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Capítulo 17 de 21
Xviii - Dos Entraves Acarretados À Alma Pelo Que Sucede — parte 2 de 6
Corpus Hermeticum
Corpus Hermeticum – Hermes Trismegisto de seus pensamentos, pela ponte do espírito atira-se no abismo do mar. Tudo lhe é acessível; o céu não lhe parece muito alto, pois mede-o como próximo graças à sua engenhosidade. O olhar que seu espírito dirige, nenhuma miragem ofusca; a terra nunca é tão compacta que consiga impedir seu trabalho; a imensidão das profundidades marinhas não obscurecem a sua visão que mergulha. É ao mesmo tempo as coisas e está em toda parte. Entre todos esses gêneros de seres, aqueles que são providos de uma alma tem raízes que os atingem do alto para baixo; por outro lado os seres desprovidos de alma possuem raízes que vêm de baixo para o alto. Certos seres se alimentam de alimentos de duas espécies, outros, de alimentos de uma só espécie. Existem dois tipos de alimentos, os da alma e os do corpo, as duas partes componentes do vivente. A alma é alimentada pelo movimento sempre mantido do céu. Os corpos devem seu crescimento à água e à terra, alimentos do mundo inferior, o sopro que preenche o universo, espalha-se em todos os seres animados e lhes dá vida, enquanto que o ser humano, além do entendimento, recebe o intelecto, quinta parte, única proveniente do éter, dada ao ser humano como um dom. Mas de todos os seres que possuem vida, somente o ser humano possui intelecto, e este o eleva, exalta, de forma que possa atingir o conhecimento do plano divino. Por outra parte, como fui levado a falar do intelecto, voltarei a falar acerca de sua doutrina: pois é uma doutrina muito alta e santa, não menos alta que aquela que trata da própria divindade. Mas terminemos nosso assunto. 7 Falei desde o início desta união com os deuses, da qual são seres humanos os únicos a fruir pelo favor dos mesmos, referi-me a esses dentre os humanos que obtiveram a felicidade suprema de adquirir esta faculdade divina da intelecção, este intelecto mais divino que existe somente em Deus e no entendimento humano. - Então, ó Trismegistos, o intelecto não é de mesma qualidade em todos os homens? - Não, ó Asclépios, nem todos atingiram o verdadeiro conhecimento, mas, em seu cego impulso, sem nada ter visto da verdadeira natureza das coisas, deixam-se arrastar por uma ilusão que cria a malícia nas almas e faz cair o melhor dos viventes até à natureza da besta e à condição dos brutos. Mas o que se refere ao intelecto e sujeitos conexos, será tratado completamente quando vos falarei do sopro. Unico entre os viventes, o ser humano é duplo, e uma das partes que o compõem é simples, aquela que os Gregos chamam de essencial, e nós, formada à semelhança de Deus'. A outra parte é quádrupla, aquela que os Gregos chamam `material' e nós, `terrestre'. É dela que foi feito nosso corpo, que serve de envoltório e esta parte do ser humano que nós acabamos de dizer que é divina, porque neste abrigo, a divindade do espírito puro, repousa apenas com eles, como que dividida, atrás do muro do corpo. - Por que foi necessário, ó Trismegistos, que o ser humano fosse estabelecido na matéria em lugar de viver na felicidade suprema na região onde Deus habita? - Eis uma boa questão, Asclépios, e peço a Deus que me dê os meios de respondê-la. Pois se tudo depende de sua vontade, essas discussões sobre o Todo supremo, esse Todo que faz o objeto de nossa pesquisa atual, sobretudo. 8 Escuta então, ó Asclépios. Quando o Senhor e o Criador das coisas, que chamamos com justiça Deus, faz, segundo após ele, o deus visível e sensível, esse segundo deus, se o digo sensível, não é que queira dizer que seja ele mesmo dotado de sensação (se ele o é ou não, o discutiremos em um outro momento), mas porque cai sob o sentido visual - quando Deus então produziu este ser, o primeiro que tirou de si mesmo, mas o segundo depois dele, e que este lhe pareceu belo, pois estava cumulado da bondade de todos seres, amou-o como fruto de sua divindade. Então em Deus todo-poderoso e bom, quis que existisse um outro ser que pudesse contemplar aquilo que havia tirado de si mesmo e prontamente criou o ser humano, cuja razão e cuidado com as coisas devem ser à imitação dos de Deus. Pois a vontade, em Deus, é o cumprimento mesmo do ato, pois querer e fazer são coisas realizadas por ele no mesmo instante. Ora, após haver criado o ser humano essencial, como visse que esse ser humano não poderia cuidar das coisas se não o cobrisse com um envoltório material, deu-lhe um corpo por domicílio e prescreveu que todos os seres humanos fossem tais, compondo de uma e outra natureza, uma
Corpus Hermeticum – Hermes Trismegisto fusão e uma mistura únicas na proporção conveniente. Foi desta forma - que conformou o ser humano, da natureza do espírito e do corpo, isto é do eterno e do mortal, para que o vivente formado dessa forma pudesse satisfazer à sua dupla origem, admirar e adorar as coisas celestes, tomar conta das coisas terrestres e governá-las. Agora, por coisas mortais não entendo a terra e a água, esses dois elementos que, entre os quatro, a natureza colocou à disposição do ser humano, mas tudo o que o ser humano produz, seja nesses elementos, seja tirando desses elementos, por exemplo a cultura do solo, as pastagens, as construções, os portos, a navegação, as relações sociais, as trocas mútuas, as obras que constituem o liame mais sólido de ser humano a ser humano e entre o ser humano e esta parte do mundo que é feita de terra a água. Esta parte terrestre do mundo é mantida pelo conhecimento a prática das artes e das ciências, sem as quais Deus não quis que o mundo pudesse passar a ser perfeito. Pois o que Deus decretou deve ser necessário e cumprido, quer uma coisa e ela está feita e não se pode acredïtar que Deus volte atrás alguma vez acerca do que decretou um dia, pois sabia muito antes que esta coisa se produziria e que o agradaria. 9 Mas percebo bem, ó Asclépios, com qual impaciente desejo de alma queres compreender como o ser humano pode fazer, do céu e dos seres que aí se encontram, o objeto de seu amor e de seus cuidados. Escuta, ó Asclépios. Amar o deus do céu e todos os seres celestes é unicamente prestar-lhes uma contínua reverência. Ora, de todos os viventes, divinos e mortais, nenhum outro a prestou, senão o homem. Esses testemunhos humanos de admiração, de adoração, de louvor, de reverência, fazem a delícia do céu e dos seres celestes. E é justo que a divindade suprema tenha enviado cá para baixo o coro das Musas entre os homens para que o mundo terrestre não pareça muito selvagem, privado da doçura da música, mas que contrariamente, pelos seus cantos inspirados pelas Musas, os homens possam oferecer seus louvores àquele que sozinho é o Todo e o pai de todos, e que desta forma, aos louvores celestes responda sempre, na terra também, uma suave harmonia. Alguns humanos, em muito pequeno número, dotados de uma alma pura, receberam como parte a augusta função de elevar seus olhos para o céu. Mas todos aqueles que, em virtude da mistura de sua dupla natureza, deixaram-se restar, pelo peso do corpo, a um nível inferior de conhecimento, destinam-se ao cuidado dos elementos ou, ainda, dos inferiores. O ser humano é portanto um vivente, e não digo que é inferior, pelo fato que seja em parte mortal: ao contrário, pode ser que tenha sido enriquecido pela mortalidade por ter, assim composto, mais habilidade e eficácia em vista de um propósito determinado. Pois não teria podido cumprir sua dupla função se não fosse composto das duas substâncias, é preciso ser de uma e de outra, para ser capaz ao mesmo tempo de cuidar das coisas terrestres e amar a divindade. 10 Quanto ao assunto que vou tratar agora, ó Asclépios, desejo que mantenhas com uma atenção penetrante todo o ardor de teu espírito. Com efeito, se a maior parte não acredita nessa doutrina, não deve ser, entretanto, recebida como menos sã e verdadeira pelas almas mais santas. Começo então. Deus, mestre da eternidade, é o primeiro; o mundo o segundo; o ser humano é o terceiro. Deus é o criador do mundo e de todos os seres que aí se encontram, governando ao mesmo tempo as coisas, em conjunção com o ser humano que governa também o mundo formado por Deus. Se o ser humano assume esse ofício em tudo que comporta, entendo que esse governo é sua função própria, faz de forma que seja para o mundo, aquilo que o mundo é para si: um ornamento, se bem que, por essa divina estrutura do homem, concorda-se em chamá-lo um mundo, o grego o diz mais justamente uma ordem (kosmos). O ser humano se conhece, conhece também o mundo, este conhecimento faz com que ele lembre o que convém a seu papel e reconheça quais coisas servem para seu uso, e serviço de que e de quem deve se colocar, oferecendo a Deus seus louvores e suas ações de graça as mais vivas, reverenciando a imagem de Deus sem esquecer que é também a segunda imagem: pois Deus possui duas imagens, o mundo e o ser humano. De onde resulta que o ser humano constitui apenas uma única liga, por aquela parte pela qual, sendo feito, com elementos superiores, da alma e do intelecto, do espírito e da razão, é divino, parece possuir os meios de subir até aos céus, enquanto que pela parte material,
Corpus Hermeticum – Hermes Trismegisto composta de fogo e de terra, de água e de ar, é mortal e permanece preso à terra, com medo que possa deixá-la vazia e abandonar as coisas confiadas à sua guarda. É desta forma que a natureza humana, em parte divina, foi criada também em parte mortal pois foi estabelecida em um corpo. 11 A regra desse ser duplo, quero dizer, o ser humano, é antes de tudo a piedade, que tem por conseqüência a bondade. Mas esta bondade não se mostra em sua perfeição, se não foi fortificada contra o desejo de tudo o que é estranho ao ser humano, pela virtude do desprezo. É necessário tomar por estrangeiras, e tudo no ser humano é parente do divino, as coisas terrestres que se possuem para satisfazer aos desejos do corpo, são chamadas, muito bem, possessões, pois não nasceram conosco, mas foram adquiridas por nós após o nascimento: e é daí que lhes advém o nome de possessões. As coisas deste tipo são estranhas ao ser humano, mesmo o corpo: por conseqüência, devemos desprezar não somente os objetos de nossos apetites, mas a fonte de onde decorre em nós esse vício do apetite. Pois, segundo a direção mesmo que me faz seguir o rigor do raciocínio, o ser humano não deveria ser humano senão na medida em que, pela contemplação da divindade, despreza e desdenha a parte mortal que lhe foi unida pela necessidade que tem de cuidar do mundo inferior. Com efeito, para que o ser humano seja completo em cada uma de suas partes, observa que foi dotado em cada uma delas quatro elementos principais: as mãos e os pés que fazem respectivamente dois pares e que, com os outros membros corporais, lhe permitem estar ao serviço da parte inferior, isto é, terrestre, do mundo; e da outra parte estas quatro faculdades, o espírito, o intelecto, a memória e a previdência, graças às quais conhece as coisas divinas e as contempla. Daí advém o fato do ser humano escrutar com uma inquieta curiosidade as diferenças das coisas, suas qualidades, suas operações e suas grandezas, e que todavia, entravado pelo peso e maligna influência de um corpo muito forte para ele, não possa penetrar as verdadeiras causas da natureza. Assim, este ser humano feito desta forma, que recebeu do Deus supremo o encargo desse serviço a esse culto, se vela pela ordem do mundo através de um trabalho bem ordenado, se honra a Deus piedosamente, se obedece de maneira digna e conveniente à vontade de Deus nas tarefas que lhe foram confiadas, um humano assim, que recompensa deverá receber? - Pois, por ser o mundo obra de Deus, o que com diligência conserva e aumenta a beleza do mundo coopera com a vontade de Deus, posto que emprega seu corpo e consagra todo dia, seu trabalho e seus desvelos a adornar a beleza que Deus criou com uma intenção divina. - Oue recompensa deverá receber, à não ser aquela que receberam nossos pais maiores e que, em nossas mais ferventes súplicas, desejamos receber um dia de maneira análoga, se assim o quiser a vontade divina, isto é, uma vez concluído nosso serviço, exonerados da vigilância do mundo material e livres dos laços da natureza mortal, Deus nos reconduza, puros e santos, à condição normal da parte superior de nós mesmos que é divina? 12 - O que dizes é justo e verdadeiro, ó Trismegistos! - Tal é com efeito a recompensa que aguarda aos que levam uma vida de piedade para com Deus e de atento cuidado com o mundo. Em contrapartida, os que tenham vivido no mal e na impiedade, além de sentir que o retorno ao céu lhes é negado são condenados a passar a corpos de outra espécie em virtude de uma migração vergonhosa, indigna da santidade do espírito. - Segundo a marcha que segue teu discurso, ó Trismegistos, relativamente à esperança da imortalidade futura, as almas correm grande perigo nesta vida terrestre. - Certamente, porém isto para uns parece algo inacreditável, para outros algo fabuloso, para outros inclusive, algo ridículo. Pois, que coisa doce é com efeito, nesta vida corporal, o gozo proveniente dos bens possuídos! Este prazer, como se pode dizer, prende a alma pelo cólon para que o ser humano se prenda a esta parte dele pela que é mortal, e além do mais o vício, invejoso da imortalidade, não suporta que alguém reconheça a sua parte divina. Posso afirmar-te, como profecia: depois de nós, já não haverá amor sincero à filosofia, a qual consiste no único desejo de melhor conhecer a divindade por meio de uma contemplação habitual e uma santa piedade. Pois muitos já a estão corrompendo de inúmeras maneiras.
Corpus Hermeticum – Hermes Trismegisto - De qualquer maneira a fazem incompreensível e de que forma a corrompem de inúmeras maneiras? 13 - Da seguinte maneira, ó Asclépios, através de um trabaIho cheio de astúcia, misturam-na com diversas ciências ininteligíveis, a aritmética, a música, e a geometria. Porém a filosofia pura, aquela que depende apenas da piedade relativa a Deus, não deve se preocupar com as outras ciências, a não ser para admirar o retorno dos astros à sua posição primitiva, suas posições pré-determinadas e o curso de suas revoluções obedecendo à lei dos números para, por meio do conhecimento das dimensões, das qualidades, das quantidades da terra, das profundezas do mar, da força do fogo, das operações e da natureza dessas coisas, sentir-se levada a admirar, adorar e bendizer a arte e a inteligência de Deus. A formação musical confere apenas o conhecimento de como se ordena este conjunto do universo a que plano divino distribuiu as coisas: pois esta ordem, em que as coisas foram reunidas em um mesmo todo por uma razão de artistas, produzirá uma espécie de concerto infinitamente suave e verdadeiro, com uma música divina. 14 Desta forma, os humanos que virão depois de nós, enganados pela astúcia dos sofistas, deixar-se-ão apartar da verdadeira, pura e santa filosofia. Adorar a divindade com um coração e uma alma simples, venerar as obras de Deus, louvar a vontade divina que, é a única a estar infinitamente plena de bem, tal é a filosofia não maculada por nenhuma maligna curiosidade do espírito. Mas isto é o suficiente quanto a esse tratado. Comecemos a falar do sopro ou pneuma e de outros temas semelhantes. (NT. - um pequeno problema se nos apresenta: ‘pneuma’ em grego não é perfeitamente equivalente ao ‘espírito’, em latim; `pneuma' tem um sentido material, que `espírito' não consegue transmitir. É conveniente ter isto em mente no decurso deste tratado.) No princípio existia Deus e ‘Hyle’ - que é a forma pela qual os gregos designam a matéria - (NT. - Observe-se que aqui vale a advertência anterior ao `pneuma', mas com os pés voltados para cima, isto é, `hyle' tem um sentido abstrato que `matéria' não consegue transmitir.) O sopro estava com a matéria, ou melhor estava na matéria, porém não da mesma maneira que estava em Deus ou que estavam em Deus os princípios de onde o mundo tirou suas origens. Pois se as coisas não possuíam ainda existência, posto que não haviam sido produzidas, nem por isso existiam menos naquilo de que deveriam nascer. - Pois ‘carente de geração' não se diz somente das coisas que ainda não foram produzidas, mas também das coisas que não possuem o poder de engendrar, de modo que delas nada pode nascer. Destarte, todos os seres que possuem em si a faculade natural de engendrar são, por este mesmo fato, capazes de engendrar: e deles pode nascer alguma coisa, mesmo no caso de terem nascido de si mesmos, pois ninguém duvida do fato de que dos seres que nascem de si mesmos, possam nascer facilmente os principios de onde as coisas tiram sua origem. Conseqüentemente, Deus, que existe sempre, Deus eterno, não pode ser engendrado nem o poderia ter sido, é, foi e sempre será. Esta é, portanto a natureza de Deus, que saiu de si mesmo completamente. Enquanto a natureza material e o sopro, por mais evidentemente que sejam nãoengendrados desde o princípio, têm em si o poder e a faculdade natural de nascer e de engendrar. Pois o princípio da geração é uma das propriedades da matéria: esta possui em si mesma o poder e a capacidade fundamental de conceber e dar à luz. É pois capaz de engendrar por si só, sem o concurso de nenhum elemento estranho. 15 Contrariamente, aqueles seres que não possuem a faculdade de conceber a não ser através da cópula com outro ser, devem ser considerados como seres limitados, de forma que o espaço, que contém o mundo e tudo que se encontra nele, é evidentemente não engendrado, possuindo como possui em si mesmo um poder de geração universal. Por 'espaço' entendo aquilo em que o conjunto das coisas está contido. Pois todo esse conjunto não teria podido existir se não houvesse espaço para conter o ser das coisas - pois nenhuma coisa pode existir sem que se lhe tenha preparado um lugar. E também não poderiam ser discernidas nem as qualidades, nem as magnitudes, nem as posições, nem as operações das coisas que estivessem em parte alguma. Portanto, também a matéria, quando ainda não havia sido engendrada, continha, entretanto, em si mesma, o princípio de toda geração, pois oferece às coisas um seio
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