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Capítulo 11 de 14
Parte 11 de 13
Um Médium de Transportes · Osvaldo Polidoro
Livro_MEDIUM_V6.indd 166Livro_MEDIUM_V6.indd 166 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes momento. Para a mãe, aguardente e palavras de animação. Mas, quem lhe estancaria o pranto tão justo e tão brutalmente provocado? Havia perdido tudo, exceto a própria vida e a do filho. Quando tudo mais ou menos em ordem, partimos alguns homens para avisar as autoridades. Ao chegarmos à Vila, vimos então a quanto montava a tromba d’água em seu infernal desempenho. Choros, gritos lancinantes, mortes, misérias, tristezas de todo jaez! Vinham uns, vinham outros, cada qual relatando desgraças, cada um pedindo socorros! O ânimo de todos se fizera um só lamento. Quando me acheguei ao Delegado, nada lhe quis dizer, porque ele estava trespassado de tristezas e avassalado de trabalhos. Foi ele que disse: — O senhor, que tem posses e tem sido um bom homem, ajude a nós todos, como quiser e puder... Afinal está acontecido e, em primeiro lugar estão os vivos, os feridos, as viúvas e as crianças órfãs, etc. — Estou ao seu dispor, bem assim como tudo o que é meu e lhe possa ser útil, meu bom amigo... Ele não me deixou terminar: — Contra gente assim só mesmo os tufões e trombas de água é que podem... Eu conto consi-
Livro_MEDIUM_V6.indd 167Livro_MEDIUM_V6.indd 167 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro go, com os seus ranchos, com quantos homens me possa emprestar, por alguns dias. Muito obrigado. Vamos ter muito o que fazer... E a faina reparadora teve início, durando dias e dias, quer procurando cadáveres, quer reconstruindo barracões e casas, quer tratando de gente enferma e gente ferida. Quando uns trinta e tantos dias se haviam passado, daquela tragédia brutal sobre a região toda desfechada pela lei de causa e efeito, tínhamos cumprido com os nossos deveres. Ismênia, a vítima, e seu filho ficaram sendo de nossa casa. Aos poucos, os flagelados se foram indo, só restando as amizades e as saudades. Foram centenas os recolhidos, tendo alguns ficado na fazenda como trabalhadores.
Livro_MEDIUM_V6.indd 168Livro_MEDIUM_V6.indd 168 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes VEREDAS DA VIDA Com o passar dos dias, crescia a família, cresciam os lucros, aumentavam os serviços de ordem mediúnica, colhiam-se mais graças. Terêncio, o jovem andejante e bom médium receitista, de muito passou a servir, pois o seu guia era bom conhecedor de ervas e melhor amigo do “sim sim” e do “não não”. Ou receitava para curar, quando sabia disso, ou não afirmava coisa alguma, fazendo ver que de mais alto outras veredas estavam indicadas. Às vezes causava alguma mágoa com a sua franqueza, mas sempre ressalvava o princípio de moral sobre o qual deve deslisar o culto do mediunismo. Da muito usada “piedosa mentira” não era ele amigo, pois a sua maneira de ver, explicou-a um dia: — Por que encobrir uma morte, despistar um desfecho apenas mentalmente e por horas ou dias, muitas vezes à custa da reputação doutrinária, quando o dever do espírita é vencer o transitório e fazer finca-pé no eterno real? A quem não for possível falar o certo, a respeito da imortalidade que da morte decorre, também não convém prolongar as falsas esperanças. Quem governa é Deus e por leis sábias, sendo perenemente oportuno assim exemplificar, por pensamentos, palavras e atos. E fazia-se intransigente!
Livro_MEDIUM_V6.indd 169Livro_MEDIUM_V6.indd 169 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro Um dia, porque assim o quisesse Deus, e para nós foi bom e motivo de regozijo, Terêncio e Ismênia se casaram. Estava remediada uma lacuna; e o jovem andejo não pensaria mais em nos abandonar. Constituída a nova família, transitava felizmente por sobre os sulcos da vida. O marido era de gênio alegre e a esposa não gostava de tristezas, embora aquela tragédia a tivesse tisnado com um acento de vaga melancolia. O menino ia à escola, e bem evidenciava superior inteligência e amor ao estudo. Era, acima de tudo, muito amável de trato e obediente. Tínhamos, pois, feito planos para auxiliar nos estudos do rapazinho. A agronomia devia saber- -lhe bem, em virtude do meio em que se desenvolvia em corpo e alma, aspirações e inteligência. Nós, os homens, pensávamos assim. Nas escritas do Céu, porém, rezavam outros destinos. E um dia, quando tudo exteriormente eram rosas e mel, o menino acamou-se sob a pressão de uma febrezinha sem importância. Tirada uma consulta pelo próprio padrasto, anuncia o guia: — Não posso ainda afirmar ou negar... Mas creio que de cima mandam em contrário. Todo caso, estamos nós, daqui, aguardando informes seguros da parte daqueles que são de sua região
Livro_MEDIUM_V6.indd 170Livro_MEDIUM_V6.indd 170 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes de origem. Ele veio de zona astral superior à nossa, razão porque não podemos sondar à vontade o que lhe está determinado. Deveis saber, que temos por aqui muito mais respeito pela ordem do que aí... E mesmo que tentássemos saltar por sobre tais deveres, que adiantaria? Poderíamos atingir essas moradas superiores sorrateiramente? Por certo que não! E permanecemos por dois dias aguardando ordens, em cujo, ínterim, veio o médico e julgou poder debelar a febre, com o seu bom receituário. Pela manhã do terceiro dia, fizemos outra sessão, recebendo aviso de que o mocinho não ficaria no mundo — estava sendo chamado, pelo Supremo Determinismo, em virtude de haver carência de resgate por parte de outras pessoas. — Vocês, — mencionou o guia, — constituem um grupo de seres que já viveram em conjunto, num país europeu, e que, por medida de guerra, romperam diques e mataram por afogamento, além de o terem feito, também, por outros modos. Uns mandaram, outros executaram, e assim por diante. Muita gente que morreu na grande enchente, e outras tantas gentes que por aí vivem, tomaram parte nessa hecatombe guerreira. E como sabeis, ninguém jamais matará e ficará impune! Um dia, mais tarde ou mais cedo,
Livro_MEDIUM_V6.indd 171Livro_MEDIUM_V6.indd 171 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro até pelas mortes de animais inferiores e não daninhos haveis de responder!... Disso não tenhais dúvida alguma, porque a Lei nunca falha, nem se pode dizer que tarde, porque apenas dá tempo. Vinte e poucos dias depois, sob consternação geral, o adolescente fazia o caminho de Sinhá Marta. Naquela mesma noite, fazendo preces em conjunto, comunicando-se a saudosa velhinha disse: — Ele foi recebido por gente melhor do que nós, por ser melhor do que nós. É de justiça e amor que aqui se vive, para resumir uma infinita questão a termos comuns. Nós todos estivemos presente, e o cumprimentamos pela passagem feliz; mas ele foi levado para melhores rincões do Céu. Rejubile-se a mãe que assim perdeu supostamente a um filho, o mesmo devendo fazer quem como amigo pôde privar por um pouco com tão sublimada companhia. Curvando-nos aos desígnios do Senhor, aprendemos superiormente e resgatamos faltas cometidas antanho, quando pautamos os atos apenas pelo crivo do mundo! Se duro é sofrer, é porque duro foi o obrigar a isso, a milhares de concidadãos do infinito! Sejamos, pois, prudentes, quer nas horas de paz, quer nas torturantes horas. Demos exemplos de fé no Senhor.
Livro_MEDIUM_V6.indd 172Livro_MEDIUM_V6.indd 172 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes O RESGATE DE ANA Sem dúvida que o culto da Revelação é manancial de consolo! Na paz se comporta como jorros de luz; na tormenta se faz sentir como unguento divinal. Há um quê da doçura indiscernível de Jesus Cristo, no trato decente com as leis do mediunismo. Há uma luz espiritual nessas coisas, que ultrapassa os limites do próprio lampejo máximo das almas melhormente clarividentes! É que, de certo horizonte em diante, as vibrações se tornam tão diferentes do conhecido e sentido no melhor cômputo terrenal, vindo então a reclamar do homem da Terra, e de nós que ainda militamos nos lares inferiores do mundo celestial, expressões de nenhuma significação real. E há quem no mundo vive a pedir provas para tanto e tudo! E há quem pretenda discernir o Céu através das apalpações grosseiras da ectoplasmia, dirigida esta, quando muito, por seres ainda de certo modo bem devedores, e, por isso mesmo, carentes de tais sofríveis manifestações. Pobres cérebros temporais! Aprendei a sublime lição do Divino Enviado, afirmando que há mais bem-aventurança em crer sem ver... Pelo menos, atendei para esta afirmativa — que uns não podem compreender nem apalpando, nem medindo, nem triturando, enquanto outros, melhor postados na escala hierárquica, podendo
Livro_MEDIUM_V6.indd 173Livro_MEDIUM_V6.indd 173 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro ver, sentir e entender de outorga superior, vos dispensam os reclamos presumidamente científicos! Por que, haveis de querer medir aos outros por vós, se não podeis provar a vossa melhora sobre quem quer? Por que, quereis limitar ao vosso o dever funcional de trabalhadores vindos de mais alto? Contentai-vos com o vosso dever, e deixai àqueloutros, os deveres que por turno lhes competir. Não coloqueis pedras de tropeço na vida de servos fiéis, cuja função é alargar os horizontes do saber humano, setor onde obreiros menos taludos nada poderiam conseguir. Mas será do mundo, por muito ainda, o errar até por feliz intenção. Houve um tempo, em minha vida carnal, que sair da carne e trilhar sendas erráticas era como exercitar o ato de jantar ou tomar café. Vinha um agente de plano superior ao terráqueo e dizia: — Vem comigo. E assim como, na hora cíclica, a crisálida deixa o invólucro, assim deixava eu o corpo, para topar feliz os patamares da erraticidade. — Vem e vê! — gritou ao meu ouvido um dia, minha mãe. Seriam sete da noite e, como um sono tremendo me assolasse por inteiro, eis que larguei o cor-
Livro_MEDIUM_V6.indd 174Livro_MEDIUM_V6.indd 174 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes po no leito e me fui como abençoado zéfiro. — Missão feliz nos está afeta! — disse-me ela, numa parada momentânea. — Mas este lugar é feio... — balbuciei, sentindo a opressão do meio ambiente. — E querias salvar aos já salvos?!... — observou ela, de pronto. — É exato... Mais feio se foi tornando o plano, à medida que mais nos fomos por seus terrenos bifurcando. Quando já havia penumbra em sobras, anunciou minha mãe: — Dezesseis anos faz que aguardo esta oportunidade; e conto por graças do Céu tê-lo em companhia. Os caminhos se foram tornando cada vez mais pedregosos, e torturantes, assim como mais rude o ambiente em geral. A insatisfação de alma me fazia perder o sentido das palavras que ela proferia, motivo esse que me fez interrompê-la, para o fim de focalizar sítio onde milhares de seres se achavam lavrando a terra, removendo óbices, de modos os mais rústicos e sacrificados. — Que quer? — respondeu ela — São imensamente devedores... Como poderiam alcançar a paz, o bem-estar, as esferas de amor, a perma-
Livro_MEDIUM_V6.indd 175Livro_MEDIUM_V6.indd 175 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro nência na autoridade, partindo do crime? E estão nesta região dolorosa, mas onde há organização social e política estabelecida à base de respeitos mútuos, por se haverem capacitado das faltas morais levadas a cabo e arrependido das mesmas. Menos esta consciência de falta e aceitação penitente, e, estariam em lugares imensamente piores. Aqui, como pode ver, há esforços para a ordem e obrigações de trabalho, o que torna menos opressor o tugúrio ambiental. Não estariam piormente, num lugar de mais trevas e despóticos mandalhões? E se lhes bastasse a aversão à consciência do delito, para estarem a braços com lamas pútricas e cruéis títeres? Não seria muitíssimo pior? — Que crimes hão de ter cometido? Entrementes parávamos um pouco a observar o trabalho em condições dificílimas daqueles infelizes irmãos, minha mãe esclareceu: — Tanto faz seja num ou noutro sentido lavrado o crime, desde que alcance intensidade bastante para merecer purgação assim. É a intensidade faz variar o ambiente, pois em princípio o crime é um só. Quando disse Jesus que aquele que infringe uma parte da Lei infringe toda a Lei, o que fez por evidenciar foi isso — que há um todo a se fracionar ao infinito, em todos os sentidos e para todos os efeitos. As-
Livro_MEDIUM_V6.indd 176Livro_MEDIUM_V6.indd 176 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes sim, portanto, a tonalidade da falta determina o correspondente em purgação. No fundo, errar é sempre errar, e a Justiça Divina não seria menos justa que a dos homens, deixando de considerar artigos e parágrafos. Dando uns passos sobre o chão pedregoso e árido, apontou com um gesto de cabeça para determinado setor, onde algumas mulheres amontoavam pedras, para limpar o terreno e aproveitá-lo nalgum fim útil, acrescentando: — Observe aquilo... Quais escravas jungidas ao peso de martirizantes sujeições, um punhado de mulheres lavava roupas num rio, mas um rio de águas avermelhadas!! Havia montes de roupa por lavar; e elas trabalhavam como se fossem tangidas por medo horrível. Não havia ali quem mandasse ou policiasse o seu trabalho. Mas elas se mostravam possuídas de um frenesi opressivo, torturante, assim como se fossem temerosas de perigo iminente. Eram precipitadas e assustadiças, as pobres! Como aquilo era triste de encarar, fiz ver a minha mãe o que sentia: — Justiça é Justiça... Mas as mulheres causam mais pena... Não acha? Pôs-se minha mãe à minha frente, olhou-me
Livro_MEDIUM_V6.indd 177Livro_MEDIUM_V6.indd 177 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro bem nos olhos e respondeu: — Nem há homens e nem há mulheres nos fundamentos, mas sim espíritos e faculdades, liberdades e obrigações, atos e consequências. Então, rapaz, pode ser que uma mulher mate, ou cometa suicídio, ou pratique qualquer outro delito e que, por ser mulher, seja menos responsável? Aí estão suicidas, assassinas e mães que deram cabo de seus mesmos filhos! Qual a distinção que seria de justiça? Convém não deixar que sentimentalismos nos invadam, alienando de nós a consciência de ser a Suprema Justiça sem mácula. Pois não é certo que para cada ser vivente distribuiu Deus, por natureza, qualidades próprias ou elementos de valor ingênito, para que a ninguém falte o com que vencer? E menos a infelicidade por alienação mental, o que constitui por si atenuante natural, que o ser humano deixa de ser herdeiro de observações da consciência? — De toda e qualquer forma ou ângulo porque se queira focalizar o assunto, a questão é que somos falíveis, sujeitos a falha. Eu queria saber, de que outro modo poderia ser o plano de evolução idealizado, para que a tais injunções não tivesse que ficar sujeito o ser humano. — Eu não sei se isso tem cabimento pensar- -se, meu filho. O que sabemos é que somos se-
Livro_MEDIUM_V6.indd 178Livro_MEDIUM_V6.indd 178 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes mideuses, que temos em nós as virtudes por despertar, os meios para realizar, a liberdade para o bem e o mal, os ensinos revelados, os exemplos de mestres enviados, e, naturalmente, a responsabilidade do que se faz. O que diz seria modificar a fundo o processo de individualização e evolução, e isso caberia a Deus, mais ninguém, determinar e fazer proceder, por intermédio dos seus Cristos. Eu nada lhe posso responder a respeito, sem ser que posso dizer com inteireza de razão, que os erros são feitos ou cometidos à custa de virtudes mal usadas, de atributos mal empregados. As gentes vivem a pedir que Deus se faça Justo, Bom, Piedoso, Misericordioso, esquecendo-se de que tudo isso já é em Deus. — Gastamos tempo em pedir o que por natureza já é nosso, mas não empregamos tempo em saber e confiar, em despertar e viver, em trabalhar e servir. Um Deus que venha a se fazer Bom ou Justo, por pedidos e particularidades, isso nunca haverá, podemos garantí-lo. Cada qual que estude o que puder em si mesmo, em natureza e qualidades inatas, em possibilidades e obrigações, que é por aí que começa Deus a agir a bem da Sua Criatura. — O velho problema fica sempre de pé, mamãe.
Livro_MEDIUM_V6.indd 179Livro_MEDIUM_V6.indd 179 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro — Bem, se o espírito começa inconsciente e, evoluindo aos poucos erra e acerta, conquista louros ou trevas, goza a uns e purga a outros, ganhando com isso o acúmulo de experiências que o tornam autoridade e glória; e se Deus, desde o princípio quis assim e assim fez, que lhe posso dizer eu? Bem gostaria de lhe poder dizer coisa melhor... Mas você sabe que fui uma simples mãe de família, sem outra instrução que a rudimentar. — Está muito bem, mamãe. A senhora é maravilhosa em bondade. Deus lhe dará sempre oportunidades felizes, porque procura sempre ser fautora da felicidade alheia, sem jamais esquecer que em Deus tudo é completo por si mesmo. Compreendo que para sermos votados a semideuses, contando com virtudes inatas e liberdade de emprego, temos também de ser responsáveis. Vindo a gozar pelos feitos está certo, vindo a sofrer por eles, certo está. Sempre achei que pretender necessite Deus de nossos avisos, para fazer-se Bom ou Justo, constitui crime, e crime de lesa fé! O justo é confiar e lutar sempre pelo melhor possível, que para isso temos natureza e faculdades. Nesse ínterim, olhando mais detidamente para aquele conjunto de desesperadas duendes das regiões não só umbrosas, mas também relativamente organizadas, pareceu-me ver Ana. Senti,
Livro_MEDIUM_V6.indd 180Livro_MEDIUM_V6.indd 180 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes então, um tremor horrível varrer-me dos pés à cabeça, várias vezes em apenas segundos! Minha mãe, que percebera isso claramente, em tom profundamente funcional me disse: — Ou somos soldados do Senhor, ou nada! Não é para efeito de retórica que devemos saber pouco ou muito sobre a Divina Lei! Caí, pois, numa confusão horrível, não sabendo o que dizer e nem querer. Como fosse perdendo o controle, e descobrindo isso, ela advertiu-me: — Se quer ficar e auxiliar, levante-se em ânimo, pensando no Senhor e dizendo com firmeza: “Senhor, cumpra-se a Lei. Quero ser acima de contingências inferiores, quero ser um fiel servidor da Justiça Imaculada”. — Auxilie-me, por favor!... Auxilie-me!... Quero vencer!... Pôs-me ela a mão sobre a cabeça, à custa do que fui melhorando aos poucos. Ao estar regularmente refeito, avisou-me: — Não se esqueça da velha fábula, cujo herói fracassou e recitaram-lhe sobre os escombros: “Na hora do perigo é que se reconhece o herói”. — Está bem... Procurarei ser forte... — Agora vamos ao diretor do Instituto.
Livro_MEDIUM_V6.indd 181Livro_MEDIUM_V6.indd 181 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro E caminhamos uns quinhentos metros mais, depois do que vimos umas entradas por entre rochas escarpadas, umas furnas, que mais não eram. — Essa gente mora em lapas?!... — indaguei, surpresíssimo. Olhou-me ela com igual tom de surpresa, para advertir: — E são as piores habitações?!... — Pobre Ana!... — Pobres vítimas do erro, pois com isso se fizeram algozes de seus semelhantes... É de bom alvitre, se quer de fato servir à Causa da Lei, safar-se do plano particular e incrustar-se no universal. O detalhe agora não deve prevalecer de modo algum, pois, em face das leis básicas, todos somos como um só, sendo um só, portanto, igual a todos. Deixa Ana e encara o ser universal que carece de amparo legal. Demais, Ana não é melhor que todos os mais que sofrem ou gozam, no infinito. Nós, os mensageiros do Senhor, não queremos saber de particularidades quaisquer; queremos servir com Amor e Justiça. — Então, por que veio ao encontro de Ana? Não poderia vir outro mensageiro?
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