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Capítulo 4 de 7
A Contribuição de Flávio Josefo [1], o — parte 4 de 7
A Contribuição de Flávio Josefo, o Historiador · Ernesto Bozzano
Estátua de Domiciano, naGliptoteca de Munique. Nascido a 24 de outubro de 51, foi o terceiro filho de Tito Flávio [3] Sabino Vespasiano e Domitila Maior. Os seus irmãos eram Domitila Menor (nascida em 39) e Tito Flávio Vespasiano Augusto (nascido o mesmo ano que a sua irmã e conhecido popularmente como Tito). As décadas de guerra civil que açoitaram o império ao longo do século I a.C. contribuíram enormemente à decadência da velha aristocracia romana, que foi gradualmente substituída no poder por uma nova nobreza provincial durante a primeira [4] parte do século I. Uma dessas famílias foi a dos Flávios, ou gens Flavia, que se elevou desde uma obscuridade relativa até a proeminência em apenas quatro gerações, adquirindo considerável riqueza e influência sob o reinado dos imperadores dadinastia júlio-claudiana. O bisavô de Domiciano, Tito Flávio Petro, serviu como centurião sob as ordens de Cneu Pompeu Magno durante a Segunda Guerra Civil da República de Roma. A sua carreira militar terminou quando Pompeu foi derrotado de maneira esmagadora por Júlio [3] César na Batalha de Farsália.
Contudo, Petro conseguiu melhorar a sua situação casando-se com Tértula, uma mulher sumamente rica, cuja fortuna garantiu a ascensão do filho de ambos, Tito Flávio Sabino, o [5] avô de Domiciano. O mesmo Sabino amassou uma grande riqueza como arrecadador de impostos na província de Ásia e como banqueiro na Helvécia. Ao casar-se com Vespásia Polião, aliou-se com uma das famílias patrícias de maior avoengo aristocrático. A riqueza e a linhagem dos filhos de Vespásia Polião e Tito Flávio Sabino II garantiram a ascensão dos seus [5] filhos, Vespasiano e Tito Flávio Sabino, à classe senatorial. A carreira política de Vespasiano compreendeu os cargos de questor, edil, pretor, culminando em um consulado em 51, ano de nascimento de Domiciano. Vespasiano alcançou a glória militar mercê à sua destacada participação na invasão da [6] Britânia.
Embora as fontes antigas aleguem a pobreza da família Flávia durante a época do nascimento de [7] Domiciano, e até mesmo sugestionam que os Flávios caíram em desgraça durante os reinados de Calígula (37 - 41) [8] e Nero (54 - 68), historiadores modernos como Jones afirmam que estes relatos constituem somente uma parte da campanha propagandística realizada durante os reinados dos imperadores pertencentes à dinastia flaviana. Tal campanha tinha como fim minar a popularidade destes impopulares imperadores e gabar a do imperador Cláudio (41 - 54) e a do seu [9] filho Britânico. Aparentemente, o favor imperial para os "Flávios" foi considerável ao longo do período compreendido entre 40 e 60. Enquanto Tito recebia uma extraordinária educação na corte imperial junto a Britânico, Vespasiano acedia a importantes magistraturas civis e militares. Após estar retirado da vida pública durante a década de 50, Nero nomeou Vespasiano como procônsul de África em 63 Acompanhou o imperador em uma viagem aGrécia em [10] 66. Após o início da primeira guerra judaico-romana, na província de Judeia, o imperador designou Vespasiano [11] comandante dos exércitos ali estacionados. Domiciano tinha quinze anos na ocasião.
Ao finalizar a sua formação militar, Tito uniu-se ao seu pai e dirigiu uma das suas [12] três legiões durante acampanha. Adolescência e caráter[editar | editar código-fonte] Já em 66 fazia tempo que haviam morrido tanto a mãe como a irmã de Domiciano, enquanto o seu pai e o seu irmão lideravam os exércitos da Germânia e da Judeia. Tudo isso motivou que passasse a maior parte da sua adolescência sem os seus parentes mais próximos. Durante a primeira guerra judaico-romana, Domiciano ficou ao cuidado do seu tio Tito Flávio Sabino, que era prefeito urbano de Roma. É provável que Marco Coceio Nerva, que seria o seu sucessor no trono, o tomasse sob a sua [11] proteção. Recebeu uma educação privilegiada, digna de um jovem procedente da classe senatorial; estudou retórica e literatura. Suetônio, na sua obra Vidas dos Doze Césares escreveu sobre a capacidade que tinha para citar frases de grandes poetas como Homero ou Virgílio nas ocasiões [13] [14] adequadas, e descreve-o como um adolescente culto e [15] educado, capaz de conversar de um modo muito elegante.
As suas primeiras obras publicadas foram poemas, bem como tratados sobre a lei e administração. Ao contrário do seu irmão Tito, não foi criado propriamente na corte imperial, nem parece que recebesse uma educação militar formal; embora Suetônio o [16] descreva como um atirador destro.
Busto de Domiciano nos Museus Capitolinos, Roma. Suetônio, além disso, consagrou uma parte importante da sua biografia a falar da personalidade de Domiciano, e proporciona uma detalhada descrição do seu caráter e aparência física. Domiciano era de elevada estatura, semblante
modesto, cute rosado e olhos grandes, embora suaves; era formoso e aposto, sobretudo na juventude, embora tivesse os dedos dos pés muito curtos. Mais adiante a este defeito uniram-se outros: cabeça calva, ventre enorme e pernas extraordinariamente delgadas, e [17] enfraquecidas ainda por longa doença.
Aparentemente, a sua calvície envergonhava-o tanto que em etapas posteriores tratou de dissimulá-la com o emprego [18] deperucas. Sempre segundo Suetônio, obsedou-se tanto que [17] chegou a escrever um livro a respeito do cuidado do cabelo. A respeito da sua personalidade, os escritos de Suetônio alternam bruscamente entre uma descrição imperador-tirano, o de um homem física e intelectualmente preguiçoso ou o de um [19] imperador de caráter refinado e de grande inteligência. Brian Jones conclui na sua obra, The Emperor Domitian, que é complicado falar a respeito da verdadeira natureza da personalidade de Domiciano por causa da parcialidade das [19] fontes sobreviventes. Segundo sugestionam as partes comuns das fontes sobreviventes, é provável que carecesse do carisma natural do seu irmão e do seu pai, que era propenso a suspeitar das pessoas, e que tinha um estranho e ocasionalmente auto- [20] [21] depreciativo senso do humor. A natureza do seu caráter viu-se agravada pela sua tendência ao isolamento. À medida que passavam os anos, esta tendência acentuou-se até o ponto de se comunicar de modo críptico ou até mesmo parar de manter contato com ninguém.
Talvez isto fosse consequência da sua infância, transcorrida longe dos seus familiares mais [11] próximos. Aliás, quando tinha dez e oito anos, a maior parte dos seus familiares próximos tinham morrido em combate ou de doença. Por outro lado, e como consequência de passar quase toda a sua juventude sob o reinado de Nero, os seus anos de educação estiveram fortemente influenciados pela agitação política da época, que culminou na guerra civil de 69 que levaria a sua família ao poder. Ascensão da dinastia flaviana Ano dos quatro imperadores
O Império Romano durante o ano dos quatro imperadores, as províncias azuis indicam as regiões leais a Vespasiano. Ver artigo principal: Ano dos quatro imperadores A 9 de junho de 68, entre a crescente oposição do senado e o exército, Nero suicidou-se, terminando assim com adinastia júlio-claudiana e desencadeando uma devastadora guerra civil conhecida como o ano dos quatro imperadores. Em tal guerra, os quatro generais mais influentes do Império Romano - Galba, Otão, Vitélio eVespasiano - disputaram sucessivamente o controlo do mesmo. Informado da morte do último Júlio- Cláudio, bem como da nomeação como imperador de Sérvio Sulpício Galba, então governador da Hispânia Tarraconense, o futuro imperador decidiu pausar a sua campanha e enviar o seu [22] filho Tito a apresentar os seus respeitos ao novo imperador. Antes de atingir a província da Itália, Tito foi informado do assassinato de Galba e de que Otão fora nomeado sucessor. Nada mais iniciar o seu reinado, o exgovernador da Lusitânia teve de fazer face à rebelião de Vitélio e as suas legiões germanas.
O rebelde foi coroado imperador pelas suas tropas e iniciou uma marcha sobre Roma. Não querendo arriscar-se a ser capturado por nenhum dos dois bandos, Tito suspendeu a viagem e voltou para Judeia junto ao [23] seu pai. Otão e Vitélio eram cientes da ameaça que representava Vespasiano. Com quatro legiões à sua disposição, liderava uma força composta por cerca de 80.000 soldados. Além disso, a sua sólida posição em Judeia conferiu-lhe-ia a vantagem de ficar próximo da província do Egito, território vital que controlava o fornecimento de cereais da capital. Paralelamente, o seu irmão, Tito Flávio Sabino, era prefeito urbano, pelo qual controlava o destacamento militar [24] estacionado na cidade. Apesar de se acrescentar a tensão entre as suas tropas, decidiu não atuar enquanto Galba e Otão detiveram o poder.
Contudo, depois da derrota de Otão [25] na Primeira Batalha de Bedríaco, e do seu nobre suicídio, os exércitos da Judeia e Egito decidiram agir e nomearam [26] imperador a Vespasiano a 1 de julho de 69. Vespasiano aceitou e, após duras negociações, Tito obteve o apoio do governador da Síria, Muciano; esta união representava a [27] formação de uma imponente força no leste. Ao mesmo tempo que Vespasiano se mudava para Alexandria com o fim de se assegurar o controlo da província egípcia, Tito ficou no comando do conflito que os enfrentava com os judeus sediciosos. Por tudo isso, sobre Muciano recaiu a tarefa de [28] [29] tomar Roma.
Réplica do século XVI de um busto de Vitélio. Museu do Louvre (Paris). Em Roma, Vitélio pôs a Domiciano sob prisão domiciliar a fim de poder empregá-lo como refém frente do iminente ataque de [30] Muciano à capital. A situação do imperador era desesperada, pois os seus soldados desertaram em massa para as filas do seu adversário. A 24 de outubro de 69, os dois exércitos enfrentarse-iam na Segunda Batalha de Bedríaco. A batalha finalizou com uma esmagadora vitória sobre os soldados [31] vitelianos. Após a sua derrota, Vitélio tratou de assinar um tratado no que renunciava ao trono voluntariamente; porém, os [32] pretorianos impediram-no. A manhã de 18 de dezembro o imperador encaminhou-se para o Templo da Concórdia de modo a depositar a insígnia imperial; porém, no último momento virou-se e regressou para o Palácio Imperial. Acreditando a Vitélio fora de jogo, os estadistas mais [33] influentes da capital reuniram-se na casa de Flávio Sabino e proclamaram Vespasiano imperador. Mas as tropas de Vitélio atacaram a escolta de Sabino obrigando-a a se refugiar [34] no monte Capitolino.
Embora Muciano se acercasse a Roma, os familiares de Vespasiano não foram capazes de resistir ao assédio. Na manhã seguinte, as tropas imperiais irromperam na Cidadela do Capitólio. Sabino caiu vítima da escaramuça [35] que aconteceu. Domiciano conseguiu escapar disfarçando-se de adorador de Ísis e passou a noite na casa de um dos [36] simpatizantes do seu pai. A 20 de dezembro Vitélio e os seus exércitos foram derrotados e os seus oficiais executados pelas tropas de Vespasiano. Sem nada que temer, Domiciano apresentou-se às forças invasoras, que o aclamaram [37] como césar e o conduziram à casa do seu pai. A 21 de dezembro o senado proclamou oficialmente Vespasiano como imperador, terminando assim com este sangrento ciclo de [38] guerras civis. Finalizara o ano dos quatro imperadores; começava o reinado de Vespasiano. Consequências do conflito
A conspiração de Caio Júlio Civil, por Rembrandt (1661). Embora a guerra civil finalizasse oficialmente, um estado de anarquia apoderou-se da capital durante os primeiros dias após o falecimento de Vitélio, porém Muciano restaurou a ordem em princípios de 70. Pela sua vez, Vespasiano não [36] acudiria a Roma até setembro daquele ano. Na ausência do seu pai e o seu irmão, Domiciano agiu como representante dos Flávios nosenado, cujos integrantes lhe outorgaram o título de césar e o nomearam pretor com [39] poderes proconsulares. Porém, o seu poder e autoridade eram puramente nominais, preságio do papel que desempenharia ao longo dos seguintes doze anos. Todas as fontes afirmam que era Muciano o que possuiu o verdadeiro poder na falta do imperador. O ex-governador daprovíncia da Síria não permitiu que um jovem de dezoito anos ultrapassasse os limites da sua [39] função simbólica. Tácitodescreve o seu primeiro discurso [40] ante os senadores como um informe breve e moderado. Para controlá-lo, uma estreita vigilância foi mantida sobre o séquito do césar.
Além disso, os militares mais influentes, como Árrio Varo, prefeito pretoriano, ou Antônio Primo, comandante dos efetivos do imperador na Segunda Batalha de Bedríaco, foram enviados a perigosas missões nas províncias afastadas e substituídos por homens facilmente controláveis como Arrecino [39] Clemente. Assim como fizera com as ambições políticas de Domiciano, Muciano afundou também suas aspirações militares. O ano dos quatro imperadores causara uma grande instabilidade nas províncias, conduzindo a uma série de rebeliões lideradas por regimes locais. Na Gália, comandados por Caio Júlio Civil, os Batávios, efetivos auxiliares das legiões do Reno, desertaram e uniram-se aostréveros de Júlio Clássico. Desde a capital enviaram-se sete legiões comandadas pelo cunhado do imperador, Quinto Petílio Cerial, que submeteu depressa os sediciosos. Apesar disso, Muciano viu-se forçado a marchar com as suas próprias tropas à zona afetada como consequência dos exagerados informes que recebera. O césar tratou então de atingir uma reputação como militar, para o que se uniu aos oficiais com a esperança de lhe ser concedido o comando de uma legião.
Tácitoescreve que Muciano não confiava em Domiciano, se bem que preferia que permanecesse perto dele, [41] onde puderia controlá-lo, em lugar de em Roma. Quando chegaram as notícias da vitória de Cerial, Muciano tentou dissuadir o filho do seu aliado de perseguir a fama [42] militar. Contudo, Domiciano decidiu escrever diretamente a Cerial, ao que sugeriu que lhe traspassasse o comando do [43] exército. Advertido por Muciano, este voltou a recusar. A chegada do seu pai à cidade afastou-o definitivamente da política. Passou os anos seguintes dedicando-se às artes e à [43] literatura. Matrimônio
Busto de Domícia Longina, noMuseu do Louvre. O peculiar penteado era popular durante a dinastia flaviana. Fracassada a sua carreira política e militar, o futuro imperador focou-se nos assuntos que afetavam a sua vida doméstica. Vespasiano tentou concertar um matrimônio entre o seu filho [44] menor e a filha de Tito, Júlia Flávia. Contudo, este estava tão profundamente enamorado de Domícia Longina que conseguiu convencer o seu marido, Lúcio Élio Lámia, de que se [44] divorciasse dela. Vespasiano, embora a princípio se opôs a esta união, cedeu ao ver o benéfica que seria para ambas as famílias. Longina era filha de Cneu Domício Córbulo, um militar competente e político respeitado, que foi assassinado por ordens de Nero após o insucesso da Conspiração de Pisão. Através deste matrimônio não somente ficariam restabelecidas as conexões com a oposição senatorial, mas também se reforçaria a campanha propagandística que visava a ocultar o sucesso experimentado pela carreira política de Vespasiano durante o reinado do odiado imperador.
Os oficiais imperiais manipularam a informação a fim de criar falsas ligações com os falecidos Cláudio e Britânico. Reabilitaram-se as propriedades [45] das vítimas dos excessos de Nero. [46] Aparentemente o casal foi feliz, embora se visse obrigado a [46] tolerar constantes acusações de adultério e divórcio. Em 73, [47] nasceu o único filho do casal, que faleceria em 81. Jones acredita que esta foi a razão pela qual em 83 Domiciano exilou [48] a sua esposa sob acusações de infertilidade. Contudo, faria-a voltar, talvez por amor ou com o objeto de fazer calar os rumores que o relacionavam com a sua sobrinha, Júlia [49] Flávia. É desconhecido se teve algum filho ilegítimo, mas nunca voltou-se a casar. Após suceder no trono ao seu irmão, outorgou à sua esposa o título honorífico de Augusta e forçou osenado a deificar o seu filho. Esta informação procede da gravura presente no reverso de uma moeda expedida durante o [50] seu reinado.
Herdeiro de caráter formal. Ascenso ao trono
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