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Capítulo 19 de 21

Xviii - Dos Entraves Acarretados À Alma Pelo Que Sucede — parte 4 de 6

Corpus Hermeticum

Corpus Hermeticum – Hermes Trismegisto tarde, crerão neles, nada sobreviverá, a não ser as palavras gravadas sobre as pedras que contam tuas piedosas façanhas. O cita, ou o hindu, ou qualquer outro semelhante a eles, isto é, um vizinho bárbaro se estabelecerá no Egito. Porque eis que daqui a divindade sobe aos céus de novo, os homens abandonados, morrerão todos e então, sem deus e sem humano, o Egito não será mais que um deserto. Dirijo-me a ti, rio santíssimo, e a ti predigo as coisas do futuro: torrentes de sangue to encherão até as margens e transbordarás, e não somente tuas águas divinas serão manchadas por este sangue, mas também este fará com que saiam de seu leito e haverá muito mais mortos que vivos; enquanto que aquele que haja sobrevivido só será reconhecido como egípcio pela sua língua: na sua forma de agir parecerá um ser humano de outra raça. 25 Por que chorar, ó Asclépios? O mesmo Egito se deixará arrastar e muito mais que isto, e a algo muito pior: será maculado com crimes muito mais graves. Ele, noutro tempo o santo, que tanto amava aos deuses, único país da terra em que os deuses haviam assentado moradia para corresponder à sua devoção, ele, que ensinava aos homens e santidade e a piedade, dará exemplo da mais atroz crueldade. Nessa hora, cansados de viver, os humanos não olharão o mundo como objeto de sua admiração e reverência. Este Todo, que é uma coisa boa, a melhor que se pode ver no passado, no presente e no futuro, estará em perigo de perecer, os humanos o considerarão como um peso duro e, por ele mesmo, se menosprezará e não se amará mais a este conjunto do universo, obra incomparável de Deus, construção gloriosa, criação, toda ela boa, feita de uma infinita diversidade de formas, instrumento da vontade de Deus que, sem ciúme, prodigaliza seus favores em toda sua obra, onde se reúne em um mesmo todo, numa harmoniosa disparidade, tudo o que pode oferecer-se à vista que seja digno de reverência, louvor e amor. Porque as trevas serão preferidas à luz, se achará mais útil morrer que viver, ninguém mais levantará seus olhos para o céu; o ser humano piedoso será olhado como um louco, o ímpio como um sábio; o louco frenético será olhado como um valente, o pior criminoso como um ser humano de bem. A alma e todas as crenças que a ela se referem, segundo as quais a alma é imortal por natureza, ou que haverá de obter a imortalidade, conforme ensinei, serão apenas motivo de riso, mais ainda serão vistas como pura vanidade. Inclusive, creia-me, será um crime capital, segundo os textos da lei, o estar dedicado à religião do espírito. Será criado um novo direito, novas leis. Nada santo, nada piedoso, digno do céu e dos deuses que o habitam se fará ouvir jamais nem se achará fé em parte alguma da alma. Produz-se uma dolorosa separação entre homens e deuses; restam apenas os anjos nocivos que se mesclam aos humanos e os constrangem pela violência, desventurados, e todos os excessos de uma audácia criminosa, comprometendo-os em guerras, piratarias, más ações e em tudo o que é contrário à natureza da alma. A terra perderá então seu equilíbrio, o mar deixará de ser navegável, o céu não estará manchado de estrelas, os astros deterão sua marcha pelo céu; toda voz divina será forçada ao silêncio e se calará; os frutos da terra apodrecerão, o solo deixará de ser fértil, o próprio ar se intumescerá num lúgubre torpor. 26 Isto, pois, será a velhice do mundo: irreligião, desordem, irracional confusão de todos os bens. Quando essas coisas tiverem sucedido, ó Asclépios, estão o Senhor, e o Pai, o Deus primeiro em potência e demiurgo do deus uno, depois de haver considerado estes costumes e estes crimes voluntários, oferecendo resistência com sua vontade, que é a bondade divina, aos vícios e à corrupção universal, e corrigindo o erro, aniquilará toda a malícia, apagando-a através de um dilúvio, consumindo-a através do fogo, destruindo-a através de enfermidades pestilenciais estendidas a diversos lugares; logo conduzirá o mundo à sua beleza primeva, para que este mesmo mundo pareça novamente digno de reverência e admiração e para que também Deus, criador e restaurador de uma obra tão grande, seja glorificado pelos homens que vivam, então, com contínuos hinos de louvor e bênção. Aqui se dará na realidade o nascimento do mundo: uma renovação das coisas boas, uma restauração santa e soleníssima da própria natureza, imposta pela força com o correr do tempo (porém por vontade divina) que é aquilo que foi sem começo nem fim. Pois a vontade de Deus não teve começo, é sempre a mesma e o que é hoje segue sendo eternamente. Pois o conselho da vontade de Deus nada mais é que sua essência. - Este conselho é, pois, o Bem supremo, oh! Trismegistos?

Corpus Hermeticum – Hermes Trismegisto - É o conselho, Asclépios, o que dá nascimento à vontade, do mesmo modo que esta por sua vez faz nascer o próprio ato do querer. Pois o que possui as coisas nada quer ao acaso, mas quer tudo o que possui. Agora bem, quer tudo o que é bom, e é tudo o que possui. Tudo o que propõe e quer, é, pois, bom. Assim é Deus: e o mundo é sua imagem, obra de um Deus bom, e portanto, bom. 27 - Bom, Tismegistos? Sim, bom, Asclépios, e vou demonstrar-te. Da mesma maneira que Deus dispensa e distribui a todos os indivíduos e gêneros que existem no mundo seus benefícios, isto é, o intelecto, a alma e a vida, também o mundo produz e dá as coisas que os mortais consideram boas, isto é, a sucessão dos nascimentos no seu tempo, a formação, crescimento a maturação dos frutos da terra e outros bens semelhantes. Estabelecido na maior altitude do céu supremo, Deus está em todas as partes e passeia seu olhar sobre as coisas - pois existe um lugar além do próprio céu, lugar sem estrelas, muito afastado das coisas corporais. O que dispensa a vida ao que chamamos de Júpiter ocupa o lugar intermediário entre o céu e a terra. A terra e o mar estão sob o poder de Júpiter Plutônio: é o que nutre a todos os viventes mortais e aos que dão fruto. Assim, graças às virtudes ativas de todos estes deuses os produtos do solo, as árvores e a própria terra devem subsistir. Porém existem ainda outros deuses cujas virtudes ativas e cujas operações vão distribuir-se através de tudo o que existe. Esses deuses cujo domínio se exerce sobre a terra serão restaurados qualquer dia e instalados numa cidade no limite extremo do Egito, uma cidade que será fundada do lado do sol poente e à qual afluirão, por terra e por mar, as raças dos mortais. - Diga-me, todavia, ó Trismegistos, onde se encontram no momento estes deuses da terra? - Instalaram-se numa magnífica cidade, sobre a montanha da Líbia. Porém isto é o suficiente quanto a este tema. Precisa-se tratar agora do mortal e do imortal. Porque a espera e o temor da morte são um suplício para a maior parte dos homens por ignorarem a verdadeira doutrina. A morte é o resultado da dissolução do corpo gasto pelo trabalho, uma vez cumprido o número de anos durante o qual os membros do corpo se mantém ajustados para perfazer um todo único, instrumento bem disposto para as funções da vida: o corpo morre quando deixa de ter força para suportar as cargas da vida humana. A morte é isto: dissolução do corpo a desaparição da sensibilidade corporal; e é desnecessário inquietar-se por isso. Porém existe um outro motivo de inquietude, este necessário, que os homens menosprezam porque o ignoram ou porque não crêem nele. - Que é isto, ó Trismegistos, que os homens ignoram ou cuja possibilidade põem em dúvida? 28 - Escuta pois, Asclépios. Assim que a alma tenha se retirado do corpo, passará ao domínio do Daimon supremo que a submeterá a juízo a fim de avaliar seus méritos. Se uma vez examinada a fundo este comprova que ela sempre se mostrou piedosa e justa, a autoriza a estabelecer-se na morada que lhe corresponde; contrariamente, se a vê manchada das impurezas do pecado e suja pelos vícios, precipita-a às profundezas, abandonando-a às tormentas e aos turbilhões que os ares enfrentam sem cessar, e também o fogo e a água, a fim de que por castigo eterno, seja sacudida e arrastada em sentidos contrários pelas vagas sucessivas da matéria entre a terra e o céu: mais ainda, a própria eternidade da alma não faz mais que daná-la, pois se encontra condenada a um suplício eterno em virtude de uma sentença que não tem fim. Saiba, pois, que temos de temer, assustarmo-nos, e evitar chegar a ser presas de uma tal sorte: pois os incrédulos, depois de terem pecado, ver-se-ão forçados a crer, não pelas palavras, mas pelos fatos, não pelas ameaças, mas pelo próprio sofrimento do castigo. - Então, ó Trismegistos, não é apenas a lei humana que castiga os pecados dos humanos? - Em primeiro lugar, Asclépios, tudo o que é terrestre é mortal; e também o são os seres que estão dotados de vida segundo a condição corpórea e que por isso mesmo deixam de viver nessa condição. Todos esses seres, pois, ao estarem submetidos a castigos proporcionados pelo que sua vida e suas faltas merecem, são castigados depois da morte, com penas tanto mais

Corpus Hermeticum – Hermes Trismegisto severas quanto suas faltas, durante a vida puderam ser mantidas ocultas. Porque a divindade conhece nossas ações, de forma que os castigos corresponderão exatamente à qualidade das faltas. 29 - Quais são os que merecem as maiores penas, ó Trismegistos? - São aqueles que, tendo sido condenados pelas leis humanas, perecem de morte violenta, de forma que parecem ter entregado a vida não como uma dívida paga à natureza, mas o preço de seus crimes. O ser humano justo, contrariamente, encontra sua defesa no culto de Deus e na piedade mais elevada: porque Deus protege tais homens contra toda espécie de mal. Efetivamente, o Pai ou Senhor das coisas, aquele que por si só é tudo, se desvela com prazer a todos. Não se dá a conhecer como algo situado num lugar, nem dotado de uma determinada qualidade ou magnitude, apenas ilumina o ser humano com esse conhecimento que pertence apenas ao intelecto; e então o ser humano, depois de ter expulsado da alma as trevas do erro e haver adquirido a luz da verdade, se une com todo seu intelecto à inteligência divina, cujo amor o libertou desta parte de sua natureza pela qual é mortal e o fez conceber uma firme esperança na imortalidade futura. Esta a distância que haverá entre bons e maus. Todo ser humano bom é iluminado pela piedade, pela religião, sabedoria, o culto e a adoração de Deus; penetra, como se o fizesse com os olhos, a verdadeira razão das coisas, firmemente seguro de sua fé, supera aos demais humanos tanto quanto o sol supera em luminosidade aos outros astros do céu. Ademais, o mesmo sol, se ilumina o resto das estrelas não é tanto pela potência de sua luz como pela sua divindade e santidade. E é a ele que em verdade deves considerar como o segundo Deus que governa as coisas, que difunde sua luz sobre os viventes da terra, os que possuem uma alma e os que não a têm. Bem, se o mundo é um vivente que sempre está em vida, no passado, no presente, no futuro, nada no mundo pode morrer. Como cada uma das partes do mundo está sempre em vida, tal qual é, segundo seu próprio ser, como, por outro lado, se encontra num mundo que é sempre uno e que é vivente a um vivente sempre em vida, não permanece no mundo um lugar para a morte. É preciso portanto que o mundo esteja repleto, infinitamente, de vida e de eternidade, posto que deve sempre, necessariamente, viver. O sol, por conseguinte, posto que o mundo é eterno, governa também eternamente as coisas capazes de viver, isto é, a vitalidade inteira, que distribui através de uma contínua doação. - Deus governa, pois, eternamente as coisas viventes, isto é, capazes de viver, que existem no mundo e dispensa eternamente a vida. Bem dispensou-a, em verdade, de uma vez por todas, a vida é conferida às coisas que são capazes de viver por uma lei eterna, da maneira que vou dizer. 30 O mundo se move na própria vida da eternidade, e seu lugar está nesta eternidade própria da vida. Por esta razão o mundo nunca encontrará repouso nem será jamais destruído, posto que esta eternidade de vida o protege como com um muro fortificado e, por assim dizer, o encerra. Este mundo, mesmo, por seu lado, dispensa a vida e todos os seres que contém, e é o locus de todos os seres submetidos ao governo divino sob o sol. O movimento do mundo é resultado de uma operação dupla: por úm lado o mundo é vivificado a partir do exterior pela eternidade, por outro lado vivifica a todos os seres que contém, diversificando as coisas segundo números e tempo estabelecidos e determinados graças à ação do sol e ao curso dos astros, sendo prescrito o ciclo regular do tempo por uma lei divina. O tempo da terra se dá a conhecer pelo estado da atmosfera, pela sucessão das estações quentes e frias, e o tempo do céu pelo retorno dos astros à sua posição primeira no transcurso de sua revolução periódica. O mundo é o receptáculo do tempo e o curso e o movimento do tempo são os nutridores da vida do mundo. O tempo se mantém segundo uma norma fixa e esta ordem do tempo é o que produz a renovação das coisas no mundo, mediante o retorno alternado das estações. E como as coisas estão submetidas a estas leis não há nada estável, nada fixo, nada imóvel no que vem a ser, no céu ou sobre a terra. Somente Deus possui estas qualidades e com razão: porque é em si, é por si, está concentrado inteiramente em si mesmo, pleno e perfeito; é por si mesmo a estabilidade imóvel, e nenhuma influência procedente do exterior pode movê-lo para fora de seu lugar, porque as coisas em sua totalidade estão nele e ele está nas coisas, apenas ele, a não ser que alguém se atreva a

Corpus Hermeticum – Hermes Trismegisto dizer que ele tem um movimento na eternidade, porém, pelo contrário, é melhor dizer que a eternidade é também imóvel já que o movimento de todos os tempos volve a ela e nela nasce o movimento de todos os tempos. 31 Deus, pois, sempre esteve em repouso e bem como a eternidade, da mesma forma que Deus, permanece imóvel encerrado dentro de si, antes de nascer, este mundo que com razão chamamos mundo sensível. Deste Deus, o mundo sensível foi feito imagem, posto que o mundo imita a eternidade. Pois o tempo, por muito que sempre esteja em movimento possui a força e a natureza da estabilidade sob uma modalidade que lhe é própria, em virtude dessa própria necessidade que o força voltar a seu princípio. Por isto, ainda que a eternidade seja estável, imóvel e fixa, supondo que o curso do tempo, que é móvel, sempre é devolvido à eternidade e supondo que esse movimento segundo a própria lei do tempo, é uma revolução cíclica, segue-se que a própria eternidade, que, tomada independentemente, e imóvel, parece por sua vez estar em movimento devido ao tempo, pois ela mesma entra no tempo, neste tempo em que encontra lugar todo movimento. De onde se deduz que a estabilidade da eternidade comporta movimento e a mobilidade do tempo se torna estável graças à imutabilidade da lei que rege seu curso. Pois o movimento de sua estabilidade é imóvel devido à sua magnitude: porque a lei da imensidade implica a imobilidade. Assim, e este ser que é tal, que escapa ao domínio dos sentidos, não tem limites, ninguém pode abarcá-to ou medi-lo; não pode ser sustentado, nem levado, nem seguido ou perquirido; onde está, para onde vem, como se conduz, de que natureza é: tudo isto nos édesconhecido; move-se na sua estabilidade soberana e sua estabilidade move-se nele, seja esta Deus, ou a eternidade, ou ambos, ou um na outra, ou ambos em um e na outra. Por esta razão a eternidade não conhece os limites do tempo: por outro lado, ainda que seja possível delimitá-lo, seja através do número, ou pela mudança das estações ou pelo retorno periódico dos astros em sua revolução, o tempo é eterno. Assim os vemos a ambos, um e outro, igualmente infinitos, analogamente eternos: pois, sendo a estabilidade fixa a fim de poder servir de base a todos movimentos dos móveis, por esta mesma solidez ocupa com razão o primeiro posto. 32 Assim, as causas primeiras de tudo que existe são Deus e a eternidade. O mundo, supondo-se que seja móvel, não ocupa o primeiro lugar pois, nele, a mobilidade supera a estabilidade, enquanto possui por lei própria de seu movimento eterno, uma fixidez inalterável. - O intelecto total que se assemelha à divindade, imóvel por si mesma, move-se em sua estabilidade: é santo, incorruptível, eterno e qualquer outra coisa melhor que ainda possa ser dita, se é que existe algum atributo melhor, posto que é a eternidade do Deus supremo a qual subsiste na verdade absoluta, infinitamente cheio de todas as formas sensíveis e da ordem universal, subsistindo, por assim dizer, com Deus. O intelecto do mundo, por sua vez, é o receptáculo de todas formas sensíveis e de todas as ordens particulares. Finalmente, o intelecto humano depende do poder de retenção próprio da memória, graças ao qual conserva a lembrança de suas experiências passadas. A divindade do intelecto se detém, em sua descida, no animal humano: pois o Deus supremo não quis que o intelecto divino fosse mesclar-se com todas as espécies viventes, por medo de ter que lamentar-se desta mescla com os viventes inferiores. O conhecimento que se pode adquirir do intelecto humano, de seu caráter, de seu poder, consiste inteiramente na lembrança de acontecimentos passados: pois graças a esta tenacidade da memória o ser humano foi capaz de governar também ele, a terra. A inteligência da Natureza e o caráter do intelecto do mundo podem ser vistos a fundo mediante a observação de todas formas sensiveis que existem no mundo. O intelecto da eternidade que está em segundo lugar, se dá a conhecer e seu caráter pode ser discernido pela observação do mundo sensível. Porém o conhecimento que se pode obter do caráter do intelecto do Deus supremo e o próprio caráter desse intelecto são a verdade completamente pura e desta não se pode discernir no mundo, ainda que de modo confuso, nenhuma sombra. Pois onde nada se dá a conhecer que sob a medida do tempo, há uma mentira, onde há começo no tempo, há erro. Vês, pois, Asclépios, como instalados em tão profunda profundidade, tratamos temas tão elevados e a que sublimidades desejamos chegar. Porém é a ti, Deus Altíssimo, a quem dou graças, a ti que me iluminastes com a luz que consiste na visão da divindade. Quanto a vós, ó Tat, Asclépios e Hammon; guardai

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