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Capítulo 18 de 21
Xviii - Dos Entraves Acarretados À Alma Pelo Que Sucede — parte 3 de 6
Corpus Hermeticum
Corpus Hermeticum – Hermes Trismegisto inesgotavelmente fecundo e adequado para sua concepção. Eis então no que se resume toda a qualidade da matéria: é capaz de engendrar embora não seja engendrada. Bem, se toma parte da natureza da matéria o ser capaz de engendrar, disto resulta que esta mesma matéria é absolutamente capaz de gerar o mal. 16 Não disse então, ó Asclépios e Hammon! o que muitos repetem: "Não poderia ser afastado e abolido o mal da Natureza, por Deus?" Essas pessoas não merecem absolutamente resposta. Todavia, em vossa atenção, quero prosseguir explicando este fato. Dizem, com efeito, que Deus deveria libertar o mundo do mal; porém o mal está fixado no mundo que parece ser um membro deste. No entanto, o Deus supremo tomou de antemão suas precauções contra o mal, da maneira mais racional que foi possível, ao se dignar dar gratuitamente às almas humanas o intelecto, a ciência e o entendimento. Por meio destas faculdades, graças às quais nos elevamos acima de todos os seres viventes e somente por elas, podemos escapar às armadilhas, aos ardis e às corrupções do mal. Se um ser humano pode evitar tudo isto ao primeiro olhar, antes de ter se envolvido totalmente, deve-o a estas muralhas ou defesas que lhe foram previstas pela sabedoria e prudência divina: pois toda ciência humana tem seu fundamento na soberana vontade de Deus. Relativamente ao sopro é ele que procura e mantém a vida em todos os seres do mundo, o qual obedece, como um órgão ou máquina ou instrumento, à vontade do Deus Supremo. Estas explicações são suficientes para nosso intento. Inteligível somente para o pensamento, o Deus chamado Sumo rege e governa este deus perceptível pelos sentidos que compreende em si mesmo todo lugar, toda substância das coisas, toda natureza dos seres que nascem e engendram, a toda classe possível de qualidade e de grandeza ou magnitude. 17 O sopro é que move e dirige todas as formas sensíveis contidas no mundo, cada uma segundo a natureza própria que Deus lhe haja conferido. Enquanto a matéria é o receptáculo das coisas, em que todos os seres estão em movimento, formando uma massa compacta. Estes são governados por Deus, que dispensa a cada um dos seres o que lhe é necessário. E Deus preenche as coisas de sopro, inalando-o em cada um deles segundo a medida de sua capacidade natural. Esta bola oca semelhante a uma esfera que é o mundo, devido à sua qualidade e à sua forma, não pode ser vista em sua totalidade; escolhe um ponto qualquer da esfera para olhar de cima para baixo: nunca poderás, deste ponto, ver o que há no fundo. Por essa razão muitos lhe atribuem a mesma natureza que o espaço e as mesmas propriedades. Somente devido às formas sensíveis nela impressas como cópias das formas ideais, atribui-se a ela mesma uma espécie de visibilidade, já que aparece à vista como um quadro pintado; porém, na realidade, é em si mesma sempre invisível. Daí resulta que o fundo da esfera, se é uma parte ou um lugar da esfera, se chame em grego Hades (`idein' em grego significa ver) - já que não é possível ver o fundo da esfera. E também por esta razão que as formas sensíveis são chamadas "ideai" ou idéias, porque podem ser vistas. Assim pois, o mundo dos infernos é chamado em grego `Hades' porque não é visível e em latim `Inferi' porque se encontra na parte mais baixa da esfera. Essas são, pois, as causas originárias e, por assim dizer, capitais das coisas, pois nelas ou por meio delas ou a partir delas existem as coisas. 18 - De que natureza são estas coisas, ó Trismegistos! - Material, por assim dizer, é a substância de cada uma das formas sensíveis que há no mundo, seja qual for a sua forma; por isto a matéria nutre os corpos, e o sopro as almas. Porém o intelecto, esse dom celestial da humanidade do qual apenas a humanidade possui o afortunado gozo - e assim mesmo nem todos os seus membros, apenas um reduzido número, o daqueles cuja alma está disposta de tal forma que está apta a receber um benefício tão grande; o intelecto é a luz da alma humana da mesma maneira que o sol o é do mundo, e a ilumina mais ainda: pois tudo o que é iluminado pelo sol se vê privado de tempo em tempo desta luz pela interposição da terra e da lua quando chega a noite, o intelecto uma vez tendo se mesclado e fundido com a alma humana se faz uma única e mesma substância com ela por meio de uma íntima fusão, de forma que as almas assim mescladas nunca mais são obscurecidas pelas trevas do erro. Por esta razão diz-se com acerto que a alma dos deuses em sua totalidade são formadas pelo intelecto. Eu não
Corpus Hermeticum – Hermes Trismegisto afirmo que assim sejam as almas de todos os deuses, mas tão-somente a dos grandes deuses, dos deuses superiores. - Quais são os deuses aos quais chamamos chefes das coisas ou princípios das causas absolutamente primeiras, ó Trismegistos? - Vou desvelar-te grandes segredos, vou desvelar-te mistérios divinos e antes de começar, imploro o favor celestial. Há muitos gêneros de deuses, dentre esse número, uns são inteligíveis, outros sensíveis. Ao chamar alguns de inteligíveis não se quer dizer que permaneçam à margem de nosso conhecimento: longe disto, conhecemo-los melhor que àqueles que chamamos visíveis; esta exposição o fará ver e o verás por ti mesmo se prestares atenção. Pois esta doutrina sublime e por isto mesmo demasiado divina para não superar as forças da inteligência humana, se não a recebes ouvindo com todos os teus ouvidos as palavras do mestre, não farás mais que voar e fluir através do espírito, ou melhor ainda virá a refluir sobre si mesmo e a confundir-se em sua fonte. Existem pois os deuses chefes das espécies em primeiro lugar. Depois deles vêm os deuses cuja essência tem um chefe: são estes deuses sensíveis e feitos à semelhança de sua dupla origem, os que, de um lado e outro do mundo sensível, produzem todos os seres, um por meio do outro, iluminando cada um dele; a obra que criou ou cria. O Ousiarca do céu é Júpiter, através do céu dispensando a vida e todos os seres. O Ousiarca do sol é a luz; depois por mediação do círculo solar se difunde sobre nós o bem da luz. Os Trinta e Seis chamados Horóscopos, isto é, os astros que sempre se encontram fixos no mesmo lugar, têm como Ousiarca o chefe ou deus chamado Pantomorfos ou Omniforme, que impõe suas diversas formas aos diversos indivíduos de cada espécie. As chamadas Sete Esferas têm como Ousiarcas, isto é, como seus chefes, às chamadas Fortuna e Heimarmene, pelos quais as coisas se transformam segundo a lei da natureza a uma ordem absolutamente determinada, que permanece contudo diversificada por um momento perpétuo. O ar é o órgão, isto é, o instrumento de todos os deuses por mediação do qual se produzem as coisas; e o Ousiarca do ar é o segundo às coisas imortais as mortais e a estas suas semelhantes. Nestas condições, as coisas possuem entre si uma conexão através de mútuas relações em uma cadeia que abarca da mais baixa à mais alta. Porém, as coisas mortais estão ligadas às imortais, as sensíveis às que não são percebidas pelos sentidos. Enquanto o conjunto da criação obedece a este governador supremo que é o senhor, de forma que compõem não uma multiplicidade mas uma unidade. Pois, como todos os seres dependem do Um e são provenientes do Uno, ainda que vistos separadamente pareçam constituir uma infinidade em número, quando se os considera reunidos formam apenas uma unidade, ou melhor ainda, uma parelha, aquilo de que tudo procede e pelo que tudo é produzido, isto é, a matéria com que as coisas são feitas e a vontade de Deus cujo decreto as faz existir em sua diversidade. 20 - E qual é esta doutrina, ó Trismegistos? - A seguinte, Asclépios. Deus, ou o Pai, ou o Senhor das coisas, ou qualquer nome que os humanos de uma maneira mais santa ou mais repleta de reverência o designem; nome que a necessidade em que nos vemos de nos comunicar uns aos outros faz com que consideremos sagrado; de forma que se consideramos a majestade de um Ser tão grande, nenhum destes nomes tem o poder de defini-lo com exatidão. Pois se o nome não é mais do que isto, um som que provém do choque de nosso alento com o ar, para declarar toda vontade ou pensamento que o ser humano tenha podido conceber em seu espírito a partir das impressões sensíveis, um nome cuja substância, composta de um pequeno número de sílabas está inteiramente delimitada e circunscrita a fim de fazer possível entre os humanos o intercâmbio indispensável entre o que fala e o que escuta, se o nome, digo, é mais que isto, a totalidade do nome de Deus inclui ao mesmo tempo a impressão sensível, o alento, o ar e tudo aquilo que existe nestas três coisas ou por seu intermédio ou como resultado das três: bem, não há nenhuma esperança de que o Criador da majestade do Todo, o pai e o senhor de todos os seres, possa ser designado por meio de um único nome, nem sequer composto de uma pluraridade de nomes; Deus não tem nome ou melhor ainda, possui todos, posto que é ao mesmo tempo Um e Todo, de modo que é preciso ou designar
Corpus Hermeticum – Hermes Trismegisto as coisas com seu nome ou então dar-lhe o nome das coisas; Deus, portanto, que é as coisas por si só, infinitamente repleto da fecundidade dos dois sexos, prenhe pela sua própria vontade, sempre, dá à luz e tudo que tenha planejado ou decidido procriar. A sua vontade é, inteiramente, bondade. E essa bondade que existe também em todos os seres saiu naturalmente da divindade de Deus, para que os seres sejam como são e como têm sido e para que todos os seres que tenham que existir na seqüência procurem, de maneira adequada, a faculdade de reproduzir-se. Seja-te, pois, desvelada nestes termos, ó Asclépios, a doutrina acerca das causas e o modo de produção dos seres. 21 - Dizes então, ó Trismegistos, que Deus possui os dois sexos? - Sim, Asclépios, e não somente Deus, mas todos os seres animados e inanimados. Não é possível que nenhum dos seres que exista seja infecundo pois caso se retire a fecundidade de todos os seres que existem neste momento, as raças atuais não poderão durar para sempre. De minha parte declaro que também está na natureza dos seres o sentir e o engendrar e digo que o mundo possui em si mesmo a capacidade de engendrar e que conserva todas as raças que uma vez tenham vindo a ser. Porque um e outros sexos estão cheios de força procriadora e a união destes dois sexos ou melhor, sua unificação, que pode ser denominada corretamente Eros ou Vênus ou as duas coisas ao mesmo tempo, é algo incompreensível para o entendimento. Grava pois em teu espírito, como uma verdade mais certa e evidente que nenhuma, que este grande soberano de toda a natureza, Deus, inventou para todos os seres e concedeu a todos este mistério de reprodução eterna, com tudo o que traz consigo de afeto, felicidade, alegria, desejo e amor, dom de Deus. E este seria o lugar de dizer quanta força tem esse mistério para prender-nos, se cada um de nós, examinando a si mesmo, não soubesse pelos seus sentimentos mais íntimos. Pois se consideras este momento supremo em que, graças a um roçar continuado, chegamos ao resultado que as duas naturezas derramam uma na outra sua semente, de que uma das duas se apopera avidamente para encerrá-la em si mesma, nesse ponto comprovas que, por uma fusão das duas naturezas, a mulher adquire o vigor do varão; o varão se relaxa ou se abandona em um langor feminino. Por isto o ato desse mistério, por muito doce e necessário que pareça, se realiza em segredo para que as zombarias do vulgo ignorante não fizessem corar à divindade, que se manifesta em uma e outra natureza nessa fusão dos sexos, particularmente quando se o expõe aos olhos dos ímpios. 22 Pois os homens piedosos não são numerosos: tão pouco numerosos que seria possível contá-los em todo universo. Bem, se na grande maioria persiste a malícia, é porque carece de sabedoria e conhecimento do conjunto das coisas. Pois é preciso ter compreendido o plano divino, de acordo com o qual foi constituído o universo, para menosprezar os vícios de tudo o que é matéria e remediá-los. Porém, quando a ignorância e a imperícia se alargam, todos esses vícios, adquirindo cada vez mais força, ferem a alma com pecados incuráveis; e a alma, infectada e corrompida por eles, se encontra como que inchada por venenos exceto naqueles que tenham encontrado o remédio soberano da ciência e do conhecimento. lsto posto, ainda que não tivesse que servir a outros homens que não estes, que representam um número reduzido, vale a pena prosseguir e concluir o tema que estamos tratando: porque tão-somente ao ser humano a divindade dignou-se conceder o conhecimento a ciência que lhe pertencem. Escuta, pois. Quando Deus, o Pai, e o Senhor, criou, depois dos deuses, os humanos, combinando neles em proporções iguais o elemento corruptível da natureza e o elemento divino, sucedeu que os vícios da matéria, uma vez mesclados aos corpos, se arraigaram nestes, bem como outros vícios procedentes dos alimentos e o alimento que nos vemos forçados a tomar como todo ser vivente, de onde se segue necessariamente que os desejos da concupiscência e todos os demais vícios da alma encontram lugar no coração humano. Enquanto que os deuses que foram formados da parte mais pura da natureza e não têm nenhuma necessidade da ajuda da razão e da ciência, embora a imortalidade e o vigor de uma juventude eterna lhes façam às vezes de sabedoria a ciência para salvaguardar e unidade de seu plano, como ciência a inteligência, a fim de que não ficassem desprovidos desses bens, Deus, por um decreto eterno, constituiu para eles e prescreveu-lhes em
Corpus Hermeticum – Hermes Trismegisto forma de lei e ordem da necessidade, enquanto distinguia o ser humano dentre todos os viventes e o reconhecia como seu pelo privilégio único da razão e da ciência, graças às quais a humanidade pode apartar e rechaçar para longe de si os vícios inerentes ao corpo e se dirigir à esperança da imortalidade e tender a ela. Em uma palavra, a fim de que o ser humano pudesse ser bom e capaz da imortalidade, Deus o compõs de duas naturezas, a divina e a mortal: e deste modo a vontade divina decretou que o ser humano fosse melhor constituído que os deuses, que foram conformados exclusivamente da natureza imortal que todo o resto dos mortais. Por isto, enquanto o ser humano unido aos deuses por um vínculo de parentesco, os adora piedosamente na santidade do espírito, os deuses por sua vez velam do alto, com um terno amor, sobre os assuntos humanos, tomando-os sob sua custódia. 23 Porém falo tão somente deste reduzido número que recebeu o dom de uma alma piedosa; dos maus mais vale nada dizer, pois temo que, pensando neles possa resultar maculada a sublime santidade deste raciocínio. E como foi anunciado o tema do parentesco e o consórcio que liga homens e deuses, convém, Asclépios, que conheças o poder e a força do homem. Do mesmo modo que o Senhor ou o Pai ou, para dar-lhe seu nome mais alto, Deus, é o criador dos deuses, do céu, também o ser humano é o autor dos deuses que residem nos templos e que encontram satisfação na vizinhança dos humanos: não somente recebe a luz, como a dá por sua vez, não somente avança para Deus, mas também cria deuses. Sentes admiração, ó Asclépios, ou to sentes sem fé, como a maioria? - Sinto-me confuso, ó Trismegistos, porém me rendo gostosamente a tuas proposições e considero o ser humano infinitamente ditoso, pois conseguiu uma felicidade de tal índole. - Certamente, merece que se o admire, ele, o maior de todos os seres. É uma crença universal que a raça dos deuses saiu da parte mais pura da natureza, e que seus signos visíveis não são, por assim dizer, mais que cabeças no lugar de corpos inteiros. Por outro lado, as imagens dos deuces que o ser humano modela foram formadas das duas naturezas, da divina que é a mais pura e muito mais divina e da que está abaixo do homem, isto é, da matéria que serviu para fabricá-las, ademais, suas figuras não se limitam somente à cabeça, mas possui um corpo inteiro com todos os membros. Assim a humanidade que sempre recorda sua natureza e sua origem, avança até nisto a imitação da divindade e, assim como o Pai e o Senhor dotou aos deuses de eternidade para que fossem semelhantes a Ele, da mesma maneira o ser humano modela os seus próprios deuses à semelhança de seu rosto. 24 - Referes-te, ó Trismegistos, às estátuas? - Sim, às estátuas, Asclépios. Vês como careces de fé? Trata-se de estátuas dotadas de uma alma, conscientes, cheias de sopro vital, e que realizam um número incalculável de prodígios; estátuas que conhecem o futuro e o predizem pelas sortes, a inspiração profética, os sonhos e muitos outros métodos, que enviam aos homens as enfermidades e as curam, que concedem, segundo nossos méritos, a dor ou a fortuna. Desconheces então, ó Asclépios, que o Egito é a cópia do céu ou, para melhor dizer, o lugar em que se transferem e projetam cá embaixo todas as operações que dirigem e põem em obra as forças celestes? Mais ainda, tem que se dizer toda verdade, nossa terra é o templo do mundo inteiro. E, no entanto, como aos sábios convém conhecer de antemão às coisas futuras, há uma que é preciso que conheças. Virá um tempo em que parecerá que os egípcios honraram em vão a seus deuses, na piedade de seu coração, através de um culto assíduo: toda sua santa adoração fracassará por ineficaz, será privada de seu fruto. Os deuses abandonando a terra, volver-se-ão para o céu, abandonarão o Egito; este país que foi em outro tempo o domicílio das liturgias santas, viúvo agora de seus deuses, não gozará mais de sua presença. Estrangeiros virão a habitar este país, esta terra, e não ela somente, se deixará de prestar atenção às observâncias, mas, coisa ainda mais penosa, mandar-se-á, por meio de presumidas leis, sob castigos prescritos, abster-se de toda prática religiosa, de todo ato de piedade ou de culto para com os deuces. Então, esta terra santíssima, pátria dos santuários dos templos, permanecerá totalmente coberta de sepulcros e de mortos. Oh! Egito, Egito! de teus cultos restarão apenas mitos e nem sequer teus filhos, mais
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