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Capítulo 4 de 15
“Deus Era a Única Sílaba que nos
Ninguém Morre · Chico Xavier, espíritos diversos
ESCAPAVA DO CORAÇÃO E DA BOCA”
José Roberto Alves Pereira
Querida Maria Helena e meu caro Antoninho, ainda estou no trauma do acontecimento que não estimaríamos relembrar. Tudo foi questão de segundos. Observava a hesitação do motor, mas na impossibilidade de qualquer retificação, entreguei-me à força que interpretamos como sendo a Vontade de deus. Reconheço que estamos todos submetidos a leis imbatíveis e prefiro falar do assunto do ponto de vista da religião. Nessas horas terríveis do imprevisto negativo, a idéia de que somos filhos de uma Sabedoria Infinita e de um Infinito Amor que comandam todo o Universo, nos reconforta os corações. Creiam que não houve tempo que se despendesse em lamentações. Deus era a única sílaba que nos escapava do coração e da boca, atônitos que nos achávamos todos, diante do irremediável. O grande pássaro de metal caiu arremassando-nos a todos de uma vez na liberação compulsória da experiência física.
Concentrei-me todas as minhas reservas de energia mental para não dormir ou desmaiar, entretanto, semelhante esforço não me valeu por ensejo de observação mais minuciosa do fenômeno que nos arrasava a família. Numa fração de tempo que não pude e nem posso ainda precisar, vi-me fora do corpo, à maneira de noz quando solta do invólucro natural que a retém e, conquanto cambaleasse de espanto e sofrimento, reconheci que não estávamos a sós. A mamãe Antonieta e a Lucy estavam amparadas por senhoras amigas, e o Robertinho, a Luciana e o Waldomiro Neto se achavam sob a assistência de enfermeiros diligentes. Quis conhecer os benfeitores que nos estendiam socorro, mas, como se a certeza de que não nos achávamos abandonado me rematasse as resistências, entrei por minha vez num torpor de que não consigo atualizar a duração.
Mais tarde, ainda ignoro depois de quantos dias, despertei numa instituição que a princípio me forneceu a ilusão de que havíamos sido salvos do acidente doloroso, mas não se passou muito tempo, para que me visse esclarecido. Havíamos todos deixados à moradia física, de uma só vez. Embora me sentisse quase quebrado pelas conseqüências da queda, era obrigado a reconhecer que me via num corpo em tudo semelhante àquele que havia servido. Seria inútil qualquer tentame de meu lado para descrever-lhes à mudança que me convulsionava a cabeça. Entretanto, era preciso resignar-me aos acontecimentos e, mais uma vez à idéia religiosa foi à escora que me imunizou contra o desequilíbrio total. Pouco a pouco, revi todos os nossos. A mãezinha Antonieta recebera os primeiros socorros por parte de duas amigas que passei a conhecer, a irmã Anna Inacia de Mello e a irmã Arminda Andrade Nogueira, que fora em Franca, a esposa do Capitão Nogueira. O papai Waldomiro estava em nosso auxílio e o dr. Ismael Alonso com outro médico, o dr. Antônio Ricardo Pinho nos submetiam a tratamento atencioso.
Monsenhor Cândido Rosa, o respeitável amigo da nossa família, nos abençoava com a sua assistência e a única revelação que lhes posso fazer é que me tornara novamente menino para chorar, vasando no pranto copioso o sofrimento da desvinculação inesperada a que fôramos conduzidos. Maria Helena, peço-lhe calma e confiança nas forças invisíveis que aí na Terra nos reanimam e nos consolam. Nosso grande reconforto é saber que a deixamos sob proteção do nosso prezado Betarello e sob as obrigações de viver para os filhos queridos. Agradecemos o seu heroísmo encharcado de lágrimas quando a provação nos colheu a família e pedimos a você prossiga, em frente, na convicção de que nossos pais e nós, seus irmãos, não a esquecemos. Somos gratos às suas orações, às suas flores, às suas referências carinhosas e aos ofícios religiosos com que você e o nosso Betarello nos recordam. Em tudo isso, sabe que a dor é o metro de todos os nossos movimentos, entretanto não desconhecemos que a esperança brilha nessas sombras em que se nos enlutou a vida.
É um verbo inadequado para quem traz as notícias da própria sobrevivência, mas a verdade é que o luto espiritual daqueles primeiros dias que se seguiram ao desastre ainda não se desanuviou de todo, em nossos corações.
Estamos relativamente bem, mais ainda deslocados, como se procurássemos inutilmente a nossa própria moradia. No entanto, não temos razão para queixas, porque saímos de certa parte da nossa família para associar-nos à outra parte, aquela que nos precedeu na grande transformação. Agradeço ao Antoninho por toda a solidariedade com que nos acompanhou o transe aflitivo daquelas horas de que não mais nos esqueceremos, e estamos todos certos de que ambos continuarão a recordar-nos nas orações, que significam para nós outras cartas de estimulante amor, a fim de que nos reanimemos passando a viver, sobrevivendo acima da vida que não esperávamos deixar. Sintam-me reconfortado e confiante. Não há lugar para desalento e auto-piedade. Um mundo novo se nos abre à frente e uma nova existência nos desafia. Seguiremos ao encontro daquilo que a Sabedoria Divina nos reserva, no entanto, saibam que Deus nos criou de tal modo que o amor é um selo indelével sobre os nossos mais altos sentimentos na vida. Onde estivermos, continuaremos a pertencer-nos uns aos outros pela afeição que nos reuniu para sempre. Com estas idéias de união imperecível e de alegria do reencontro, subscrevo-me com carinho que lhes devo e com a esperança de falar-lhes outra vez. Abraços do irmão sempre agradecido, José Roberto
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.