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Capítulo 4 de 8

Noutra Região — parte 1 de 1 — parte 2 de 3

Um Ateu Além do Túmulo · Osvaldo Polidoro

E é aí que o cataclismo aparece; e é aí que a estagnação forçada estala seus tentáculos e se rebenta contra a rota progressiva. Depois de tudo serenado, de a força incoercível do fenômeno revolver tudo, então aparecem os apologistas da liberdade, proclamando a necessidade de simplicidade, para que a evolução se processe sem choques violentos. Todavia, quando se libertará a humanidade dos grupos conchavistas, dos interesses de portas fechadas? Se todos partem de um só Centro Gerador, se todos carecem dos mesmos fundamentais bens para viver, onde está o direito de alguns sindicatos, no sentido de assaltar o direito alheio em prol de suas sanhas? Encarando as matas belas e perfumosas dos vales fronteiriços tinha eu a impressão de que, embora a luta esteja estabelecida entre todos os reinos e planos do que vive, o homem poderia viver muito melhor, conquanto contasse com um pouco mais de gosto pela simplicidade, no estudar, no sentir e no viver a vida de relações.

Afinal, que dignidade põe o homem no seu alcance intelectivo, que é quem o torna superior? Depois, num repente, surgia pela frente de minha imaginação a mim mesmo, tal como tinha vivido, negador de Deus, de uma Divina Essência. Que sindicato teria influído sobre mim? Os cleros anti-revelacionistas e dogmáticos. E como temia o abismo que me separava do passado!

Eu havia sonhado, ou coisa parecida, várias vezes, que era padre. Que tudo fazia por um ritual convencionado por homens, enquanto me opunha a tudo que fosse progressivo em matéria religiosa. E o meu pensamento caía como no centro de um turbilhão, do qual queria safar-me a custo, sem saber como. Foi nesse momento que olhei para Mauro, tendo-o visto com o olhar em mim fixo, como que me forçando a qualquer coisa. Sorri, depois de encará-lo bem.

Sorriu ele, também, tendo-me dito: – Em verdade, Janeiro, você colheu ontem o que semeou anteontem... Dentro da era cristã, você foi um grande perseguidor do Cristianismo nascente, por via do intercâmbio com o plano astral, estabelecido por Jesus, na vida e no grande fenômeno do Pentecoste. Perseguiu como quis para sustentar o ritual levítico. De modo algum poderia admitir que outros conhecimentos fossem cabíveis e precisos, para o desenvolvimento normal da humanidade. E com isso preparou-se maus bocados para o porvir.

A armadilha caiu sobre o armador, caro Janeiro... – Então, amigo Mauro, os meus sonhos não eram ilusórios? – Em verdade, não eram sonhos; você estava, como está, no quadro de cuidados de amigos servidores de nosso plano. Dali é, que surgiram os sonhos, para você. Sujeitâmo-lo à visão retrospectiva por várias vezes, porque se aproximava o tempo de novos conhecimentos em sua vida.

– Assim é que age a Suprema Justiça... – Naturalmente, amigo Janeiro; tudo por vias naturais, uns pelos outros para todos os fins, para a paz ou a dor. Nem poderia ser de menos, uma vez que ninguém erra sozinho... – Que haverá entre nós, por exemplo? De onde viemos?

– Primeiro, procure a seu pai; depois, tudo irá melhor. – Onde estará? Enquanto estava no plano de sofrimento, pensava freqüentemente em meu pai e em minha mãe. Depois, tudo foi se apagando, se apagando de minha memória... De nada valia pedir, clamar, esperar...

– A ninguém será dado, isto ou aquilo pela Justiça Divina, pelo fato de ser irmão, pai, filho, mãe, ou o quer seja, de Fulanos, Sicranos ou Beltranos; há um Supremo Princípio de Justiça e todos são iguais perante ele. Pela conduta pessoal no âmbito da Lei, que é a ordem Universal, é que cada qual receberá. Para os mais, na medida em que juntos tenhamos errado, nessa medida acertar-se-á. Tal é o caso de um grupo de seres, que agora vão se encontrar, nesta região, a fim de um novo período de atividades, sondar o campo vasto da evolução, rumo àqueles elevados píncaros por Jesus testemunhados, em sua personalidade. Porque, como já sabe, tudo é questão de ordem interna, de realizações íntimas, sendo que para elas não se vai por formalismos exteriores.

Tal é o reino do céu. O belo sol banhava em luz aqueles esplendores verdejantes e floridos, fazendo levantar-se uma nevoazinha tênue, deliciosa de ser respirada. E quis eu ter o prazer num momento, de viver um pouco daqueles bens, sem a perturbação de idéias outras. Por isso, pedi a Mauro que nada mais dissesse sobre nós, no momento, pelo menos. – De fato – assuntou ele – vamos sentir a Presença Divina em Sua própria Obra, como dizem certos espiritualistas do mundo.

– E não têm eles razão? – Muita, pois, por bem ou por mal, quem negará um plano Manifesto e outro Imanifesto da Divindade? E quando sairá o homem desse quadro intelectual, para penetrar no âmago do Imanifesto, de modo integral? Até que ponto atinge a consciência humana com relação ao Centro Gerador? A própria intuição, a maior arma de penetração do homem, a que ponto chega?

– Tudo no homem é relativo, porque tudo no plano Manifesto o é. Quem diria a mim, no mundo carnal, que poderia chegar a estar, como morto, tão vivo em face de uma tão bela paisagem agreste? Quem julgaria a diversidade de planos, de crenças, de gostos, de modos de vida, de serviços, nestas plagas da morte? Quando e por que razão, um cético e às vezes integral negador de Deus, iria conceber o encontro com outros tantos filhos de Deus, imortais também, amigos ou inimigos do passado, para sérios ajustes de contas, depois do túmulo? Mauro soltou uma gargalhada e disse, enquanto me convidava para ir descendo do alto do monte: – E você não foi que disse, há pouco, para não falarmos mais nessas coisas, pelo menos enquanto estivéssemos aqui?

– Ora! Ora!... Até para aquém do túmulo a vida é cheia de preocupações; até parece que a vida só existe para as preocupações... – E que seria a vida sem problemas?... Ócio?

Estagnação? Nada? Mas, o nada não pode existir... Logo, procuremos ter bons problemas... Uma maravilhosa forma de mulher, num repente, como que se materializou em nossa frente.

E pelo imprevisto, vendo, sentindo quem era, senti-me desfalecer. Era minha mãe! Em carne e ossos, diria, se estivesse no mundo das formas. E, de um modo, não é isto que temos, carne, ossos, músculos, tendões, tudo enfim, embora em grau sublimado? E se a lei dos extratos não fosse um fato, como se viria em subida progressiva, dos planos inferiores da vida, para os esplendores consciencionais?

Existindo as hierarquias espirituais, por que falharia o correspondente no plano material? E não conhecendo o homem tudo no plano material, por que duvidar das verdades do mundo espiritual? Afinal, que sabe o homem do Começo ou do Fim de tudo? E haverá mesmo Começo e Fim? De minha parte, hoje, montado sobre o corcel da vida, que galopeia livre e feliz pelas dunas de mundos sem fim, só poderei afirmar que tudo é vida por princípio, nunca podendo haver morte de fato.

Poderá ela baixar ou subir em expressões, através de seu infinito poder de manifestações; mas vida é vida. E que diria de glórias tais, se a mente do homem carnal não lhes suportaria, nem intuitivamente, as profundezas de sentido? Todavia, todos um dia repetirão comigo estas coisas, porque tudo é Um em Deus e em Sua Glória. Eis porque, amigos, os problemas da vida são divinais mesmo ao medrarem por tremendos abismos. Levanta-se deles e, tangidos por íntima força, investe-se de novo rumo às glorias sem fim.

Por isso, deixemos a uns, que outros mais altos e mais dignos nos merecem! Afinal, não somos filhos da Luz, da Inteligência, do Amor, da Justiça? Pois bem! Parti, sim, mas no colo, nos braços de minha mãe, tal como quando era criancinha! Eu, para ela, assim me disse, fui sempre um fardo por demais leve e gracioso.

Assim são essas mães!... E se Deus assim as fez, por acaso estará errado? E se fez, por que fez? Sendo certo que todos somos pais, mães, irmãos, que é a vida, a existência, sem ser escolha de Amor? EM CONTATO COM MEU PAI Em fração de minuto estava de novo ao lado de Mariana, na companhia de minha mãe e Mauro.

A alegria que sentia, por tão grato acontecimento, ia para além do que me parecia fácil suportar. Neste país de morte, coisas dão-se, muitas vezes, inesperadamente, pujantemente, como que nos forçando a desdobramentos íntimos fantásticos. Creio que tudo isto já esteja no plano dos dirigentes, por ser da Suprema Vontade. Deve ser para o despertar histórico, para que o espírito se vá compenetrando de si mesmo, a contar das profundezas de seus dias. Cada um de nós tem já o seu passado e, sem o seu concurso, quem poderia bem marchar para a frente?

Afinal, o certo é um movimentado eterno presente; mas, sem trocar tal eterno presente por miúdo, por fração, por relativismo, quem agiria? Não somos já relatividade, por injunção do Absoluto? É por isso que, tendo encontrado estranheza no mundo espiritual, em seus dédalos relativistas, nem por isso deixei de imaginar, que ele assim seria, sem o meu nulo beneplácito. Sim, amigos; ao deixar o espírito o seu corpo físico, e o seu habitat dito material, onde os graus diferenciais penetram tudo, ingressa ele em um mundo, onde os mesmos graus diferenciais se multiplicam ao infinito! Existem na crosta continentes, países, regiões, mares, rios; cidades, vilas, casas, casebres; noite e dia; gente sã, gente doente, gente feliz, gente infeliz; altos e baixos, em todos os sentidos, para todos os efeitos, tudo coordenado em torno a um Supremo Eu, para fim de Justiça, Movimento e Evolução?

Pois se é assim por essas bandas da vida, se tudo se move progressivamente, paulatinamente, rumo à perfectibilidade predestinada, ninguém crie em si complicados raciocínios, falsas concepções, quimeras, a respeito deste lado da vida, porque o relativismo em tudo está, aí como aqui, para a todos facilitar meios e compreensões necessários. Em dado momento, minha mãe disse a Mariana: – Marcharão dentro de dias para a reencarnação, dois de nossos bons trabalhadores; quero que meu filho tome o lugar de um deles, sendo que Simão será o substituto do outro. Há determinismo nesse sentido, havendo necessidade de executarmos o mandato, o quanto antes. Por isso, julgo melhor irmos já em busca de meu esposo. De novo, um mundo de idéias, invadiram-me a mente, precipitadamente.

Simão, o amigo que havia ficado esperançoso no posto de socorro, ia mesmo ser chamado. Que sorte de liames nos prenderia? Que fios materialmente invisíveis nos uniria? Que sorte de poder moral nos atava a todos? De onde vínhamos nós?

Contudo, já me sentia capaz de confiar em tudo e em todos, sabendo que em poderosas forças assentam-se todos os destinos. Por tal razão, nada disse, aguardando que tudo se encaminhasse, segundo aqueles grandes corações julgassem mais acertado. De fato, em pouco estávamos em viagem. Como ninguém quis dizer onde estivesse meu pai, de mim, também, nada indaguei. O que sei é que tomávamos o caminho dos abismos.

Primeiro, em volição; depois, cuidadosamente, a pé, todos de braços ou de mãos dadas, para em caso de assalto das falanges rebeldes, apelar para o poder do pensamento e da vontade, e pôr-nos a salvo. E descíamos por caminhos de mim desconhecidos, mas que deveriam ser conhecidos de outros presentes. Um novo irmão havia se juntado a nós, num posto determinado. Parece que ele sabia bem sobre tudo aquilo. Em certo lugar, estacamos.

E ficamos à escuta. Escuridão e lamentos, gritos e apelos, blasfêmias e gargalhadas horríveis, vinham de um dos lados, do lado mais escuro. Um fedor quase insuportável havia ali. Parecia sair do próprio chão. E foi então que, minha mãe, segredando algo ao homem, que eu não pude ouvir, deixou-nos e se foi, descendo, descendo, até sumir na penumbra escura e fedorenta, juncada de uivos, lamentos e blasfêmias.

Pouco tempo passou-se e estava de volta, trazendo consigo um vulto qualquer, todo enrolado, como se fosse uma grande bola de panos velhos. Como sabia que devia ser meu pai, fiz por auxiliá-la; mas fui observado, baixinho, para que sustentasse um bom pensamento e conduta serena. – Não pretenda ensinar à Justiça Divina o que seja Justiça, meu filho. Depois de um convite a uma oração, fomos subindo, devagarinho, auscultando, ora aqui, ora acolá, até sairmos do pior lugar. E pude ver, de relance, os traços da fisionomia de meu pai, perdidos num misto de barbas e lama.

Seu corpo mal estava coberto por trapos fedorentos. E não deu para mais, porque a caravana se pôs em marcha. Atingimos um posto, aquele mesmo onde apanhamos o tal irmão de que já falei; e foi ali que pude ver melhor a meu pai. Francamente, nunca pensei que em tais borrascas se metesse. Como viveu ele bem mais do que eu, não sabia de seus feitos, para tal merecer.

Agora sei; negar Deus foi um mal, ensinar a negar foi pior, e praticar certos outros atos de deslealdade para com minha mãe, amigos, tudo concorreu para um tal fim. Todo caso, ninguém é alheio à Justiça Divina. Ela põe e tira, sem rodeios nem senões, absolutamente infensa às injunções do convencionalismo humano. O reino do céu é um princípio de essência, e não um jogo de rótulos. Todo o verniz humano, todo o exteriorismo social, que poderiam contra um tal transcendente princípio de lei?

Seja como for, porém, meu pai ali estava e, para mim, seu modo de estar torturava-me profundamente. Tinha sido um bom pai, pelo menos até onde eu sabia e pensava. Tinha, pois, vontade de fazer por ele qualquer coisa; mas de que forma, com que elementos, se outros que ali estavam, bem mais evolvidos, mantinham uma calma superior, ostentando rostos alegres? Talvez por pensar, por sentir, ou por qualquer outra razão, minha mãe a mim dirigindo-se, disse confortante: – Optar pelo menor mal já é ser prudente; este quadro poderá não ser agradável de ser visto neste momento, mas, sem ele, como o teríamos maravilhoso dentro de alguns meses? Como teríamos as vantagens dos bens profundos, sem as elaborações precisas?

Há alguma coisa de visível, que ostente valor apreciativo, seja no sentido que for, que não tenha custado mil problemas por resolver? – Minha mãe, compreendo o que quer dizer; acima de tudo, sinto que Deus é Perfeito em todos os sentidos, e, não teria sido para com meu pai o Seu primeiro engano. Como ignoro as causas, abstenho-me de comentar os efeitos. Minha mãe sorriu satisfeita, olhou-me com ternura e emendou: – De minha parte, que sei um pouco das causas, afirmo que os efeitos são de todo judiciosos; quem nos arrebatará o inferno construído internamente, com tanto afinco e ardor? Que mais bela prova nos daria o Amor de Deus, do que nos ofertando o direito de possuir o construído?

Enquanto minha mãe falava-me, outros impunham sobre meu pai suas mãos, mantendo um pensamento concentrado. Era uma operação energética em boa escala. E meu pai iniciava momentos faciais indeléveis. Em pouco, distendia as pernas, esforçava-se por movimentar os braços, contorcia-se todo, como quem despertasse de longo e profundo sono. Os irmãos, por sua vez, prosseguiam firmes em seus propósitos benfazejos.

E quando pôde meu pai abrir os olhos, vi que estavam congestionados, vermelhos, comportando em seu vago poder expressivo, evidência de dores lancinantes recalcadas. Era como alguém que já náufrago perdido se julgasse, levando estampada na face, a imagem dolorosa que no cadáver se revelaria inconfundível. Tive, de novo, vontade de atirar-me sobre ele, chamá-lo, fazê-lo sentir o mais depressa que ali estávamos, que dias melhores o aguardavam, que a sua esposa estava por ele fazendo o possível e melhor. Mas, minha mãe me deteve, dizendo-me: – Filho, procure saber comportar-se. Dentro em breve estará agindo em prol de encarnados sofríveis, sendo necessário apelar para toda a possibilidade de segurança.

Sem calma, sem nervos controláveis, como poderia oferecer tais serviços? A serenidade é uma conquista do espírito, é um capital capaz de ser posto a prova, em múltiplos empregos, sem nunca desdourar nem falir em seus intentos. – Mas ele é meu pai... – respondi, querendo justificar minha atitude mental, apenas mental. E minha boa, minha santa mãe, terminou com minhas razões, dizendo com toda a serenidade imaginável: – E aqueles que foram por ele feridos, acaso não eram pais, filhos, esposas, irmãs etc.?

Então, filho, havemos de querer justiça só para nós? – Tendes razão... – tornei, arrependido, curvando a cabeça sobre o peito. – Levanta a cabeça, filho, que todos os problemas o são da vida. Sendo, pois, ela, a razão de ser de tudo, como e por que deverá curvar-se ao mínimo?

Ou iremos proceder como os hipernervosos que, em suas angústias íntimas, pretendem ser o fim do mundo no mais comezinho acontecimento? Ao cabo de minutos mais, meu pai pronunciava uns monossílabos. Quisemos verificar a inteligência dos mesmos. E notamos que estava em seu juízo; mas, completamente afastado da realidade. Referia-se a coisas do mundo material.

Foi então que minha mãe falou, chamando-o pelo nome, várias vezes. Isso bastou para que uma nova força nele despertasse. Como enxergava pouquíssimo, girava a cabeça de modo a que o som emitido por minha mãe, lhe apanhasse o tímpano em cheio, facilitando-lhe melhor observação intelectual. Assim que se apercebeu da voz que tão cara lhe devera ser, lançou os braços na direção de onde sabia vir, chamando com sofreguidão: – Angélica!... Angélica!...

És tu? Meu Deus!... Onde estás?!... Minha mãe lhe dera as mãos. De seus olhos rolavam lágrimas em quantidade.

E os dois esposos por alguns instantes permaneceram em palestra elucidativa. Minha mãe lhe disse tudo aquilo que em tão curto lapso de tempo lhe fora possível dizer. Depois, disse-lhe de minha presença ali. E meu pai, que me vira no mundo como um cadáver, pois desencarnara eu muito antes dele, estremeceu ao ouvir dizer que eu ali estava. Por fim, disse, indagando de minha mãe: – E Deus não quer que ele fale comigo?...

Suas palavras pareceram conter um profundo e cortante pesar, razão pela qual sobre ele me atirei, abraçando-o, beijando-o, dizendo-lhe tudo o que me ia na alma consternada e agradecida. Apesar de me ter ensinado a negar a Deus, para mim fora um excelente pai; e se a cada um cumpre ter segundo as obras, segundo como se auto-aplique moral e intelectualmente, porque não procurei eu mesmo, por mim, sondar um tal problema? Não negaria de modo algum a influência estranha sobre a organização do caráter humano; mas o que for possível de relatividade, tanto poderá ser contado pró como contra, quer ao que influi, quer ao que é influenciado. A obrigação é cada qual pensar com o seu próprio cérebro! O dever é ninguém ser a negação do valor inteligente da espécie!

E o pai que eu tinha ali era o homem que havia falado contra a existência de Deus, mas, como todos os outros negadores do universo, sem nunca provar nada! E por que deveria eu crer em tanta falta de provas? Em favor de um Princípio do Todo, temos a prova da Criação, prova inconcussa, eloqüente ao infinito; mas, em favor da negação, do ateísmo, do nada, que temos? Por tais e tão simples elucubrações, eu mesmo devera descobrir que meu pai nem por si mesmo poderia provar o que me afirmava, quanto mais fazê-lo por mim. Logo, o que fiz foi adorar um diabo por mim mesmo inventado.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.