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Capítulo 18 de 23
Parte 18 de 23
Nosso Lar · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz
Ouvindo a Senhora Laura O caso Tobias impressionara-me profundamente. Aquela casa, alicerçada em princípios novos de união fraterna, preocupavame como assunto obsidente. Afinal de contas, também ainda me sentia senhor do lar terrestre e avaliava quão difícil para mim próprio seria semelhante situação. Teria coragem de proceder como Tobias, imitando-lhe a conduta? Admitia que não. A meu ver, não seria capaz de aborrecer tanto a minha querida Zélia e jamais aceitaria tal imposição por parte de minha esposa. Aquelas observações da casa de Tobias torturavam-me o cérebro. Não conseguia encontrar esclarecimentos justos que pudessem satisfazer-me. Tão preocupado me senti que, no dia imediato, deliberei visitar Lísias, num momento de folga, ansioso de explicações da senhora Laura, a quem votava confiança filial. Recebido com enormes demonstrações de alegria, esperei o momento propício, em que pudesse ouvir a mãezinha de Lísias com calma e serenidade. Depois de se ausentarem os jovens, a caminho de entretenimentos habituais, expus à generosa amiga o problema que me apoquentava, não sem natural acanhamento.
Ela sorriu, com a grande experiência da vida, e começou a dizer: – Você fez bem em trazer a questão ao nosso estudo recíproco. Todo problema que torture a alma pede cooperação amiga para ser resolvido. E depois de ligeira pausa, prosseguiu, atenciosa: – O caso Tobias é apenas um dos inumeráveis que conhecemos aqui e noutros núcleos espirituais, que se caracterizam pelo pensamento elevado. – Mas, choca-nos o sentimento, não é verdade? – atalhei com interesse. – Quando nos atemos aos pontos de vista propriamente humanos, essas coisas dão até para escandalizar; entretanto, meu amigo, é necessário, agora, sobrepormos a tudo os princípios de natureza espiritual. Nesse sentido, André, precisamos compreender o espírito de seqüência que rege os quadros evolutivos da vida. Se atravessamos longa escala de animalidade, é justo que essa animalidade não desapareça de um dia para outro. Empregamos muitos séculos para emergir das camadas inferiores. O sexo participa do patrimônio de faculdades divinas, que demoramos a compreender.
Não será fácil para você, presentemente, a penetração, no sentido elevado, da organização doméstica que visitou ontem; entretanto, a felicidade, ali, é muito grande, pela atmosfera de compreensão que se criou entre as personagens do drama terrestre. Nem todos conseguem substituir cadeias de sombra por laços de luz em tão pouco tempo. – Mas temos nisso uma regra geral? – indaguei. Todo homem e toda mulher, que se tenham casado mais de uma vez, restabelecem aqui o núcleo doméstico, fazendo-se acompanhar de todas as afeições que hajam conhecido? Esboçando um gesto de grande paciência, a interlocutora explicou: –Não seja tão radicalista. É indispensável seguir devagar. Muita gente pode ter afeição e não ter compreensão. Não esqueça que nossas construções vibratórias são muito mais importantes que as da Terra. O caso Tobias é o caso de vitória da fraternidade real, por parte das três almas interessadas na aquisição de justo entendimento. Quem não se adaptar à lei de fraternidade e compreensão, logicamente não atravessará essas fronteiras.
As regiões obscuras do Umbral estão cheias de entidades que não resistiram a semelhantes provas. Enquanto odiarem, assemelham-se a agulhas magnéticas sob os mais antagônicos influxos; enquanto não entenderem a verdade, sofrerão o império da mentira e, conseqüentemente, não poderão penetrar as zonas de atividade superior. São incontáveis as criaturas que padecem longos anos, sem qualquer alívio espiritual, simplesmente porque se esquivam à fraternidade legítima. – E que acontece, então? – interroguei, valendo-me da pausa da interlocutora – se não são admitidas aos núcleos espirituais de aprendizado nobre, onde se localizarão as pobres almas em experiências dessa ordem? – Depois de padecimentos verdadeiramente infernais, pelas criações inferiores que inventam para si mesmas – redargüiu a mãe de Lísias –, vão fazer na experiência carnal o que não conseguiram realizar em ambiente estranho ao corpo terrestre. Concede-lhes a Bondade Divina o esquecimento do passado, na organização física do planeta, e vão receber, nos laços da consangüinidade, aqueles de quem se afastaram deliberadamente pelo veneno do ódio ou da incompreensão.
Daí se infere a oportunidade, cada vez mais viva, da recomendação de Jesus, quando nos aconselha imediata reconciliação com os adversários. O alvitre, antes de tudo, interessa a nós mesmos. Devemos observá-lo em proveito próprio. Quem sabe valerse do tempo, finda a experiência terrena, ainda que precise voltar aos círculos da carne, pode efetuar sublimes construções espirituais, com relação à paz da consciência, regressando à matéria grosseira, suportando menor bagagem de preocupações. Há muitos espíritos que gastam séculos tentando desfazer animosidades e antipatias na existência terrestre e refazendo-as após a desencarnação. O problema do perdão, com Jesus, meu caro André, é problema sério. Não se resolve em conversas. Perdoar verbalmente é questão de palavras; mas aquele que perdoa realmente, precisa mover e remover pesados fardos de outras eras, dentro de si mesmo. A essa altura, a senhora Laura silenciou, como quem precisava meditar na amplitude dos conceitos expendidos. Aproveitando o ensejo, aduziu: – A experiência do casamento é muito sagrada aos meus olhos.
A interlocutora não se surpreendeu com a afirmativa e obtemperou: – Aos espíritos ainda em simples experiência animal, nossa conversação não interessa; mas, para nós, que compreendemos a necessidade da iluminação com o Cristo, é imprescindível destacar, não só a experiência do casamento, mas toda experiência de sexo, por afetar profundamente a vida da alma. Ouvindo a observação, não deixei de corar, lembrando o meu passado de homem comum. Minha mulher fora para mim um objeto sagrado, que eu sobrepunha a todas as afeições; no entanto, ao ouvir a mãe de Lísias, ocorriam-me a mente as palavras antigas do Velho Testamento: "não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu jumento, nem o seu boi, nem coisa alguma que lhe pertença". Num instante, senti-me incapaz de prosseguir, estranhando o caso Tobias.
A interlocutora, porém, percebeu minha perturbação íntima e continuou: –Onde o esforço de consertar é tarefa de quase todos, deve haver lugar para muita compreensão e muito respeito à misericórdia divina, que nos oferece tantos caminhos a retificações justas. Toda experiência sexual da criatura que já recebeu alguma luz do espírito é acontecimento de enorme importância para si mesma. É por isso que o entendimento fraterno precede a qualquer trabalho verdadeiramente salvacionista. Ainda há pouco tempo ouvi um grande instrutor no Ministério da Elevação assegurar que, se pudesse, iria materializar-se nos planos carnais, a fim de dizer aos religiosos, em geral, que toda caridade, para ser divina, precisa apoiar-se na fraternidade. Nessa altura, a dona da casa convidou-me a visitar Eloísa, ainda recolhida ao interior doméstico, dando a entender que não desejava explanar outras minudências sobre o assunto; e depois de verificar as melhoras crescentes da jovem recém-chegada do planeta, voltei às Câmaras de Retificação, mergulhado em profundas cogitações. Agora não mais me preocupava a situação de Tobias, nem as atitudes de Hilda e Luciana. Impressionava-me, sim, a imponente questão da fraternidade humana.
Quem Semeia Colherá Eu não sabia explicar a grande atração pela visita ao departamento feminino das Câmaras de Retificação. Falei a Narcisa, do meu desejo, prontificando-se ela a satisfazer-me. – Quando o Pai nos convoca a determinado lugar – disse, bondosa, –, é que lá nos aguarda alguma tarefa. Cada situação, na vida, tem finalidade definida... Não deixe de observar este princípio em suas visitas aparentemente casuais. Desde que nossos pensamentos visem à prática do bem, não será difícil identificar as sugestões divinas. No mesmo dia, a enfermeira acompanhou-me, à procura de Nemésia, prestigiosa cooperadora naquele setor de serviço. Não foi difícil encontrá-la. Filas de leitos muitos alvos e bem cuidados exibiam mulheres, que mais se assemelhavam a frangalhos humanos. Aqui e ali, gemidos lancinantes; acolá, angustiosas exclamações. Nemésia, que se caracterizava pela mesma generosidade de Narcisa, falou com bondade: – O amigo deve estar agora habituado a estes cenários. No departamento masculino a situação é quase a mesma. E, fazendo um gesto significativo à companheira, acentuou: – Narcisa, faça o obséquio de acompanhar nosso irmão e mostrar os serviços que julgar convenientes ao aprendizado dele.
Fiquem à vontade. Minha amiga e eu comentávamos a vaidade humana, sempre atida aos prazeres físicos, enumerando observações e ensinamentos, quando atingimos o Pavilhão 7. Localizavam-se ali algumas dezenas de mulheres, em leitos separados, um a um, a regular distância. Estudava eu a fisionomia das enfermas, quando fixei alguém que me despertou mais viva atenção. Quem seria aquela mulher amargurada, de aparência original? Velhice que parecia prematura tipificava-lhe o semblante, em cujos lábios pairava um ricto, misto de ironia e resignação. Os olhos, embaciados e tristes, mostravam-se defeituosos. Memória inquieta, coração oprimido, em poucos instantes localizei-a no passado. Era Elisa. Aquela mesma Elisa que conhecera nos tempos de rapaz. Estava modificada pelo sofrimento, mas não podia ter quaisquer dúvidas. Lembrei, perfeitamente, o dia em que ela, humilde, penetrara em nossa casa levada por velha amiga de minha mãe, que aceitou as recomendações trazidas, admitindo-a para os serviços domésticos. A princípio, o ritmo comum, nada de extraordinário; depois, a intimidade excessiva, de quem abusa da faculdade de mandar e da condição de servir alguém.
Elisa pareceu-me bastante leviana e, quando a sós comigo, comentava sem escrúpulo certas aventuras da sua mocidade, agravando com isso a irreflexão de nossos pensamentos. Recordei o dia em que minha genitora me chamou a conselhos justos. Aquela intimidade, dizia, não ficava bem. Era razoável que dispensássemos à serva generosidade afetuosa, mas convinha pautar nossas relações com sadio critério. Entretanto, estouvadamente, levara eu muito longe a nossa camaradagem. Sob enorme angústia moral, abandonou Elisa, mais tarde, a nossa casa, sem coragem de me lançar em rosto qualquer acusação. E o tempo passou, reduzindo o fato, em meu pensamento, a episódio fortuito da existência humana. No entanto, o episódio, como alguma coisa da vida, estava também vivo. A minha frente tinha Elisa, agora, vencida e humilhada! Por onde vivera a mísera criatura, tão cedo atirada a doloroso capítulo de sofrimentos? Donde vinha? Ah!... naquele caso, não me defrontava o Silveira, perto de quem pudera repartir o débito com meu pai. A dívida, agora, era inteiramente minha.
Cheguei a tremer, envergonhado da exumação daquelas reminiscências, mas, qual criança ansiosa de perdão pelas faltas cometidas, dirigi-me a Narcisa, pedindo orientação. Eu mesmo me admirava da confiança que aquelas santas mulheres me inspiravam. Talvez nunca tivesse coragem de pedir ao Ministro Clarêncio as elucidações que pedira à mãe de Lísias e, possivelmente, outra seria minha conduta naquele instante, se tivesse Tobias a meu lado. Considerando que a mulher generosa e cristã é sempre mãe, voltei-me para a enfermeira, confiando mais que nunca. Narcisa, pelo olhar que me endereçou, parecia tudo compreender. Comecei a falar, contendo o pranto, mas, a certa altura da confissão penosa, minha amiga obtemperou: – Não precisa continuar. Adivinho o epílogo da história. Não se entregue a pensamentos destrutivos. Conheço o seu martírio moral, de experiência própria. Entretanto, se o Senhor permitiu que reencontrasse agora esta irmã, é que já o considera em condições de resgatar a dívida. Vendo a minha indecisão, prosseguiu: – Não tema. Aproxime-se dela e reconforte-a.
Todos nós, meu irmão, encontramos no caminho os frutos do bem ou do mal que semeamos. Esta afirmativa não é frase doutrinária, é realidade universal. Tenho colhido muito proveito de situações iguais a esta. Bem-aventurados os devedores em condições de pagar. E, percebendo-me a resolução firme de empreender o necessário ajuste de contas, acentuou: – Vamos, mas não se dê a conhecer, por enquanto. Faça-o, depois de beneficiá-la com êxito. Isso não será difícil, pelo fato de continuar ela em cegueira quase completa, temporariamente. Pelas forças que a envolvem, noto-lhe a triste característica das mães fracassadas e das mulheres de ninguém. Aproximamo-nos. Tomei a iniciativa da palavra confortadora. Elisa identificou-se, dando o próprio nome e prestando, de boa-vontade, outras informações. Havia três meses que fora recolhida às Câmaras de Retificação. Interessado em castigar a mim mesmo, diante de Narcisa, para que a lição me penetrasse n’alma com caracteres indeléveis, perguntei: – E sua história, Elisa? Deve ter sofrido muito...
Sentindo a inflexão afetuosa da pergunta, sorriu, muito resignada, e desabafou: – Para que lembrar coisas tão tristes? – As experiências dolorosas ensinam sempre – objetei. A infeliz, que apresentava profunda modificação moral, meditou alguns momentos, como quem concatenava idéias, e falou: – Minha experiência foi a de todas as mulheres doidivanas que trocam o pão bendito do trabalho pelo fel venenoso da ilusão. Nos tempos da mocidade distante, como filha de um lar paupérrimo, vali-me do emprego em casa de abastado comerciante, onde a vida me impôs imensa transformação. Esse negociante tinha um filho, tão jovem quanto eu, e depois da intimidade estabelecida entre nós, quando toda a reação de minha parte seria inútil, esqueci criminosamente que Deus reserva o trabalho a todos os que amem a vida sã, por mais faltosos que tenham sido, e entreguei-me a experiências dolorosas, que não preciso comentar. Conheci, de perto, o prazer, o luxo, o conforto material e, em seguida, o horror de mim mesma, a sífilis, o hospital, o abandono de todos, as tremendas desilusões que culminaram na cegueira e na morte do corpo.
Errei, muito tempo, em terrível desespero, mas, um dia, tanto roguei o amparo da Virgem de Nazaré, que mensageiros do bem me recolheram por amor ao seu nome, trazendo-me a esta casa de abençoada consolação. Comovidíssimoaté às lágrimas, perguntei: – E ele? Como se chama o homem que a fez tão infeliz? Ouvia-a, então, pronunciar meu nome e de meus pais. – E você o odeia? – indaguei, acabrunhado. Ela sorriu tristemente e respondeu: – No período do meu sofrimento anterior, amaldiçoava-lhe a lembrança, nutrindo por ele um ódio mortal; mas a irmã Nemésia modificou-me. Para odiá-lo, tenho de odiar a mim mesma. No meu caso, a culpa deve ser repartida. Não devo, pois, recriminar ninguém. Aquela humildade sensibilizou-me. Tomei-lhe a destra sobre a qual, sem que o pudesse evitar, rolou uma lágrima de arrependimento e remorso. – Ouça, minha amiga – falei com emoção forte –, também eu me chamo André e preciso ajudá-la. Conte comigo, doravante. – E sua voz – disse Elisa, ingenuamente – parece a dele. – Pois bem – continuei, comovido –, até agora, não tenho propriamente uma família em "Nosso Lar".
Mas você será aqui minha irmã do coração. Conte com o meu devotamento de amigo. No semblante da sofredora, um grande sorriso parecia uma grande luz. – Como lhe sou grata! – disse ela enxugando as lágrimas – há quantos anos ninguém me fala assim, nesse tom familiar, dando-me o consolo da amizade sincera!... Que Jesus o abençoe. Nesse instante, quando minhas lágrimas se fizeram mais abundantes, Narcisa tomou-me as mãos, maternalmente, e repetiu: – Que Jesus o abençoe.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.