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Capítulo 4 de 8

Cdd-130 — parte 3 de 7

Na Cortina do Tempo · Edgard Armond

Em um promontório alcantilado sobre o oceano, na costa oriental, ponta granítica nua de vegetação, que avançava dois quilômetros sobre as águas revoltas e onde o sol concentrava livremente seus ardores, erguia-se uma sólida e majestosa construção de três corpos sobrepostos; o aspecto geral era o de uma pirâmide truncada no vértice, com um grande terraço aberto para o céu, em um de cujos lados se erguia um altar de pedra rústica de pequena altura ante o qual, duas vezes por dia, os sacerdotes faziam as cerimônias do culto ao Sol. Vindo-se do continente, através de uma larga avenida pavimentada de pedra, percebia-se que a edificação se projetava sobre o mar, na extremidade de uma península.

Era o Mosteiro de Astlan, o templo mais famoso e respeitado do país, construído sob a inspiração de Antúlio, o missionário sacrificado, que encarnava as aspirações religiosas do povo mais evoluído e diretamente ligado aos emigrantes caprinos.

Nos últimos tempos, a vida do mosteiro começou a ressentir-se de um mal-estar indefinido, de uma ansiedade cuja causa a maioria dos sacerdotes e servos ignorava; nos gestos, nos olhares, nas palavras, algo de incerto, flutuante, existia, vibrava no ar, alterando a rotina da vida comum como se pairasse na atmosfera um terror, uma ameaça indefinida, mas sentida por todos e jamais localizada. E aqueles que iam à cidade próxima, a passeio ou a serviço do mosteiro, também percebiam nos olhos da multidão e nas suas atitudes, as mais simples, os mesmos sinais dessa ansiedade inexplicável. Os magos adstritos à governança do país perceberam estranhos fenômenos no céu como, por exemplo, um pequeno astro, dos mais próximos e que servia de satélite, que começou a aumentar de brilho de forma inexplicável, ao mesmo tempo em que corriam notícias de tremores de terra em vários pontos do continente. As chuvas foram cessando e aumentando o calor iniciando-se um período de secas terríveis, ao mesmo tempo em que as fontes de água públicas e particulares começaram a diminuir a olhos vistos. E então surgiu no céu um cometa que se aproximava crescendo de volume e de brilho com extrema rapidez; surgiu

na constelação de Câncer e em poucos dias ocupava mais da metade do céu, enchendo-o de um fogo rutilante, enquanto o astro satélite, que havia desaparecido, explodiu no espaço, projetando enormes fragmentos sobre a terra e o mar. E, à medida que o cometa crescia de vulto, o oceano ficava cada vez mais encapelado, parecendo saltar do leito imenso. O grande rio que atravessa a região, de norte a sul, foi também decrescendo rapidamente de volume, e ventos ásperos sopravam rente ao chão, vindos de sudoeste, levantando detritos e cobrindo vastas áreas como um nevoeiro fechado de pó causticante. Quando os sacerdotes, no cimo dos terraços, realizavam à tarde o culto ao deus Sol (tradição jamais quebrada), o disco solar se mostrava sangrento, hostil, aterrorizador e, nas manhãs, quando se levantava no horizonte, para o lado do mar, notavam como ele tinha uma cor amarelada duma luz mortiça e queimava como fogo.

E quando o rio ficou reduzido a um filete pútrido e as últimas fontes secaram em todo país10 sobrevieram o terror e o desespero, e as multidões convergiram para o mosteiro, comprimindo-se na larga estrada fronteira, enchendo-a de ponta a ponta homens, mulheres, crianças, famintos, sedentos, sujos, desvairados, acossados pelo desconhecido, pelas moléstias que já se espalhavam por toda parte, sem remédio ou possibilidade de socorro, morrendo centenas deles por dia. Como um rebanho amedrontado assediavam o grande templo para ouvir a verdade da boca dos sacerdotes e receberem orientação e socorro.

10 Vide obra do mesmo autor, Almas Afins, Editora Aliança.

Mensageiros vindos de lugares distantes informavam que o país inteiro estava atingido pelos mesmos acontecimentos nefastos, e não havia lugar algum onde pudesse alguém refugiar-se para se livrar daqueles males.

Em Poseidônis, a grande capital, o pânico se dera ainda mais cedo; lavravam a fome, a doença, o terror e a morte. Ali também o templo do deus Sol estava repleto dia e noite e os sacerdotes, impotentes até mesmo para sossegarem o povo, explicando o que ocorria, fugiam disfarçados para lugares ermos, para se salvarem da fúria das multidões. As oferendas aos deuses eram inúteis e o disco de luz estava ficando quase invisível sob a cortina espessa de nuvens avermelhadas, que o afogueamento da atmosfera impedia de transformar-se em chuva, e abrasavam como fogo, na terra e no céu. O solo estava rachando em inúmeros lugares e das fendas abismais subiam vapores espessos, sufocantes, que se evolavam para os céus, tornando-o cada vez mais baixo, aumentando assim enormemente o peso da atmosfera, fazendo a respiração ficar cada vez mais difícil e angustiante. Um pó quente e cáustico entrava pelas narinas e pela boca matando por asfixia, enquanto o oceano enfurecido precipitava·se para dentro das terras destruindo as colheitas, o gado, as águas potáveis acumuladas em baixios e todos os demais meios de subsistência. Tempestades aéreas crivadas de relâmpagos golpeavam a terra de forma súbita e de curta duração; e chuvas tor-

renciais carreavam da atmosfera toneladas de detritos e pó vulcânico projetando-os sobre os campos, as ruas, as casas, formando uma lama mortífera e repugnante que, em alguns lugares, atingia metros de altura na extensão de quilômetros. E nas praias todos viam como as ondas rugiam ameaçadoras, precipitando-se em monstruosas vagas sobre as escarpas mais altas, submergindo tudo o que encontravam pela frente. Assim o recurso da pesca também desaparecera pela fúria ininterrupta das águas, e a fome levava os homens a cavar o chão em lugares mais afastados, onde as árvores ainda não haviam secado, para devorarem as raízes, já indiferentes aos animais ferozes que, aos bandos, galopavam pelos prados e florestas desfolhados. E, por fim, desvairados disputavam também ferozmente entre si, matando-se uns aos outros nas ruas e nas casas, para saciarem a fome.

Mas ainda estava longe o desfecho de tanta calamidade; em toda a vasta região assolada, desfeitos os laços da disciplina, da ordem e da autoridade de governo, passou a reinar a mais franca anarquia, o mais terrível salve-se quem puder. E as cidades se despovoaram e os campos ficaram entregues à fúria das multidões desesperadas e famintas. E não havia para quem apelar. Foi quando então se lembraram de realizar, por si mesmos, preces coletivas, o que passaram a fazer ao ar livre, imprecando aos deuses, invectivando-os, pedindo socorro, blasfemando e amaldiçoando-os por não terem resposta, já

desesperançados e quase sem forças para abrir a boca, enquanto inúmeros outros, com suas mulheres e seus filhos arrastados pelas mãos, e velhos quase conduzidos às costas, caminhavam firmes para dentro do mar, enfrentando os altos vagalhões em busca de uma morte menos dolorosa. Todavia, em toda a vasta região existia ainda um refúgio que se mantinha de pé, incólume, funcionando mais ou menos como de costume, atendendo a todos dentro dos limites do possível, oferecendo o consolo da orientação e dos conselhos sensatos e viáveis, chamando a atenção para o significado espiritual e punitivo dos acontecimentos, e recomendando o abandono dos falsos deuses, a volta para o Deus Supremo, cuja misericórdia era infinita: era o Mosteiro de Astlan. Apesar de assediado dia e noite pela multidão ululante, surda e insensível a qualquer advertência e incapaz de qualquer sentimento de conformação, ainda reinava ali, dentro das altas muralhas de pedra escura, relativa ordem e disciplina.

Dias antes, quando esses acontecimentos entraram em fase de agravamento, o grande gongo fora vibrado de manhã, três vezes seguidamente, após o culto matinal ao Deus Luz11, que tinha lugar quando o disco iniciava seu giro, emergindo sobre as águas no horizonte longínquo. Um toque de gongo

11 Conforme outra obra do autor, Almas Afins, a adoração de Deus, apoiava-se no simbolismo da luz solar como demonstração da bondade divina, que diariamente assegura a vida humana na Terra, não significando que a religião atlante tivesse caráter politeísta ou fetichista. (Nota da Editora)

comumente bastava em situações normais para a convocação de sacerdotes, auxiliares, noviços e servos, ao grande recinto central cavado na rocha viva da escarpa; mas aquele apelo feito três vezes seguidas naquela manhã, conquanto dependesse ainda da confirmação final de praxe, encheu a todos de angustiante expectativa; compreendiam, ou melhor, sentiam que algo importante, decisivo, iria acontecer. E o sinal de confirmação veio logo, à hora da prece vespertina, quando o disco se encobria por detrás do maciço majestoso do Apotec; todos viam a chama bem visível do archote, tremulando ao vento, no topo da torre central e se dirigiram ansiosos, sem mais delongas, para a cripta do Templo.

Era um amplo recinto em forma de meia-lua, escavado na rocha dura, sobre a qual estava edificada a parte central do mosteiro. Acompanhando o semicírculo havia dezenas de assentos, também escavados na rocha, como nos anfiteatros, uns acima dos outros, acompanhando o aclive do chão, que subia no sentido das paredes exteriores e, no sentido oposto, desciam para uma plataforma larga, eqüidistante das extremidades opostas da meia-lua. Nessa plataforma viam-se também assentos amplos escavados nas saliências das rochas, e aos lados, embutidas nas paredes, escavações superpostas em prateleiras, para a guarda de apetrechos destinados ao culto e vestuários utilizados pelos sacerdotes.

O assento central estava vazio mas, sobre a plataforma, já se encontravam vários sacerdotes oficiantes do Templo. Correndo os olhos pelo amplo recinto via-se que já se achava lotado, muitos dos presentes se acotovelando, de pé, pelos cantos e pelos vãos livres entre os assentos. Havia uma expectativa muito intensa, que a todo instante aumentava, criando uma atmosfera vibrante, angustiosa, opressiva, que somente decaiu quando o mais idoso dos sacerdotes presentes tomou a palavra. Era Anco, o encarregado dos arquivos, respeitado pela sua bondade e sabedoria. - Assim como vós, meus irmãos, também fomos surpreendidos pelos chamados insistentes do venerável grãosacerdote, senhor deste Templo. Sabemos que a situação do país é grave, muito grave, mas ignoramos as razões desta convocação fora do comum. Aguardemos com calma e confiança sua respeitável presença, que não deve tardar e, enquanto isso, formulemos nossas preces ao Senhor da Luz para que o destino do país e do povo não sejam de infelicidade maior.

Ainda soavam suas últimas palavras quando, de uma fenda da parede da rocha, que servia de entrada para o recinto surgiram duas majestosas figuras que se dirigiram diretamente para o centro da plataforma. Ambos quase da mesma estatura, elevada e imponente, longas barbas cobrindo o peito, com turbantes brancos de pontas caindo para as costas, túnicas brancas descendo até os tornozelos e, sobre o peito esquerdo, uma estrela dourada de cinco pontas - o emblema do Sol. À frente vinha Morevana, o senhor do Templo, precedendo Astério, o chefe supremo da comunidade religiosa e cuja vida, naqueles dias tristes, era a de um nômade, percorrendo incessantemente o país de extremo a extremo para ori-

entar o sacerdócio e o povo sobre o culto verdadeiro que, nos últimos tempos, estava se extinguindo nos meandros sombrios e impuros dos cultos amaldiçoados.

Enquanto passavam, os sacerdotes menores abriam espaço e se mantinham inclinados, braços estendidos para baixo, mãos sobre os joelhos, na atitude de alto respeito devido aos reis. Logo em seguida todos os braços se ergueram para o Alto, acompanhando Morevana, quando este iniciou a sua invocação. - Senhor Supremo, luz do mundo, venerável doador da vida; eis-nos aqui prostrados a teus pés, escravos de tua soberana vontade, prontos a obedecer no que ordenares. Vemos, Senhor, que os elementos naturais, que obedecem às tuas leis sagradas, estão desencadeando desgraças, porque os homens te ofenderam e abandonaram o teu culto verdadeiro e se aprazem na violência e na corrupção e se entregam aos ritos malignos e tenebrosos dos seres das trevas. Sentimos tua mão poderosa pesando sobre nós, Senhor, e esperamos, entristecidos, os golpes justos da tua santa ira. Se te for possível, oh! Deus poderoso, rogamos-te que preserves este povo, para que a semente da civilização atlante não desapareça, e haja tempo, Senhor, de voltarem ao teu culto sagrado de adoração santificada, todos aqueles que por desvairamento se afastaram dele. Os braços baixaram, repousaram, mas tornaram a levantar-se logo, numa invocação muda para os céus, quando Astério se moveu do seu lugar e bradou alto:

- Dá-nos a tua palavra, Senhor, pois que os teus servos te obedecerão fielmente. Fala-nos na tua língua sagrada, para que nos orientemos e possamos guiar o povo nas horas terríveis que sabemos que se aproximam. Depois dessas invocações, vibrantes e incisivas, todos aguardaram em profundo silêncio, percebendo que alguma coisa muito grave deveria acontecer ali naquele momento. Esperavam com o coração batendo forte, até que Morevana falou de novo: - Sacerdotes de diferentes graus, noviços, auxiliares e servos. Ouvi-me com calma e atenção. Convoquei-vos para revelar fatos terríveis e aguardar a palavra do Senhor traçando nosso destino final. Pelos canais sagrados da inspiração temos recebido, de longa data, advertências e instruções sobre uma calamidade dolorosa e fatal que se desencadeará sobre este país, como castigo da maldade, dos erros, da degeneração dos costumes e do desprezo do povo às advertências paternais, porém enérgicas e irrecorríveis, que têm sido feitas pelo Grande Espírito porta-voz do nosso Deus Supremo.

Ordens e instruções temos recebido e transmitido ao povo, na forma de conselhos e ensinamentos, tanto pela minha boca como, principalmente por parte do venerável Astério aqui presente, que as proclamou por toda parte por onde tem andado neste país, sem descanso. Mas, quem as ouviu? Quem as respeitou? Sacerdotes e servidores, não haverá mais advertências agora. O Senhor é que nos convoca a todos para esta noite, e nos indicará o que resta fazer de nossa parte; os caminhos que devemos seguir, como remediar a nossa situação de fracasso e terror.

Tendo, como temos, perante nossos olhos, a história já conhecida do afundamento anterior da parte mais considerável e mais rica de nossa nação, confrange-nos o coração verificar que persistem e se repetem os mesmos motivos anteriores e que agora nos colocamos novamente à beira de insondáveis abismos de perdição. Qual de nós deseja um futuro tenebroso como esse? Ninguém. Prosternemo-nos todos e humildemente aguardemos a palavra do Senhor de nossas vidas.

Todos obedeceram onde estavam, com as mãos nos joelhos, o corpo curvado, a cabeça baixada para o solo; todos, menos um deles, o sacerdote menor Tlotac, que permaneceu de pé, hirto, olhos fechados como em transe, e no grande silêncio que pesava sobre o recinto, uma luminosidade dourada foi-se espalhando aos poucos, vinda do Alto, como que se infiltrando através do teto rochoso; e a luz foi-se condensando no centro da plataforma, junto a Morevana, tomando forma, assemelhando-se, de início, a um oval alongado para cima e, logo depois, a uma criatura humana, cujos braços e formas se foram detalhando com rapidez mostrando, por fim, a figura imponente e majestosa de um sacerdote de elevada estatura, longas barbas quadradas, olhos fulgurantes como sóis.12

12 A descrição do fenômeno corresponde à materialização de um espírito desencarnado, estando o sacerdote menor na condição de médium doador de ectoplasma, conforme outras obras do autor, entre elas Mediunidade. (Nota da Editora)

Trazia indumentária própria dos grandes sacerdotes, a túnica branca, a capa vermelha, curta, cobrindo os ombros, o turbante de três pontas com fitas de várias cores caindo pelas costas. De pé, imóvel, os braços amplamente abertos como a querer abranger o vasto recinto atento, em voz forte, metálica, porém harmoniosa, falou: - Levantai vossas frontes, meus filhos e anotai as últimas ordens do Senhor da Luz: no terceiro giro do astro sagrado, quando a noite cair e a luz remontar o horizonte, vinda do mar, completai a carga de vossos barcos, em número de sete; embarcai alimentos para um tempo de quarenta sóis; embarcai todos que aqui se encontram e mais aqueles que vosso chefe Astério arrastou para cá e são vossos hóspedes. Ao todo sereis duzentos homens e no barco piloto, onde irão vossos chefes, Morevana e Astério, levareis os manuscritos já separados neste mosteiro por ordem nossa e que resumem a doutrina religiosa que o Senhor determinou fosse cultuada por vossos antepassados e que ultimamente vem sendo desprezada.

No terceiro giro do astro, nessa noite, quando a lua surgir no nascente das águas embarcareis, meus filhos, e vos fareis ao mar. Leio em vossas mentes a ansiosa pergunta: para onde iremos? E a resposta é esta: na direção do nascente, pela rota que o Senhor vos traçar, nos seus altos desígnios e que na ocasião sabereis. Outros como nós escaparão das calamidades que vão surgir, mas a vós cabe preservar o patrimônio espiritual, recebido e cultuado por vossos ancestrais; a herança do Senhor a ser transmitida a outros povos, outros homens e outras ra-

ças, em outros lugares do vasto mundo. Com as vossas almas respondereis por esse precioso legado. Paz convosco e louvado seja o Senhor na sua misericórdia e sabedoria. A figura desfez-se, a luz apagou-se e somente a chama rubra dos archotes, cravados em argolas de ferro nas paredes de rocha nua, iluminava o vasto recinto. Morevana levantouse e disse: - Compreendeis agora todas as ordens que vos têm sido dadas? Chegou pois, o momento da ação decisiva. Os mais idosos entre nós sabem quem falou: Xelu, a quem sucedi, há muito tempo, no governo deste Templo e desta comunidade da qual fazeis parte. Seu grande amor por este templo fê-lo agora intérprete da palavra do Senhor. Que seu Espírito prossiga conosco, guiando e protegendo a nossa rota, seja ela qual for. E agora devotemo-nos ao trabalho: carreguemos os barcos em rigoroso silêncio e cada um leve os objetos e vestuários de seu uso e cargo. Cerrem as portas exteriores e que ninguém entre nem saia, até que a hora da partida vos seja anunciada pelo gongo central da torre.

Sobre o Mar

A grande azáfama começou então no vasto recinto do Templo. À expectativa ansiosa sucedeu a excitação da próxima aventura no mar que rugia lá fora, em busca de uma nova pátria e de um novo lar. Em alguns surgiu a idéia da fuga enquanto era tempo, mas o terror das calamidades anunciadas para os próximos dias e a perspectiva de ficarem em terra misturados à multidão em pânico, levou-os à decisão de permanecerem no mosteiro e acompanharem os demais na fuga temerosa. E a agitação não cessou dia e noite e, ao fim do terceiro dia, tudo estava pronto e os olhares ansiosos se fixavam no topo da torre central, aguardando o sinal do embarque. Relâmpagos cruzavam o céu em todas as direções e os estrondos dos trovões se misturavam com os das ondas de grande altura que se jogavam contra as muralhas externas do Templo, bramindo como catervas enormes de lobos ferozes. O dia transcorreu amarguradamente e as nuvens muito baixas dificultavam a respiração dos homens, já por si mesmos exaustos pelo trabalho intenso dos dias anteriores. A noite desse dia caiu muito escura e o embate das ondas era cada vez mais violento, atingindo níveis cada vez mais altos, e já inundando o pátio do Templo. Quando a lua começou a surgir, no mar, no longínquo horizonte, formando sobre as águas uma réstia prateada que

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