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Capítulo 7 de 23

Parte 7 de 23

Nosso Lar · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

A Visita Materna Atento às recomendações de Clarêncio, procurava reconstituir energias para recomeçar o aprendizado. Noutro tempo, talvez me sentisse ofendido com as observações aparentemente tão ríspidas; mas, naquelas circunstâncias, lembrava meus erros antigos e sentia-me confortado. Os fluidos carnais compelem a alma a profundas sonolências. Em verdade, apenas agora reconhecia que a experiência humana, em hipótese alguma, poderia ser levada à conta de brincadeira. A importância da encarnação na Terra surgia-me aos olhos, evidenciando grandezas até então ignoradas. Considerando as oportunidades perdidas, reconhecia não merecer a hospitalidade de "Nosso Lar". Clarêncio tinha dobradas razões para falar-me com aquela franqueza. Passei dias entregue a profundas reflexões sobre a vida. No íntimo, grande ansiedade de rever o lar terreno. Abstinha-me, porém, de pedir novas concessões. Os benfeitores do Ministério do Auxílio eram excessivamente generosos para comigo. Adivinhavam-me os pensamentos. Se até ali não me haviam proporcionado satisfação espontânea a semelhante desejo, é que tal propósito não seria oportuno. Calava-me, então, resignado e algo triste.

Lísias fazia o possível por alegrar-me com os seus pareceres consoladores. Eu estava, porém, nessa fase de recolhimento inexprimível, em que o homem é chamado para dentro de si mesmo, pela consciência profunda. Um dia, contudo, o bondoso visitador penetrou, radiante, no meu apartamento, exclamando: – Adivinhe quem chegou à sua procura! Aquela fisionomia alegre, aqueles olhos brilhantes de Lísias, não me enganavam. – Minha mãe! –respondi, confiante. Olhos arregalados de alegria, vi minha mãe entrar de braços estendidos. – Filho! Meu filho! Vem a mim, querido meu! Não posso dizer o que se passou então. Senti-me criança, como no tempo em que brincava à chuva, pés descalços, na areia do jardim. Abracei-me a ela carinhoso, chorando de júbilo, experimentando os mais sagrados transportes da ventura espiritual. Beijei-a repetidas vezes, apertei-a nos braços, misturei minhas lágrimas com as suas lágrimas e não sei quanto tempo estivemos juntos, abraçados. Afinal, foi ela quem me despertou do enlevo, recomendando: – Vamos, filho, não te emociones tanto assim! A alegria também, quando excessiva, costuma castigar o coração.

E em vez de carregar minha adorada velhinha nos braços, como fazia na Terra, nos derradeiros tempos de sua romagem por lá, foi ela quem me enxugou o pranto copioso, conduzindo-me ao divã. – Estás ainda fraco, filhinho. Não desperdices energias. Sentei-me a seu lado e ela, cuidadosamente, ajeitou-me a fronte cansada, em seus joelhos, afagando-me de leve, confortandome à luz de santas recordações. Senti-me, então, o mais venturoso dos homens. Guardava a impressão de haver o barco de minha esperança ancorado em porto mais seguro. A presença maternal constituía infinito reconforto ao meu coração. Aqueles minutos davam-me a idéia de um sonho tecido em trama de felicidade indizível. Qual menino que procura detalhes, fixava-lhe as vestes, cópia perfeita de um dos seus velhos trajos caseiros. Notando-lhe o vestido escuro, as meias de lã, a mantilha azul, contemplei a cabeça pequenina, aureolada a fios de neve, as rugas do rosto, o olhar doce e calmo de todos os dias. Mãos trêmulas de contentamento, acariciava-lhe as mãos queridas, sem conseguir articular uma frase.

Minha mãe, todavia, mais forte que eu, falou com serenidade: – Nunca saberemos agradecer a Deus tamanhas dádivas. O Pai jamais nos esquece, meu filho. Que longo tempo de separação! Não julgues, porém, que me houvesse esquecido. Às vezes, a Providência separa os corações, temporariamente, para que aprendamos o amor divino. Identificando-lhe a ternura de todos os tempos, senti que se me reavivavam as chagas terrenas. Oh! Como é difícil alijar resíduos trazidos da Terra! Como pesa a imperfeição acumulada em séculos sucessivos! Quantas vezes ouvira conselhos salutares de Clarêncio, observações fraternais de Lísias, para renunciar às lamentações; mas, ao carinho maternal, como que se reabriam velhas feridas. Do pranto de alegria passei às lágrimas de angústia, relembrando exacerbadamente os trâmites terrestres. Não conseguia atinar que a visita não era para satisfação dos meus caprichos e sim preciosa bênção de acréscimo da misericórdia divina. Copiando antigas exigências, concluí erroneamente que minha genitora deveria continuar como repositório de minhas queixas e males sem-fim.

Na Terra, quase sempre, as mães não passam de escravas, no conceito dos filhos. Raros lhes entendem a dedicação antes de as perder. Na mesma falsa concepção de outros tempos, descambei para o terreno das confidências dolorosas. Minha mãe ouviu-me calada, deixando transparecer inexprimível melancolia. Olhos úmidos, aconchegando-me de quando em quando mais estreitamente ao coração, falou, carinhosa: – Oh! Filho, não ignoro as instruções que o nosso generoso Clarêncio te ministrou. Não te queixes. Agradeçamos ao Pai a bênção desta reaproximação. Sintamo-nos agora numa escola diferente, onde aprendemos a ser filhos do Senhor. Na posição de mãe terrestre, nem sempre consegui orientar-te como convinha. Também eu trabalho, pois, reajustando o coração. Tuas lágrimas fazem-me voltar à paisagem dos sentimentos humanos. Alguma coisa tenta operar o retrocesso de minh’alma. Quero dar razão aos teus lamentos, erigir-te um trono, qual se foras a melhor criatura do Universo; mas essa atitude, presentemente, não se coaduna com as novas lições da vida.

Esses gestos são perdoáveis nas esferas da carne; aqui, porém, filho meu, é indispensável atender, antes de tudo, ao Senhor. Não és o único homem desencarnado a reparar os próprios erros, nem sou a única mãe a sentir-se distante dos entes amados. Nossa dor, portanto, não nos edifica pelos prantos que vertemos, ou pelas feridas que sangram em nós, mas pela porta de luz que nos oferece ao espírito, a fim de sermos mais compreensivos e mais humanos. Lágrimas e úlceras constituem o processo de bendita extensão dos nossos mais puros sentimentos. Depois de longa pausa, em que a consciência profunda me advertia solene, minha mãe prosseguiu: – Se é possível aproveitar estes minutos rápidos, em expansões de amor, por que desviá-los para a sombra das lamentações? Regozijemo-nos, filho, e trabalhemos incessantemente. Modifica a atitude mental. Conforta-me tua confiança em meu carinho, experimento sublime felicidade em tua ternura filial, mas não posso retroceder nas minhas experiências. Amemo-nos, agora, com o grande e sagrado amor divino. Aquelas palavras benditas me despertaram.

Guardava a impressão de fluidos vigorosos que partiam do sentimento materno, vitalizando-me o coração. Minha mãe me contemplava desvanecida, mostrando belo sorriso. Ergui-me, respeitoso, e beijei-a na fronte, sentindo-a mais amorosa e mais bela que nunca.

Confidências Consolou-me a palavra maternal, reorganizando-me as energias interiores. Minha mãe comentava o serviço como se fora uma bênção às dores e dificuldades, levando-as a crédito de alegrias e lições sublimes. Inesperado e inexprimível contentamento banhava-me o espírito. Aqueles conceitos alimentavam-me de estranho modo. Sentia-me outro, mais alegre, animado e feliz. –Oh!Minha mãe!–exclamei comovido–Deve ser maravilhosa a esfera da sua habitação! Que sublimes contemplações espirituais, que ventura!. Ela esboçou um sorriso significativo e obtemperou: – A esfera elevada, meu filho, requer, sempre, mais trabalho, maior abnegação. Não suponhas que tua mãe permaneça em visões beatificas, a distância dos deveres justos. Devo fazer-te sentir, no entanto, que minhas palavras não representam qualquer nota de tristeza, na situação em que me encontro. É antes revelação de responsabilidade necessária. Desde que voltei da Terra, tenho trabalhado intensamente pela nossa renovação espiritual. Muitas entidades, desencarnando, permanecem agarradas ao lar terrestre, a pretexto de muito amarem os que demoram no mundo carnal. Ensinaram-me aqui, todavia, que o verdadeiro amor, para transbordar em benefícios, precisa trabalhar sempre.

Desde minha vinda, então, procuro esforçar-me por conquistar o direito de ajudar aqueles que tanto amamos. – E meu pai? – perguntei – Onde está? Por que não veio com a senhora? Minha mãe estampou singular expressão no rosto e respondeu: – Ah! Teu pai! Teu pai!... Há doze anos que está numa zona de trevas compactas, no Umbral. Na Terra, sempre nos parecera fiel às tradições da família, arraigado ao cavalheirismo do alto comércio, a cujos quadros pertenceu até ao fim da existência, e ao fervor do culto externo, em matéria religiosa; mas, no fundo, era fraco e mantinha ligações clandestinas, fora do nosso lar. Duas delas estavam mentalmente ligadas a vasta rede de entidades maléficas, e, tão logo desencarnou o meu pobre Laerte, a passagem no Umbral lhe foi muito amarga, porque as desventuradas criaturas, a quem fizera muitas promessas, aguardavam-no ansiosas, prendendo-o de novo nas teias da ilusão. A princípio, ele quis reagir, esforçando-se por encontrar-me, mas não pôde compreender que após a morte do corpo físico a alma se encontra tal qual vive intrinsecamente.

Laerte, portanto, não percebeu minha presença espiritual, nem a assistência desvelada de outros amigos nossos. Tendo gasto muitos anos a fingir, viciara a visão espiritual, restringira o padrão vibratório, e o resultado foi achar-se tão-só na companhia das relações que cultivara irrefletidamente, pela mente e pelo coração. Os princípios da família e o amor ao nosso nome ocuparam algum tempo o seu espírito. De algum modo, lutou, repelindo as tentações; mas caiu afinal, novamente enredado na sombra, por falta de perseverança no bom e reto pensamento. Muitíssimo impressionado, perguntei: – Não há, porém, meios de subtraí-lo a tais abjeções? –Ah! Meu filho–elucidou a palavra materna –, eu o visito freqüentemente. Ele, porém, não me percebe. Seu potencial vibratório é ainda muito baixo. Tento atraí-lo ao bom caminho, pela inspiração, mas apenas consigo arrancar-lhe algumas lágrimas de arrependimento, de quando em quando, sem obter resoluções sérias. As infelizes, das quais se tornou prisioneiro, retiram-no às minhas sugestões. Venho trabalhando intensamente, anos a fio.

Solicitei o amparo de amigos em cinco núcleos diversos, de atividade espiritual mais elevada, inclusive aqui em "Nosso Lar". Certa vez, Clarêncio quase conseguiu atraí-lo ao Ministério da Regeneração, mas debalde. Não é possível acender luz em candeia sem óleo e sem pavio... Precisamos da adesão mental de Laerte, para conseguir levantá-lo e abrir-lhe a visão espiritual. No entanto, o pobrezinho permanece inativo em si mesmo, entre a indiferença e a revolta. Depois de longa pausa, suspirou, continuando: – Talvez não saibas ainda que tuas irmãs Clara e Priscila vivem hoje igualmente no Umbral, agarradas à crosta da Terra. Sou compelida a atender às necessidades de todos. Meu único auxílio direto repousava na cooperação afetuosa de tua irmã Luísa, aquela que partiu quando eras pequenino. Luísa esperou-me aqui muitos anos, foi meu braço forte nos trabalhos ásperos de amparo à família terrena.

Ultimamente, contudo, depois de lutar corajosa, a meu lado, em benefício de teu pai, de ti e das irmãs, tão grande é a perturbação dos nossos familiares, ainda na Terra, que voltou a semana passada, a fim de reencarnar entre eles, num gesto heróico de sublime renúncia. Espero, pois, que te restabeleças breve, para que possamos desdobrar atividades no bem. Assombravam-me as informações referentes a meu pai. Que espécie de lutas seriam as dele? Não parecia sincero praticante dos preceitos religiosos, não comungava todos os domingos? Enlevado com a dedicação maternal, perguntei: – A senhora, entretanto, auxilia o papai, não obstante a ligação dele com essas mulheres infames? – Não as classifiques assim; – ponderou minha mãe – dize, antes, meu filho, nossas irmãs doentes, ignorantes ou infelizes. São filhas de nosso Pai, igualmente. Não tenho feito intercessões apenas por Laerte, mas por elas também, e estou convencida de haver encontrado recursos para atraí-los todos ao meu coração. Espantou-me a grande manifestação de renúncia. Pensei subitamente em minha família direta. Senti o velho apego à esposa e aos filhos queridos.

Perante Clarêncio e Lísias, deliberava sempre recalcar sentimentos e calar indagações; mas o olhar materno encorajava-me. Alguma coisa me fazia sentir que minha mãe não se demoraria muito tempo a meu lado. Aproveitando o minuto que corria célere, interroguei: – A senhora, que tem acompanhado o papai devotadamente, nada poderá informar relativamente a Zélia e às crianças? Aguardo, ansioso, o instante de voltar a casa, a fim de auxiliá-los. Oh! Minhas imensas saudades devem ser igualmente compartilhadas por eles! Como deve sofrer minha desventurada esposa com esta separação!... Minha mãe esboçou um sorriso triste e acrescentou: – Tenho visitado meus netos periodicamente. Vão bem. E, depois de meditar alguns instantes, acentuou: – Não deves, porém, inquietar-te com o problema de auxílio à família. Prepara-te, em primeiro lugar, para que sejamos bem sucedidos; há questões que precisamos entregar ao Senhor, em pensamento, antes de trabalhar na solução que elas requerem. Quis insistir no assunto para colher pormenores, mas minha mãe não reincidiu nele, esquivando-se, delicada. A palestra estendeu-se ainda longa, envolvendo-me em sublime conforto.

Mais tarde, ela despediu-se. Curioso por saber como vivia até ali, pedi permissão para acompanhá-la. Afagou-me então, carinhosa, e disse: – Não venhas, meu filho. Esperam-me com urgência no Ministério da Comunicação, onde serei munida de recursos fluídicos para a jornada de regresso, nos gabinetes transformatórios. Além disso, preciso ainda avistar-me com o Ministro Célio, para agradecer a oportunidade desta visita. E, deixando-me n'alma duradoura impressão de felicidade, beijou-me e partiu.

Em Casa de Lísias Não se passaram muitos dias, após a inesperada visita de minha mãe, quando Lísias me veio buscar, a chamado do Ministro Clarêncio. Segui-o, surpreso. Recebido amavelmente pelo magnânimo benfeitor, esperava-lhe as ordens com enorme prazer. – Meu amigo – disse, afável –, doravante está autorizado a fazer observações nos diversos setores de nossos serviços, com exceção dos Ministérios de natureza superior. Henrique de Luna deu por terminado seu tratamento, na semana última, e é justo, agora, aproveite o tempo observando e aprendendo. Olhei para Lísias, como irmão que devia participar da minha felicidade indizível, naquele instante. O enfermeiro correspondeu-me ao olhar com intenso júbilo. Não cabia em mim de contente. Era o início de vida nova. De alguma sorte, poderia trabalhar, ingressando em escolas diferentes. Clarêncio, que parecia perceber minha intraduzível ventura, acentuou: – Tornando-se dispensável sua permanência no parque hospitalar, examinarei atentamente a possibilidade de sua localização em ambiente novo. Consultarei alguma de nossas instituições...

Lísias, porém, cortou-lhe a palavra, exclamando: – Se possível, estimaria recebê-lo em nossa casa, enquanto perdurar o curso de observações; lá, minha mãe o trataria como filho. Fitei o visitador num transporte de alegria. Clarêncio, por sua vez, também lhe endereçou um olhar de aprovação, murmurando: – Muito bem, Lísias! Jesus alegra-se conosco, sempre que recebemos um amigo no coração. Abracei o prestativo enfermeiro, sem poder traduzir meu agradecimento. A alegria às vezes nos emudece. – Guarde este documento – disse-me o atencioso Ministro do Auxílio, entregando-me pequena caderneta –, com ele, poderá ingressar nos Ministérios da Regeneração, do Auxílio, da Comunicação e do Esclarecimento, durante um ano. Decorrido esse tempo, veremos o que será possível fazer relativamente aos seus desejos. Instrua-se, meu caro. Não perca tempo. O interstício das experiências carnais deve ser bem aproveitado. Lísias deu-me o braço e saí, enlevado de prazer. Passados minutos, eis-nos à porta de graciosa construção, cercada de colorido jardim. – É aqui – exclamou o delicado companheiro. E, com expressão carinhosa, acrescentou: – O nosso lar, dentro de "Nosso Lar".

Ao tinido brando da campainha no interior, surgiu à porta simpática matrona. –Mãe! Mãe!... – gritou o enfermeiro, apresentando-me alegremente – este é o irmão que prometi trazer-te. – Seja bem-vindo, amigo! – exclamou a senhora, nobremente – Esta casa é sua. E abraçando-me: – Soube que sua mamãe não vive aqui. Nesse caso, terá em mim uma irmã, com funções maternais. Não sabia como agradecer a generosa hospitalidade. Ia ensaiar algumas frases, para demonstrar minha comoção e reconhecimento, mas a nobre matrona, revelando singular bom humor, adiantou-se, adivinhando-me os pensamentos: – Está proibido de falar em agradecimentos. Não o faça. Obrigar-me-ia a lembrar, de repente, muitas frases convencionais da Terra... Rimo-nos todos e murmurei, comovido: – Que o Senhor traduza meu agradecimento a todos em renovadas bênçãos de alegria e paz. Entramos. Ambiente simples e acolhedor. Móveis quase idênticos aos terrestres; objetos em geral, demonstrando pequeninas variantes. Quadros de sublime significação espiritual, um piano de notáveis proporções, descansando sobre ele grande harpa talhada em linhas nobres e delicadas.

Identificando-me a curiosidade, Lísias falou, prazenteiro: – Como vê, depois do sepulcro não encontrou ainda os anjos harpistas; mas aí temos uma harpa esperando por nós mesmos. – Oh! Lísias – atalhou a palavra materna, carinhosa –, não faças ironia. Não te recordas como o Ministério da União Divina recebeu o pessoal da Elevação, no ano passado, quando passaram por aqui alguns embaixadores da Harmonia? – Sim, mamãe; mas quero apenas dizer que os harpistas existem, e precisamos criar audição espiritual, para ouvi-los, esforçando-nos, por nossa vez, no aprendizado das coisas divinas. Em seguida aos conceitos obrigatórios de apresentação, com que relacionei minha procedência, vim a saber que a família de Lísias vivera em antiga cidade do Estado do Rio de Janeiro; que sua mãe chamava-se Laura e que, em casa, tinha consigo duas irmãs, Iolanda e Judite. Respirava-se, ali, doce e reconfortante intimidade. Não conseguia disfarçar meu contentamento e enorme alegria. Aquele primeiro contacto com a organização doméstica na colônia, enlevava-me. A hospitalidade, cheia de ternura, arrancava-me ao espírito notas de profunda emoção.

Em face do tiroteio de perguntas, Iolanda exibiu-me livros maravilhosos. Notando-me o interesse, a dona da casa advertiu: – Temos em "Nosso Lar", no que concerne à literatura, uma enorme vantagem; é que os escritores de má-fé, os que estimam o veneno psicológico, são conduzidos imediatamente para as zonas obscuras do Umbral. Por aqui não se equilibram, nem mesmo no Ministério da Regeneração, enquanto perseveram em semelhante estado d’alma. Não pude deixar de sorrir, continuando a observar os primores da arte fotográfica, nas páginas sob meus olhos. Em seguida, chamou-me Lísias para ver algumas dependências da casa, demorando-me na Sala de Banho, cujas instalações interessantes me maravilharam. Tudo simples, mas confortável. Não voltara a mim da admiração que me empolgava, quando a senhora Laura convidou à oração. Sentamo-nos, silenciosos, em torno de grande mesa. Ligado um grande aparelho, fez-se ouvir música suave. Era o louvor do momento crepuscular. Surgiu, ao fundo, o mesmo quadro prodigioso da Governadoria, que eu nunca me cansava de contemplar todas as tardes, no parque hospitalar. Naquele momento, porém, sentia-me dominado de profunda e misteriosa alegria. E vendo o coração azul desenhado ao longe, senti que minh’alma se ajoelhava no templo interior, em sublimes transportes de júbilo e reconhecimento.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.