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Capítulo 6 de 8
Cdd-130 — parte 5 de 7
Na Cortina do Tempo · Edgard Armond
cido no mosteiro, desde o primeiro contato, que duas vezes ao dia, a saber: nas cerimônias do culto ao Sol nascente e no crepúsculo, as instruções seriam dadas pelo guia desencarnado, como também o seriam a qualquer hora, do dia ou da noite, em caso de necessidade maior como, aliás, já acontecera nesses últimos dias. Morevana tinha mais idade e seu coração se ressentira de tantas e tamanhas emoções. Estava repousando no seu leito e dormitava desde quando a noite caíra sobre o mar, mas Astério, acossado pela responsabilidade da chefia espiritual do empreendimento, velava atento. Bem mais tarde, quando já não havia mais esperança de contato, a voz do guia, forte e harmoniosa, ressoou na câmara: - O perigo, meu filho, está passado e a rota das naus, de agora em diante, será tranqüila.
Mantende o mesmo rumo firmemente e daqui a pouco, quando a lua subir por sobre o mar, sai para fora, estende o teu braço na direção do rumo e à altura de uma mão aberta no braço estendido, vereis pela frente uma costa penhascosa; deixai-a à esquerda e rumai a sudeste; tomai bem nota: quando a costa estiver no horizonte novamente à esquerda, voltai o rumo para nordeste e tereis então dois sóis de navegação tranqüila em mar aberto, até que vos surja à frente, bem no sentido do rumo, a nova terra, que será o vosso destino final. Que o Senhor vos ilumine em sabedoria nestes dias difíceis, para que a vossa tarefa se execute fielmente. Que assim seja. Quando o piloto-mor, chamado à câmara, se inclinou novo à sua frente, perguntou-lhe Astério: - Conheceis ou ouviste falar de alguma terra no rumo em que estamos agora?
- Não. Venerável Senhor, nada sei a respeito. - Toma nota, então, piloto, das instruções que o Senhor nos envia e cumpre-as rigorosamente, sem a menor alteração, haja o que houver. O piloto anotou-as, comentou-as cautelosamente e, bem não se havia afastado, já o disco lunar, saindo das águas, limpo e claro, como que lavado por elas, apontou no horizonte e rapidamente começou a subir pelo céu sem nuvens.
E tudo foi como houvera sido predito, ponto por ponto: a costa penhascosa à esquerda, o rumo a sudeste, a guinada das naus para nordeste e, por fim, o surgimento da terra à frente das proas, o ponto final do destino tão almejado e que a bruma do mar mal deixava entrever ao longe (vide mapa). E o vento deu de soprar com força crescente, vindo de ré, e as naus tomadas por ele, abriram todas as suas velas e se foram sobre as águas com incrível rapidez, como gaivotas em divertimento. E quando a costa do destino final surgiu, bem na linha fronteira do rumo, o guia espiritual voltou a falar na câmara, de forma inesperada: - Eis o que o Senhor vos diz: encontrareis uma pequena baía e nela deveis entrar, lançando vossas âncoras confiadamente; amarrareis vossas naus bem juntas umas das outras, para vos servirem de habitação provisória, e então virá a vós o auxílio de que careceis para o vosso estabelecimento nessa nova terra. Pela primeira vez Astério interveio, perguntando: - Venerável mensageiro do Senhor! Que mar é este em que navegamos e no qual se encontra o nosso porto de desti-
no? E o Grande Penhasco, será crível que se haja fendido unicamente para dar passagem a estas nossas naus desarvoradas? - As emoções de tantos instantes difíceis, Astério, perturbaram vosso atilado entendimento. São sempre justos e perfeitos os desígnios do Senhor. Lembrai-vos do nosso encontro do segundo dia: no mesmo instante em que vos avisava que Poseidônis se afundava nas águas, o rochedo que conhecíeis como o Marco do Oriente já estava fendido ao meio, abrindo a passagem por onde, logo depois, vos aventurastes com as vossas naus. E as águas do oceano, que por ali se precipitaram, inundaram esta grande região em que vos achais agora, esta imensa depressão entre costas afastadas, na qual se está formando um mar interior que terá considerável importância na civilização futura do mundo. Estas naus, como sabeis, trazem em seu bojo elementos preciosos para essa realização espiritual, como vos foi anunciado antes mesmo da partida. Muitas terras ficaram agora submersas porém outras se levantarão em torno deste mar, cuja entrada, agora um simples corredor estreito e perigoso, se alargará grandemente para que a navegação seja facilitada16; e assim, Astério, estas novas terras se transformarão em centros ativos dessa nova civilização do planeta. Elas é que deverão receber o legado espiritual de que sois agora portadores. Paz convosco e a bênção misericordiosa do Senhor.
16 O historiador romano Tito Lívio, no começo da era cristã, dava-lhe 7 milhas e, 400 anos d.C., apresentava-se com 13 milhas, tendo hoje 15 milhas na sua menor largura.
Ao terceiro dia de uma navegação tranqüila em um mar sereno e azul, onde os raios do sol se espelhavam refulgindo, logo pela manhã divisaram no horizonte a terra que buscavam já bem perto e, com a luz já bem no alto, penetraram em uma baía pequena e alegre, que oferecia seguro abrigo. Obedecendo às instruções, cerraram as naus umas junto às outras, desceram as âncoras e iniciaram os preparativos para o desembarque ansiosamente aguardado. Um grupo de observadores escolhidos desceu em primeiro lugar, para estudar a costa e o interior adjacente, examinando as possibilidades de um desembarque geral, com acomodações para todos. Muitas horas depois, já ao cair da tarde, o grupo regressou informando que a região era agreste, montanhosa, desabitada, com possibilidades, porém, de acomodação nas fraldas de um monte mais próximo, onde havia anfractuosidades e grutas naturais que poderiam ser utilizadas como abrigos provisórios. Astério e Morevana autorizaram o desembarque para a madrugada seguinte, para que cada um se acomodasse individualmente, ou em grupos reduzidos, adaptando-se às circunstâncias do momento. Por essa noite, decidiu-se, dormiriam nos barcos e assim, efetivamente dormiram, profundamente, após tantos dias de angustiosas vigílias, essa primeira noite de sono tranqüilo e recuperador.
Na manhã seguinte, antes de descerem para a praia, ouviram sons roufenhos e tristes de trompas de caça e, surpreendidos, viram aproximar-se dos barcos um grupo nume-
roso de homens de estatura elevada, cobertos de peles de animais e armados de lança e arco; gritavam e faziam sinais e chamavam os navegantes no idioma do país de Cush, pedindo que descessem sem temores, pois que eram amigos. Os emigrantes se aglomeraram ansiosos nas amuradas dos barcos, querendo descer, mas os sacerdotes acharam mais prudente mandar à terra um bote, pedindo que viessem à nau-piloto alguns homens daquele grupo, para os indispensáveis reconhecimentos e entendimentos. Três homens atenderam e foram levados à sua presença na proa da nau. Eram altos, extraordinariamente robustos e, assim, à primeira vista, não se poderia atinar com sua raça de origem. Saudaram austeramente com a saudação atlante e com isso em parte se identificaram. - Quem sois, amigos, e donde vindes?
Perguntou Astério dirigindo-se ao mais idoso deles. - Somos atlantes, descendentes de colonos que vieram do sul, que povoaram uma colônia antiga, dirigida por Hilcar discípulo de Antúlio, que foram subindo para o norte e se fixaram às margens do lago Triton, ali fundaram a colônia de Chibuc, de onde agora fugimos, para nos refugiarmos nas florestas altas situadas atrás destes montes, que daqui podemos ver. À medida que vos aproximáveis, reconhecemos as naus como sendo atlantes, porque alguns de nós já vivemos no mar e conhecemos navegação. Corremos para cá a fim de ajudar, também, sermos ajudados, porque necessitamos de muitas coisas. - Mas como, então, pertencendo à colônia de Chibuc, tão distante, vos encontrais aqui? Interveio o piloto-mor. - Viemos para cá há muitos sóis, antes que estas terras fossem alagadas repentinamente, há poucos dias; fugimos da
antiga colônia para evitar a morte, porque somos pacíficos e não lutamos contra irmãos de sangue; nossos pais se referiam sempre ao grande rei Anfion, que se afastou do mundo por amor à paz. - E que ameaça ou perigo mortal vos afrontava, de tal modo que vos levou à fuga? - Havia três colônias às margens do lago: a nossa, a dos tlavatis da Teoscandia e a dos semitas da Mauritânia; entre eles houve uma desavença terrível por falta de mulheres e se aniquilaram mutuamente após anos de rixas e traições mortíferas. Estávamos levantando tendas à beira de um pequeno lago, na parte baixa, além daqueles montes azuis que daqui se veem, bem a leste, quando, repentinamente o mar invadiu as terras e a custo nos livramos das águas.
Estamos agora mudando a nossa colônia para as fraldas destes montes que denominamos “Das Abelhas”, porque esses insetos aqui proliferam de forma incrível e dos seus produtos temos nos alimentado, com penúria, mas sem padecimentos de verdadeira fome, enquanto armazenamos carne de caça para o inverno que se aproxima. - Que fazem para conservar a carne? Perguntou novamente o piloto-mor. - Aprendemos com os semitas - que são muito sóbrios - e que descobriram em uma montanha, não muito longe daqui, os cristais brancos que tornam os alimentos incorruptíveis, dos quais o nosso povo já sabia fazer uso, como deveis saber. - Sim, sabemos, e folgamos também saber, que nestas redondezas existe esse cristal.17
17 Cloreto de sódio - sal de cozinha.
- Se vindes para ficar nestas plagas, continuou o colono, seria bom que aceitásseis nossa companhia no mesmo local onde estamos. Não tereis conforto, como seria de desejar, mas sempre é melhor que viver nos barcos ou grutas infestadas de répteis venenosos. - Agradecemos a lembrança, respondeu Astério e mandaremos convosco companheiros e operários nossos para nos informarem sobre o local, enquanto vamos permanecendo aqui mesmo nos barcos, sem receio de répteis e de feras desconhecidas. - Dizei-me agora, venerável pai, o que vos move a emigrar para esta região desértica e o que ocorreu para o lado de onde vindes, que provocou esta terrível inundação. Que notícias nos podeis também dar de nossa pátria distante? - Deixemos isso para depois, respondeu Astério e sereis, satisfeitos em vossa natural curiosidade; cuidemos agora e com urgência da acomodação deste nosso pequeno povo.
No Monte das Abelhas
Pouco depois o gongo da nau-piloto soou, convocando para o culto ao Sol. Durante a travessia a cerimônia se realizava em cada nau para aqueles que nela iam mas, nessa tarde, Astério ordenou uma reunião geral na praia e, em breves minutos, os barcos se esvaziaram. Agruparam-se os homens sob a ramaria densa de um cedro, junto à praia e entre eles se incluíram os colonos atlantes de Chibuc que resolveram permanecer junto aos emigrantes aquela noite, a fim de ajustarem condições e estreitarem conhecimento. Ao centro do grupo colocaram-se os sacerdotes e, para demonstrarem sua alegria, os colonos utilizaram suas trompas de caça, emitindo sonidos melancólicos e prolongados, que reboaram plangentemente pelos vales e montes até que Astério exigiu silêncio e iniciou a cerimônia, no momento exato em que o disco do sol fazia seu mergulho no horizonte longínquo, sob as águas ondulantes. Morevana dirigiu o culto, oferecendo ao Senhor a gratidão dos emigrantes pelo êxito da travessia, e rogou a sua proteção para o estabelecimento da futura colônia: agradeceu o auxílio já recebido dos irmãos de sangue ali presentes e interpretou a alegria de todos por aquela primeira reunião na terra da nova esperança.
Quando terminou sua prece comovente, Astério levantou os braços para o Alto e clamou sob a mais viva emoção: - Ó Grande Espírito. Senhor nosso, eis o nome pelo qual, de hoje em diante, chamaremos a colônia que vamos fundar em teu santo nome: Nova Esperança. E voltando-se para os assistentes perguntou: - Que dizeis, meus filhos? Aceitais em nome do Senhor a Nova Esperança? Um grande clamor se levantou no meio deles e os braços todos se estenderam em aprovação e juramento: - Nova Esperança, esse será o seu nome. Dali a momentos todos se recolheram e entre si comentavam com alegria a rapidez com que as coisas sucediam e até mesmo já estando a nova colônia designada por um nome simbólico e promissor. Na câmara de vante, sentado frente a Morevana, Astério repetia para si mesmo o nome escolhido: Nova Esperança! Muitas já houvera antes para aquele povo indócil e fútil e a última fora Poseidônis, mas triste fora o seu fim...
Comovido levantou-se e orou ao Santo Espírito dizendo: - Rogo-te, Senhor, que muito diferente seja o destino desta que hoje consagramos e que os seus caminhos sejam o da verdade mais pura; e que o coração dos homens nela encontrem não a violência, mas a paz; não a morte, mas a eterna vida. Depois recostou-se e a noite caiu sobre todos como um manto de proteção e de silêncio, para que repousassem.
Estavam assim transplantados em terras novas os conhecimentos e as tradições religiosas incorporados pela Quarta Raça, que na continuidade evolutiva da civilização planetária deveriam ser herdados pelos homens da Quinta Raça que, tempos depois formou-se no Indostão, sob a lúcida inspiração do missionário Rama, nascido na raça dos druidas, ramo dos celtas, descendentes dos primitivos hiperbóreos. Cada raça gera uma civilização determinada que, com ela passa, sendo substituída por outra mais evoluída. Como já expusemos antes, com o primeiro afundamento do Grande Continente, muitas tribos se salvaram, refugiando-se nas regiões vizinhas, inclusive no Continente Hiperbóreo, ao norte do globo, mas quando o gelo começou, neste último, a condensar-se por desvio da órbita do planeta18, processo que durou longo tempo, tornando inabitável a região, os habitantes, em massa, se deslocaram para o sul, detendo-se nas planícies do atual centro da Europa.19 Ao mesmo tempo diversas tribos dos antigos lemurianos, que se haviam refugiado no continente africano, deslocaram-se para o norte em grande número, aproximando-se dos acampamentos dos hiperbóreos, tornando-se iminente uma terrível luta de sobrevivência.
18 A aproximação de um astro, em certos casos, pode produzir catástrofes. A aproximação de um cometa que invadiu a atmosfera da Terra naquela época desviou o eixo e a órbita da Terra, que era circular, passou a ser elíptica e a duração do seu trânsito na órbita ficou acrescida de dez dias, uma hora e trinta minutos; isto trouxe profundas alterações nas estações, influindo grandemente sobre o clima do globo. 19 A alteração do clima no Continente Hiperbóreo e sua conseqüência para a formação da Quinta Raça pode ser estudada em outra obra do autor, Os Exilados da Capela, capítulo XVI. (Nota da Editora)
Quando o choque entre as duas raças se tornou inevitável, os dirigentes planetários intervieram, como sempre o fazem quando a ação dos homens cria embaraços ou ameaça a evolução da humanidade... Violenta epidemia assolou os acampamentos hiperbóreos mas, em sonhos lúcidos, foi revelado ao sacerdote menor Rama que a bolota do carvalho era o remédio salvador. Passando a agir como informara o mensageiro espiritual conseguiu ele sobrepor-se ao poder das sacerdotisas que governavam o culto e distribuiu o remédio ao povo, vencendo a epidemia em curto prazo. - Este é o verdadeiro chefe, clamavam os homens e as mulheres; aquele que protege o povo e o salva da morte. Ele que nos conduza de hoje em diante, que respeitaremos sua autoridade. Assim surgiu o missionário que salvou aquele povo e liderou daí por diante o destino da Quinta Raça - os árias - conduzindo-o para o Oriente, salvando-o também de aniquilamento, porque os rutas, que arvoravam o estandarte da violência e da cobiça, quando se lançaram sobre o acampamento dos árias, nada mais encontraram que fogos apagados e montes de cinza ainda quente, que os ventos espalhavam pelo ar.
Nova Esperança
Na manhã seguinte, após o culto costumeiro, formaram-se grupos destinados a preparar a instalação dos emigrantes e, tendo à frente os colonos de Chibuc, partiram alegremente, quando o sol já se achava a meia altura. Atravessaram a linha dos montes que circundavam a baía e desceram para o vale oposto, verdejante e claro onde, desde logo, se avistavam algumas cabanas cobertas de palha. Havia intensa atividade no local, homens robustos levantavam uma paliçada em torno ao grupo de cabanas, outros construíam novos abrigos e terraplenavam o solo, cavando fossos para escoamento das águas de chuva; mulheres, uma dezena delas, trabalhavam nos arranjos domésticos, esfolando animais de caça, enchendo de mel silvestre recipientes de bambu ou de argila, enquanto várias crianças brincavam na parte limpa do campo. Sob um cedro frondoso estava um homem de idade madura e aspecto imponente; dirigia-se de vez em quando ao grupo de trabalhadores ou às mulheres, dando ordens, corrigindo falhas; em sua fronte alta e larga, os olhos doces, mas enérgicos, refletiam uma grande autoridade; suas mãos possantes trabalhavam na confecção de uma mesa tosca de madeira, grosseiramente aparelhada. Via-se que era o chefe.
Vendo o grupo de homens que se aproximava, foi-lhes ao encontro à entrada do acampamento, enquanto gritava aos trabalhadores que se reunissem e às mulheres, que se refugiassem nas cabanas mas, reconhecendo, logo à frente do grupo, os colonos de Chibuc, aguardou calmamente os visitantes. Os colonos fizeram-lhe uma respeitosa saudação. - Vossas ordens foram cumpridas, Dáctilo; já nos entendemos com os chefes dos barcos, que são sacerdotes, do Templo de Astlan, de Poseidônis. São nossos irmãos de sangue e convidamo-los a se juntarem a nós na colônia. Nenhum deles tem armas; são pacíficos e bondosos. Dáctilo olhou-os em silêncio por algum tempo como se aguardando qualquer inspiração e, subitamente decidiu-se e levou-os para o acampamento caminhando à frente deles. Reuniu-os debaixo do cedro, já agora sem a menor desconfiança e perguntou: - A quem devo dirigir-me como chefe? - A mim, disse Tlotac, que estava entre eles, avançando. Sou um sacerdote de grau menor e estou autorizado a falar contigo. Dáctilo gritou um nome e um de seus homens acorreu. - Leva estes irmãos nossos; dá-lhes comida e deixa-os depois descansar como quiserem. E virando-se para Tlotac: - Sentemo-nos aqui neste galho seco e conversemos. Viemos para estas terras há muitos anos e nunca nada soubemos de nada do que se passava em nossa nação. Somos do Cerro Grande e, como viestes de Poseidônis, conta-nos o que sabes.
Tlotac sentou-se junto dele e, após ligeira reflexão contou-lhe o que sabia sobre os últimos acontecimentos que os obrigaram ao exílio doloroso naqueles ermos. Enquanto ele falava, ia-se alterando profundamente a fisionomia de Dáctilo, fechando-se, por fim em terror e espanto e, ao terminar a narrativa, pendeu a cabeça sobre o peito e assim permaneceu por longo tempo; por fim disse a Tlotac: - Leva-me ao grão-sacerdote, teu chefe, quero falarlhe. - Por certo que o levarei. - Podes fazê-lo já? - Hoje não, respondeu Tlotac. Sinto-me cansado. A imobilidade nas naus durante tantos dias, as emoções e os temores provocados por esses acontecimentos tão trágicos e a caminhada da praia até aqui, nos enfraqueceram de corpo e espírito. Poderei ir contigo amanhã, se quiserdes. - Seja, pois, amanhã, com a madrugada, respondeu Dáctilo. Por hoje então descansareis aqui, com teus companheiros e desde já declaro que concordo em nos juntarmos todos, formando um só grupo, mais numeroso e mais forte para aguentar a vida nestes ermos. Tlotac reuniu seus homens, falou-lhes da decisão de Dáctilo e, ao invés de regressarem aos barcos, resolveram iniciar imediatamente a construção de abrigos para todos os companheiros. Entraram em entendimentos com Dáctilo sobre os planos das construções e imediatamente meteram mãos à obra, alegres e bem dispostos.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.