[user_registration_my_account]
Capítulo 21 de 22
Federação Espírita Brasileira — parte 20 de 21
No Mundo Maior · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz
olhos fulguravam quando pousados nos meus e minha mãe sempre afirmava que só em minha companhia ele se acalmava nas crises nervosas que lhe precederam o fim. Não me lembrava da história dele, com particularidades especiais; entretanto, não ignorava que fizera considerável fortuna em ágios escandalosos, curtindo espinhosa velhice pelo excessivo apego ao dinheiro. Conturbara-se nos últimos tempos do corpo e via delatores e ladrões em toda a parte. Aflito, meu pai transferira-o para a nossa residência, onde minha mãe o auxiliou a vencer os derradeiros padecimentos. Num átimo, veio-me à memória seu decesso. Trouxeram-me do colégio, onde fazia o curso secundário, para oscular-lhe as mãos frias, pela última vez. Nunca me esqueci de sua impressionante máscara cadavérica. As mãos recurvadas sobre o peito parecia guardarem, ciosamente, algum tesouro oculto e nos olhos vítreos, que mãos piedosas não conseguiram cerrar, vagueava o pavor do ignoto, como se o acometessem trágicas visões no Além, para onde fora arrebatado a contragosto.
No curso do tempo, vim a saber que meu avô deixara valioso patrimônio financeiro, que nós, seus parentes, dissipávamos em nababescas fantasias... Tornando ao pretérito, reconheci que vigoroso laço me unia àquele desgraçado que ainda sofria o pesadelo do ouro terrestre, carregando placas de lodo que premia enternecidamente ao coração. Enquanto as reminiscências me enchiam aquele instante, gritava-lhe um companheiro infeliz: – Pesadelo? nunca, nunca! Ó Cláudio, não te sensibilizes tanto!... Ah! seu nome fora pronunciado. A confirmação estarrecerame; quis gritar, mas não pude. Compreendendo quanto ocorria em meu íntimo, o prestativo Calderaro amparou-me, assegurando: Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 220
– André, já sei de tudo. Entendo agora a significação de tua vinda a estas paragens: Irmã Cipriana tinha razão. Não temos tempo a perder. O velho revela-se receptivo. Começou a entender que provavelmente estará em erro, que talvez respire atmosfera de pesadelo cruel. Ajudemo-lo. Urge auxiliar-lhe a visão, para que nos enxergue. Aflito, segui o dedicado orientador que passou a aplicar recursos fluídicos sobre os olhos embaciados de meu desditoso ascendente. A entidade, com o providencial afluxo de força, ganhou provisória lucidez, e viu-nos, afinal. – Oh! – gritou perante os colegas aterrados – que luz diferente! E esfregando os olhos, acrescentava, dirigindo-se a nós: – Donde vindes? Sois padres? Certo, aludia às túnicas muito alvas com que nos apresentávamos. Avancei, lesto, e indaguei: – Meu amigo, sois Cláudio M.... antigo fazendeiro nas vizinhanças de V...? – Sim, conheceis-me? Quem sois? Em atitude de alívio, ajuntou com inflexão comovente: – Desde muito estou preso nesta região misteriosa, referta de perigos e de monstros, mas abundante de ouro, de muito ouro... Vossa palavra me reanima... Oh! por piedade! ajudai-me a sair... Quero voltar... E, ajoelhado agora, de braços estendidos para mim, repetia: – Voltar..., rever os meus, sentir-me em casa novamente! Abracei-o, compungido, e sem desejar chocá-lo com inoportunas revelações, expliquei-me: Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 221
– Cláudio M.... sois vítima de lamentável engano. Vossa casa antiga cerrou-se com os olhos físicos que já desapareceram! Encarcerastes o espírito num sonho vão de mentirosas riquezas. A morte vos arrebatou a alma do domicílio carnal, vai para mais de quarenta anos. O ancião esbugalhou os olhos angustiados. Não relutou. Desatou em pranto convulso, dilacerando-me as fibras mais íntimas. – Bem o sinto! – murmurou, inspirando compaixão. – Tenho a cabeça afogueada, incapaz de raciocinar; mas... e o ouro, o ouro que ajuntei com tanto suor? – Reparai vossas mãos, agora que divina claridade vos bafeja o espírito! O patrimônio, acumulado à custa das dificuldades alheias, converteu-se em lodacentos detritos. Notai! Meu avô pôs-se a contemplar as massas de lama que abraçava, e gritou, aterrorizado. Em seguida, pousando em mim os olhos lacrimosos, considerou: – Será o castigo? Minha falta para com Ismênia exigia punição... Como os soluços lhe asfixiassem a garganta, interroguei: – A quem vos referis? – A minha irmã, cujos direitos espezinhei. Sensibilizando-nos, intensamente, prosseguiu: – Sois enviados de Deus e ouvi-me em confissão.
Ao morrer, meu pai confiou-me uma irmã, que não era filha legítima de nossa casa. Minha mãe, dedicada e santa, criou-a com o mesmo infinito desvelo que a mim mesmo. Quando me vi, porém, sozinho, escorracei-a do ambiente doméstico. Provei que não partilhava meus laços consangüíneos, para melhor assenhorear-me da fortuna que meu pai nos legara. A pobrezinha implorou e sofreu; no entanto, releguei-a a miserável destino, cioso da sólida base financeira que Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 222
havia conseguido. Fiquei rico, multipliquei os cabedais, ganhei sempre... E fixando as mãos enodoadas, prosseguia amargurosamente: – E agora?... Ia consolá-lo, abrir-lhe o coração comovido até às lágrimas; Calderaro, porém, fez-me imperioso gesto, recomendando-me silêncio. Meu triste antepassado continuou, descortinando-me novos campos ao sentimento: – Onde viverão meus parentes, cujo futuro me preocupava? Onde rolará o dinheiro que amontoei penosamente, olvidando minha própria alma? Onde respirará minha irmã, a quem despojei de todos os recursos? Porque não me ensinaram, na Terra, que a vida prosseguiria para além do sepulcro? Estarei efetivamente “morto” para o mundo, ou louco e cego? Ah! mísero que sou! Quem me socorrerá? Alongando os braços ressequidos, suplicava: – Tende piedade de mim! Meus pais foram levados ao túmulo, há muitos anos e meus filhos, certamente, me esqueceram... Estou desprezado, sem ninguém. Valei-me, emissários do Eterno! Não abandoneis um ancião traído em suas ambições e propósitos! Agora, que me reconheço, tenho medo, muito medo... Demorando em mim o olhar que grossa cortina de lágrimas ensombrava, observou: – Meus familiares olvidaram-me o devotamento. Só uma pessoa no mundo se recordará de mim e me estenderia mãos protetores se soubesse do meu paradeiro... Estampou expressão de ternura na máscara dolorosa e esclareceu: Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 223
– Meu neto André Luiz era a luz de meus olhos. Muita vez, os carinhos dele me aquietavam o torturado pensamento. Em muitas ocasiões manifestei, em casa, o desejo de que ele se consagrasse à Medicina. Destinei-lhe um legado para esse fim. Pretendia vê-lo fazendo o bem que eu, homem ignorante, não soubera praticar. Freqüentemente me assaltava o remorso pela extorsão que infligira a minha irmã; contudo, consolava-me com a idéia de que o neto do meu coração, de algum modo, gastaria o dinheiro que eu indebitamente aferrolhara, educando-se, como convinha, para beneficio de todos... Seria o benfeitor dos pobres e dos doentes, espargiria sementes dadivosas onde minha existência inútil espalhara pedras e espinhos de insensatez. Meu neto seria belo, querido, respeitado... Enxugando as copiosas lágrimas, indagava em voz súplice, com a atenção presa a meus gestos: – Quem sabe se vós, mensageiros de Deus, poderíeis levar a meu neto a tremenda noticia dos males que me devoram? Não mereço o afastamento destas masmorras em que enlouqueci, mas ser-me-á consolo saber que André tem ciência dos meus padecimentos!
Ah! não mais valeram sinais do Assistente Calderaro para que me contivesse, esperando ainda mais. Meu peito como que rebentara numa torrente de pranto irreprimível. Ali, não me achava ante assembléias superiores, cujas emissões de energia me sustentassem até ao fim no combate educativo da autodisciplina, mas, diante dos deploráveis remanescentes das paixões terrestres. Lembrei-me do meu avô, acariciando-me os cabelos; recordei que meu genitor sempre aludia aos desejos do velho, com referência à minha preparação acadêmica... Pensei nos longos anos que o mísero teria gasto, ali, agarrado às idéias de posse financeira; compreendi a extensão de meu débito para com ele, relativamente Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 224
ao diploma de médico que eu não soubera honrar no mundo... Dirigi súplice olhar a Calderaro, rogando-lhe me perdoasse... O Assistente sorriu e entendeu tudo. Quem terá perdido, de todo, a expressão infantil, se o próprio Cristo, Supremo Guia da Terra, abriu tenros braços, um dia, no berço da manjedoura? Tornando mentalmente a cenários da infância longínqua, senti-me novamente menino; venci de um salto o espaço que nos separava e ajoelhei-me aos pés do meu desventurado benfeitor, que me observava, agora, trêmulo e assustado. Cobri-lhe as mãos de beijos e, erguendo para ele os olhos lacrimosos, perguntei: – Vovô Cláudio, pois o senhor não me conhece mais? Impossível seria descrever o que se passou. Esqueci, por momentos, os estudos que me impusera a fazer; olvidei os quadros daquele ambiente, que provocavam curiosidade e pavor. Meu espírito respirava o reconhecimento sincero e o amor puro; e, enquanto as míseras entidades emuradas na usura gritavam, revoltadas, umas, e riam outras à sorrelfa, incapazes de compreender a cena improvisada, eu, amparado por Calderaro, que também enxugava lágrimas discretas, diante da comoção que me assaltara, sustentei meu avô nos braços, como se transportara, louco de alegria, precioso fardo que me era doce e leve ao coração. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 225
Reaproximação Quando Cipriana regressou, em companhia dos demais amigos, encontrou-me banhado em lágrimas e ouviu a estranha narrativa de meu avô semilúcido. Esboçou complacente gesto e disse, bondosa: – Sabia, André, que não terias vindo para nenhum resultado. Em rápidos minutos descrevi-lhe a ocorrência, prestando-lhe todos os informes sobre o passado. A diretora ponderou, serena, a minha digressão através do pretérito e obtemperou: – Dispomos de tempo curto; e, como não será possível ao doente acompanhar-nos, cumpre interná-lo já em algum recolhimento, aqui mesmo. Meu avô, mau grado ao júbilo de me haver reconhecido, não guardava razoável equilíbrio: pronunciava frases desconexas, em que o nome de Ismênia era repetido a cada passo. – Não podemos esquecer – acentuou a venerável instrutora – que o irmão Cláudio precisa de tratamento e de cuidado. Ë impossível prever quando se achará em condições de respirar atmosfera mais elevada. Assim dizendo, generosa e meiga, auscultou o velhinho semilouco, examinando-o maternalmente. Decorridos alguns instantes, informou: – André, nosso enfermo, para melhorar com mais rapidez e eficiência, deveria retornar à experiência carnal. – Neste caso, então, – disse eu, humilde – poderíamos merecer seu auxilio, Irmã? Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 226
– Como não? Em se tratando de reencarnação por meras atividades reparadoras, sem projeção nos interesses coletivos, de modo mais amplo, nosso concurso pessoal pode ser mais decisivo e imediato. Temos nestes sítios grande número de benfeitores, providenciando reencarnações em grande escala nos círculos regenerativos. Vejamos como estudar a situação futura deste irmão. Submeteu o doente a carinhoso interrogatório. O ancião, comovido, contou que seu genitor, ao se casar, conduziu para o lar uma filha de sua mocidade turbulenta, a qual a mãezinha acolhera com doçura. Essa irmã lhe fora, mais tarde, ama desvelada, tornando-se-lhe credora de justa gratidão. Todavia, enceguecido pelo propósito inferior de possuir dinheiro desmedidamente, despojou-a dos bens que lhe cabiam, por ocasião do falecimento dos pais, que, vitimados por febre maligna, o haviam deixado em vésperas de casamento. Ismênia, espoliada, depois de chorar e reclamar debalde, foi compelida a homiziar-se em residência de família abastada, que lhe cedeu, por favor, um lugar de copeira com remuneração desprezível.
Soube que, premida por dificuldades materiais de toda a sorte, desposara um analfabeto, homem rude e cruel, que a seviciara e lhe dera algumas filhas em dolorosas condições de miserabilidade. Exposto o desvio máximo de seu caminho, passou a comentar os indignos ideais que nutria no terreno da sovinice, estremecendo-nos os corações. Cipriana, demonstrando-se habituada aos problemas daquela natureza, esclareceu-me: – Já conhecemos dois pontos essenciais para os serviços que lhe competem: a necessidade da reaproximação com Ismênia, que não sabemos onde se encontra, se encarnada ou não, e o imperativo da pobreza extrema, com trabalho intensivo, para que reeduque as próprias aspirações. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 227
De posse do endereço provável dos descendentes da irmã outrora espezinhada, Cipriana recomendou a dois companheiros nossos se encarregassem de rápida investigação na Crosta Terrestre, a fim de nos orientarmos quanto aos rumos a tomar no imprevisto acontecimento. Os emissários não se demoraram mais do que noventa minutos. Traziam boas novas, que me reconfortavam. Localizaram a família a que o desditoso velhinho se referira em suas amargas reminiscências e traziam sensacional informação. Amigos de nossa esfera esclareceram-nos, quanto a Ismênia, que ela reencarnara e vivia na fase juvenil das forças físicas. Corporificara-se no mesmo tronco doméstico a que emprestara colaboração na época em que meu avô a expulsara do campo familiar. Cipriana tudo ouviu, sensibilizada, e, interessando-se por nós, sugeriu organizássemos as bases da futura experiência, conquistando, sem delongas, as simpatias da jovem. A esse tempo, já nos achávamos portas a dentro de uma organização socorrista, que recebeu a solicitação de nossa diretora em favor do enfermo, com excelente disposição de servir-nos.
Cercando de todas as atenções meu antigo credor, a estimada benfeitora frisou, dirigindo-se a mim: – Nosso amigo, durante dois anos aproximadamente, não poderá ausentar-se desta casa de assistência fraterna. Permanece ainda profundamente identificado com a atmosfera destes sítios. Visitá-lo-emos seguidamente, amparando-o com os nossos recursos, até que possa respirar de novo os ares da Crosta. É de notar que a mente dele não se libertará das teias da incompreensão com facilidade e, neste estado, não volveria com êxito ao educandário da carne. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 228
Acatei a ponderação, acompanhando o curso das providências para o caso. Cipriana contemplou, enternecida, a entidade demente e prosseguiu, bondosa: – Agora, André, finalizando nossos trabalhos da semana, tentemos trazer Ismênia até aqui, para os trabalhos preparatórios de reaproximação. Achando-se presentemente na juventude terrestre, provavelmente nos auxiliará no momento preciso, recebendo o irmão perturbado em seu próprio instituto doméstico. Antes de mais nada, porém, necessitamos da simpatia dela, em face do nosso programa de reerguimento. – Se Ismênia aceitar, se consentir... – acrescentei, hesitante. – Encarregar-nos-emos do resto – prometeu a interlocutora, decidida –; o retorno de Cláudio à esfera física terá características muito pessoais, sem reflexos de maior importância no espírito coletivo, pelo que nós mesmos poderemos providenciar quase tudo. Confiando o enfermo aos beneméritos companheiros que velavam na casa de amor cristão em que nos asiláramos, dirigimonos para o Rio, onde Ismênia seria encontrada por nós em modesto lar de Bangu. Em plena madrugada, entramos, respeitosos, na humilde residência.
A irmã de meu avô era agora a sexta filha daquela senhora que, na existência física, era conhecida por neta da velha Ismênia, cuja personalidade, para a família terrena, se perdera no tempo e que não era outra senão a menina e moça, sob nossos olhos, de volta às tarefas aperfeiçoadoras da luta carnal. Tudo ali respirava pobreza digna e adorável simplicidade. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 229
Adiantando-se, Cipriana colocou a destra sobre a fronte da jovem adormecida, como a chamá-la até nós. Efetivamente, decorridos instantes, veio ter conosco e, reparando que nossa orientadora, envolta em luz intensa, a cobria com um gesto de bênção, ajoelhou-se, desligada da matéria, exclamando em lágrimas de júbilo: – Mãe Celestial, quem sou eu para receber a graça de vossa visita? Sou indigna servidora... Cobriu o rosto com as mãos, sentindo-se talvez ofuscada pela claridade sublime e contendo, a custo, a comoção a estuar-lhe no peito; mas nossa veneranda benfeitora aproximou-se, pousou-lhe as mãos carinhosas na basta cabeleira negra e falou, compassiva: – Minha filha, sou apenas tua irmã, tua amiga... Ouve! Quais são tuas intenções na vida? Como a jovem erguesse para ela os olhos lacrimosos, acrescentou a nobre mensageira: – Precisamos de tua colaboração e não desejamos ser amigos inúteis. Em que te podemos servir? Decorreram pesados instantes de expectação. – Fala! – acrescentou Cipriana, prestimosa –; explica-te sem receios... Voz entrecortada pela comoção, lembrou com ingenuidade juvenil: – Minha mãe, se eu puder rogar-vos alguma coisa, peço-vos auxilio para Nicanor.
Somos noivos, há quase dois anos, mas somos pobres. Trabalho na indústria de tecelagem, com salário reduzido, para ajudar à manutenção de nossa casa, e Nicanor é pedreiro... Temos sonhado com a organização de um lar pequeno e modesto, sob a proteção da Divina Providência. Poderemos aguardar a aprovação de Deus? Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 230
Cipriana estampou na fisionomia suma ternura materna e considerou: – Como não? Teus desejos são justos e santificantes. Nicanor terá nosso amparo e tuas esperanças nossa viva contribuição. Esperamos, porém, algo de teu concurso... – Ah! em que poderia servir-vos eu, mísera serva que sou? A diretora não prolongou a conversação, pedindo-lhe tão somente: – Vem conosco! Em seguida, com grande surpresa para mim. Cipriana cobriulhe o rosto com estreito véu de substância semelhante a gaze, para que lhe não fosse dado ver as impressionantes paisagens que deveríamos atravessar. Sustentada por nós, dentro em pouco a moça se ajoelhava, curiosa e enternecida, ante meu avô, que, ao enxergá-la, prorrompeu em exclamações em que ressumbrava ansiedade: – Ismênia! Ismênia! minha irmã, perdoa-me!... Afagando-lhe as mãos, torturado, contemplava-lhe o semblante humilde: – Oh! é ela mesma – insistia, tomado de evidente espanto –, com a mesma tristeza do dia em que a expulsei!... Que fez, porém, para ser hoje mais jovem e mais formosa? Como a visitante guardasse silêncio, confundida, inquiria, aflito: – Dize, dize que me perdoas, que esquecerás o mal que te fiz!
A essa altura da inopinada entrevista, Cipriana interveio, dirigindo-se a ela, interrogando: – Nunca soubeste, em família, que tua bisavó teve um irmão. A jovem não a deixou concluir, perguntando por sua vez: – ... que a expulsou de casa? Sim. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 231
– Minha mãe já se referiu a esse passado distante – acrescentou, melancólica. – Não o reconheces? – tomou, afável, a benfeitora. – Não te recordas? Nesse instante, o velhinho interferiu, excitando-lhe a memória: – Ismênia, Ismênia! eu sou Cláudio, teu desventurado irmão... A jovem não sabia como interpretar aquelas evocações, mas nossa diretora, cingindo-lhe os lobos frontais com as mãos, a envolvê-la em abundantes irradiações magnéticas, insistia, meiga, provocando a emersão da memória em seus mais importantes centros perispiríticos: – Revê o pretérito, minha amiga, para bem servirmos à Obra Divina. Notei, assombrado, que algo de anormal sucedera na mente da jovem, porque seus olhos, dantes doces e tranqüilos, se tornaram dilatados e inquietos. Tentou recuar ante a súplice expressão de meu avô, mas a energia de Cipriana a conteve, evitando-lhe a expansão dos impulsos iniciais de medo e de revolta. – Agora, sim! Lembro-me... – gemeu, aterrada. Nossa instrutora, então, libertou-lhe a fronte e, indicando o enfermo, exclamou em tom comovedor: – E não tens piedade? Alguns segundos de expectativa rolaram pesadamente; contudo, o amor, sempre divino na mulher de aspirações elevadas, triunfou no olhar enternecido de Ismênia, que, plenamente modificada, se abraçou ao doente, exclamando: – Pois és tu, Cláudio? Que te aconteceu? Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 232
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.