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Capítulo 21 de 23

Parte 21 de 23

Nosso Lar · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

No Campo da Música À tardinha, Lísias convidou-me para acompanhá-lo ao Campo da Música. – É preciso distrair-se um pouco, André! – disse ele, gentil. Vendo-me relutante, acentuou: – Falarei a Tobias. A própria Narcisa consagrou o dia de hoje ao descanso. Vamos! Eu, porém, observava em mim mesmo singular fenômeno. Não obstante a escassez dos meus dias de serviço, já dedicava grande amor àquelas Câmaras. As visitas diárias do Ministro Genésio, a companhia de Narcisa, a inspiração de Tobias, a camaradagem dos companheiros, tudo isso me falava particularmente ao espírito. Narcisa, Salústio e eu aproveitávamos todos os instantes de folga para melhorar o interior, aqui e ali, suavizando a situação dos enfermos, que estimávamos de todo o coração, como se fossem nossos filhos. Considerando a nova posição em que me encontrava, acerquei-me de Tobias, a quem o enfermeiro do Auxílio dirigiu a palavra com respeitosa intimidade. Recebendo a solicitação, meu iniciador no trabalho anuiu, satisfeito: – Ótimo programa! André precisa conhecer o Campo da Música. E, abraçando-me: – Não hesite. Aproveite! Volte à noite, quando quiser.

Todos os nossos serviços estão convenientemente atendidos. Acompanhei Lísias, reconhecidamente. Atingindo-lhe a residência, no Ministério do Auxílio, tive a satisfação de rever a senhora Laura e informar-me quanto ao regresso da abnegada mãe de Eloísa, que deveria regressar do planeta, na próxima semana. A casa estava repleta de contentamento. Havia mais beleza no interior doméstico, novas disposições no jardim. Despedindo-nos, a dona da casa me abraçou e falou, bem-humorada: – Então, doravante, a cidade terá mais um freqüentador para o Campo da Música! Tome cuidado com o coração!... Quanto a mim, ainda ficarei hoje em casa. Vingar-me-ei de vocês, porém, muito breve! Não me demorarei a buscar meu alimento na Terra!... Em meio da geral alegria, ganhamos a via pública. As jovens faziam-se acompanhar de Polidoro e Estácio, com quem palestravam animadamente.

Lísias, a meu lado, logo que deixamos o aeróbus numa das praças do Ministério da Elevação, disse carinhoso: – Finalmente, vai você conhecer minha noiva, a quem tenho falado muitas vezes a seu respeito. – É curioso – observei, intrigado – encontrarmos noivados, também por aqui... – Como não? Vive o amor sublime no corpo mortal, ou na alma eterna? Lá, no círculo terrestre, meu caro, o amor é uma espécie de ouro abafado nas pedras brutas. Tanto o misturam os homens com as necessidades, os desejos e estados inferiores, que raramente se diferenciará a ganga do precioso metal. A observação era lógica. Reconhecendo o efeito benéfico da explicação, prosseguiu: – O noivado é muito mais belo na espiritualidade. Não existem véus de ilusão a obscurecer-nos o olhar. Somos o que somos. Lascínia e eu já fracassamos muitas vezes nas experiências materiais. Devo confessar que quase todos os desastres do pretérito tiveram origem na minha imprevidência e absoluta falta de autodomínio.

A liberdade que as leis sociais do planeta conferem ao sexo masculino, ainda não foi devidamente compreendida por nós outros. Raramente algum de nós a utiliza no mundo em serviço de espiritualização. Amiúde, convertemo-la em resvaladouro para a animalidade. As mulheres, ao contrário, têm tido, até agora, a seu favor, as disciplinas mais rigorosas. Na existência passageira, sofrem-nos a tirania e suportam o peso das nossas imposições; aqui, porém, verificamos o reajustamento dos valores. Só é verdadeiramente livre quem aprende a obedecer. Parece paradoxo e, todavia, é a expressão da verdade. – Contudo – indaguei –, tem você em mira novos planos para os círculos carnais? – Nem podia ser de outro modo – explicou ele, pressuroso –, necessito enriquecer o patrimônio das experiências e, além disso, minhas dívidas para com o planeta são ainda enormes. Lascínia e eu fundaremos aqui, dentro em breve, nossa casinha de felicidade, crendo que voltaremos à Terra precisamente daqui a uns trinta anos. Havíamos alcançado as cercanias do Campo da Música. Luzes de indescritível beleza banhavam extenso parque, onde se ostentavam encantamentos de verdadeiro conto de fadas.

Fontes luminosas traçavam quadros surpreendentes: um espetáculo absolutamente novo para mim. Antes que pudesse manifestar minha profunda admiração, Lísias recomendou bem-humorado: – Lascínia sempre se faz acompanhar de duas irmãs, às quais, espero faça você as honras de cavalheiro. –Mas, Lísias... – respondi, reticencioso, considerando minha antiga posição conjugal – você deve compreender que estou ligado a Zélia. O enfermeiro amigo, nesse instante, riu a valer, acrescentando: –Era o que faltava! Ninguém quer ferir seus sentimentos de fidelidade. Não creio, no entanto, que a união esponsalícia deva trazer o esquecimento da vida social. Não sabe mais ser o irmão de alguém, André? Ri-me, desconcertado, e nada pude replicar. Nesse momento, atingimos a faixa de entrada, onde Lísias pagou gentilmente o ingresso. Notei, ali mesmo, grande grupo de passeantes, em torno de gracioso coreto, onde um corpo orquestral de reduzidas figuras executava música ligeira. Caminhos marginados de flores desenhavam-se à nossa frente, dando acesso ao interior do parque, em várias direções.

Observando minha admiração pelas canções que se ouviam, o companheiro explicou: – Nas extremidades do Campo, temos certas manifestações que atendem ao gosto pessoal de cada grupo dos que ainda não podem entender a arte sublime; mas, no centro, temos a música universal e divina, a arte santificada, por excelência. Com efeito, depois de atravessarmos alamedas risonhas, onde cada flor parecia possuir seu reinado particular, comecei a ouvir maravilhosa harmonia dominando o céu. Na Terra, há pequenos grupos para o culto da música fina e multidões para a música regional. Ali, contudo, verificava-se o contrário. O centro do campo estava repleto. Eu havia presenciado numerosas agregações de gente, na colônia, extasiara-me ante a reunião que o nosso Ministério consagrara ao Governador, mas o que via agora excedia a tudo que me deslumbrara até então. A nata de "Nosso Lar" apresentava-se em magnífica forma. Não era luxo, nem excesso de qualquer natureza, o que proporcionava tanto brilho ao quadro maravilhoso. Era a expressão natural de tudo, a simplicidade confundida com a beleza, a arte pura e a vida sem artifícios.

O elemento feminino aparecia na paisagem, revelando extremo apuro de gosto individual, sem desperdício de adornos e sem trair a simplicidade divina. Grandes árvores, diferentes das que se conhecem na Terra, guarnecem belos recintos, iluminados e acolhedores. Não somente os pares afetuosos demoravam nas estradas floridas. Grupos de senhoras e cavalheiros entretinham-se em animada conversação, valiosa e construtiva. Não obstante sentir-me sinceramente humilhado pela minha insignificância ante aquela aglomeração seletíssima, experimentava a mensagem silenciosa, de simpatia, no olhar de quantos me defrontavam. Ouvia frases soltas, relativamente aos círculos carnais, e, contudo, em nenhuma palestra notei o mais ligeiro laivo de malícia ou de acusação aos homens. Discutia-se o amor, a cultura intelectual, a pesquisa científica, a filosofia edificante, mas todos os comentários tendiam à esfera elevada do auxílio mútuo, sem qualquer atrito de opinião. Observei que, ali, o mais sábio restringia as vibrações de seu poder intelectual, ao passo que os menos instruídos elevavam, quanto possível, a capacidade de compreensão para absorver as dádivas do conhecimento superior.

Em palestras numerosas, recolhia referências a Jesus e ao Evangelho e, no entanto, o que mais me impressionava era a nota de alegria reinante em todas as conversações. Ninguém recordava o Mestre com as vibrações negativas da tristeza inútil ou do injustificável desalento; Jesus era lembrado por todos como supremo orientador das organizações terrenas, visíveis e invisíveis, cheio de compreensão e bondade, mas também consciente da energia e da vigilância necessárias à preservação da ordem e da justiça. Aquela sociedade otimista encantava-me. Diante dos olhos, tinha concretizadas as esperanças de grande número dos pensadores verdadeiramente nobres, na Terra. Grandemente maravilhado com a música sublime, ouvi Lísias dizer: – Nossos orientadores, em harmonia, absorvem raios de inspiração nos planos mais altos e os grandes compositores terrestres são, por vezes, trazidos às esferas como a nossa, onde recebem algumas expressões melódicas, transmitindo-as, por sua vez, aos ouvidos humanos, adornando os temas recebidos com o gênio que possuem. O Universo, André, está cheio de beleza e sublimidade.

O facho resplendente e eterno da vida procede originariamente de Deus. O enfermeiro do Auxílio, todavia, não pôde continuar. Fôramos defrontados por gracioso grupo. Lascínia e as irmãs haviam chegado e era preciso atender aos imperativos da confraternização.

Sacrifício de Mulher Um ano se passou em trabalhos construtivos, com imensa alegria para mim. Aprendera a ser útil, encontrara o prazer do serviço, experimentando crescente júbilo e confiança. Até ali, não voltara ao lar terrestre, apesar do imenso desejo que me espicaçava o coração. As vezes, intentava pedir concessões, nesse particular, mas alguma coisa me tolhia. Não recebera auxílio adequado, não contava, ali, com o carinho e apreço de todos os companheiros? Reconhecia, portanto, que, se houvesse proveito, de há muito teria sido encaminhado ao velho ambiente doméstico. Cumpria, pois, aguardar a palavra de ordem. Além disso, não obstante desdobrar atividades na Regeneração, o Ministro Clarêncio continuava a responsabilizar-se pela minha permanência na colônia. A senhora Laura e o próprio Tobias não se cansavam de me lembrar esse fato. Por diversas vezes tinha defrontado o generoso Ministro do Auxílio e, no entanto, mantinha-se ele sempre silencioso sobre o assunto. Aliás, Clarêncio nunca modificava a atitude reservada, no desempenho das obrigações concernentes à sua autoridade.

Apenas pelo Natal, quando me encontrara nos festejos da Elevação, tocara levemente no assunto, adivinhando-me as saudades da esposa e dos filhinhos. Comentara as alegrias da noite e asseverara não andar longe o dia em que me acompanharia ao ninho familiar. Agradeci, comovidamente, esperando, cheio de bom ânimo. Entretanto, atingíramos setembro de 1940, sem que visse a realização de meus desejos. Confortava-me, porém, a certeza de haver preenchido todo o meu tempo nas Câmaras de Retificação, com serviço útil. Não descansara. Nossas tarefas prosseguiam sempre, sem solução de continuidade. Habituara-me a cuidar dos enfermos, a interpretar-lhes os pensamentos. Não perdia de vista a pobre Elisa, encaminhando-a, de maneira indireta, a melhores tentames. À medida, porém, que se consolidava meu equilíbrio emocional, intensificava-se-me a ansiedade de rever os meus. A saudade doía fundo. Em compensação, de longe em longe era visitado por minha mãe, que nunca me abandonou à própria sorte, embora permanecesse em círculos mais altos. A última vez que nos avistáramos, ela me disse que tencionava cientificarme de projetos novos.

Aquela atitude maternal de suave conformação nos sofrimentos morais que lhe feriam a alma sensível, comovera-me profundamente. Que novas resoluções teria tomado? Intrigado, esperei-lhe a visita, ansioso de conhecer-lhe os planos. Com efeito, nos primeiros dias de setembro de 1940, minha mãe veio às Câmaras e, depois das saudações carinhosas, comunicou-me o propósito de voltar à Terra. Em tom afetuoso, explicou o projeto. Mas, surpreendido e discordando de semelhante decisão, protestei: – Não concordo. Voltar a senhora à carne? Por quê? Internar-se, de novo, no caminho escuro, sem necessidade imediata? Mostrando nobre expressão de serenidade, minha mãe ponderou: – Não consideras a angustiosa condição de teu pai, meu filho? Há muitos anos trabalho para reerguê-lo e meus esforços têm sido improfícuos. Laerte é hoje um céptico de coração envenenado. Não poderia persistir em semelhante posição, sob pena de mergulhar em abismos mais fundos. Que fazer, André? Terias coragem de revê-lo em tal situação, esquivando-te ao socorro justo? – Não – respondi, impressionado –; trabalharia por auxiliá-lo; mas a senhora poderá ajudá-lo mesmo daqui. – Não duvido.

No entanto, os espíritos que amam, verdadeiramente, não se limitam a estender as mãos de longe. De que nos valeria toda a riqueza material, se não pudéssemos estendê-la aos entes amados? Poderíamos, acaso, residir num palácio relegando os filhinhos à intempérie? Não posso ficar a distância. Já que poderei contar contigo aqui, doravante reunir-me-ei a Luísa a fim de auxiliar teu pai a reencontrar o caminho certo. Pensei, pensei, e redargüi: – Insistiria, no entanto, com a senhora. Não haverá meios de evitar essa contingência? – Não. Não seria possível. Estudei detidamente o assunto. Meus superiores hierárquicos foram acordes no conselho. Não posso trazer o inferior para o superior, mas posso fazer o contrário. Que me resta, senão isso? Não devo hesitar um minuto. Tenho em ti o amparo do futuro. Não te percas, pois, meu filho, e auxilia tua mãe, quando puderes transitar entre as esferas que nos separam da crosta. Entrementes, zela por tuas irmãs, que talvez ainda se encontrem nas sombras do Umbral, em trabalho ativo de purgação.

Estarei novamente no mundo, em breves dias, onde me encontrarei com Laerte para os serviços que o Pai nos confiar. – Mas–indaguei – como se encontra ele com a senhora? Em espírito? – Não – disse minha mãe com significativa expressão fisionômica. Com a colaboração de alguns amigos, localizei-o na Terra, a semana passada, preparandolhe a reencarnação imediata sem que ele nos identificasse o auxílio direto. Quis fugir das mulheres que ainda o subjugam, talvez com razão, e aproveitamos essa disposição, para jungi-lo à nova situação carnal. – Mas isso é possível? E a liberdade individual? Minha mãe sorriu, algo triste, e obtemperou: – Há reencarnações que funcionam como drásticos. Ainda que o doente não se sinta corajoso, existem amigos que o ajudam a sorver o remédio santo, embora muito amargo. Relativamente à liberdade irrestrita, a alma pode invocar esse direito somente quando compreenda o dever e o pratique. Quanto ao mais, é indispensável reconhecer que o devedor é escravo do compromisso assumido. Deus criou o livrearbítrio, nós criamos a fatalidade. É preciso quebrar, portanto, as algemas que fundimos para nós mesmos.

Enquanto me perdia em graves pensamentos, continuou ela, retomando as anteriores observações: – As infelizes irmãs que o perseguem, entretanto, não o abandonam e, não fosse a Proteção Divina por intermédio de nossos guardas espirituais, talvez lhe subtraíssem a oportunidade da nova reencarnação. – Deus meu! – exclamei. – Será então possível? Estamos à mercê do mal até esse ponto? Simples joguetes em mãos dos inimigos? – Essas interrogações, meu filho – esclareceu minha genitora, muito calma –, devem pairar em nossos corações e em nossos lábios, antes de contrairmos qualquer débito e antes de transformarmos irmãos em adversários para o caminho. Não tomes empréstimos à maldade... – E essas mulheres? – indaguei. Que será feito dessas infelizes? Minha mãe sorriu e respondeu: – Serão minhas filhas daqui a alguns anos. É preciso não esqueceres que irei ao mundo em auxílio de teu pai. Ninguém ajuda eficientemente, intensificando as forças contrárias, como não se pode apagar na Terra um incêndio com petróleo. É indispensável amar, André!

Os que descrêem perdem o rumo verdadeiro, peregrinando pelo deserto; os que erram se desviam da estrada real, mergulhando no pântano. Teu pai é hoje um céptico e essas pobres irmãs suportam pesados fardos na lama da ignorância e da ilusão. Em futuro não distante, colocarei todos eles em meu regaço materno, realizando minha nova experiência. E, olhos brilhantes e úmidos, como se estivesse a contemplar horizontes do porvir, rematou: – E mais tarde... quem sabe? Talvez regresse a "Nosso Lar", cercada de outros afetos sacrossantos, para uma grande festividade de alegria, amor e união... Identificando-lhe o espírito de renúncia, ajoelhei-me e beijei-lhe as mãos. Desde aquela hora, minha mãe não era apenas minha mãe. Era muito mais que isso. Era a mensageira do Amparo, que sabia converter verdugos em filhos do seu coração, para que eles retomassem o caminho dos filhos de Deus.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.