para esposa. Todo caso, dadas as circunstâncias, era preciso ter alguma certeza sobre sua espontânea vontade. Bem poderia vir a aceitar por força de injunções circunstanciais, o que seria extremamente desagradável. Eu a queria, minha alma rondava seus encantos. Mas tê-la de favor seria muito pouco, seria até penoso. E nada lhe disse, e nem à sua genitora, o que era então de proceder. Achei de bom alvitre esperar mais, e fiz por isso. Quando o senhor Viçosa chegou, falamos de nossos negócios, que então era a introdução da cultura de arroz, no rol do que já se fazia. A nova fazenda compreendia grande parte de terras baixas, um belo vale, que fazia cabeceira àquela de que fizemos menção, parte inferior, onde havia um riacho que desaguava no grande e acidentado rio. Agora, pois, contava com imensas terras próprias para a cultura do arroz. — Podemos contar, — informou-me ele, — com três famílias iniciais. Depois, como me prometeram, convidarão outras e outras mais.
Livro_MEDIUM_V6.indd 81Livro_MEDIUM_V6.indd 81 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro Deu uma tragada no seu cigarro e emendou: — E é gente do mister. Trabalham nisso desde que se conhecem no mundo. A conversa girou depois sobre tudo o mais, atravessando o almoço, no qual fui chamado a intervir. No final, dona Augusta abordou assunto que dizia aos meus ideais, mas, naturalmente, de leve. — Como vão os seus filhinhos? — Bem, dona Augusta... Bem, mas sem mãe. A sorte é que temos Sinhá Marta em casa. Em tom grave, aparteou ela: — Mas Sinhá Marta está no fim da jornada... O espírito é forte, mas a carne cede... — Dei-lhe duas moças, filhas de colonos, como ajudantes. Não quero que a velha se esgote. Já fez demais. Olhou-me de soslaio e aventurou: — O senhor mal saiu dos trinta... Devia tentar de novo... Seus filhos carecem de outros cuidados, sem ser comida, roupa limpa, educação escolar... Aquilo que cumpre ao sentimento materno contribuir, nada pode em substituição fazer. Confesso que perturbei-me, quando ao encarar a face pálida de Catarina, vi-a ruborizar-se e baixar a
Livro_MEDIUM_V6.indd 82Livro_MEDIUM_V6.indd 82 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes cabeça. Deixei, pois, a articulação de dona Augusta sem resposta. Como o senhor Viçosa notasse o meu embaraço, interveio: — Isso é coisa de quem quer casar-se... Vamos sair um pouco, senhor Cabral? Mais que depressa, aceitei: — Vamos... Vamos, que tenho de ir... E saímos para o terreiro, de onde montei o cavalo e parti, não sem antes buscar, de esguelha, pousar mais uma vez os olhos em Catarina. Disto tinha íntima certeza — de que, tendo de ser, Catarina seria minha futura esposa. E querendo ou não, tudo me dizia que a coisa vinha sendo cogitada por outros. Quem sabe lá o que haveria naquele segredo de Sinhá Marta? Não poderia ser essa mesma a questão em xeque? Afinal, meditava, Sinhá Marta nunca fora de meias medidas; como vinha agora de se fazer esquiva? Só mesmo em casos tais é que daria para ser assim. E concordava, porque as razões circunstanciais o exigiam. Eu era senhor das terras e dos negócios... A conceituação do tempo me favorecia com elementos de argumentação irrefutável, pois poderia querer e não voltar atrás, coisa que, por princípios, nunca o faria. De qualquer modo, havia que atender a certos reclamos éticos. E minha alma pedia, rogava, fosse isso o porquê daquele aviso astral.
Livro_MEDIUM_V6.indd 83Livro_MEDIUM_V6.indd 83 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro
Livro_MEDIUM_V6.indd 84Livro_MEDIUM_V6.indd 84 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes SIMPLESMENTE UM NOVO CASAMENTO Pelas duas da tarde dei entrada em casa, dando de encontro com Sinhá Marta, que me olhava com ares de ralho. — Não vim almoçar porque almocei fora, Sinhá. — Eu precisava sair, sem falta!... — queixou- -se ela. — Bem... Almocei na casa de Viçosa... — emendei, propositalmente. — Ora, bem!... Então, de que falaram?— quis muito saber ela. De indústria, abordei a questão em cheio: — Até de um casório... Calcule, que até falamos em casórios... Sinhá Marta avivou-se, encheu-se de vida, fez mais perguntas. E tive certeza da coisa em si. Por isso mesmo, falei com mais liberdade: — Se for da vontade de Deus, penso pedir Catarina para esposa... Que acha a senhora, que é a única pessoa a quem posso falar como quem fala à sua própria mãe? Ela não pode falar, porque teve antes de enfrentar intensa emoção. Assim, porém, passado
Livro_MEDIUM_V6.indd 85Livro_MEDIUM_V6.indd 85 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro o tufão emocional, considerou: — Sinhô, esta criada está beirando o túmulo... E me lembro de sua mãe, que antes de morrer queria, rezava, para que o filho ficasse entregue aos cuidados de uma mulher. Porque, como deve saber, mais tarde ou mais cedo, uma esposa que se preze torna-se uma segunda mãe do seu marido. Pode ser que nós, as mulheres, estejamos enganadas; mas, pensamos que os homens nunca deixam de ser meninos e capazes de travessuras... Por isso, precisam de uma mãe... E quando a mãe de verdade morre, só mesmo arranjando uma boa esposa... Enxugou um resto de lágrimas e completou o seu lindo pensamento: — Eu, como o Sinhô sabe, quero fazer tudo; mas o corpo não presta mais.... Já vi até Sinhá Áurea, sua mãe, que me disse assim mesmo: — Marta, meu bem, diga a meu filho que se case outra vez... Você está quase a deixar o mundo e eu não quero ver a meus netos em abandono. — E Sinhô, sabe que as avós são duas vezes mãe... Ela não quer vê-lo mal e menos ainda a seus filhinhos. Foi por isso que eu lhe disse aquilo, sabe? Catarina é moça de brio, é bonita e é inteligente!... Hum!... Se o Sinhô se casar com essa moça, vai ver como será feliz!...
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