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Capítulo 13 de 23

Parte 13 de 23

Nosso Lar · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

A Visão de Francisco Enquanto Narcisa consolava o doente aflito, fui informado de que me chamavam ao aparelho de comunicações urbanas. Era a senhora Laura que pedia notícias. De fato, esquecera-me de avisá-la sobre as deliberações de serviço noturno. Pedi desculpas à minha benfeitora e forneci rápido relatório verbal da nova situação. Através do fio, a genitora de Lísias parecia exultar, compartilhando meu justo contentamento. Ao termo de nossa ligeira conversa, disse, bondosa: – Muito bem, meu filho! Apaixone-se pelo seu trabalho, embriague-se de serviço útil. Somente assim, atenderemos à nossa edificação eterna. Lembre, porém, que esta casa também lhe pertence. Aquelas palavras encheram-me de nobres estímulos. Regressando ao contacto direto com os enfermos, notei Narcisa a lutar heroicamente por acalmar um rapaz que revelava singulares distúrbios. Procurei ajudá-la. O pobrezinho, de olhos perdidos no espaço, gritava, espantadiço: – Acuda-me, por amor de Deus! Tenho medo, medo!... E, olhar esgazeado dos que experimentam profundas sensações de pavor, acentuava: – Irmã Narcisa, lá vem "ele", o monstro! Sinto os vermes novamente! "Ele"! "Ele"!... Livre-me "dele" irmã!

Não quero, não quero!... – Calma, Francisco – pedia a companheira dos infortunados –, você vai libertar-se, ganhar muita serenidade e alegria, mas depende do seu esforço. Faça de conta que a sua mente é uma esponja embebida em vinagre. É necessário expelir a substância azeda. Ajudá-lo-ei a fazê-lo, mas o trabalho mais intenso cabe a você mesmo. O doente mostrava boa-vontade, acalmava-se enquanto ouvia os conceitos carinhosos, mas volvia à mesma palidez de antes, prorrompendo em novas exclamações. – Mas, irmã, repare bem... "ele" não me deixa. Já voltou a atormentar-me! Veja, veja!... – Estou vendo-o, Francisco – respondia ela, cordata –, mas é indispensável que você me ajude a expulsá-lo. – Este fantasma diabólico!... – acrescentava a chorar como criança, provocando compaixão. – Confie em Jesus e esqueça o monstro – dizia a irmã dos infelizes, piedosamente–, vamos ao passe. O fantasma fugirá de nós. E aplicou-lhe fluidos salutares e reconfortadores, que Francisco agradeceu, manifestando imensa alegria no olhar. – Agora – disse ele, finda a operação magnética –, estou mais tranqüilo. Narcisa ajeitou-lhe os travesseiros, mandou que uma serva lhe trouxesse água magnetizada.

Aquela exemplificação da enfermeira edificava-me. O bem, como o mal, em toda parte estabelece misterioso contágio. Observando-me o sincero desejo de aprender, Narcisa aproximou-se mais, mostrando-se disposta a iniciar-me nos sublimes segredos do serviço. – A quem se refere o doente? – indaguei, impressionado. Está, porventura, assediado por alguma sombra invisível ao meu olhar? A velha servidora das Câmaras de Retificação sorriu carinhosamente e falou: – Trata-se do seu próprio cadáver. – Que me diz? – tornei, espantado. – O pobrezinho era excessivamente apegado ao corpo físico e veio para a esfera espiritual após um desastre, oriundo de pura imprudência. Esteve, durante muitos dias, ao lado dos despojos, em pleno sepulcro, sem se conformar com situação diversa. Queria firmemente levantar o corpo hirto, tal o império da ilusão em que vivera e, nesse triste esforço, gastou muito tempo. Amedrontava-se com a idéia de enfrentar o desconhecido e não conseguia acumular nem mesmo alguns átomos de desapego às sensações físicas. Não valeram socorros das esferas mais altas, porque fechava a zona mental a todo pensamento relativo à vida eterna.

Por fim, os vermes fizeram-lhe experimentar tamanhos padecimentos que o pobre se afastou do túmulo, tomado de horror. Começou, então, a peregrinar nas zonas inferiores do Umbral; no entanto, os que lhe foram pais na Terra possuem aqui grandes créditos espirituais e rogaram sua internação na colônia. Trouxeram-no os Samaritanos, quase à força. Seu estado, contudo, é ainda tão grave que não poderá ausentar-se, tão cedo, das Câmaras de Retificação. O amigo, que lhe foi genitor na carne, está presentemente em arriscada missão, distante de "Nosso Lar". – E vem visitar o doente? – perguntei. – Já veio duas vezes e experimentei grande comoção, observando-lhe o sofrimento, discreto. Tamanha é a perturbação do rapaz, que não reconheceu o pai generoso e dedicado. Gritava, aflito, mostrando a demência dolorosa. O genitor, que veio vê-lo em companhia do Ministro Pádua, do Ministério da Comunicação, pareceu muito superior à condição humana, enquanto se encontrava com o nobre amigo que obtivera hospitalidade para o filho infeliz. Demoraram-se bastante, comentando a situação espiritual dos recém-chegados dos círculos carnais.

Mas, quando o Ministro Pádua se retirou, compelido por circunstâncias de serviço, o pai do rapaz me pediu lhe perdoasse o gesto humano e ajoelhou-se diante do enfermo. Tomou-lhe as mãos, ansioso, como se estivesse a transmitir vigorosos fluidos vitais, e beijou-lhe a face, chorando copiosamente. Não pude conter as lágrimas e retirei-me, deixando-os a sós. Não sei o que se passou, em seguida, entre ambos; mas notei que Francisco, desde esse dia, melhorou bastante. A demência total reduziu-se a crises que são, agora, cada vez mais espaçadas. – Como tudo isso comove! – exclamei sob forte impressão. Entretanto, como pode a imagem do cadáver persegui-lo? – A visão de Francisco – esclareceu a velhinha, atenciosa –, é o pesadelo de muitos espíritos depois da morte carnal. Apegam-se demasiadamente ao corpo, não enxergam outra coisa, nem vivem senão dele e para ele, votando-lhe verdadeiro culto, e, vindo o sopro renovador, não o abandonam. Repelem quaisquer idéias de espiritualidade e lutam desesperadamente pelo conservar. Surgem, no entanto, os vermes vorazes e os expulsam. A essa altura, horrorizam-se do corpo e adotam nova atitude extremista.

A visão do cadáver, porém, como forte criação mental deles mesmos, atormenta-os no imo da alma. Sobrevêm perturbações e crises, mais ou menos longas, e muito sofrem até à eliminação integral do seu fantasma. Notando-me a comoção, Narcisa acrescentou: – Graças ao Pai, venho aproveitando bastante, nestes últimos anos de serviço. Ah! Como é profundo o sono espiritual da maioria de nossos irmãos na carne! Isto, porém, deve preocupar-nos, mas não deve ferir-nos. A crisálida cola-se à matéria inerte, mas a borboleta alçará o vôo; a semente é quase imperceptível e, no entanto, o carvalho será um gigante. A flor morta volve à terra, mas o perfume vive no céu. Todo embrião de vida parece dormir. Não devemos esquecer estas lições. E Narcisa calou-se, sem que me atrevesse a interromper-lhe o silêncio.

Herança e Eutanásia Ainda não voltara a mim da profunda surpresa, quando Salústio se aproximou, informando a Narcisa: – Nossa irmã Paulina deseja ver o pai enfermo, no Pavilhão 5. Antes de atender, julguei razoável consultá-la, porque o doente continua em crise muito aguda. Mostrando gestos de bondade que lhe eram característicos, Narcisa acentuou: – Mande-a entrar sem demora. Ela tem permissão da Ministra, visto estar consagrando o tempo disponível em tarefa de reconciliação dos familiares. Enquanto o mensageiro se despedia, apressado, a enfermeira bondosa acrescentava, dirigindo-se a mim: – Você verá que filha dedicada! Não decorrera um minuto e Paulina estava diante de nós, esbelta e linda. Trajava uma túnica muito leve, tecida em seda luminosa. Angelical beleza caracterizava-lhe os traços fisionômicos, mas os olhos denunciavam extrema preocupação. Narcisa apresentou-a delicadamente e, sentindo talvez que poderia confiar na minha presença, perguntou, algo inquieta: – E papai, minha amiga? – Um pouco melhor – esclareceu a enfermeira –, no entanto, ainda acusa desequilíbrios fortes. – É lamentável – retrucou a jovem –, nem ele, nem os outros cedem no estado mental a que se recolheram.

Sempre o mesmo ódio e a mesma displicência. Narcisa nos convidou a acompanhá-la e, minutos após, tinha diante de mim um velho de fisionomia desagradável. Olhar duro, cabeleira desgrenhada, rugas profundas, lábios retraídos, inspirava mais piedade que simpatia. Procurei, contudo, vencer as vibrações inferiores que me dominaram, a fim de observar, acima do sofredor, o irmão espiritual. Desapareceu a impressão de repugnância, aclarando-seme os raciocínios. Apliquei a lição a mim mesmo. Como teria chegado, por minha vez, ao Ministério do Auxílio? Deveria ser horrível meu semblante de desesperado. Quando examinamos a desventura de alguém, lembrando as próprias deficiências, há sempre asilo para o amor fraterno, no coração. O velho enfermo não teve uma palavra de ternura para a filha que o saudou carinhosa. Através do olhar, que evidenciava aspereza e revolta, semelhava-se a uma fera humana enjaulada. – Papai, o senhor sente-se melhor? – perguntou com extremo carinho filial. – Ai!... Ai!... – gritou o doente em voz estentórica – Não posso esquecer o infame, não posso descansar o pensamento...

Ainda o vejo a meu lado, ministrando-me o veneno mortal!... – Não diga isso, papai – pediu a moça delicadamente –, lembre-se de que Edelberto entrou em nossa casa como filho, enviado por Deus. – Meu filho? – gritou o infeliz – Nunca! Nunca!... É criminoso sem perdão, filho do inferno!... Paulina falava, agora, com os olhos rasos d’água. – Ouçamos, papai, a lição de Jesus, que recomenda nos amemos uns aos outros. Atravessamos experiências consangüíneas, na Terra, para adquirir o verdadeiro amor espiritual. Aliás, é indispensável reconhecer que só existe um Pai realmente eterno, que é Deus; mas o Senhor da Vida nos permite a paternidade ou a maternidade no mundo, a fim de aprendermos a fraternidade sem mácula. Nossos lares terrestres são cadinhos de purificação dos sentimentos ou templos de união sublime, a caminho da solidariedade universal. Muito lutamos e padecemos, até adquirir o verdadeiro título de irmão. Somos todos uma só família, na Criação, sob a bênção providencial de um Pai único. Ouvindo-lhe a voz muito meiga, o doente se pôs a chorar convulsivamente. – Perdoe Edelberto, papai!

Procure sentir nele, não o filho leviano, mas o irmão necessitado de esclarecimento. Estive em nossa casa, ainda hoje, lá observando extremas perturbações. Daqui, deste leito, o senhor envolve todos os nossos em fluidos de amargura e incompreensão e eles lhe fazem o mesmo por idêntico modo. O pensamento, em vibrações sutis, alcança o alvo, por mais distante que esteja. A permuta de ódio e desentendimento causa ruína e sofrimento nas almas. Mamãe recolheu-se, faz alguns dias, ao hospício, ralada de angústia. Amália e Cacilda entraram em luta judicial com Edelberto e Agenor, em virtude dos grandes patrimônios materiais que o senhor ajuntou nas esferas da carne. Um quadro terrível, cujas sombras poderiam diminuir, se sua mente vigorosa não estivesse mergulhada em propósitos de vingança. Aqui, vemo-lo em estado grave; na Terra, mamãe louca e os filhos perturbados, odiando-se entre si. Em meio de tantas mentes desequilibradas, uma fortuna de um milhão e quinhentos mil cruzeiros.

E que vale isso, se não há um átomo de felicidade para ninguém? – Mas eu leguei enorme patrimônio à família – atalhou o infeliz, rancorosamente –, desejando o bem-estar de todos... Paulina não o deixou terminar, retomando a palavra: – Nem sempre sabemos interpretar o que seja benefício, no capítulo da riqueza transitória. Se o senhor assegurasse o futuro dos nossos, garantindo-lhes a tranqüilidade moral e o trabalho honesto, seu esforço seria de valiosa previdência; mas, às vezes, papai, costumamos amealhar o dinheiro por espírito de vaidade e ambição. Querendo viver acima dos outros, não nos lembramos disso, senão nas expressões externas da vida. São raros os que se preocupam em ajuntar conhecimentos nobres, qualidades de tolerância, luzes de humildade, bênçãos de compreensão. Impomos a outrem os nossos caprichos, afastamo-nos dos serviços do Pai, esquecemos a lapidação do nosso espírito. Ninguém nasce no planeta simplesmente para acumular moedas nos cofres ou valores nos bancos.

É natural que a vida humana peça o concurso da previdência e é justo que não prescinda da contribuição de mordomos fiéis, que saibam administrar com sabedoria; mas ninguém será mordomo do Pai com avareza e propósitos de dominação. Tal gênero de vida arruinou nossa casa. Debalde, noutro tempo, busquei levar socorro espiritual ao ambiente doméstico. Enquanto o senhor e mamãe se sacrificavam por aumentar haveres, Amália e Cacilda esqueceram o serviço útil e, como preguiçosas da banalidade social, encontraram ociosos que as desposaram, visando a vantagens financeiras. Agenor repudiou o estudo sério, entregando-se a más companhias. Edelberto conquistou o título de médico, alheando-se por completo da Medicina e exercendo-a tão-somente de longe em longe à maneira do trabalhador que visita o serviço por curiosidade. Todos arruinaram belas possibilidades espirituais, distraídos pelo dinheiro fácil e apegados à idéia de herança. O enfermo tomou uma expressão de pavor e acrescentou: – Maldito Edelberto! Filho criminoso e ingrato! Matou-me sem piedade, quando ainda necessitava regularizar minhas disposições testamentárias! Malvado!... Malvado!... – Cale-se, papai!

Tenha compaixão de seu filho, perdoe e esqueça!... O velho, porém, continuou a praguejar em voz alta. A jovem preparava-se para discutir, mas Narcisa endereçou-lhe significativo olhar, chamando Salústio para socorrer o doente em crise. Calou-se Paulina, acariciando a fronte paterna e contendo, a custo, as lágrimas. Daí a instante, retirava-me em companhia de ambas, sob forte impressão. As duas amigas trocaram confidências, ainda por alguns minutos, despedindo-se Paulina a evidenciar muita generosidade nas frases gentis, mas muita tristeza no olhar afogado em justa preocupação. Voltando à intimidade, Narcisa disse, bondosa: – Os casos de herança, em regra, são extremamente complicados. Com raras exceções, acarretam enorme peso a legadores e legatários. Neste caso, porém, vemos não só isso, mas também a eutanásia. A ambição do dinheiro criou, em toda a família de Paulina, esquisitices e desavenças. Pais avarentos possuem filhos esbanjadores. Fui a casa de nossa amiga, quando o irmão, o Edelberto, médico de aparência distinta, empregou, no genitor quase moribundo, a chamada "morte suave". Esforçamo-nos por o evitar, mas foi tudo em vão.

O pobre rapaz desejava, de fato, apressar o desenlace, por questões de ordem financeira, e aí temos agora a imprevidência e o resultado o ódio e a moléstia. E com expressivo gesto, Narcisa rematou: – Deus criou seres e céus, mas nós costumamos transformar-nos em espíritos diabólicos, criando nossos infernos individuais.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.