Voltar ao livro Corpus Hermeticum

Capítulo 20 de 21

XVIII - Dos Entraves Acarretados À Alma pelo que Sucede — parte 5 de 6

Corpus Hermeticum

Corpus Hermeticum – Hermes Trismegisto estes mistérios divinos no segredo de vossos corações, cobrindo-o de silêncio e mantendo-os ocultos. Existe esta diferença entre a inteligência humana e o intelecto do mundo, que nossa inteligência chega à força de aplicação, a captar e a discernir o caráter do intelecto do mundo, enquanto que o intelecto do mundo se eleva ao conhecimento da eternidade e dos deuses que estão, acima dele. Desta maneira indireta se dá a conhecer a nós, os homens, o poder ver, como através da névoa, as coisas do céu, tanto quanto o permite a condição do espírito humano. Indubitavelmente, quando se trata de contemplar objetos tão altos, nossa capacidade de visão possui limites bem estreitos: porém uma vez tenha visto, a felicidade da alma que conhece é imensa. 33 - Acerca do vazio ao qual a maior parte atribui tanta importância, eis aqui minha opinão: não há vazio de classe alguma, não pode ter existido e não existirá jamais.

Porque todas as partes do mundo estão completamente cheias, de modo que o próprio mundo está cheio e totalmente acabado graças a corpos que diferem em qualidade e forma e que possuem cada um sua figura e magnitude próprias: um maior, outro menor, um mais denso, outro menos denso. Desses corpos, os que são mais densos são visíveis ao primeiro golpe de vista, bem como os que são maiores; os corpos menores ou mais tênues são apenas visíveis ou não o são em absoluto e só se conhece a sua existência por meio do tato. De onde decorre freqüentemente não sejam tomados como corpos mas como espaços vazios, o que é impossível.

Pois, da mesma maneira que o que se chama espaço fora do mundo, se é que realmente existe algo assim (o que não creio), deve estar, em minha opinião, cheio de seres inteligíveis, isto é, semelhantes à divindade deste espaço, também este mundo que se chama sensível está absolutamente repleto de corpos e de viventes em relação com sua natureza e qualidade; porém as verdadeiras formas destes corpos nem sempre nos são evidentes: vemos algumas maiores do que são efetivamente, as outras realmente muito pequenas, de modo que pela extrema distância que nos separa delas ou pela debilidade de nossa vista nos parecem assim, ou ainda, seu excessivamente diminuto tamanho induz a maioria a negar de forma absoluta a existência delas. Refiro-me neste momento aos daimons que, estou seguro, habitam conosco e aos heróis, que moram, em minha opinião, entre a parte mais pura do ar, acima de nós e esses lugares em que não se acham nem bruma nem nuvens e cuja paz não é perturbada pelo movimento de nenhum corpo celeste.

Guarda-to pois, ó Asclépios, de chamar "vazio" a algum objeto, a menos que digas também, de que está vazio o que chamas vazio, como "vazio de" fogo, ou de água, ou de qualquer outra coisa semelhante, pois ainda quando chega a ocasião de ver um objeto que possa estar vazio destas coisas, por muito pequeno ou grande que seja o que parece vazio, não é possível todavia, que esteja vazio de ar. 34 Outro tanto tem que ser dito de `locus': esta palavra absolutamente desprovida de sentido, se a tomarmos absolutamente. Pois não se vê o lugar (locus) e o que é, a menos que se observe de que é o lugar. Abandonando-se o elemento capital, a significação da palavra fica incompleta. Por isto diremos, com razão: o lugar da água, o lugar do fogo, ou de outras coisas semelhantes. Como é impossível que haja algo vazio, também não se pode reconhecer o que seja o lugar tomado por si só. Pois se supõe um lugar sem o objeto de que é lugar, este lugar parecerá vazio: bem, segundo digo, não existe lugar vazio no mundo.

Se nada está vazio, não se pode ver que coisa poderá ser o lugar em si, a não ser que se lhe acrescente, como ao corpo humano, as determinações de comprimento, largura e altura. - Nestas condições, ó Asclépios e vós que estais presente, sabei que o mundo inteligível, isto é, o que não é percebido a não ser pelos olhos da inteligência é incorpóreo e que nada corporal pode mesclar-se a sua natureza, nada que possa ser definido pela qualidade, pela quantidade ou pelo número: por que nele não há nada semelhante a isto. Este mundo dito sensível é o receptáculo de todas qualidades ou substâncias das formas sensíveis e todo esse conjunto não pode ter vida sem Deus. Porque Deus é as coisas, vem de si e dependem de sua vontade. Este Todo é bom, belo, sábio, inimitável, não é perceptível e inteligível a não ser para si mesmo e sem ele nada foi, nada é, nada será. Pois tudo vem dele,

Corpus Hermeticum – Hermes Trismegisto tudo está nele, tudo é por ele, e as qualidades de todas classes e de toda figura, e as magnitudes enormes, e as dimensões que superam, e toda medida e as formas de toda espécie, compreende estas coisas, Asclépios, e darás graças a Deus. Porém se chegas a alcançar conhecimento acerca deste Todo compreenderás que em verdade o próprio mundo sensível, com tudo o que contém, está rodeado como por uma vestimenta pelo mundo superior. 35 Em cada gênero de viventes, Asclépios, seja qual for o vivente, mortal ou imortal, racional ou irracional, dotado de alma ou não, cada indivíduo, segundo o gênero a que pertence, leva a marca de seu gênero.

E ainda que todo gênero de seres viventes possua inteiramente a forma própria de seu gênero, nem por isso deixam de diferir entre si os indivíduos dentro da mesma forma: por exemplo, ainda que o gênero humano não possua mais que uma forma comum, de modo e se reconhecer e um ser humano com o simples olhar, todavia, os indivíduos diferem entre si dentro da mesma forma. Pois o tipo ideal que vem de Deus é incorpóréo e também tudo o que é apreendido pelo espírito. Assim, supondo-se que os dois elementos de que estão constituídas as formas são corpos e não corpos, não é possível que uma forma individual nasça inteiramente semelhante a outra em diferentes pontos do tempo e em distintas latitudes, pelo contrário, estas formas mudam tantas vezes quantos momentos tem uma hora durante a revolução do círculo em cujo interior reside o grande deus que chamamos Omniforme.

Assim, o tipo genérico permanece imutável por mais que engendre fora de si tantas cópias de si mesmo, em tão grande número e tão diversas, como momentos suporta a revolução do mundo, pois o mundo muda no curso da sua revolução, enquanto que o tipo não muda e não está submetido à revolução. Assim, portanto, as formas de cada gênero permanecem imutáveis apesar de implicar diferenças do mesmo tipo que lhes é próprio. 36 - O mundo muda também de aparência, ó Trismegistos? - Já o vês, Asclépios, estas indicações que acabo de dar é como se as tivesse dado a uma pessoa que dorme. Que é o mundo e de que se compõe senão das coisas que vieram a ser? Tua pergunta se refere ao céu, à terra e aos elementos, não é? Pois bem, que existe que mais continuamente mude de aparência? O céu está frio ou quente, úmido ou seco, claro ou nublado - todas estas mudanças se dão num mesmo tipo uniforme.

A terra passa continuamente por múltiplas mudanças de aspecto, quando está gerando seus meses, quando nutre o que fez nascer, quando varia e diversifica as qualidades e tamanhos de seus produtos, os momentos de parada ou avanço de seu crescimento, e antes de tudo, as qualidades, odores, sabores e formas das árvores, das flores e dos frutos. O fogo conhece muitas transformações divinas. As figuras do sol e da lua se revestem também de toda classe de aspectos: parecem-se de certo modo a nossos espelhos que devolvem as cópias das imagens com um brilho que rivaliza com a realidade. 37 Porém já falamos o suficiente acerca deste tema. - Voltemos ao ser humano e à razão, dom divino pelo qual o ser humano recebeu a designação de animal racional.

O que já dissemos do ser humano já é maravilhoso, porém essas maravilhas não valem a seguinte: o que move ou impõe sobretudo a admiração é que o ser humano foi capaz de descobrir a natureza dos deuses e de produzi-la Nossos primeiros antepassados depois de terem se equivocado seriamente a respeito da verdadeira doutrina acerca dos deuses - não acreditavam, nem se preocupavam com o culto ou religião, de uma forma absoluta, inventaram a arte de fazer deuses, logo, assim que os fizeram, vincularam a eles uma virtude adequada, que inferiam da natureza material, e misturando esta virtude com a substância das estátuas, dado que não podiam criar almas propriamente ditas, depois de terem invocado almas de daimons, as introduziram em seus ídolos por meio de rituais santos e divinos, de modo que estes ídolos tiveram o poder de fazer o bem e o mal.

Este é o caso, ó Asclépios, de teu avô, o primeiro inventor da arte de curar, e quem se dedicou sobre o monte da Líbia, perto do rio dos crocodilos, um templo em que jaz o que nele foi o ser humano terrestre, isto é, o corpo - pois o resto, ou melhor, o todo dele, se é verdade que o todo do ser humano consiste no que possui o sentimento da vida, regressou, feliz, ao céu - e que, todavia, na atualidade, em virtude de seu poder divino dá aos homens, em suas enfermidades, todas as classes de remédios que lhe dava já em outro tempo por meio do exercício de sua arte de

Corpus Hermeticum – Hermes Trismegisto médico. Assim também, meu antepassado Hermes, cujo nome levo, não é, por acaso, verdade que reside na cidade natal chamada pelo seu nome, de onde concede ajuda e salvação a todos mortais que, de todas as partes procuram-no? Isis, finalmente, a esposa de Osíris, quantos benefícios concede, bem o sabemos, quando está propícia e quantos homens dana quando está irritada! Pois todos os deuses terrestres e materiais encolerizam-se facilmente, pois os homens compuseram-nos de uma e outra natureza. Eis portanto a razão de os egípcios reconhecerem oficialmente a estes animais sagrados que vemos e que adorem em cada cidade as almas daqueles que foram deificados em vida, até o ponto de existirem cidades que levam seus nomes e vivem sob suas leis. E como os animais adorados numa cidade não são reconhecidos em outra, as cidades do Egito vivem provocando, umas às outras, guerras. 38 - E de que ordem é a qualidade destes deuses que se chamam terrestres, ó Trismegistos? - Resulta, Asclépios, de uma composição de ervas, pedras e perfumes que contêm em si mesmos uma virtude oculta de eficácia divina.

E se alguém busca a maneira de agradá-los através de numerosos sacrifícios, hinos, cantos de louvor, concertos de som dulcíssimos que recordem a harmonia celestial, é para que este elemento celestial que foi introduzido no ídolo por meio da prática repetida de ritos celestiais possa suportar alegremente esta larga permanência entre os humanos. Esta é a maneira pela qual o ser humano fabrica deuses. - Porém, não creias, Asclépios, que os deuses terrestres exercem sua influência ao acaso. Entre os deuses celestes que habitam nas alturas do céu, cada um possui e conserva o lugar que lhe foi destinado por sua vez, nossos deuses terrestres oferecem sua ajuda ao ser humano como por um parentesco, velando sobre os detalhes das coisas, anunciando o futuro por meio das sortes ou adivinhações, provendo a certas necessidades, e por meio disso nos assistem cada um à sua maneira. 39 - Mas então, ó Trismegistos, que parte do plano divino é administrada por Heimarmene, isto é, o destino? Por acaso não possuem os deuses celestiais todo o governo da universalidade das coisas e os deuses terrestres a administração de todos seus detalhes?

O que chamamos Heimarmene, Asclépios, é esta necessidade que domina o curso total dos acontecimentos, ligando-os uns aos outros por meio de uma cadeia contínua. É, pois, o bem e causa que produz as coisas, ou o Deus supremo, ou a ordem universal das coisas celestiais e terrestres fixadas por leis divinas. Assim, esta Heimarmene e a Necessidade estão inseparavelmente unidas entre si por uma espécie de aglutinante sólido: e Heimarmene se acha em primeiro lugar, gerando o começo das coisas, enquanto que a Necessidade faz com que cheguem, por força, e seu efeito, estas coisas que começaram a ser graças à ação da Heimarmene. Uma e outra tem como conseqüência a Ordem, isto é, a contextura e a sucessão temporal de tudo o que deve realizar-se.

Nada com efeito escapa às disposições da Ordem, e esta bela ordenação se cumpre nas coisas, pois o próprio mundo segue a Ordem em seu movimento; mais ainda, não se mantém em sua totalidade se não receber o concurso da Ordem. 40 Portanto, estes três princípios, e Heimarmene, a Necessidade e a Ordem, ocupam o mais alto grau nas criações da vontade divina, que governa o mundo por meio de sua lei segundo seus divinos desígnios. Por isto Deus deixou-lhes toda a vontade de obrar ou não obrar. Sem que nunca sejam turbados pela cólera, sem que o favoritismo os persuada, obedecem à coação da lei eterna que não é outra que a própria eternidade, inevitável, imóvel, indissolúvel.

Em primeiro lugar, pois, está a Heimarmene que, tendo deitado, por assim dizer, a semente, faz que sc produza, uma após as outras, toda série de coisas futuras; segue-se a Necessidade, que é a força que obriga as coisas a chegar a seu término efetivo; e a terceira é a Ordem, a qual mantém a conexão de todos os acontecimentos que foram determinados pela Heimarmene a Necessidade. É, pois, a eternidade, que não tem começo nem fim, e que determina na lei imutável de seu curso, realiza sua revolução por meio de um movimento perpétuo, que nasce incessantemente e deve morrer em alguma de suas partes, de forma que, graças à mudança dos instantes, e parte que nela tenha morrido é a mesma em que renasce: tal é com efeito o movimento circular, princípio de rotação, que tudo nele está tão bem ligado que já não se sabe onde começa a

Corpus Hermeticum – Hermes Trismegisto rotação, se é que começa, porque os pontos parecem preceder-se é seguir-se. Todavia, há no mundo acidente e acaso, mesclados como estão e tudo o que procede da matéria. - Falei de cada uma das coisas, na medida que pude segundo minhas humanas forças e na medida que a divindade o quis e permitiu. Resta-nos apenas bendizer a Deus em nossas preces, e voltar ao cuidado do corpo: nossas almas tiveram, se podemos assim falar, sua plena ração no decorrer desta conversação acerca das coisas divinas. 41 Tendo saído então, do fundo do santuário, puseram-se a adorar a Deus, olhando para o Sul - pois quando alguém quer dirigir-se a Deus ao pôr do sol é para ali que deve olhar, do mesmo modo que ao nascer do sol deve olhar para o Leste e começavam já a pronunciar a fórmula quando Asclépios disse em voz baixa: - Oh! Tat! Queres que proponhamos a teu pai que faça acompanhar nossas preces com incenso a perfumes? Porém Trismegistos ouviu-o e muito comovido o atalhou: - Silêncio, silêncio, Asclépios!

É uma espécie de sacrilégio quando se faz oração a Deus queimar incenso e tudo o mais. Pois nada falta a ele que é as coisas e em quem são as coisas. De nossa parte, pois, adoremo-te por meio de ações de graças: este é, em verdade, o mais belo incenso que se pode oferecer a Deus, a ação de graças dos mortais. - Damos-te graças, Altíssimo, que ultrapassas infinitamente as coisas, pois por teu favor obtivemos esta luz tão grande que permite conhecer-te, Nome santo e digno de reverência, Nome único pelo qual Deus somente deve ser bendito segundo a religião de nossos maiores, posto que dignas outorgar a todos os seres teu afeto paternal, teus cuidados solícitos, teu amor e tudo aquilo que pode existir de virtude benfeitora mais doce ainda, fazendo-nos dom do intelecto, da razão, do conhecimento: do intelecto, para que possamos conhecer-te; e da razão, para que, por meio de nossas instituições, alcancemos o fim de nossas investigações; do conhecimento, para que conhecendo-te, gozemos.

Regozijamo-nos, pois, salvos por teu poder, de que te hajas manifestado, a nós, inteiramente, regozijamo-nos de que, ainda encontrando-nos nesta carne tenhas to dignado consagrar-nos à eternidade. O único meio que o ser humano possui de te dar graças e conhecer tua majestade. Nós te conhecemos, a ti e a esta luz imensa que somente o espírito capta; o compreendemos, oh! verdadeira vida da vida, o seio que porta tudo o que vem a ser! Conhecemos a ti, permanência eterna de toda natureza infinitamente repleta de tua obra procriadora. Nesta prece, em que adoramos o bem de tua bondade, pedimos apenas uma coisa: fazei com que nos conservemos perseverantes no amor de teu conhecimento e que não nos afastemos nunca deste gênero de vida. Com estes desejos, fomos ceiar, uma ceia pura, que não foi manchada por nenhum alimento que tivesse tido vida.

Rota da Imortalidade "Providência e Alma sejam-me favoráveis, a mim que escrevo estes mistérios que me foram transmitidos! Só peço a imortalidade para meu filho, mestre desta poderosa arte que praticamos e que o poderoso e grande deus Hélio Mithra ordenou que me fosse comunicada por seu daimon a fim de que apenas eu, em minha peregrinação, alcance os céus e contemple todas as coisas."

Invocação "Geração primeira de minha geração. Princípio primeiro de meu princípio, Sopro do sopro, do sopro em meu Sopro primeiro, Fogo que, dentre as misturas que existem em mim foi dado por Deus para minha mistura, fogo em meu Fogo primeiro, Água da água, da minha Água primeira, Substância terrosa que está em mim, Corpo Perfeito de mim, trabalhado por um braço glorioso e por mão imortal no mundo sombrio e luminoso, no animado e inanimado - se quiserdes transmitir-me e comunicar o nascimento da imortalidade, a mim que ainda estou na

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.