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Capítulo 2 de 14
Parte 2 de 13
Um Médium de Transportes · Osvaldo Polidoro
Livro_MEDIUM_V6.indd 19Livro_MEDIUM_V6.indd 19 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro loso rio de minhas penas transbordava por sobre as dunas de minhas impressões recalcadas, o mundo inteiro vivia a sua vida, o seu destino. Os programas não se confundiam, cada um valia por si. Certo dia, penetrando cabisbaixo casa adentro, sob o olhar triste de dois orfãozinhos que de mim deviam desejar mais, tive pela frente a figura veneranda de Sinhá Marta, mestiça de índio e português, cuja idade bordejava os oitenta. — Sinhô, vê bem o que faz... Essas crianças não podem ser vítimas assim de sua fraqueza... Permaneceu queda por alguns instantes, temendo qualquer reação de minha parte, mas, prosseguindo, a seguir num assomo de coragem: — Desculpe-me, mas já é tempo de levantar a cabeça... Esse menino e essa pequerrucha, como vê, não podem continuar assim... Sinhá Marta tinha razão, farto estava eu de sabê-lo. Mas a vida, aquela vida foi transcorrendo, por dias e mais dias. Aquela velhinha boa era o esteio da casa, a segurança de tudo e todos. Vinha de servir a meus falecidos pais e ali estava, firme na sua envergadura de nobreza, sobranceira por sobre os anos e a alvura de seus cabelos. Cedia, pouco, muito pouco, ao guante do tempo; mas
Livro_MEDIUM_V6.indd 20Livro_MEDIUM_V6.indd 20 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes não tinha ao que apelar, como nenhum mortal tem, encarquilhando-se cada vez mais, curvando sobre si mesma o peso do corpo, a quem tanto de obrigações atribuía.
Livro_MEDIUM_V6.indd 21Livro_MEDIUM_V6.indd 21 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro
Livro_MEDIUM_V6.indd 22Livro_MEDIUM_V6.indd 22 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes DE TUDO CHEGA A HORA Naquela manhã invernosa, e precisamente por assim ser dei-me ao leito por pouco mais do costume. E sonhei um sonho terno, um deleitoso deslizar por cima de nuvens, sendo que minha mãe me conduzia pela mão. Coisa estranha! Antes de acordar trouxe-me à beira do leito, havendo dito: — Hoje à tarde, com o Sol quente, vá às rochas e deite-se a ponto de dormir, ouviu?... E repetiu isso por várias, tendo-lhe eu respondido favoravelmente, por sentir em mim mesmo que assim devia ser. Ao acordar, naquele mesmo repente, tinha de tudo a mesma noção, a mesma certeza, a consciência exata de que assim seria o melhor e mais justo. Em minha alma reinava também um ânimo novo, um prurido de fé e novas esperanças. A vertente interna aflorava em jorros de vida e anseio de novas épocas. Eu me estudava, focalizava-me e com ou sem explicações consentâneas, ou aparentes, assim me surpreendia. O sol brilhava, de novo, nos horizontes de meus dias e de minhas obrigações! Posto em pé, fui à cozinha, onde Sinhá Marta reinava, contando-lhe o maravilhoso sonho, to-
Livro_MEDIUM_V6.indd 23Livro_MEDIUM_V6.indd 23 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro dinho, detalhe por detalhe. E ela disse suas coisas: — Valha-me, Deus!... Rezei tanto por Sinhá Áurea... Só mesmo Deus querendo e Sinhá Áurea aparecendo!... Olhando-me bem no rosto, com aqueles olhinhos que se perdiam no fundo das covas obituárias, inquiriu: — Sinhô, vai às rochas?... Não vá faltar!... — Claro que irei, Sinhá Marta. — Mas tenha cuidado!... Fique em lugar seguro... O dia transcorreu com sabor a vida e interesse por tudo. Vi a meus filhos com outros olhos, mimei-os, senti vergonha do já feito. Mas, que fazer, que dizer, como inculcar-me tanta culpa, se, afinal, contra mim mesmo se levantava aquela tempestade dentro de mim? Assim como ao homem não é dado poder contra os tufões e cataclismas telúricos, assim também nada podia contra um mal de alma que das profundezas de mim mesmo se levantava, pondo-me a vida em tresmalho. Aquele dia, porém, foi um dia de reconquista feliz! — Agora vou ao penhasco! — disse a mim
Livro_MEDIUM_V6.indd 24Livro_MEDIUM_V6.indd 24 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes mesmo, pelas três e meia da tarde, sobraçando uns sacos de estopa, para deles fazer pelo menos travesseiro. Desci margeando o rio, venci aqueles dois quilômetros e pouco, subi o último morro e encaminhei-me às rochas, tendo arrumado lugar seguro numa cavidade. Via apenas uma nesga do horizonte; nada do rio, só ouvindo o ronco das águas em revolta. Arranjei os sacos de modo tal, ficando com as costas apoiadas em maciez e a cabeça regularmente instalada. Procurei topar Morfeu, frente a frente. Não sei precisamente quando tenha adormecido; mas sei que ouvi dizer, com voz firme e imperiosa: — Tire os sacos debaixo do corpo e da cabeça! Devolvido à consciência por advertência tão inesperada, mas feliz pelo ocorrido, atirei os sacos ao rio, calcando a cabeça na face granitosa da pedra. E fiz, de novo, por adormecer. Pruridos suaves, então, passaram a me acariciar o todo. Era como vagar sobre nuvens, cavalgar a própria brisa, dormir ao embalo de cânticos angélicos. E saí, naturalmente que saí do corpo, vendo-o ficar para ali, deitado na
Livro_MEDIUM_V6.indd 25Livro_MEDIUM_V6.indd 25 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro frincha da rocha, como se me fora coisa de imensa importância. Condenados aos grilhões carnais, muita vez, lastimamos o fato; em vendo a máquina para ali, como utensílio primoroso, senti o quanto lhe apreçava. Tangido por alguém, revi na minha memória a tudo quanto podia de já feito e vivido. E senti que devia àquele instrumento, um mundo todo de dívidas! — Venha, filho! — convidou-me minha mãe, estendendo-me a mão carinhosamente. Fui com ela e permaneci no ar, sobre o rio, sentindo a alma em deleite e o corpo, porque tinha um corpo, em ponto de pluma. Era leve, feliz, superior. — Isto, — tornou a dizer minha mãe, — é o início de uns trabalhos. Temos de cooperar nos serviços de Jesus e Suas legiões amoráveis; devemos obrigações à Terra e à sua humanidade. Você vai contribuir para espraiar o Consolador no mundo, que, como promessa do Céu à humanidade, fornecer-lhe-á informes preciosos sobre a vida e seus confins, a Terra e o infinito que a cerca. — Farei o que Deus queira, mamãe... — Procure dar de si o possível, assim como tem com que fazê-lo, sem julgar jamais que
Livro_MEDIUM_V6.indd 26Livro_MEDIUM_V6.indd 26 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes Deus lhe venha a faltar com apoios. É hábito do homem atribuir a Deus a responsabilidade de suas negligências. Não quero, portanto, que pese sobre Deus com imposições quaisquer; quero faça o possível com o que tem e pode. Deixemos as ferramentas que não temos em paz, lembrando que o bom trabalhador usa do que tem para produzir com satisfação o que lhe esteja ao alcance. — A senhora sabe que nada entendo destas coisas... — No fundo da mala velha estão jogados uns livros... Tire-os para ler. — Está bem, mamãe. E dou graças ao bom Deus. — Naturalmente, e volte ao seu corpo. E com isso, arrastado como que por um vendaval, dei acordo de mim; tinha a parte da cabeça dolorida, mas também tinha a alma transbordante de alegria. Não andei até a casa; corri, ansioso por relatar a Sinhá Marta o ocorrido. E ela, marejantes os olhinhos fundos, nada disse, nada pode dizer. Olhou para cima, como que a buscar um Deus de fora, prosternando-se ante Ele, no santuário de sua alma bem formada.
Livro_MEDIUM_V6.indd 27Livro_MEDIUM_V6.indd 27 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro Deixei-a entregue a suas meditações, indo para o meu quarto. E orei com fervor, assim como nunca tinha feito em toda a vida. Depois, revolvi a mala velha e retirei dela uns poucos de livros, dentre eles quatro espíritas e dois ocultistas, todos editados em Portugal e trazidos para o Brasil por um tio de muito falecido. Nunca os havia manuseado; mas sempre seria tempo de o fazer. E ali começou a minha busca teórica sobre as coisas do homem, que são as coisas do espírito. Das coisas de Deus, porque são as coisas do homem. E nesse amálgama teórico-prático, de tal modo me enfronhei, de tal jeito me fiz apóstolo, que, hoje, dou por graça de Deus o assim ter conseguido realizar. Porque, enquanto os sublimes ensinos se passavam das páginas pródigas aos recessos do meu entendimento, aos arcanos de minha retentiva, em evidência de ações decentes fazia por transcorrer os dias. E posso afirmar que era isso, justamente isso, o que Deus esperava de mim. Aliás, é isso o que espera de todos, pois que de palavrórios forro está o mundo, não sendo menos certo, também, estar besuntado de formalidades presumidamente comportantes de virtudes absolvicionistas. Todo caso, os que compram ou os que vendem
Livro_MEDIUM_V6.indd 28Livro_MEDIUM_V6.indd 28 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes tais formalidades, sejam elas de teor material ou intelectual, não provam, e nem jamais poderão fazê-lo, a eficiência de suas argumentísticas. Os meneios são feitos com esmero clássico, e com grande pompa a distribuição, bem assim como principesco é o preço; mas, para todos os efeitos, a comprovância do valor intrínseco é zero! Tereis sempre disso a prova, somando o número daqueles que se apresentam nos vossos trabalhos práticos, apesar das muitas regalias adquiridas, como simples viajores da inconsciência e, não raro, do desespero. É que lei salvadora é o amor! É que em Deus não prevalece o princípio de dissensão! E por ser assim, irmãos mourejam pelas regiões menos recomendáveis, e algumas até indescritíveis, apaniguados de todos os credos e matizes de credos. A lei é simples — quem não souber, busque saber; quem souber, faça por praticar. Não se pode ser eternamente ignorante e nem negligente sem responsabilidade. A lei de progresso é um fato e a maior soma de conhecimentos implica em maior grau de obrigações. Ninguém poderia fugir a essa regra natural. Fiz-me, portanto, bom leitor e regular praticante.
Livro_MEDIUM_V6.indd 29Livro_MEDIUM_V6.indd 29 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro
Livro_MEDIUM_V6.indd 30Livro_MEDIUM_V6.indd 30 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes COISAS DE SINHÁ MARTA Dias depois do sublime encontro, estando à mesa a tomar café, notei Sinhá Marta em algum alvoroço; ia, vinha, fazia trejeitos, encarava-me e lá se ia de novo, triturando pensares que sei lá. Quando uma criança lhe pediu qualquer coisa, estava alheia a si, ao meio, pairando em zonas de meditação que era difícil descobrir. Por sondá-la inquiri: — Então, Sinhá Marta, sonhou com algum lobisomem esta noite? Ela, volvendo-se depressa, pondo-se estática por longos minutos, nada disse. E quando quis dizer coisa, fez um gesto de reconsideração e não falou. Foi para os seus que fazeres e, por isso, deu-se fim a um plano qualquer que lhe vagava pelo espírito. Saindo eu para ver a porcada de raça que havia adquirido, encontrei-me com o senhor Viçosa, nordestino de muito radicado em terras do sul, casado com senhora portuguesa, pai de uma única filha, e que fazia às vezes de melhor entendido em certos empreendimentos, como no caso dos porcos. — Belos animais! — exclamou ele, em seguida ao cumprimento trocado. — Valem o preço. O homem pôs-se-me à frente, feição expansiva e
Livro_MEDIUM_V6.indd 31Livro_MEDIUM_V6.indd 31 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro amiga, convidando: — Quer fazer o favor de me dizer, senhor Cabral, se está passando melhor ou pior? Confesso que tenho curtido preocupações por via do seu estado de alma. O senhor precisa reagir... Contudo nestes últimos dias parece que tem estado diferente... Fiz-lhe o gosto: — Passei, é certo, por um longo tempo de amargor quase insuportável, senhor Viçosa; mas, a coisa vai passando, passando... Se Deus quiser... — O senhor podia... — aventurou ele, vagamente. — Sim, mas Deus é que sabe — retorqui, sem saber ao que aludir. — É isso mesmo... — continuou, reticencioso. Então, volvi aos porcos: — Quando teremos a primeira cria, senhor Viçosa? Ele contou nos dedos e sentenciou dois meses. Mas sua mente pairava em outros campos, de cometimentos, o que me fez dizer de vez: — Quer fazer o favor de dizer-me em o que está pensando? Lá em casa, Sinhá Marta estava embaraçada por pensamentos que não ousou de-
Livro_MEDIUM_V6.indd 32Livro_MEDIUM_V6.indd 32 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes clinar; aqui, encontro o amigo em situação idêntica, a planejar o que não revela. Que significa isso? O bom homem empalideceu, mas foi dando conta do que lhes ia pela alma. — Gosto de que me considere amigo, senhor Cabral. Me comprazo em sê-lo, bem assim, como todos os meus. E por isso, por isso mesmo, quem sabe?... Bem podia o senhor tentar uma... É isso mesmo, tentar uma sessão de Espiritismo... Por que não lhe faria bem?... E estacou, firme, francamente procurando em nalguma reação do meu semblante a antevisão da resposta. E lhe fiz ver, então, que tudo era procedente: — E para isso era preciso tanta dúvida por parte de gente da casa? — É que Sinhá Marta me disse umas coisas... — De ter eu conversado com a minha falecida mãe? — Sim, senhor... E como nós fazemos nossas sessõezinhas, às vezes, pode ser que o senhor queira tomar parte, o que para nós, seria de muito gosto. — Que acanhamento tolo, meu amigo! Que simplicidade! Pois temos facilidade para tudo, em meio ambiente, pessoas e conhecimentos. E eu
Livro_MEDIUM_V6.indd 33Livro_MEDIUM_V6.indd 33 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro a imaginar que premeditavam um terremoto!... O senhor Viçosa sorriu, muito satisfeito, mas ponderou: — Nem sempre é assim, senhor Cabral; a gente encontra cada coisa por este mundo de Cristo. Pois não mataram o Cristo por causa dessas coisas? Foi por andar Ele a ter tratos com os espíritos, expelindo aos malfeitores e mantendo contactos com os benfeitores, e não por outra razão, que O pregaram numa cruz! E o senhor pensa que não fariam isso de novo, se pudessem? Ora se fariam! A ignorância é o único diabo que existe! Eu quis passar adiante: — E quem é médium na sua casa, senhor Viçosa? — Minha Augusta. Também a filha está tendo umas atuações, mas muito de longe em longe. Fez um lapso e acrescentou, convidativo: — Hoje, e todas às quintas-feiras, fazemos sessões... E estaremos sempre às ordens, senhor Cabral. Nesse ínterim aproximou-se dona Augusta, sua esposa, tendo-lhe dito ele, em tom alegre: — O senhor Cabral entende de Espiritismo. Bem nos poderia auxiliar...
Livro_MEDIUM_V6.indd 34Livro_MEDIUM_V6.indd 34 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes Tive que lhes dizer do pouco ou nada de conhecimentos de que era possuidor, mas de estar sempre pronto, para aquilo em que pudesse ser útil. Eles deram-se a uma alegria espiritual muito intensa, com o que também me rejubilei. E rumei para outro local da fazenda, não muito distante da casa, onde tinham plantado, havia mais de um século, talvez, algumas dezenas de jaqueiras. Eram árvores frondosas, e estavam pendentes dos galhos e ramos, belos frutos. Ali havia mandado colocar pedras muito grandes, regularmente aparelhadas, para servirem de bancos. E foi sobre uma delas que sentei-me, reclinando a cabeça num tronco, para meditar nas coisas da vida, nas do mundo e na simplicidade às vezes sem mesura, da gente do sertão. Passava, portanto, um olho retrospectivo, no que me houvera sido forçado a passar nos últimos tempos, não deixando de estimar em muito ao que me viera de ocorrer nos derradeiros dias, coisas do Céu e da Terra que vinham em demanda a meus anseios de vida, paz e ventura. E tudo começara com a visão de minha mãe. Qual a razão disso tudo? Ela havia dito que era preciso contribuir para o desenvolvimento do Consolador no seio da humanidade. Então, aquilo vinha em abono de meus interesses pessoais ou era a
Livro_MEDIUM_V6.indd 35Livro_MEDIUM_V6.indd 35 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro bem de um programa visando o bem geral? Sem dúvida que, de um modo ou de outro, estava em face de acontecimentos deleitantes o quão surpreendentes, quer para o intelecto, quer para o moral. De onde vem isso? Para onde marchará? A que fronteiras do saber e dos anseios de alma nos lançará? E convinha com as sentenças bíblicas, com as profecias do Senhor, lembrando que tais serviços deviam ser feitos por homens, pois a quem atribuiria Deus a função de trabalho, sem ser a seus filhos? Neste caso, como em qualquer sentido de aplicação, e acima de tudo pelo montante da obrigação, tinha de haver maior necessidade de devotamento à causa. Saber e agir disciplinadamente, tal era a medida a adotar. E Deus poria as coisas no rumo certo. O que pensava era bom e o destino das coisas e dos seres, como de sempre, repousava na Sabedoria Suprema. Causava gosto poder pensar assim. E me entregava ao devaneio, assim como a folha do arbusto margeante que cai na água e é conduzida. Ia entregar-me por inteiro aos aprazíveis meditares, quando ouvi que me chamavam, de longe, de muito longe. — Cabral! Cabral!... Quis pôr-me de pé, mas não pude, não o con-
Livro_MEDIUM_V6.indd 36Livro_MEDIUM_V6.indd 36 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes segui de maneira alguma. Estava preso, impossibilitado de qualquer outra ação que não fosse a da mente. Todo caso, sentia o que poderia ser, não vindo, por isso, a assustar-me. Querendo falar e não o conseguindo, dei-me a pensar em Deus, em minha mãe, nas coisas do Céu. E foi quando de novo ouvi: — Cabral! Cabral!... Mas que poderia eu fazer? Nem sequer podia responder! E a voz prosseguiu. — Cabral! Cabral!... Vem e vê! ... Contudo, para mim mesmo pensava — mas ver que jeito se nem posso abrir os olhos? Depois, sem ouvir nada, sofri um arranco, um choque violento, mas sem poder atinar em que consistiria ele. Todo caso, tinha acontecido alguma coisa diferente, interessante. E fiquei à espreita, todo alerta, a ver se alguma coisa aconteceria que me trouxesse qualquer informação. Aconteceu mesmo: — Vem e vê, — disse-me minha mãe, aparecendo-me, toda vestida de branco e azul, sorridente e feliz, portadora de uma felicidade que parecia atingir os extremos do possível.
Livro_MEDIUM_V6.indd 37Livro_MEDIUM_V6.indd 37 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro E querendo segui-la, pude fazê-lo. Mas ela, olhando para trás, mostrou-me o que ficara: — Veja o seu corpo denso. E dê graças ao Senhor dos mundos e de tudo, porque isto é maravilhoso! Olhei, vi, mas não me fez sentir nada estranho. Tudo era comum, simples, ao talante do Céu. Que fosse tudo para onde quisesse Deus. Num repente, eis-nos em plena estrada que conduzia à fazenda próxima, de que eram donos Eliseu e Gisa, gente muito amiga. Vinham os dois a cavalo, conversando sobre nós, falando em vender-nos a fazenda. — Interessante! — disse eu a minha mãe, reparando que os acompanhava, sem estarmos nós montados. — Eles querem ir para outro lugar, onde possuem maior número de familiares, de sorte que, vêm para te oferecer a fazenda. Eu te quis fazer isto, para que daqui surjam outros agradáveis acontecimentos e outras ocasiões de testemunhos, a bem da Verdade. Nós, posso dizer-lhe, não perdemos tempo, quando temos em mãos encargos que nos foram entregues. Pensamos hoje para o amanhã, para depois de amanhã e por muito além, até.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.