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Capítulo 15 de 23
Parte 15 de 23
Nosso Lar · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz
Curiosas Observações Poucos minutos antes de meia-noite, Narcisa permitiu minha ida ao grande portão das Câmaras. Os Samaritanos deviam estar nas vizinhanças. Era imprescindível observar-lhes a volta, para tomar providências. Com que emoção tornei ao caminho cercado de árvores frondosas e acolhedoras! Aqui, troncos que recordavam o carvalho vetusto da Terra; além, folhas caprichosas lembrando a acácia e o pinheiro. Aquele ar embalsamado figurava-se-me uma bênção. Nas Câmaras, apesar das janelas amplas, não experimentara tamanha impressão de bem-estar. Assim caminhava, silencioso, sob as frondes carinhosas. Ventos frescos agitavam-nas de manso, envolvendo-me em sensações de repouso. Sentindo-me só, ponderei os acontecimentos que me sobrevieram, desde o primeiro encontro com o Ministro Clarêncio. Onde estaria a paragem de sonho? Na Terra, ou naquela colônia espiritual? Que teria sucedido a Zélia e aos filhinhos? Por que razão me prestavam ali tão grande esclarecimentos sobre as mais variadas questões da vida, omitindo, contudo, qualquer notícia pertinente ao meu antigo lar? Minha própria mãe me aconselhara o silêncio, abstendo-se de qualquer informação direta.
Tudo indicava a necessidade de esquecer os problemas carnais, no sentido de renovar-me intrinsecamente, e, no entanto, penetrando os recessos do ser, encontrava a saudade viva dos meus. Desejava ardentemente rever a esposa muito amada, receber de novo o beijo dos filhinhos... Por que decisões do destino estávamos agora separados, como se eu fosse um náufrago em praia desconhecida? Simultaneamente, idéias generosas confortavam-me o íntimo. Não era eu o náufrago abandonado. Se minha experiência podia classificar-se como naufrágio, não devia o desastre senão a mim mesmo. Agora que observava em "Nosso Lar" vibrações novas de trabalho intenso e construtivo, admirava-me de haver perdido tanto tempo no mundo em frioleiras de toda sorte. Em verdade, muito amara a companheira de lutas e, sem dúvida, dispensara aos filhinhos ternuras incessantes; mas, examinando desapaixonadamente minha situação de esposo e pai, reconhecia que nada criara de sólido e útil no espírito dos meus familiares. Tarde verificava esse descuido.
Quem atravessa um campo sem organizar sementeira necessária ao pão e sem proteger a fonte que sacia a sede, não pode voltar com a intenção de abastecer-se. Tais pensamentos instalavam-se-me no cérebro com veemência irritante. Ao deixar os círculos carnais, encontrara as penúrias da incompreensão. E que teria sucedido à esposa e aos filhinhos, deslocados da estabilidade doméstica para as sombras da viuvez e da orfandade? Inútil interrogação. O vento calmo parecia sussurrar concepções grandiosas, como que desejoso de me despertar a mente para estados mais altos. Torturavam-me as inquirições internas, mas, prendendo-me então aos imperativos do dever justo, aproximei-me da grande cancela, investigando além, através dos campos de cultura. Tudo luar e serenidade, céu sublime e beleza silenciosa! Extasiando-me na contemplação do quadro, demorei alguns minutos entre a admiração e a prece. Instantes depois, divisei ao longe dois vultos enormes que me impressionaram vivamente. Pareciam dois homens de substância indefinível, semiluminosa.
Dos pés e dos braços pendiam filamentos estranhos, e da cabeça como que se escapava um longo fio de singulares proporções. Tive a impressão de identificar dois autênticos fantasmas. Não suportei. Cabelos eriçados, voltei apressadamente ao interior. Inquieto e amedrontado, expus a Narcisa a ocorrência, notando que ela mal continha o riso. – Ora essa, meu amigo – disse, por fim, mostrando bom humor –, não reconheceu aquelas personagens? Fundamente desapontado, nada consegui responder, mas Narcisa continuou: – Também eu, por minha vez, experimentei a mesma surpresa, em outros tempos. Aqueles são os nossos próprios irmãos da Terra. Trata-se de poderosos espíritos que vivem na carne em missão redentora e podem, como nobres iniciados da Eterna Sabedoria, abandonar o veículo corpóreo, transitando livremente em nossos planos. Os filamentos e fios que observou são singularidades que os diferenciam de nós outros. Não se arreceie, portanto. Os encarnados, que conseguem atingir estas paragens, são criaturas extraordinariamente espiritualizadas, apesar de obscuras ou humildes na Terra. E, encorajando-me bondosamente, acentuou: – Vamos até lá. Temos quarenta minutos depois de meia-noite. Os Samaritanos não podem tardar.
Satisfeito, voltei com ela ao grande portão. Lobrigava-se, ainda, a enorme distância, os dois vultos que se afastavam de "Nosso Lar", tranqüilamente. A enfermeira contemplou-os, fez um gesto expressivo de reverência e exclamou: – Estão envolvidos em claridade azul. Devem ser dois mensageiros muito elevados na esfera carnal, em tarefa que não podemos conhecer. Ali estivemos, minutos longos, parados na contemplação dos campos silenciosos. Em dado momento, porém, a bondosa amiga indicou um ponto escuro no horizonte enluarado, e observou: – Lá vêm eles! Identifiquei a caravana que avançava em nossa direção, sob a claridade branda do céu. De repente, ouvi o ladrar de cães, a grande distância. – Que é isso? – interroguei, assombrado. – Os cães – disse Narcisa – são auxiliares preciosos nas regiões obscuras do Umbral, onde não estacionam somente os homens desencarnados, mas também verdadeiros monstros, que não cabe agora descrever. A enfermeira, em voz ativa, chamou os servos distantes, enviando um deles ao interior, transmitindo avisos. Fixei atentamente o grupo estranho que se aproximava devagarinho.
Seis grandes carros, formato diligência, precedidos de matilhas de cães alegres e bulhentos, eram tirados por animais que, mesmo de longe, me pareceram iguais aos muares terrestres. Mas a nota mais interessante era os grandes bandos de aves, de corpo volumoso, que voavam a curta distância, acima dos carros, produzindo ruídos singulares. Dirigi-me, incontinenti, a Narcisa, perguntando: – Onde o aeróbus? Não seria possível utilizá-lo no Umbral? Dizendo-me que não, indaguei das razões. Sempre atenciosa, a enfermeira explicou: – Questão de densidade da matéria. Pode você figurar um exemplo com a água e o ar. O avião que fende a atmosfera do planeta não pode fazer o mesmo na massa equórea. Poderíamos construir determinadas máquinas como o submarino; mas, por espírito de compaixão pelos que sofrem, os núcleos espirituais superiores preferem aplicar aparelhos de transição.
Além disso, em muitos casos, não se pode prescindir da colaboração dos animais. – Como assim? – perguntei, surpreso. – Os cães facilitam o trabalho, os muares suportam cargas pacientemente e fornecem calor nas zonas onde se faça necessário; e aquelas aves – acrescentou, indicando-as no espaço –, que denominamos íbis viajores, são excelentes auxiliares dos Samaritanos, por devorarem as formas mentais odiosas e perversas, entrando em luta franca com as trevas umbralinas. Vinha, agora, mais próxima a caravana. Narcisa fixou-me com bondosa atenção, rematando: – Mas, no momento, o dever não comporta minudências informativas. Poderá colher valiosas lições sobre os animais, não aqui, mas no Ministério do Esclarecimento, onde se localizam os parques de estudo e experimentação. E distribuindo ordens de serviço, aqui e acolá, preparava-se para receber novos doentes do espírito.
Os Recém-Chegados do Umbral Estacaram as matilhas de cães ao nosso lado, conduzidas por trabalhadores de pulso firme. Daí a minutos, estávamos todos enfrentando os enormes corredores de ingresso às Câmaras de Retificação. Servidores movimentavam-se apressados. Alguns doentes eram levados ao interior, sob amparo forte. Não somente Narcisa, Salústio e outros companheiros se lançavam à lide, cheios de amor fraternal, mas também os Samaritanos mobilizavam todas as energias no afã de socorrer. Alguns enfermos portavam-se com humildade e resignação; outros, todavia, reclamavam em altas vozes. Atacando igualmente o serviço, notei que uma velhota procurava descer do último carro, com muita dificuldade. Observando-me perto, exclamou, espantada: – Tenha piedade, meu filho! Ajude-me por amor de Deus!... Aproximei-me com interesse. – Cruzes! Credo! – continuou benzendo-se – graças à Providência Divina, afastei-me do purgatório... Ah! Que malditos demônios lá me torturavam! Que inferno! Mas os Anjos do Senhor sempre chegaram. Ajudei-a a descer, tomado de extrema curiosidade. Pela primeira vez, ouvia referências ao inferno e ao purgatório, partidas de uma boca que me parecia calma e ajuizada.
Talvez obedecendo mais à malícia que me era peculiar, interroguei: – Vem, assim, de tão longe? Falando desse modo, afetei ares de profundo interesse fraternal, como costumava fazer na Terra, olvidando por completo, naquele instante, as sábias recomendações da mãe de Lísias. A pobre criatura, percebendo o meu interesse, começou a explicar-se: – De grande distância. Fui, na Terra, meu filho, mulher de muito bons costumes; fiz muita caridade, rezei incessantemente como sincera devota. Mas, quem pode com as artes de Satanás? Ao sair do mundo, vi-me cercada de seres monstruosos, que me arrebataram em verdadeiro torvelinho. A princípio implorei a proteção dos Arcanjos Celestes. Os espíritos diabólicos, entretanto, conservaram-me enclausurada. Mas eu não perdia a esperança de ser libertada, de um momento para outro, porque deixei uns dinheiros para celebração de missas mensais por meu descanso. Atendendo ao impulso vicioso de perseguir assuntos que nada tinham que ver comigo, insisti: – Como são interessantes as suas observações! Mas não procurou saber as razões de sua demora naquelas paragens? – Absolutamente não – respondeu, persignando-se.
Como lhe disse, enquanto estive na Terra, fiz o possível por ser uma boa religiosa. Sabe o senhor que ninguém está livre de pecar. Meus escravos provocavam rixas e contendas e, embora a fortuna me proporcionasse vida calma, de quando em quando era necessário aplicar disciplinas. Os leitores eram excessivamente escrupulosos e eu não podia hesitar nas ordens de cada dia. Não raro algum negro morria no tronco para escarmento geral; outras vezes, era obrigada a vender as mães cativas, separando-as dos filhos, por questões de harmonia doméstica. Nessas ocasiões, sentia morder-me a consciência, mas confessava-me todos os meses, quando o padre Amâncio visitava a fazenda e, depois da comunhão, estava livre dessas faltas veniais, porque, recebendo a absolvição no confessionário e ingerindo a sagrada partícula, estava novamente em dia com todos os meus deveres para com o mundo e com Deus. A essa altura, escandalizado com a exposição, comecei a doutrinar: – Minha irmã, essa razão de paz espiritual era falsa. Os escravos eram igualmente nossos irmãos. Perante o Pai Eterno, os filhinhos dos servos são iguais aos dos senhores.
Ouvindo-me, ela bateu o pé autoritariamente e falou, irritada: – Isso é que não! Escravo é escravo. Se assim não fora, a religião nos ensinaria o contrário. Pois se havia cativos em casa de bispos, quanto mais em nossas fazendas? Quem haveria de plantar a terra, senão eles? E creia que sempre lhes concedi minhas senzalas como verdadeira honra!... Em minha fazenda nunca vieram ao terreiro das visitas, senão para cumprir minhas ordens. Padre Amâncio, nosso virtuoso sacerdote, disse-me na confissão que os africanos são os piores entes do mundo, nascidos exclusivamente para servirem a Deus no cativeiro. Pensa, então, que me poderia encher de escrúpulos no trato com essa espécie de criaturas? Não tenha dúvida; os escravos são seres perversos, filhos de Satã! Chego a admirar-me da paciência com que tolerei essa gente na Terra. E devo declarar que saí quase inesperadamente do corpo, por me haver chocado a determinação da Princesa, libertando esses bandidos. Decorreram muitos anos, mas lembro-me perfeitamente. Achava-me adoentada havia muitos dias e, quando padre Amâncio trouxe a nova da cidade, piorei de súbito.
Como poderíamos ficar no mundo, vendo esses criminosos em liberdade? Certo, eles desejariam escravizar-nos por sua vez, e a servir a gente dessa laia, não seria melhor morrer? Recordo que me confessei com dificuldade, recebi as palavras de conforto do nosso sacerdote, mas parece que os demônios são também africanos e viviam à espreita, sendo eu obrigada a sofrer-lhes a presença até hoje... – E quando veio? – perguntei. – Em maio de 1888. Experimentei estranha sensação de espanto. A interlocutora fixou o olhar embaciado no horizonte e falou: – É possível que meus sobrinhos tenham esquecido de pagar as missas; entretanto, deixei a disposição em testamento. Ia responder, convocando-lhe os raciocínios à zona superior, fornecendolhe idéias novas de fraternidade e fé, mas Narcisa aproximou-se e disse-me, bondosa: – André, meu amigo, você esqueceu que estamos providenciando alívio a doentes e perturbados? Que proveito lhe advém de semelhantes informações? Os dementes falam de maneira incessante e quem os ouve, gastando interesse espiritual, pode não estar menos louco.
Aquelas palavras foram ditas com tanta bondade que corei de vergonha, sem coragem de a elas responder. – Não se impressione – exclamou a enfermeira delicadamente –, atendamos aos irmãos perturbados. – Mas, a senhora é de opinião que estou nesse número? –perguntou a velhota, melindrada. Narcisa, porém, demonstrando suas excelentes qualidades de psicóloga, tomou expressão de fraternidade carinhosa e exclamou: – Não, minha amiga, não digo isso; creio, porém, que deve estar muito cansada; seu esforço purgatorial foi muito longo... – Justamente, justamente – esclareceu a recém-chegada do Umbral –, não imagina o que tenho sofrido, torturada pelos demônios... A pobre criatura ia continuar repetindo a mesma história, mas Narcisa, ensinando-me como proceder em tais circunstâncias, atalhou: – Não comente o mal. Já sei tudo que lhe ocorreu de amargo e doloroso. Descanse, pensando que vou atendê-la. E, no mesmo instante, dirigiu-se a um dos auxiliares, sem afetação: – Você, Zenóbio, vá ao departamento feminino e chame Nemésia, em meu nome, para que conduza mais uma irmã aos leitos de tratamento.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.