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Capítulo 22 de 23
Parte 22 de 23
Nosso Lar · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz
A Volta de Laura Não só minha mãe se preparava para regressar aos círculos terrenos. Também a senhora Laura encontrava-se em vésperas do grande cometimento. Avisado por alguns companheiros, aderi à demonstração de simpatia e apreço que diversos funcionários, particularmente do Auxílio e da Regeneração, iam prestar à nobre matrona, por motivo de sua volta às experiências humanas. Realizou-se a homenagem afetuosa na noite em que o Departamento de Contas lhe entregou a notificação do tempo global de serviço na colônia. Não é possível traduzir, em letras comuns, a significação espiritual da festa íntima. Povoava-se a encantadora residência de melodias e luzes. As flores pareciam mais belas. Numerosas famílias foram saudar a companheira, prestes a regressar. Os visitantes, na maioria, cumprimentavam-na, carinhosos, ausentando-se, sem maiores delongas; no entanto, os amigos mais íntimos lá permaneceram até alta noite. Tive, assim, ocasião de ouvir observações curiosas e sábias. A senhora Laura me pareceu mais circunspecta, mais grave. Notava-se-lhe o esforço para acompanhar a corrente de otimismo geral.
Repleta a sala de estar, a genitora de Lísias explicava ao representante do Departamento: – Creio não me demorar mais que dois dias. Terminaram as aplicações do Serviço de Preparação, do Esclarecimento. E, com um olhar algo triste, concluía: – Como vê, estou pronta. O interlocutor tomou expressão de sincera fraternidade e acrescentou, estimulando-a: – Espero, entretanto, que se encontre animada para a luta. É uma glória seguir para o mundo, nas suas condições. Milhares e milhares de horas de serviço a seu favor, perante a comunidade de mais de um milhão de companheiros. Além disso, os filhinhos constituirão seu belo estímulo à retaguarda. – Tudo isso me reconforta – exclamou a dona da casa, sem disfarçar a preocupação íntima –, mas devemos compreender que a reencarnação é sempre uma tentativa de magna importância. Reconheço que meu esposo me precedeu no enorme esforço e que os filhos amados serão meus amigos de todo instante; contudo... – Ora essa! Não se deixe levar por conjeturas – atalhou o Ministro Genésio –, precisamos confiar na Proteção Divina e em nós mesmos.
O manancial da Providência é inesgotável. É preciso quebrar os óculos escuros que nos apresentam a paisagem física como exílio amarguroso. Não pense em possibilidades de fracasso; mentalize, sim, as probabilidades de êxito. Além do mais, é justo confiar alguma coisa em nós outros, seus amigos, que não estaremos tão longe, no tocante à "distância vibratória”. Pense na alegria de auxiliar antigas afeições, pondere na glória imensa de ser útil. Sorriu a senhora Laura, parecendo mais encorajada, e asseverou: – Tenho solicitado o socorro espiritual de todos os companheiros, a fim de manter-me vigilante nas lições aqui recebidas. Bem sei que a Terra está cheia da grandeza divina. Basta recordar que o nosso Sol é o mesmo que alimenta os homens; no entanto, meu caro Ministro, tenho receio daquele olvido temporário em que nos precipitamos. Sinto-me qual enferma que se curou de numerosas feridas... Em verdade, as úlceras não mais me apoquentam, mas conservo as cicatrizes. Bastaria um leve arranhão, para voltar a enfermidade.
O Ministro esboçou o gesto de quem compreendia o sentido da alegação e revidou: – Não ignoro o que representam as sombras do campo inferior, mas é indispensável coragem e caminhar para diante. Ajudá-la-emos a trabalhar muito mais no bem dos outros, que na satisfação de si mesma. O grande perigo, ainda e sempre, é a demora nas tentações complexas do egoísmo. – Aqui – tornou a interlocutora sensatamente –, contamos com as vibrações espirituais da maioria dos habitantes educados, quase todos, nas luzes do Evangelho Redentor; e ainda que velhas fraquezas subam á tona de nossos pensamentos, encontramos defesa natural no próprio ambiente. Na Terra, porém, nossa boa intenção é como se fora bruxuleante luz num mar imenso de forças agressivas. – Não diga isso – atalhou o generoso Ministro –, não dê tamanha importância às influências das zonas inferiores. Seria armar o inimigo para que nos torturasse. O campo das idéias é igualmente campo de luta. Toda luz que acendermos, de fato, na Terra, lá ficará para sempre, porque a ventania das paixões humanas jamais apagará uma só das luzes de Deus.
A senhora pareceu agora ver tudo mais claro, em face dos conceitos ouvidos; mudou radicalmente a atitude mental e falou, cobrando novo alento: – Estou convencida, agora, de que sua visita é providencial. Precisava levantar energias. Faltava-me essa exortação. É verdade: nossa zona mental é campo de batalha incessante. É preciso aniquilar o mal e a treva dentro de nós mesmos, surpreendê-los no reduto a que se recolhem, sem lhes dar a importância que exigem. Sim, agora compreendo. Genésio sorriu satisfeito e acrescentou: – Dentro do nosso mundo individual, cada idéia é como se fora uma entidade à parte... É necessário pensar nisso. Nutrindo os elementos do bem, progredirão eles para nossa felicidade, constituirão nossos exércitos de defesa; todavia, alimentar quaisquer elementos do mal é construir base segura para os nossos inimigos verdugos. A essa altura, o funcionário das Contas observou: – E não podemos esquecer que Laura volta à Terra com extraordinários créditos espirituais.
Ainda hoje, o Gabinete da Governadoria forneceu uma nota ao Ministério do Auxílio, recomendando aos cooperadores técnicos da Reencarnação o máximo cuidado no trato com os ascendentes biológicos que vão entrar em função para constituir o novo organismo de nossa irmã. – Ah! É verdade – disse ela –, pedi essa providência para que não me encontre demasiadamente sujeita à lei da hereditariedade. Tenho tido grande preocupação, relativamente ao sangue. – Repare – disse o interlocutor, solícito – que o seu mérito em "Nosso Lar" é bem grande, porquanto o próprio Governador determinou medidas diretas. – Não se preocupe, portanto, minha amiga – exclamou o Ministro Genésio, sorridente –, terá ao seu lado inúmeros irmãos e companheiros a colaborarem no seu bem-estar. – Graças a Deus! – disse a senhora Laura, confortada – faltava-me ouvi-lo, faltava-me ouvi-lo...
Lísias e as irmãs, às quais se unia agora a simpática e generosa Teresa, manifestaram alegria sincera. – Minha mãe precisava esquecer as preocupações – comentou o abnegado enfermeiro do Auxílio –; afinal de contas, não ficaremos aqui a dormir. – Têm razão – aduziu a dona da casa –; cultivarei a esperança, confiarei no Senhor e em todos vocês. Em seguida, os comentários voltaram ao plano da confiança e do otimismo. Ninguém comentou a volta à Terra, senão como bendita oportunidade de recapitular e aprender, para o bem. Ao despedir-me, alta noite, a senhora Laura disse-me em tom maternal: – Amanhã à noite, André, espero igualmente por você. Faremos pequena reunião íntima. O Ministério da Comunicação prometeu-nos a visita de meu esposo. Embora se encontre nos laços físicos, Ricardo será trazido até aqui, com o auxílio fraternal de companheiros nossos. Além disso, amanhã estarei a despedir-me. Não falte. Agradeci, comovidamente, esforçando-me por ocultar as lágrimas das saudades prematuras que me despontavam no coração.
Culto Familiar Talvez que a praticantes do Espiritismo não fosse tão surpreendente a reunião a que compareci, em casa de Lísias. Aos meus olhos, porém, o quadro era inédito e interessante. Na espaçosa sala de estar, reunia-se pequena assembléia de pouco mais de trinta pessoas. A disposição dos móveis era a mais simples. Enfileiravam-se poltronas confortáveis, doze a doze diante do estrado, onde o Ministro Clarêncio assumira posição de diretor, cercando-se da senhora Laura e dos filhos. A distância de quatro metros, aproximadamente, havia um grande globo cristalino, da altura de dois metros presumíveis, envolvido, na parte inferior, em longa série de fios que se ligavam a pequeno aparelho, idêntico aos nossos alto-falantes. Numerosas indagações me bailavam no cérebro. Na sala extensa, cada qual tomara lugar adequado, mas observava conversações fraternas em todos os grupos. Achando-me ao lado de Nícolas, antigo servidor do Ministério do Auxílio e íntimo da família de Lísias, ousei perguntar alguma coisa. O companheiro não se fez rogado e esclareceu: – Estamos prontos; contudo, aguardamos a ordem da Comunicação.
Nosso irmão Ricardo está na fase da infância terrestre e não lhe será difícil desprender-se dos elos físicos, mais fortes, por alguns instantes. – Mas virá ele até aqui? – indaguei. – Como não? – revidou o interlocutor. – Nem todos os encarnados se agrilhoam ao solo da Terra. Como os pombos-correio que vivem, por vezes, longo tempo de serviço, entre duas regiões, espíritos há que vivem por lá entre dois mundos. E, indicando o aparelho à nossa frente, informou: – Ali está a câmara que no-lo apresentará. – Por que o globo cristalino? – perguntei, curioso. – Não poderia manifestar-se sem ele? – É preciso lembrar – disse Nícolas, atenciosamente – que a nossa emotividade emite forças suscetíveis de perturbar. Aquela pequena câmara cristalina é constituída de material isolante. Nossas energias mentais não poderão atravessá-la. Nesse instante, foi Lísias chamado ao fone por funcionários da Comunicação. Era chegado o momento. Poder-se-ia começar o trabalho culminante da reunião. Verifiquei, no relógio de parede, que estávamos com quarenta minutos depois da meia-noite.
Notando-me o olhar interrogativo, disse Nícolas em voz baixa: – Somente agora há bastante paz no recente lar de Ricardo, lá na Terra. Naturalmente, a casa descansa, os pais dormem, e ele, em a nova fase, não permanece inteiramente junto ao berço... Não lhe foi possível continuar. O Ministro Clarêncio, levantando-se, pediu homogeneidade de pensamentos e verdadeira fusão de sentimentos. Fez-se grande quietude e Clarêncio disse comovedora e singela prece. Em seguida, Lísias se fez ouvir na cítara harmoniosa, enchendo o ambiente de profundas vibrações de paz e encantamento. Logo após, Clarêncio tomou novamente a palavra: – Irmão – disse –, enviemos, agora, a Ricardo a nossa mensagem de amor. Observei, então, com surpresa, que as filhas e a neta da senhora Laura, acompanhadas de Lísias, abandonavam o estrado, tomando posição junto dos instrumentos musicais. Judite, Iolanda e Lísias se encarregaram, respectivamente, do piano, da harpa e da cítara, ao lado de Teresa e Eloísa, que integravam o gracioso coro familiar. As cordas afinadas casaram os ecos de branda melodia e a música elevou-se, cariciosa e divina, semelhante a gorjeio celeste.
Sentia-me arrebatado a esferas sublimes do pensamento, quando vozes argentinas embalaram o interior. Lísias e as irmãs cantavam maravilhosa canção, composta por eles mesmos. Muito difícil frasear humanamente as estrofes significativas, cheias de espiritualidade e beleza, mas tentarei fazê-lo para demonstrar a riqueza das afeições nos planos de vida que se estendem para além da morte: Pai querido, enquanto a noite Traz a benção do repouso, Recebe, pai carinhoso, Nosso afeto e devoção!... Enquanto as estrelas cantam Na luz que as empalidece, Vem unir à nossa prece A voz do teu coração. Não te perturbes na estrada De sombras do esquecimento, Não te doa o sofrimento, Jamais te firas no mal. Nãotemas a dor terrestre, Recorda a nossa aliança, Conserva a flor da esperança Para a ventura imortal. Enquanto dormes no mundo, Nossas almas acordadas Relembram as alvoradas Desta vida superior; Aguarda o porvir risonho, Espera por nós que, um dia, Volveremos à alegria Do jardim do teu amor.
Vem a nós, pai generoso, Volta à paz do nosso ninho, Torna às luzes do caminho, Inda que seja a sonhar; Esquece, um minuto, a Terra E vem sorver da água pura De consolo e de ternura Das fontes de "Nosso Lar". Nossa casa não te olvida O sacrifício, a bondade, A sublime claridade De tuas lições no bem; Atravessa a sombra espessa, Vence, pai, a carne estranha, Sobe ao cume da montanha, Vem conosco orar também. Às derradeiras notas da bela composição, notei que o globo se cobria, interiormente, de substância leitoso-acinzentada, apresentando, logo em seguida, a figura simpática de um homem na idade madura. Era Ricardo. Impossível descrever a sagrada emoção da família, dirigindo-lhe amorosas saudações. O recém-chegado, após falar particularmente à companheira e aos filhos, fixou o olhar amigo em nós outros, pedindo fosse repetida a suave canção filial, que ouviu banhado em lágrimas. Quando se calaram as últimas notas, falou comovidamente: – Oh! Meus filhos, como é grande a bondade de Jesus, que nos aureolou o culto doméstico do Evangelho com as supremas alegrias desta noite!
Nesta sala temos procurado, juntos, o caminho das esferas superiores; muitas vezes recebemos o pão espiritual da vida e é, ainda aqui, que nos reencontramos para o estímulo santo. Como sou feliz! A senhora Laura chorava discretamente. Lísias e as irmãs tinham os olhos marejados de pranto. Percebi que o recém-chegado não falava com espontaneidade e não podia dispor de muito tempo entre nós. Possivelmente, todos ali mantinham análoga impressão, porque vi Judite abraçar-se ao globo cristalino, ouvindo-a exclamar carinhosamente: – Pai querido, diga o que precisa de nós, esclareça em que poderemos ser úteis ao seu abnegado coração! Observei, então, que Ricardo pousou o olhar profundo na senhora Laura e murmurou: – Sua mãe virá ter comigo, em breve, filhinha! Mais tarde, virão vocês, igualmente! Que mais eu poderia desejar, para ser feliz, senão rogar ao Mestre que nos abençoe para sempre? Todos chorávamos, enternecidos. Quando o globo começou a apresentar, de novo, os mesmos tons acinzentados, ouvi Ricardo exclamando, quase a despedida: – Ah!
Filhos meus, alguma coisa tenho a pedir-lhes do fundo de minh’alma! Roguem ao Senhor para que eu nunca disponha de facilidades na Terra, a fim de que a luz da gratidão e do entendimento permaneça viva em meu espírito!... Aquele pedido inesperado me sensibilizou e surpreendeu ao mesmo tempo. Ricardo endereçou a todos saudações carinhosas e a cortina de substância cinzenta cobriu toda a câmara, que, em seguida, voltou ao aspecto normal. O Ministro Clarêncio orou com sentimento e a sessão foi encerrada, deixando-nos imersos em alegria indescritível. Dirigi-me ao estrado para abraçar a senhora Laura, exprimindo-lhe de viva voz minha profunda impressão e reconhecimento, quando alguém me atalhou os passos quase junto à dona da casa, que se ocupava a atender às numerosas felicitações dos amigos presentes. Era Clarêncio, que me falou em tom amável: – André, amanhã acompanharei nossa irmã Laura à esfera carnal. Se lhe apraz, poderá vir conosco para visitar sua família. Não podia ser maior a surpresa. Profunda sensação de alegria me empolgou, mas lembrei instintivamente o serviço das Câmaras.
Adivinhando-me, porém, o pensamento, o generoso Ministro voltou a dizer: – Você tem regular quantidade de horas de trabalho extraordinário a seu favor. Não será difícil a Genésio conceder-lhe uma semana de ausência, depois do primeiro ano de cooperação ativa. Possuído de júbilo intenso, agradeci, chorando e rindo ao mesmo tempo. Ia, enfim, rever a esposa e os filhos amados.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.