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Capítulo 1 de 14
Parte 1 de 13
Um Médium de Transportes · Osvaldo Polidoro
Um Médium de Transportes OSVALDO POLIDORO (reencarnação de Allan Kardec) Um Médium de Transportes 1ª Edição Instituto Divinista São Paulo
www.divinismo.org
Livro_MEDIUM_V6.indd 1Livro_MEDIUM_V6.indd 1 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro Copyright desta edição INSTITUTO DIVINISTA C.N.P.J.: 09.344.266/0001-26 Rua Professor Artur Ramos, 404 – Térreo – Jardim Paulistano www.divinismo.org CEP: 01454010 – São Paulo – SP Todos os direitos reservados Tiragem: 1.000 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Polidoro, Osvaldo Um médium de transportes / Osvaldo Polidoro (reencarnação de Allan Kardec). -- 1. ed. -- São Paulo : Instituto Divinista, 2020. ISBN 978-65-993307-0-4 1. Espiritismo 2. Romance espírita I. Título. 20-52468 CDD-133.93 Índices para catálogo sistemático: 1. Romances espíritas : Espiritismo 133.93 Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427 Um Médium de Transportes Produção Gráfica: Assahi Gráfica e Editora Ltda. Capa: Ana Viola Diagramação: Rodolpho Vasconcellos
Livro_MEDIUM_V6.indd 2Livro_MEDIUM_V6.indd 2 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes DEUS Eu Sou a Essência Absoluta, Sou Arquinatural, Onisciente e Onipresente, Sou a Mente Universal, Sou a Causa Originária, Sou o Pai Onipotente, Sou Distinto e Sou o Todo, Eu Sou Ambivalente. Estou Fora e Dentro, Estou em Cima e em Baixo, Eu Sou o Todo e a Parte, Eu é que a tudo enfaixo, Sendo a Divina Essência, Me Revelo também Criação, E Respiro na Minha Obra, sendo o Todo e a Fração. Estou em vossas profundezas, sempre a vos Manter, Pois Sou a vossa Existência, a vossa Razão de Ser, E Falo no vosso íntimo, e também no vosso exterior, Estou no cérebro e no coração, porque Sou o Senhor. Vinde pois a Meu Templo, retornai portanto a Mim, Estou em vós e no Infinito, Sou Princípio e Sou Fim, De Minha Mente sois filhos, vós sereis sempre deuses, E, marchando para a Verdade, ruireis as vossas cruzes. Não vos entregueis a mistérios, enigmas e rituais, Eu quero Verdade e Virtude, nada de “ismos” que tais, Que de Mim partem as Leis, e, quando nelas crescerdes, Em Meus Fatos crescereis, para Minhas Glórias terdes. Eu não Venho e não Vou, Eu sou o Eterno e o Presente, Sempre Fui e Serei, em vós, a Essência Divina Patente, A vossa presença é em Mim, e Quero-a plena e crescida, Acima de simulacros, glorificando em Mim a Eterna Vida. Abandonando os atrasados e mórbidos encaminhamentos, Que lembram tempos idólatras e paganismos poeirentos, Buscai a Mim no Templo Interior, em Virtude e Verdade, E unidos a Mim tereis, em Mim, a Glória e a Liberdade. Sempre Fui, Sou e Serei em vós a Fonte de Clemência, Aguardando a vossa Santidade, na Integral Consciência, Pois não quero formas e babugens, mas filhos conscientes, Filhos colaboradores Meus, pela União de Nossas Mentes.
Livro_MEDIUM_V6.indd 3Livro_MEDIUM_V6.indd 3 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro NOTA AO LEITOR Este livro é um descritivo de como os Dons do Espírito Santo, carismas ou mediunidades concedidos por Deus a Seus Filhos como ferramenta divina auxiliar nos trâmites evolutivo da humanidade com o fito a Sagrada Finalidade. Que consolo, que lenitivo, que bálsamo pode representar para um viajor da carne a faculdade do transporte? Poderia você, apelando aos seus guias, realizar dessas sortidas pelo mundo espiritual? Esta Obra foi editada em 1951. Esgotada aquela edição, reeditada em 2000 e 2016 também esgotadas essas, é com grande satisfação que ora a reeditamos. Os Divinistas. Março/2021
Livro_MEDIUM_V6.indd 4Livro_MEDIUM_V6.indd 4 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes ÍNDICE Deus ............................................................................................. 3 Nota ao Leitor ..................................................................... 4 Prólogo ...................................................................................... 7 Assim Acontecera............................................................. 13 De Tudo Chega a Hora ............................................... 23 Coisas de Sinhá Marta ................................................. 31 Ao Rés da Vida ............................................................... 63 Corriam os Dias................................................................. 73 Simplesmente um Novo Casamento................... 85 Tudo é da Vida ................................................................ 109 A Viagem de Núpcias ............................................... 127 Glórias Mediúnicas ....................................................... 135 Soberana é a Lei ............................................................... 149 Paisagem Tumular ........................................................ 155 O Carma Determina ................................................... 163 Veredas da Vida .............................................................. 169 O Resgate de Ana ......................................................... 173 Consequências Santificantes .................................. 199 Aos Desejosos de Saber ........................................... 209 Livros Indispensáveis................................................... 213
Livro_MEDIUM_V6.indd 5Livro_MEDIUM_V6.indd 5 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro
Livro_MEDIUM_V6.indd 6Livro_MEDIUM_V6.indd 6 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes PRÓLOGO Verdades divinas jamais faltaram à humanidade terrestre desde que ela teve envergadura espiritual para absorvê-las; porém, ao longo de sua história foram perseguidos seus entregadores e seguidores de tal forma que deixaram as verdades soterradas na ignorância. O trabalho de restauração da Verdade Divina é demasiadamente longo e penoso, impossível dar-lhe cumprimento em um só lance, numa só encarnação. Kardec repõe o uso dos Dons e tratos mediúnicos, a consciência da necessidade de um comportamento moral ilibado, a filosofia espírita fundamental, a certeza da nossa imortalidade, naquela pródiga e grandiosa obra, que permite, em seu próprio retorno, já neste século XX, com o nome de Osvaldo Polidoro, dar continuidade natural ao trabalho e, baseado no já feito, completar a obra, entregando mais de 100 livros, dentre eles, o profetizado Evangelho Eterno e Orações Prodigiosas, que implanta o Divinismo. O professor Kardec, do século passado, iniciou-nos na doutrina máxima. Nesta vida, Osvaldo Polidoro completa o que nos faltava – toda a Criação – do conhecimento de Deus. Esta presente obra, veio entre outras, em res-
Livro_MEDIUM_V6.indd 7Livro_MEDIUM_V6.indd 7 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro posta a um convite vindo da parte de espíritos que, em comitiva, estiveram perante o autor e, segundo ele mesmo declara, através de seu risonho porta-voz, fizeram o pedido: “O senhor poderia escrever livros sobre o mundo espiritual, seus fatos, suas regras e processos? Ninguém melhor que o senhor para isto!” E vieram num turbilhão, livro após livro, sempre com a característica que lhe é peculiar, nesta obra de Restauração e em seu dia-a-dia, no convívio diário: apresentar o máximo de conteúdo, no mínimo possível de palavras. Ao concentrarmos a atenção neste livro em particular, vale um comentário a respeito do título: Mediunidade de Transporte, assim como descrita na segunda parte de O Livro dos Médiuns, capítulo V, de Kardec, é aquela que permite – por Deus – que objetos mudem de lugar sem a ação direta de encarnados. No caso descrito neste livro, o personagem Cabral é convidado por sua a mãe, desencarnada, a deitar-se, e, em seguida, sai completamente consciente em espirito, sendo capaz de ir a lugares, conversar com desencarnados, escutar encarnados. Há infinidade de Dons de Deus, Mediunidades carismas ou Espírito Santo, que estão descritos na Bíblia (Marcos 16, 17; I Coríntios, 12; João,
Livro_MEDIUM_V6.indd 8Livro_MEDIUM_V6.indd 8 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes 16, Atos, 2; por exemplo). Este livro enfoca a ilustração, advertência e consolo que podem advir pelo uso correto do dom, pelo qual o médium se transporta, como se fosse desencarnado, a cumprir determinações de trabalho, mas não deixa de explicar outros, exemplificando, na prática, a profundidade que atinge essa tarefa divina. A leitura deste livro é verdadeiramente um curso: através das atitudes de Cabral e esposa, aprende-se sobre a lei do Carma: transgressões à lei de Deus e o obrigatório ressarcimento posterior são realidades a serem vividas por todos nós. Através do personagem Eliseu, o autor dá explicações sobre os dons, Batismo de Espírito, a convocação para a leitura da Bíblia nos capítulos correspondentes. O uso correto dos dons, isto é, usados de graça em prol de quem necessita, está exemplificado na descrição de trabalhos mediúnicos realizados na fazenda, cenário desta história. Na descrição destes, temos muito bem colocada a importância de leituras bíblicas e doutrinárias que vão eliminando a ignorância, fazendo brotar a certeza da Verdadeira Doutrina, a de Deus. Cabe, a cada um, ir aprendendo sobre a Justiça de Deus, impoluta porque divina. Dessa conscientização decorre a responsabilização de cada
Livro_MEDIUM_V6.indd 9Livro_MEDIUM_V6.indd 9 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro filho de Deus por seus atos praticados. Oportunidades para um raciocínio mais profundo acerca de nós e o Pai são muitas durante a leitura (da página 86 a 109), a fim de que se transponham as barreiras do mundo corpóreo. Fartos são os exemplos de como podem agir os espíritos no divino intercâmbio entre os dois planos: ajuda através de doutrinação, orientação, aplicação de eletromagnetismo, explicações através da vidência, compreensão dos porquês através da psicometria, descrição dos baixos planos que sempre estão à espera de quem sai dos moldes determinados por Deus. A partir do final do capitulo Simplesmente um Novo Casamento, até o início do seguinte Tudo é da Vida, adentra o leitor em uma explicação do que é a Religião Pura, sobre quem somos, nossa Origem, nossa Finalidade. Assim também como no capítulo O Resgate de Ana aprende-se sobre a justiça de Deus agindo na prática. No capitulo Consequências Santificantes, está resumidamente exposta, livre e escampamente, como nunca antes na humanidade, a Doutrina da Verdade, reposta, o Caminho, Deus. Ao concluirmos a leitura da história deste fazendeiro viúvo, seu novo casamento e seu desencarne, teremos aprendido o que Deus espera
Livro_MEDIUM_V6.indd 10Livro_MEDIUM_V6.indd 10 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes de nós, e compreenderemos que é divinamente simples: que vivamos os Mandamentos da lei de Deus, que cultivemos nobremente os Dons e que procuremos ser, o quanto pudermos, anjos da guarda perante o Pai.
Mara Draugelis
Livro_MEDIUM_V6.indd 11Livro_MEDIUM_V6.indd 11 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro
Livro_MEDIUM_V6.indd 12Livro_MEDIUM_V6.indd 12 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes ASSIM ACONTECERA Assim de fato acontecera — Ana, a querida esposa, depois de meses de tormentosa doença mental, encaminhando-se ao penhasco que montava divisa lá nos confins da fazenda, bem lá nos fundões onde também desaguava certo riacho, por ele se lançara, indo perder-se por entre as águas em revoluteio, nunca mais se tendo dela notícia. Não mais se lhe podia sondar os passos, porque noite e dia era aquele andarilhar sem fim, falar sozinha, discursar, afrontar, contender, para logo mais cair em dolorosa quebrantura moral, angustiosa prostração de corpo e alma! Vivia livre, à vontade, pois de si nunca demonstração dera de que pudesse um dia fazer o que fez ou tornar-se perigosa. Aos quinze meses de tormenta, cauterizados todos na dor, não mais se lhe dava atenção, sem ser a respeito daquilo que lhe dissesse comer, vestir, higienizar-se. Quanta amargura, meus Deus! De lembrar se me enfronha a alma no negror das brumas que a memória teima em reviver fazendo que meus olhos de espírito se marejem. Mas, se assim foi, contemo-lo, então, ainda que sob o pélago de torturas cruciantes. Afinal, não sei de quem tenha vivido alheio ao manto de grilhões os mais félicos. E não seria eu, é claro, o primeiro em favor de quem abrisse a vida direito ímpar de precedência.
Livro_MEDIUM_V6.indd 13Livro_MEDIUM_V6.indd 13 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro Os anos lá se vão, ou nós por eles, e com isso o feliz desembargo; Ana, hoje, meiga e amiga, refeita em face das leis superiores, ou em face de si mesma, o que é mais exato, marca tempo nos serviços de socorro, ora espargindo aquelas dádivas que o Pai Comum nos lança em mãos, ora extraindo de si, de suas experiências, o com que ofertar lições a irmãos ainda viajores de primordiais caminhadas pelos sendeiros da consciência individual. Bem faz quem assim aproveita as dores bem curtidas! Convertê-las em joias da alma pelas lições que encerram, eis o único mérito de sofrer. Fora isso, favas à dor! E se por inteligência, puder alguém esquecer-se de que tal monstro existe, tanto melhor. Enquanto isso, enxugo meu pranto... Bem se vê que percorro caminhos por legiões de legiões de irmãos já percorridos. Enxugo meu pranto e prossigo narrando, porque para isso fui chamado, por aqueles que do Senhor Planetário mais vizinhos são, por evolvimento, e que, por isso mesmo, dando guarida a Seus Desígnios, em favor do Consolador prometido buscam ofertar todos os testemunhos, para que um dia, o mais cedo possível, a face obumbrosa da Terra se apresente com rasgos de claridade que jamais tenham fim. Meus dias, então, depois que Ana desaparecera
Livro_MEDIUM_V6.indd 14Livro_MEDIUM_V6.indd 14 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes no turbilhão das águas, transformaram-se em programa de horror a sorver. Chego a pensar, ainda, como os terei suportado! E diz-me qualquer coisa à consciência, que se não fora a benção das amizades astrais em serviço de tutela, também teria sucumbido. É certo que, ao cabo de ano e meio a contar da triste jornada, as luzes do céu se me foram tornando próximas e pródigas em contactos sublimes e suavizantes; mas, até então, como terei suportado o azedo de tamanho cálice?... Sabe Deus o que é de justiça. E por assim ser, por ser de justiça, sangrei os pés nos calhaus abismais, tirei de mim o que parecia não ter, venci um tempo e consegui enfrentar-me, mais tarde, sem ter do que envergonhar-me. Eu devia e tinha de pagar... Havia semeado a dor em seara alheia, havia conspurcado o lar alheio, dera-me em outros tempos a causar horrores e loucura. Eu e Ana, em vida anterior, sendo responsáveis por dois lares, tendo sobre o que pesar com as atitudes menos elegantes, nem por isso nos demos a respeitar o que manda o espírito da Lei; abandonando os respectivos lares, deixamos de um lado uma mãe e dois filhinhos e, de outro, um pai e seis rebentos, todos entregues ao mar de incertezas e aos aguilhões do desespero. Afronta e opróbrio foi a farta semeadura de nossos dias! E como não
Livro_MEDIUM_V6.indd 15Livro_MEDIUM_V6.indd 15 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro ter de pagar? Já disse alguém que é fácil, cômodo e aparentemente respeitável, praticar um ato material e ofertá-lo a Deus, à guisa da religião. Com isso, chegar a sentir desobrigada a própria função de obrigação espiritual. Mas, quem disse que o Céu jamais pediu isso? Quem foi que serviu a Deus, colocando ofertas materiais em lugar de ações decentes? Fosse espiritualidade o ato de oferta material, e eis que os abismos não teriam a que instância judiciária prestar serviço! Contivesse regular soma de respeito o fato de estarmos de acordo com o próprio modo de pensar, quando cremos em doações exteriorísticas, e todos os paganismos de todos os tempos teriam feito a emancipação do espírito que transita há centenas de milhares de anos pelas brenhas da terra sólida e pelos vales das regiões astrais. No entanto, felizes, bem felizes, somente aqueles que se valeram da senha única — o amor no trato para com os seus irmãos de jornada! Sou disso testemunha cem por cento. Esqueci o dever para com o meu lar, abandonando mulher e filhos, sem contudo, deixar ao léu das cogitações a dobragem de joelhos diante de altares e outras contrições do menu litúrgico. Dizia para comigo, que todo homem tem direito a um tanto de cauda, conquanto não implique isso em aban-
Livro_MEDIUM_V6.indd 16Livro_MEDIUM_V6.indd 16 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes dono das coisas da fé. Mas assim não determina a Ordem Suprema. E não tendo força de Lei o que é feito pelo homem à revelia da Lei, só tinha de fato de esbarrar nas próprias ações. E esbarrei de maneira violenta! Foi um tranco cruel, sofrido em face de meu equilíbrio o mais íntimo, um choque que me atirou por inteiro aos braços da treva! Foram anos de romagem dolorosa pelos rincões inferiores, onde trevas e gemidos, uivos lancinantes e anátemas se oferecem em catadupas apocalípticas. Um milhão de vezes é preferível qualquer dor das de que pode ser ofertante à vida na carne! Todas as lepras, todos os cânceres, nunca somariam em igual ao que se herda por valados tais! De par com a turbulência física, porque há um físico, levantam-se, de dentro do ser avalanches de monstruosas coações de ordem espiritual, moral e mental, a ponto de enlouquecer, se fosse, se para tanto tivesse mérito o infeliz viajor de tais plagas! A loucura seria uma benção. Não obstante tamanha investidura infernal, ainda vim de ter que perder, em futura vida, ao objeto de todos os caminhos de minha alma. Não atribuo senão a Deus, tanto que a amava, a graça de ter vencido a tão cruel transe. Todos os apoios de familiares e conhecidos, principalmente de dois filhinhos que ficaram sem mãe, de nada valiam,
Livro_MEDIUM_V6.indd 17Livro_MEDIUM_V6.indd 17 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Osvaldo Polidoro parece que de fato não valeram em coisa alguma. O que valeu muito é que eu tinha de sofrer, tinha de resgatar-me. Passei noites à beira do rio, subi um milhão de vezes ao alto da penha, fiz mil pensamentos escabrosos por dia; mas nunca tive coragem para atirar-me grotas abaixo, esfrangalhar-me nas quinas rochosas, depois sumir no estrondejar das águas. No entanto, que maravilhosa era a paisagem! Naquele confim da fazenda, o estuário em que se convertia aquela infusão de belezas, sobre o que fosse faria a alma estrugir, menos, porém, rumo a coisas tétricas. As águas em revolta se desfaziam em estrondos e espumas; repicos e coroas alvíssimas por cima de dorsos e lajeados milenares, indo alfim recuperar-se ao longe, naquele espraiado remansoso e poético, atingindo a franja sinuosa da mata virgem, por entre o que, nas épocas de enchente, rumorejantemente se lançava. Para berço de vida, isso sim estava bem. Nunca, porém, para túmulo do quer fosse, que isso saberia a sacrilégio. O belo não devia ser para as coisas vãs, e menos, muito menos ainda para o crime! A Terra se testemunha como mundo embrionário em evolução, quando seus expoentes lançam mão do bom e do belo para aquele fim que é aviltamento. Nos cimos espirituais, entre ética e estética
Livro_MEDIUM_V6.indd 18Livro_MEDIUM_V6.indd 18 25/02/21 21:4725/02/21 21:47 Um Médium de Transportes não tem cabimento que se cogite em possíveis lacunas. Fatores entre si paralelos por força de virtudes, deles não lança mão o homem com o fito de profanação. A ética humana em tais paragens é cultivar pelo amor, desenvolver pela devoção e utilizar pelo mesmo sentido santificante de vida. No entanto, Ana fizera daquele escrínio de estuâncias o seu sarcófago e a minha cela de penas e lágrimas. Minha mente conturbada, até mesmo abalada em seus dispositivos ordinários, dera por mostrá-la a emergir das águas, a clamar, a exigir salvamento, por meio de gemidos que se perdiam na escuridão da noite e no cântico alegre do dia. Assim a vi e ouvi, de fato ou por suposição apenas. Levantava-me, espetava o poder de visão, aguçava os ouvidos... E tudo se perdia, de novo, nas brumas da noite ou nos clamores do dia. As aves, festejando a alvorada ou lastimando o pôr do Sol, e os peixes a espadanar à cata de insetos ou uns a outros, nada do que me ia pela alma sabiam. Eu curtia a minha dor, o meu tugúrio, bem ao pé daquela natureza soberba em fragrância. Do firmamento azul não sumiram as luzinhas piscantes; nem deixou de pender o Sol; jamais faltou o passeio dos flocos gasosos pela tela azul do céu. O céu e a Terra não tomavam conta de minhas angústias! Enquanto o cauda-
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