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Capítulo 5 de 6
III — parte 2 de 3
Espíritos e Médiuns · Léon Denis
depois de prolongados serviços, mostras de simpatia e atenção, com a condição de que isso não atente contra o princípio da mediunidade gratuita e desinteressada. Poderá alegar-se que faz cinqüenta anos que Allan Kardec faleceu; que as circunstâncias mudaram, que o Espiritismo se estendeu, e a Ciência começa a interessar-se por seus fenômenos, sendo, portanto, conveniente proporcionar os meios que lhe permitam comprovar e confirmar tais fenômenos. A isto responderemos que os conceitos formulados por Allan kardec não perderam nada de sua oportunidade. E, precisamente porque o Espiritismo se estende e está chamado a representar um grande papel, porque leva a si os elementos de salvação e de regeneração, é que se há de preservá-lo de toda mancha e evitar, quanto possa, diminuir seu valor e sua beleza. Porém, o que é incontestável é que todo tráfico inspira desconfiança. O afã de ganhar leva ao charlatanismo e ao engano. Quando o médium adquire o costume de tirar proveito material de suas faculdades vai resvalando, pouco a pouco, para a fraude porque, se os fenômenos não se produzem, procura imitá-los.
Em todas as partes em que o Espiritismo é objeto de comércio, os espíritos sérios se afastam e os espíritos inferiores vêm ocupar seu lugar. Nesses ambientes, o Espiritismo perde toda a influência benfeitora e moralizadora para converter-se em um verdadeiro perigo, em uma exploração da dor e das recordações dos mortos. Em resumo, repetimos aos espiritistas e aos médiuns em vossas reuniões, pratiquem sempre o recolhimento e a ora- Léon Denis – Espíritos e Médiuns 50
ção; que esta seja como um facho luminoso que alcance diretamente seu fim, e atraia os bons espíritos; se não for assim, não virão as almas que desejam, não virão vossos mortos queridos. Não façais de vossas sessões um objeto de diversão, de curiosidade, um espetáculo para boquiabertos, mas um ato grave e solene, um ato de cultura intelectual e moral. Não atraiam os espíritos de ordem inferior, cujos fluidos podem alterar vossa saúde e provocar casos de obsessão. Não evoqueis vossos guias, senão com a consciência de que o fazeis com respeito. Todos têm sua missão a cumprir no Mais-Além; suas ocupações são múltiplas e absorventes. Sua vida está muito distante de ser a beatitude sonhada; é uma atividade constante, uma dedicação abnegada para todas as grandes causas.
Seus ensinamentos, seus conselhos os ajudarão a suportar as vicissitudes da existência terrena, eles vos darão a certeza de novas vidas futuras, vidas de trabalho, de purificação, de dever, por meio das quais vossas almas, ao se fazerem mais tolerantes, subirão um dia para essas esferas luminosas, nas quais começarão a desfrutar as alegrias do Infinito. –– 0 –– Neste momento, levanta-se sobre o mundo uma grande esperança, começa a despontar uma nova aurora para o Pensamento e para a Ciência. O Espiritismo, que se baseia na verdade, é imperecível, mas sua marcha pode se ver entorpecida pelos erros e faltas de seus próprios partidários, Léon Denis – Espíritos e Médiuns 51
muito mais do que pela oposição e manejos de seus adversários. Chagará um dia em que tudo quanto ensinam os espíritos, faz quase um século, sobre o perispírito, os fluidos, a sucessão de existências, tudo será admitido como certo e confirmado pela Ciência. Reconhecer-se-á então a importância da oração na comunicação universal dos seres. E as ladainhas monótonas e intermináveis da Igreja cessarão, para dar lugar ao grito da alma para seu Pai, ao chamamento ardente do ser humano àquele de quem tudo emana e para quem tudo volta eternamente. Quando tal dia chegar, a Religião e a Ciência se fundirão em uma concepção mais ampla da vida e do destino. O Espiritismo será o culto da família; o pai, mais instruído, mais culto, substituirá o sacerdote; a esposa e as filhas serão as médiuns por cujo intermédio os antepassados, as almas dos avós se manifestarão e assegurarão sua influência moral.
Será o retorno à religião franca e primitiva, enriquecida pelo progresso e a evolução dos séculos; sobre esse culto familiar cimentar-se-ão as imponentes reuniões e as mais altas manifestações da ordem estética. Entretanto, para que o Espiritismo realize todo o seu programa renovador, terá que afastar de seu seio os germes mórbidos e todos os elementos maus que poderiam entorpecer ou deter seu impulso. Deste modo, a responsabilidade dos espíritas é grande. Eles devem evitar, com cuidado, tudo quanto possa retardar o grandioso florescimento de nossas crenças e de seus efeitos moralizadores. Léon Denis – Espíritos e Médiuns 52
O Espiritismo, depois de haver sido, tanto tempo, repudiado, menosprezado, se impõe definitivamente pelo poder de seus fatos e pela beleza moral de sua doutrina. Converteuse numa força radiante que se estende progressivamente pelo mundo. Depois das provas de uma guerra de cinco anos, depois do luto e do vazio causado por tantas partidas, muitos olhares chorosos se voltam para ele. Nós, que temos conhecido as dificuldades e os sofrimentos do princípio, comprovamos, com alegria, este imenso impulso que leva as almas para nossas crenças. Contudo, para assegurar a difusão e o triunfo definitivo, para obter o respeito de seus adversários e desempenhar o papel salvador que lhe corresponde na obra de ressurgimento da pátria, o Espiritismo deve cumprir uma condição absoluta, sem a qual não é possível êxito algum, e esta condição não é outra senão a de ser sempre honrado, seguindo as tradições de seu venerado fundador. Léon Denis – Espíritos e Médiuns 53
V Análise da Mediunidade O fenômeno da mediunidade é complicado e exige certas explicações. Todos os que estudaram alguma coisa das ciências ocultas sabem que o homem tem um organismo fluídico invisível, invólucro inseparável da alma, que progride, se aperfeiçoa e se purifica com ela. O corpo físico, com seus cinco sentidos, é apenas a sua representação grosseira, o seu prolongamento no plano material. Os sentidos psíquicos, sufocados debaixo da carne na maioria dos homens, recobram uma parte de seus meios de ação e de percepção, durante o sono e depois da morte. Este invólucro sutil é, na realidade, nossa verdadeira forma indestrutível, anterior ao nascimento e sobrevivente à morte. Ele é o assento permanente das faculdades do espírito, enquanto que o corpo material é simplesmente uma espécie de vestimenta emprestada. Esta forma elástica e comprimida explica o fenômeno do crescimento por sua ação sobre o corpo da criança, que ele faz desenvolver até que alcance seu tamanho normal.
A mediunidade é o poder que possuem certos seres de exteriorizar esses sentidos profundos da alma que, na maioria de nós, permanecem inativos e guardados durante a vida terrestre; é uma maneira de penetrar, por antecipação, no mundo dos espíritos. Em muitos casos, não são os espíritos que vêm ao médium, mas este que vai até eles. A célebre vidente de Pre- Léon Denis – Espíritos e Médiuns 54
vorst6 queixava-se, um dia, de que os espíritos se metiam em sua vida íntima. E estes a contestaram: “Não somos nós que viemos a ti; és tu que vens a nós.” A mediunidade é, pois, por excelência, a reveladora das potências da alma; é também, um resumo de nosso modo de vida e de percepção do Mais-Além. Desta forma apresenta um duplo interesse. A participação do médium em muitos fenômenos é grande e não se pode desconhecer que, geralmente, sua personalidade desempenha neles um certo papel. Mas, à medida que suas faculdades se desenvolvem, torna-se mais consciente da parte que se lhe pode atribuir e da que corresponde aos espíritos, especialmente nos fenômenos de escrita. Entre os médiuns em desenvolvimento, o cérebro é comparável a um teclado incompleto, ou melhor dizendo, a uma placa fotográfica desigualmente sensibilizada, que registra de uma forma imperfeita as imagens e os pensamentos que deve reproduzir. O pensamento do espírito não está representado senão por trechos de frases e fragmentos de idéias. Impõe-se, pois, para ele, a necessidade de encher as lacunas, utilizando termos e imagens tomados dos costumes do médium. Em muitos fenômenos, dizemos, se encontra uma parte atribuída ao médium, ao seu próprio fundo de idéias, de conhecimentos e de expressões.
6 A vidente de Prevorst: Frederica Hauffe, nascida em 1801 na aldeia de Prevorst, em Wurttemberg, Alemanha. Médium sonambúlica. Para maiores detalhes veja-se o livro do Dr. Justinus Kerner, da Editora O Clarim, A Vidente de Prevorst. (N.R.) Léon Denis – Espíritos e Médiuns 55
Com efeito, entre pensar e expressar-se com o próprio cérebro e fazê-lo por intermédio de um cérebro estranho, há uma grande diferença. Nosso órgão cerebral está adaptado, por um prolongado e constante adestramento, à nossa mentalidade pessoal e revela um dos aspectos de nosso “eu”. Não ocorre o mesmo com um cérebro estranho, e temos que compreender as dificuldades que experimentam certos espíritos para se comunicarem de modo tão claro e preciso como quando estavam na Terra. Essa dificuldade, que é muito acentuada nos fenômenos de escrita, se encontra, também, ainda em menor grau, nos fenômenos de incorporação. Assim, nosso guia, que dispõe de uma vontade e de uma força psíquica excepcionais, e que sabe tomar plena posse dos médiuns que utiliza, serviu-se algumas vezes de termos graciosos, que não lhe eram familiares e que tirava do vocabulário do médium. –– 0 –– A espessa cortina que nos separa do Além-Túmulo permanece impenetrável para o homem revestido de seu manto carnal; porém, o espírito exteriorizado do médium, assim como o espírito livre do morto, pode atravessá-la com a mesma facilidade com que um raio de sol atravessa uma teia de aranha.
É suficiente somente a exteriorização de um só de seus sentidos psíquicos, para que o médium perceba os ruídos, as vozes e todas as formas do mundo invisível. Léon Denis – Espíritos e Médiuns 56
A intervenção dos espíritos não é, pois necessária em certos fenômenos, como os de visão e audição. Porém, se o médium é capaz de penetrar no Além- Túmulo por suas próprias faculdades, não seria incapaz de transmitir aos vivos as mensagens dos habitantes dessas regiões. Inclusive, pode, nos casos de incorporação, proporcionar-lhes os meios de se manifestarem aos humanos, com tanta precisão e intensidade como se o tivessem feito durante sua permanência na Terra, com seu próprio organismo. O fenômeno da incorporação permite aos espíritos darnos provas de identidade mais abundantes e mais convincentes que qualquer outro dos procedimentos de comunicação. Os que conheceram o morto não podem confundir-se: a voz, os trejeitos, as idéias emitidas constituem outros tantos elementos de certeza no que concerne à personalidade do manifestante, especialmente quando se sabe que o médium não pôde conhecê-lo, nem recorrer a nenhum informe sobre sua maneira de ser e seus costumes.
Eu pude dispor, durante mais de trinta anos, de uma excelente médium falante, por meio da qual podia comunicarme com o Além-Túmulo e receber as instruções necessárias para prosseguir meus trabalhos. Tive a desgraça de perder esta médium nos fins de 1917 e, desde então, tornaram-se bastante limitadas as relações com meus guias. Depois de anos de uma privação cruel, num certo dia de verão, vi chegar duas senhoras, parisienses, portadoras de uma carta de recomendação do senhor Leymarie, e que Léon Denis – Espíritos e Médiuns 57
vinham passar um mês de férias em Touraine. Eram-me completamente desconhecidas. Durante o transcurso de uma conversação, falando de um cego, meu amigo, que havia obtido comunicações escritas, estas senhoras expressaram o desejo de vê-lo trabalhar. Organizei uma pequena sessão. Ignorava eu, todavia, que uma delas era médium, pois não me havia dito nada. Assim, minha surpresa foi grande quando logo a vi caída, em transe, e ouvi uma voz forte que anunciava a presença de meu guia, do poderoso espírito cujos sábios conselhos e terna solicitude me dirigiram e sustentaram sempre em minhas tarefas de propagandista. Durante a conversação que entabulamos, de quase uma hora, esse espírito me expôs seus pontos de vista acerca da situação do Espiritismo, falando-me de nossos trabalhos comuns no passado com detalhes minuciosos, que a médium não podia conhecer em absoluto. Todos os assistentes, que há muito haviam participado das sessões que descrevi em meu livro No Invisível, reconheceram Jerônimo de Praga, enquanto a médium ignorava completamente tudo quanto se referia a esse espírito eminente.
Após alguns instantes de repouso, outra entidade, inteiramente diferente, se comunicou e pudemos ouvir a doce voz da senhora Forget, que era a médium preciosa a quem me refiro mais acima, já liberada então de seus laços terrestres. Com aquela jovialidade que a caracterizava fez com que, em seguida, seus amigos presentes a reconhecessem e nos disse que, vendo-me privado, em conseqüência de sua partida, de toda relação com o Além-Túmulo, pôs-se em campo, “pulando como um rato”. À força de procurar, havia termi- Léon Denis – Espíritos e Médiuns 58
nado por descobrir uma médium capaz de substituí-la. Ajudada por Jerônimo de Praga, havia sugerido à dita senhora que viesse a Tours, para se pôr à minha disposição. Ambas as senhoras parisienses acreditavam perfeitamente, ao virem à minha casa, que realizavam suas próprias intenções. O que demonstra, uma vez mais, que os homens cedem, mais rapidamente do que geralmente crêem, à influência dos espíritos. No transcurso da mesma sessão, um incidente veio proporcionar-nos uma notável prova de identidade. Um de nossos médiuns escreventes registrou, com ajuda de um benevolente espírito, a queixa de um suicida que implorava a ajuda de nossas orações. Esse suicida lamentava sua situação dolorosa em ternos que permitiram reconhecê-lo. Uma senhora vizinha, que veio convidada por um membro do grupo e assistia pela primeira vez a uma reunião espírita, manifestou a princípio seu ceticismo acerca dos fenômenos obtidos. Porém, ao ler a última comunicação, empalideceu, perturbou-se e declarou que se tratava de seu pai, de seu próprio pai, que se havia enforcado, há alguns meses, em conseqüência de reveses de fortuna.
Este fato foi confirmado posteriormente por outros habitantes da mesma localidade. Afirmei que o Espiritismo é a religião da família. Com efeito, as relações constantes que ele nos permite manter com nossos queridos mortos são, em nossa vida, outros tantos elementos de força moral e de elevação. Nossas reuniões íntimas são sempre um doce consolo e conforto. Por exemplo: em 2 de novembro passado, Dia dos Mortos, nos reunimos em uma sessão na qual, por dois mé- Léon Denis – Espíritos e Médiuns 59
diuns em transe, nossos queridos invisíveis vieram, uma vez mais conversar conosco. Enquanto as multidões invadiam os cemitérios, em busca de uma forma tangível de recordação, nós comungávamos com nossos amigos do Espaço, no recolhimento do pensamento e na doce intimidade do coração. Depois dos ensinamentos de Jerônimo de Praga e de Allan Kardec, escutamos as narrativas humorísticas de Massenet. Logo presenciamos uma cena emotiva na qual o espírito da mãe de um amigo nosso, cego, veio proporcionar, a seu filho e à sua nora, advertências e ternas exortações que lhes arrancaram soluços. Deu-lhes conselhos preciosos acerca de uma situação delicada. E tudo isso por intermédio de um médium que não havia conhecido o dito espírito. Numa palavra, tivemos durante algumas horas toda a gama de sensações e emoções em uma linguagem que ia do grave ao doce, do gracioso ao severo, e que no causou uma profunda impressão.
Ao nos separarmos, sentimos que os laços que nos uniam à nossa família espiritual haviam se estreitado ainda mais e que algo da serenidade dos grandes espaços havia descido às nossas almas. –– 0 –– O fenômeno espírita, dizíamos, varia de natureza e de intensidade segundo as aptidões dos médiuns. Se, na ordem dos fatos materiais, o espírito busca sobretudo os médiuns depositários e transmissores de forças radiantes, na ordem intelectual dedicará sua atenção, de preferência, aos que, por Léon Denis – Espíritos e Médiuns 60
terem uma certa cultura, lhe oferecem recursos mais amplos para a eclosão de expressões e idéias. É muito difícil a um espírito produzir mensagens de forma literária ou científica por meio de um cérebro inculto. Se, com um grande esforço de vontade, pode fazer expressar, por esse cérebro, nomes, palavras, datas que não se acham registrados de antemão, não lhe é possível prolongar esse esforço por muito tempo. “Quando se nos oferecem uma corneta, dizia um espírito, não podemos obter dela os sons de uma harpa.” Outro se servia da seguinte comparação: “Nós experimentamos, ao nos servirmos de um cérebro inculto, a mesma repugnância com que uma delicada mão de mulher se serve de um enorme ferrolho enferrujado.” Acontece, às vezes, nas sessões, que vários médiuns escreventes obtêm simultaneamente mensagens firmadas com o mesmo nome, expressando idênticas idéias, embora com formas diferentes. Por isso, entre os assistentes, se fazem muitos comentários salpicados de suspeitas e de críticas.
Temos que colocar esses fatos entre as fraudes e as imposturas ou ver neles a intervenção de espíritos pouco escrupulosos? Eis aqui o que nos diz, a esse respeito, um de nossos guias: “A telegrafia sem fios revelou que uma faísca elétrica, produzida por corrente de alta freqüência, envia ondas em todas as direções. E estas ondas podem ser captadas por aparelhos receptores dispostos igualmente em todas as direções. Portanto, uma mesma mensagem pode ser percebida, ao mesmo tempo, por vários ouvintes. Este fenômeno se Léon Denis – Espíritos e Médiuns 61
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.