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Capítulo 5 de 8
Cdd-130 — parte 4 de 7
Na Cortina do Tempo · Edgard Armond
vinha diretamente sobre o mosteiro, o gongo soou, imperioso e cavo, convocando a todos para a cripta central do Templo. Com suspiros de alívio se apressuraram todos a atender e, em breves minutos, o local estava repleto. Sobre a plataforma central, mais uma vez, solene e comovida, ergueu-se a voz sonora e grave de Morevana: - Irmãos: vamos partir para o desconhecido e, mais uma vez, prosternemo-nos neste chão, que é o solo de nossa pátria infeliz; prosternemo-nos, irmãos meus, ante o poder de nosso Deus e Criador. E imprecando ao Alto, exaltadamente: - Nunca antes como agora, Senhor, compreendemos que és o único e verdadeiro poder. Confiamos em tua misericórdia e proteção inteiramente, pois, quem somos nós, ó Grande Espírito, perante a mão que desencadeia sobre o mundo tamanhos e tão terríveis acontecimentos? Ilumine a nossa rota sobre estas águas inquietas, e que os teus sagrados desígnios em nós se cumpram com perfeição, para benefício da humanidade encarnada neste orbe. Para onde iremos, Senhor, que o teu poder não nos conduza com segurança e tua sabedoria não nos conceda uma vida útil?
Sejam pois, quais forem os teus caminhos nós, teus filhos e servos, iremos por eles e seremos fiéis aos teus mandamentos; não temeremos a vida e a morte e proclamaremos por toda parte a grandeza do teu amor, a extensão do teu poder e a excelência da tua justiça. No profundo silêncio reinante, as palavras comovedoras da prece final do sacerdote penetraram fundo no coração de todos, e só então mediram a extensão imensa de suas responsabilidades, como veículos da divindade para a perpetuação dos conhecimentos espirituais que deveriam ser transmitidos a outros povos, para os lados do oriente.
E, novamente, a luz vinda do Alto, filtrou-se pelo teto de rocha, inundou a cripta e, dentro dela surgiu, em belíssima materialização luminosa, a figura resplendente de Xelu, com o corpo ereto, olhos fulgurantes, apontando, sem palavras, com o braço estendido imperiosamente, a direção do oriente. Num momento apagou-se a visão e todos os peitos respiraram fundo, desafogados, convictos agora da presença constante do Grande Espírito em tudo aquilo que devessem realizar dali para o futuro. Morevana abandonou então a plataforma, recuando enquanto bradava enérgico e exaltadamente: - Cerrai todas as portas, apagai todos os fogos, abandonai todo o resto e, em nome do Senhor, embarquemos, meus filhos. E enquanto lá fora a multidão desvairada de terror se debatia contra as portas, gritando, vociferando, quem olhasse para o mar, uma hora depois, veria, como se fosse num sonho uma fita extensa de naus singrando na direção do oriente, todas elas dentro da faixa esplendorosa da luz prateada que vinha da lua, uma enorme lua plena, com uma imensa auréola de fogo que por sua vez caminhava rapidamente na sua rota pelo céu escuro.
Vencendo o Abismo
As naves singravam bem juntas, como que amedrontadas, na esteira da nau-piloto, e quando o disco do sol começou a remontar o horizonte, em todas elas os homens se prostraram, rendendo culto à luz. Com elas as tradições religiosas sobreviviam à extinção da Quarta Raça. Retirados dos arquivos do Mosteiro de Astlan, conduziam preciosos documentos gravados em lâminas de oricalco13, contendo o resumo dos conhecimentos das coisas sagradas: a origem do mundo, a história da Quarta Raça e dos sete povos que a formavam; as regras e os ritos do culto atlante, para o intercâmbio com o mundo espiritual e os seus porta-vozes; os conhecimentos sobre as artes, a agricultura, a fundição de metais e o fabrico de objetos de uso; a construção de naves para as grandes e as pequenas rotas; o levantamento de edifícios e monumentos; o sistema de comunicações rápidas entre lugares distantes; o giro dos astros, suas conjunções e efeitos na vida humana; enfim todos os conhecimentos até aquela data incorporados pela humanidade terrestre. Essa documentação vinha acondicionada em arcas de madeira de lei recobertas de metal e empilhadas no porão da
13 Metal amarelo e dúctil, semelhante ao ouro, de muitas e variadas utilizações entre os atlantes.
nave piloto, onde estavam Astério e Morevana, bem como o piloto-mor da esquadra.
A rota que levavam não lhes era totalmente desconhecida; várias migrações anteriormente já houvera, de povos atlantes, para a colonização de terras situadas ao norte da África e no Oriente, como já dissemos atrás, porém aquela era a primeira vez que singravam muitas naus para sudeste, com a finalidade que tinham. Os pilotos recebiam instruções da nave de vanguarda e seguiam nos rumos determinados sem saber para onde, mas os sacerdotes o sabiam e seus olhos não se apartavam muito tempo de um ponto fixo à frente. Enquanto a navegação prosseguia, na câmara principal de espaço a espaço, se reuniam e concentravam para ouvir as instruções transmitidas por Xelu - o guia invisível. Naquela noite, após a cerimônia do culto à luz, ele disse: - Segui neste mesmo rumo e haverá salvação para todos. Orai agora ao Grande Espírito porque, neste mesmo instante, em que vos falo, o solo de vosso país submerge no oceano encapelado, e milhões de seres aflitos de vossa raça encontram a morte. Não ouvis, porventura, os brados dos que se afogam?
O rugido das águas invadindo as terras? O solo se fende em vários lugares, formando abismos insondáveis, e colunas de fogo, pedras e fumo sobem para os céus e depois retomam, destruindo campos e cidades, e regiões extensas, enquanto a água do mar, que penetra nos abismos, levanta turbilhões de espuma, de cinzas e de vapores mortíferos. Não os sentis?
A atmosfera abrasa por toda parte, queima os pulmões dos que respiram e o sol desaparece, escondendo-se por detrás de nuvens espessas que cobrem o firmamento e tão baixas elas estão, que a pressão esmaga os corpos humanos no chão. Não há mais salvação para ninguém e os homens que prevaricaram e desprezaram seu Deus estão sendo agora aniquilados. Não ouvis os seus clamores desesperados? Glorificai, pois, o Senhor da Luz, que vos reservou para tarefa tão grandiosa, livrando-vos da morte triste e singrai nas vossas naus com confiança, porque nova vida vos espera em regiões pacíficas, onde a maldade humana não se entronizou e as verdades do espírito devem ser semeadas com amor, como quem semeia o trigo sagrado. A voz calou-se, ao mesmo tempo em que vinha de fora um chamamento urgente: - Venerável Astério acode-nos - gritava o piloto-mor. - Vinde depressa.
Correndo para fora os dois sacerdotes depararam com um espetáculo apavorante: estava tudo escuro em volta, o céu quase tocando as águas; o oceano espumava e bramia como preso de grande cólera e as ondas eram altas. Por sobre as águas ecoavam gritos, uivos e lamentos e vozes aflitas de desespero e de pavor, tudo de mistura, num só tumulto temeroso de sons. Na esteira dos barcos, muito ao longe, na direção do continente abandonado, o céu estava em fogo e parecia derramar labaredas sobre a terra; era como se fosse um imenso e abrasador crepúsculo em que predominavam as cores roxa e amarela.
Pairava no ar uma angústia terrível, que constringia os corações, um pavor horrendo que rugia sobre as águas encapeladas. O que estaria acontecendo no continente onde todos aqueles homens nasceram e viveram e onde deixaram seus haveres, tradições e seres amados? Essa era a interrogação aflitiva de todas as tripulações. De quem eram aquelas vozes desesperadas, aqueles gritos horríveis que se faziam ouvir sobre as naves como que a pedir socorro desesperadamente? Da nave-piloto uma ordem foi transmitida rapidamente a todas as outras: “concentrai vossos Espíritos no Senhor” e, em seguida, a voz imperiosa de Astério: - Haja o que houver conservai-vos unidos e orai ao Grande Espírito a favor dos infelizes irmãos nossos que estão sendo, nesta hora, tragados pelos abismos na terra e nas águas. Orai por eles. Em todas as naus as interrogações cessaram e os braços se foram levantando em silêncio, trêmulos e suplicantes, acompanhando a prece fervorosa e apavorada: “Recebei, Senhor, seus Espíritos no vosso regaço misericordioso; sede benevolente pelos seus desvarios e proporcionai-lhes novas oportunidades nas moradas acolhedoras de vosso reino eterno”.
E após essa oração piedosa todos foram se recolhendo em seus corações com suas próprias dores e angústias até que o silêncio voltou nas naus, que prosseguiam na sua rota desconhecida. Aos poucos, com o passar das horas, o tumulto no mar foi também serenando e, quando rompeu a manhã seguinte, as águas estavam quase calmas, somente cobertas por uma espuma arroxeada, e formavam como que um grande sulco,
uma corrente que arrastava as naus numa direção firme e com incrível rapidez. E assim foi o dia inteiro e a noite seguinte, sob a ansiedade geral e crescente das tripulações. Que corrente era aquela, perguntavam uns aos outros, e para onde os estava levando com tamanha rapidez?
Pela madrugada seguinte a voz espiritual soou novamente no silêncio da câmara dos sacerdotes: - A justiça do Grande Espírito se cumpriu. O continente onde os homens da Quarta Raça nasceram e viveram desapareceu no oceano. Tudo está agora consumado. E acrescentou instruções, dizendo: - Estais sendo conduzidos agora a novas terras onde espalhareis as sementes das verdades eternas, para novos homens. O caminho já se abriu à vossa frente e no local onde existia o Grande Penhasco, que chamáveis o Marco do Oriente, a terra fendeu-se e formou-se uma passagem. Por ela o oceano se precipita agora, enchendo a grande bacia mediterrânea onde muitos povos viverão, para formar o núcleo de uma nova e mais avançada civilização. Depois que transpuserdes a passagem, contai quatro sóis e a primeira terra que surgir à vossa frente, será o vosso destino. Tende fé e confiança, porque a mão poderosa do Grande Espírito está sobre vós e nada vos sucederá de diferente do que está prescrito. Quando as últimas palavras soaram, os sacerdotes se prostraram com as faces no chão e, por muito tempo assim ficaram, demonstrando submissão perfeita à vontade do Senhor. Quando se ergueram estavam calmos e nos seus olhos brilhavam a confiança e a decisão mais firmes. Sabiam agora
qual o destino que os aguardava e, em suas mentes esclarecidas, a visão do futuro se estampava com clareza e nitidez. Levavam consigo a doutrina espiritual verdadeira, privativa da classe sacerdotal, que devia perpetuar-se no mundo para a condução da futura humanidade, e o que lhes competia era transmiti-la com fidelidade, para que a chama da Verdade não se apagasse ou desviasse; e agora estavam certos de que poderiam fazê-lo com inteira segurança, porque esta era a vontade do céu. Saindo para fora, Astério ordenou a transmissão da seguinte mensagem a todas as naus, mensagem curta porém altamente expressiva: - Deus conosco. Conservar a rota. Estava certo que a paz voltaria a reinar naqueles corações angustiados, imersos em dúvidas e tristezas.
Sempre arrastados pela corrente oceânica, quando o disco do sol se pôs no alto, avistaram pela frente o Grande Penhasco e viram que ele estava agora no lado norte; para o sul a terra se afastara, formando uma passagem estreita, por onde o oceano se precipitava num imenso fragor. O piloto-mor, aterrorizado, correu para Astério gritando: - Venerável Senhor. Meu Espírito está perturbado apesar de me haverdes advertido, aterro-me por ver que Grande Penhasco foi partido ao meio e formou-se aquela passagem (e apontava com a mão) que podeis ver daqui e para onde as águas estão se precipitando em terrível escachoo. Que será de nós?
- Nada temas; mantém a confiança. A mão do Senhor que nos trouxe até aqui, ela mesma nos levará para além deste pélago, até o porto de destino, que ainda está muito ao longe. As naus que permaneçam juntas, recomendou ele - umas atrás das outras, guardando distância para não se chocarem; os remadores que tenham mão nos remos e os pilotos comandem os movimentos; mande colher as velas e deixemos que a própria corrente nos conduza. A visão era realmente aterradora: a terra abrira-se naquele ponto, rachando-se e grande parte dela foi carregada pelas águas irresistíveis, recortando-se de um lado em altíssimas escarpas; formou-se um corredor estreito, um verdadeiro canal que morria ao sul em praias baixas, por onde o oceano se engolfava com inaudita violência, apertando-se e rugindo.14
Para ali foram as naus arrastadas e quase destroçadas pelo escachoo e pelo embate violento das ondas. Nas altas cristas espumantes se levantavam como cascas de nozes para deslizarem, em seguida, pelos dorsos empinados mergulhando, por fim, no fundo da voragem. A salvação foi conseguida a poder de remos e porque soprava um vento contrário à corrente, que vinha do leste e também porque as naus mantiveram rigorosamente o afastamento ordenado por Astério. A passagem era cheia de escolhos submersos que os navios superaram. Plínio, o Moço, ao seu tempo amigo do
14 O estreito que se abriu na ocasião da ruptura tinha um pouco mais de uma milha. A ciência oficial confirma esse acontecimento, porém, marca-lhe a idade de 5,5 milhões de anos, cálculo exagerado e sem base na realidade.
imperador Trajano, dizia que se tratava de bancos de areia. Na Antiga História de Marrocos o historiador El Edrissi afirma ter havido naquele ponto um cataclismo, que fendeu o rochedo, tendo o mar atingido a altura de 11 estádios15. As lendas da antigüidade grega dizem que Hércules abriu o estreito com seus possantes braços, sendo esta uma de suas mais famosas façanhas.
Quando saíram daquele estreito e tormentoso corredor surpreenderam-se em um largo horizonte, sobre um novo mar, mais calmo, até onde a vista alcançava. Para a esquerda, na direção do norte, viam-se terras muito ao longe, formando penedias acinzentadas e à direita quase indistintas, outras, mais baixas, que a bruma apagava. O piloto-mor aproximou-se de novo e, reverentemente, inclinou-se perante Astério: - Grande é a vossa sabedoria, Venerável Senhor, e por ela nos salvamos de naufrágio certo. - Enganas-te, piloto. Por mim mesmo nada sei nem posso, nem jamais cruzei este passo. O Grande Espírito, com sua mão generosa guiou e amparou os barcos e a ele somente devemos nossas vidas. E desviando a atenção para novo motivo, perguntou: - Como achais o mar agora? - Ainda estamos sendo levados pelas próprias águas, porém muito mais lentamente agora; a corrente está perdendo sua força aos poucos.
15 Medida itinerária grega correspondendo a 185,25 metros. Quando as águas encheram a bacia, seu nível atingiu 2.037 metros, igualando-se com o oceano.
- Porventura sabes, piloto, para que lugares vamos neste rumo? - Segundo creio, Venerável Senhor, vamos na direção das colônias libanesas e egípcias, formadas desde há muito tempo pelo nosso próprio povo. - Por que supões tal coisa? - Os astros o indicam, Venerável Senhor; há muito tempo atrás uma expedição comandada pelo semita Carion, da região de Cush, da qual eu fazia parte, atingiu esta costa e viajamos muitos sóis, por terra para alcançar essas colônias; e havia outras, para outros lados. E então verificamos como prosperavam as colônias atlantes que se fixavam fora do continente! Estas duas, como as da costa leste, eram já muito numerosas e ricas de homens e de bens, e mantinham comércio intenso entre si e com Poseidônis. - Já conhecias, pois, este mar? - Não. Venerável Senhor; jamais o vi nem soube que existisse. - Onde estavam, pois, as colônias? Não eram marítimas? - Estavam às margens do Lago Triton, mais para dentro da terra, tomando por base a direção do Grande Penhasco arrebentado agora pelas águas.
Também não havia esta passagem estreita; muitas vezes cruzei a costa neste ponto e jamais vi tal passagem; a montanha na certa se fendeu. - Sim, justamente; foi pela vontade do Grande Espírito; este mar que tu vês agora e no qual navegamos, formouse nestes poucos dias, enquanto nos fazíamos à vela, em Poseidônis. Fomos os primeiros a transpor a passagem e estamos sendo os primeiros a navegar neste mar.
- Se vós dizeis, Senhor, é porque o sabeis de fonte segura, mas na verdade, terríveis coisas estão acontecendo aos nossos olhos. - Que desejas saber, agora, piloto-mor? - A corrente ainda nos leva, Venerável Senhor, e prestes amainará e, quando estivermos livres dela, que rumo tomaremos neste mar desconhecido? - Não te inquietes. Nós te chamaremos, à hora oportuna, para receber instruções; podes repousar um pouco agora. - Grande chefe, o Senhor colocou à nossa frente nestes dias difíceis; isso reconhecemos e não duvidamos. É a vós, Venerável Senhor, que devemos nossas vidas e nosso futuro. - Louvai ao Senhor nosso Deus e não a mim, que simplesmente executo suas sagradas determinações. O piloto inclinou-se para a frente respeitosamente, mãos espalmadas sobre os joelhos, e em seus olhos se liam a admiração e o respeito mais profundo pelo sacerdote.
O Porto do Destino
Quando caiu a noite, muito longe, para trás ficara a passagem tormentosa; a corrente já havia diminuído muito, estando agora quase extinta; em todas as naus havia regozijo intenso; luzes se acenderam e cânticos se elevavam aos céus, de pura alegria e agradecimentos fervorosos ao Senhor da Luz, pela salvação de todos. Viam agora os perigos que correram, imprevistos mortais e desconhecidos e como a vida de todos esteve por um fio, principalmente na passagem estreita e terrível onde as ondas, em escachoos violentos, facilmente fariam soçobrar as naus, ou as esmagariam de encontro as penedias da parte mais alta. - Temos pilotos hábeis nesta viagem arriscada, diziam uns. - Ignorantes que sois, diziam outros; o piloto foi o Grande Espírito que tudo vê e tudo pode e fala pela boca dos sacerdotes que vão na nave mestra. Homem algum faria o que foi feito. Enquanto se faziam estas murmurações entre as tripulações e os passageiros das naves, recolhidos na grande câmara de vante, os sacerdotes aguardavam as instruções de Xelu - o guia espiritual- que, aliás, já estava tardando muito. Ambos possuíam poderes psíquicos, aptos a manterem relações diretas com o Plano Invisível. Havia sido estabele-
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