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Capítulo 7 de 7
Parte 7 de 7
O Além e a Sobrevivência do Ser · Léon Denis
Às experiências indicadas acima convém acrescentar as reminiscências de homens e de crianças. Grande número de casos desses citei em O Problema do Ser, cap. XV. Poderia aditar os de muitas crianças se lembrarem de suas vidas anteriores, casos que não se explicam nem pela imaginação, nem pela influência do meio, porquanto os pais, na sua maioria, são hostis à idéia de reencarnação. Semelhantes fenômenos desaparecem com o crescimento, quando a consciência profunda, de alguma forma sepultada sob o invólucro carnal, deixa de vibrar. As reminiscências de homens célebres se explicam pelo grau de evolução e o apuramento dos sentidos psíquicos. A esses casos acrescentarei um, citado pelo Sr. H. Varigny, no folhetim científico do Journal des Débats, de 11 de abril de 1912: “Segundo um autor que muito conviveu com os Birmans e os estimulou, consagrando-lhes um livro de grande interesse, o Sr. Fielding Hall relatou o fato seguinte, que não é mais do que unum et pluribus. Entre os Birmans, encontrar-se-iam freqüentemente crianças que se recordavam de vidas anteriores.
Infelizmente essa lembrança se apaga e desaparece com a idade. Cinqüenta anos antes, duas crianças, um menino e uma menina, nasceram no mesmo dia e na mesma aldeia. Para abreviar: casaram-se e morreram na mesma data, depois de terem fundado uma família e praticado todas as virtudes. Sobrevieram dias agitados, diz a história, cuja lembrança, entretanto, pouca utilidade tem para esta narrativa. Basta dizer-se que dois jovens de sexos diferentes foram obrigados a fugir da aldeia, onde o primeiro episódio se passara, e Léon Denis – O Além e a Sobrevivência do Ser 76
foram estabelecer-se alhures. Tiveram dois filhos gêmeos. Aqui começa o segundo episódio. Os dois gêmeos, em lugar de se tratarem pelos respectivos nomes, se designavam pelos nomes (muito semelhantes) do casal virtuoso que morrera; por conseguinte, uma das crianças dava a outra um nome feminino. Os pais se admiraram disso um pouco, porém logo compreenderam o que havia. Para eles o casal virtuoso se reencarnara nos meninos. Quiseram tirar a prova. Levaram ambos à aldeia onde tinham nascido. Reconheceram tudo: estradas, casas, pessoas, até as roupas do casal, conservadas sem que se saiba por que razão. Um se lembrou de haver emprestado certa soma a determinada pessoa, que ainda vivia e confirmou o fato. Ao Sr. Fielding Hall, que viu os dois meninos quando tinham seis anos, parecia que um apresentava aspecto um tanto feminil: era o que abrigava a alma da mulher defunta. Antes da reencarnação, viveram, dizem os dois, algum tempo sem corpo, nos galhos das árvores, mas suas reminiscências se vão tornando cada vez menos nítidas e se apagam: as
da vida anterior, naturalmente. III 1. Conforme o demonstramos em O Problema do Ser, capítulo XV – Os meninos-prodígio e a hereditariedade –, o caráter individual não se pode explicar unicamente pelas leis
Ver folhetim científico do Journal des Débats, 11 de abril de 1912, por Henri de Varigny. Léon Denis – O Além e a Sobrevivência do Ser 77
do atavismo e da hereditariedade. Se se encontram nos filhos, às vezes fortemente acentuadas, as qualidades ou os defeitos dos ascendentes, verificam-se também traços distintivos, que não podem provir senão de aquisições pessoais, anteriores ao nascimento. Os gêmeos são, não raro, de caracteres muito dessemelhantes e os meninos-prodígio possuem talentos que os pais não acusam. Descartes, Leibniz e Kant tiveram uma certa intuição destes fatos, sobretudo Descartes, na sua teoria das idéias inatas; mas só o espiritualismo experimental contemporâneo pôde lançar luz sobre tais problemas. 2. A lei das reencarnações é conforme ao princípio de evolução, aclara-o e completa. Somente, em vez de lhe procurar a causa inicial na matéria, a coloca no espírito, livre e responsável, que por si mesmo constrói as formas sucessivas que revestirá para percorrer a escala magnífica dos mundos. 3. Na obra já citada expus as razões que tornam necessário e justificam o esquecimento das existências anteriores durante a nossa passagem pela Terra.
Na maioria dos casos, a lembrança seria um entrave ao nosso progresso, uma causa de inimizade entre os homens. Perpetuaria, entre as gerações, os ódios, os ciúmes, os conflitos de toda ordem. A alma, depois de ter bebido a água do Letes, recomeça uma outra carreira, mais livre de construir a sua existência em um novo e melhor plano, liberta dos preconceitos, das rotinas, dos erros e dos rancores passados. 4. Todas as grandes religiões se hão baseado em a crença nas vidas sucessivas: o bramanismo, o budismo, o druidismo, o islamismo (ver Surate II, v. 26 do Alcorão; Léon Denis – O Além e a Sobrevivência do Ser 78
Surate VII, c. 55; Surate XVII, v. 52; Surate XIV, v. 25). O Cristianismo primitivo não abriu exceção à regra. Traços desta doutrina se nos deparam no Evangelho. Os Padres gregos Orígenes, Clemente de Alexandria e a maior parte dos cristãos dos primeiros séculos a admitiam (ver minha obra Cristianismo e Espiritismo, caps. III e IV e Nota 5). O Catolicismo julgou dever deixar na sombra esse ensino e substituí-lo pela teoria de uma vida única e pelo dogma das penas eternas, como mais eficazes para a salvação das almas e talvez mais ainda para a dominação da Igreja. Daí, acreditamos, a sua atual impotência para dar solução satisfatória ao problema da vida e do destino, uma das razões do seu enfraquecimento e da sua decadência.
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