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Capítulo 12 de 12

A História Do Universo — parte 9 de 9

História do Universo

Capitulo IX As palavras do Eterno mergulharam Caim na mais terrível luta íntima. De um lado Satã e seus exércitos esforçavam-se em detê-lo em sua escravidão, do outro D-us e suas hostes, procuravam despertar naquele coração em luta, o reconhecimento do único caminho para a salvação. Caim, agitado em seus pensamentos e torturado pelo peso de responsabilidade que repousava sobre si, pois seus passos seriam seguidos por muitos outros, chegou, por vezes, a pensar em render-se, tomando para si um cordeiro. Mas esse pensamento, logo era banido, dando lugar a outro, de ódio e vingança. Em sua agonizante luta, quando o sol já caminhava para o poente anunciando outra escura noite, Caim vencido pelo orgulho tomou trágica decisão: Jamais aceitaria o plano da redenção simbolizado pelo cordeiro sobre o altar. Essa decisão, qual seta dolorosa rasgou o coração do Eterno e de suas hostes. fazendo-os prostrar em triste lamentação pela perdição daquele filho amado. Era terrível pensar que muitos no desenrolar o grande conflito pelo trono do Universo, haveriam de seguir os passos de Caim!. Cessada a batalha, Caim ergueu-se com um sorriso maldoso nos lábios. Não teria mais conflitos em sua consciência! Não seria mais perturbado pela idéia do sacrifício! Lutaria agora, e construiria com sua sabedoria e força, um paraíso de paz e prosperidade. Mais uma noite surgiu, trazendo com suas trevas a insônia de uma aventura louca, desumana e cruel, que agora era planejada por Caim. Com o coração dominado pelo mal, dizia para si naquela noite, que era a primeira da semana: - Assim que raiar o dia, visitarei o lar de Abel. Fingindo estar arrependido, pedirei dele um cordeiro para o meu altar. Pedirei que ele me acompanhe até o rebanho, que pernoita em pastagens distantes; Sei que ele de boa vontade me atenderá. Quando em nossos passos, nos encontrarmos distantes de seu lar, eu o farei compreender a dor sentida pelos cordeiros. Depois de matá-lo, o esconderei na floresta, longe do alcance dos olhos de sua companheira e de seus pais. Comemorarei então o seu fim, unindo-me à minha companheira, como ele o fez após a morte do cordeiro. Quando surgir o entardecer - esse que com seu arrebol não trará mais Abel para o seu larfugirei com minha irmã para o vale de onde regressei outrora, e de lá jamais voltarei à essa colina hostil, onde cordeiros perecem sem culpa. Caminharemos assim até alcançarmos o berço da luz, que estende-se nas campinas do Éden. Ali, longe dos rogos e conselhos desse meu intolerável pai, oferecerei ao Senhor da luz, cultos de flores e frutos : produtos que nascem sob seu brilho. O sol em sua marcha oculta, anunciou no horizonte distante os sinais do amanhecer, num clarão que, refletido por uma nuvem, tornava-a parecida a um manto banhado em sangue. Caim que trazia nos olhos as marcas da insônia, ocultou à sua companheira o motivo que não o deixara dormir. Sorriu simplesmente após ver surgir o sol, e saiu prometendo regressar assim que sacrificasse no campo um cordeiro. Achando estranha sua atitude, sua irmã perguntou-lhe o por que de não oferecer a oferta sobre o altar. Ele desculpou-se dizendo que manteria seu propósito jamais macular o seu altar com sangue de inocentes animais, mas cumpriria a vontade divina, sacrificando um cordeiro para alcançar a benção sobre o seu matrimônio, mas o faria distante, no campo. Após cumprir esse compromisso, retornaria para ela, e seriam a partir de então uma só carne. Abel alegrava-se naquela manhã ao lado de sua amada que, com um sorriso despertara como de um sonho, reclinada ao seu peito, onde pulsava um coração o qual não podia ela imaginar, enviaria naquele dia, num último esforço, a seiva da vida, para não mais retornar. Abel seria como um cordeiro sobre o altar. Depois de cingir-se com o instrumento da morte, Caim com passos movidos por uma decisão que não seria revogada, ladeou a casa de seus pais, aproximando-se do lar de Abel que, ainda aos pés do altar, permanecia com sua companheira, trocando juras de um amor eterno. O olhar de ternura de Abel, sob o brilho do alvorecer trouxe para aquela jovem uma lembrança que a comoveu. Acariciando sua face coberta pela barba macia qual lã, com os lábios trêmulos de emoção, sussurrou-lhe: - Querido, o seu olhar é para mim como o olhar de um cordeiro: me traz segurança, paz e esperança. Sou grata por poder contemplar esses olhos em que brilha o amor! Tudo o que eu quero, é que eles jamais se fechem para mim! Com emoção Abel beijou sua companheira depois de ouvir suas palavras de carinho, e respondeu-lhe com um sorriso: - Querida, somente a morte os poderá fechar; mas mesmo a morte não poderá serrá-los para sempre, serrá-los pra sempre, pois no alvorecer eternal, eles se abrirão para você com um brilho que jamais será desfeito por essa sombra! Abel dizia essas palavras, quando os passos de Caim se fizeram ouvir em aproximação. Ao ouvirem-no chamar por Abel, saíram-lhe ao encontro, e ficaram felizes ao vê-lo expressar sua decisão de sacrificar um cordeiro. Como não possuía rebanho, desejava adquirir um de seu irmão. Abel prontamente autorizou-o a tomar de seu rebanho, não somente uma ovelha, mas quantas precisasse, até que formasse o seu próprio rebanho. Caim, com um sorriso agradeceu-lhe a dádiva, mas acrescentou: - Meu caro irmão, não aprecio abusar de sua bondade, mas eu gostaria imensamente que você me acompanhasse até o rebanho, pois as ovelhas certamente fugirão de mim que não sou pastor. Abel consentiu de boa vontade em acompanhá-lo. Abraçou então sua companheira, prometendo logo regressar - promessa que em dor veria desfazer-se no seu corpo ferido e em seus olhos a escurecer em sangue, semelhante ao triste arrebol que não o traria de volta para os braços de sua amada. Abel alegrou-se ao saber que seu irmão tomara a decisão de sacrificar um cordeiro. Enquanto caminhavam rumo ao rebanho, conversavam sobre a experiência do casamento: benção alcançada mediante o sangrento sacrifício. Quando já estavam distantes de seus lares, avistaram o rebanho que pastava sob o sol matinal. Abel adiantou-se em seus passos fazendo soar sua voz de pastor. As ovelhas de uma só vez ergueram a cabeça, olhando na direção do bom pastor. Caminhando em direção ao rebanho, Abel pediu a seu irmão que o aguardasse naquele lugar enquanto tomaria um cordeiro gordo para o seu altar. Não ouvindo resposta de Caim, Abel olhou para traz, e surpreendeuse ao ver que o semblante de Caim estava transtornado e seus olhos não expressavam gratidão, mas ira. Abel voltando-se para ele, perguntou-lhe o por que de sua infelicidade. Disse-lhe que D-us o amava, e visto que estava decidido a oferecer-Lhe um cordeiro, o seu casamento seria abençoado e desfrutariam paz na alma. Em resposta às palavras amorosas de Abel, Caim disse-lhe friamente: - Você é o cordeiro que eu quero sacrificar" Depois de fazer-lhe esta cruel declaração, Caim tirou do interior de sua veste uma faca de pedra e avançou sobre o seu irmão que, pálido rogava-lhe, desferindo-lhe um profundo golpe na face. O sangue imediatamente jorrou como de um cordeiro, fazendo Abel estremecer de medo. Teria já chegado o dia de depor a vida?! Enquanto com um gemido indagava, sentiu outro golpe que em sua violência o fez tombar ao solo. Em sua mente atordoada pela dor, num último esforço de sua consciência, lembra-se daquelas juras de amor trocadas no alvorecer. Em seu delírio de morte, parecia ouvir sua amada dizer-lhe com os lábios trêmulos pela emoção: - Querido, o seu olhar é como o olhar de um cordeiro...; Tudo o que eu espero, é que eles jamais se fechem para mim! Revive assim com esforço, seu último beijo acompanhado por sua promessa que a fez sorrir: - Somente a morte os poderá fechar; mas mesmo ela não os poderá serrar para sempre, pois no alvorecer do dia eternal eles se abrirão para você com um brilho que jamais será desfeito por essa sombra. Após lembrar este juramento de amor, Abel vencido por um golpe fatal, mergulhou na inconsciente treva, seguro de que em breve essa sombra seria banida de seus olhos, no dia da ressurreição. Caim somente cessou de golpear seu irmão, depois de certificar-se de que ele estava realmente sem vida. Arrastou-o então até a floresta, deixando-o ali coberto com folhagens de capim. Retornando para sua casa, Caim mostrou à sua companheira as marcas de sangue em suas mãos, e disse que atendera o pedido divino, sacrificando um cordeiro. Agora, estavam livres para se unir sob a benção do Senhor. Vencidos pela paixão carnal, uniram-se então sob o brilho daquele sol que já não brilhava para Abel. Quando o sol tingia o horizonte com seu arrebol, Caim lembrando-se de seu crime levantou-se sobressaltado, e disse para a sua companheira que em seu sacrifício, prometera ao Senhor da luz apresentar suas flores e frutos como uma oferta de gratidão pela benção alcançada. Essa oferta deveria ser oferecida nas divisas do Éden por ocasião do alvorecer. Precisavam, portanto, partir imediatamente. Sem questionar a vontade de seu marido, aquela jovem reuniu apressadamente suas vestes e a oferta de gratidão, e partiram para dentro da noite. Caim tinha pressa, pois sabia que a ausência de Abel naquela noite, traria a revelação de seu crime, o qual pretendia para sempre ocultar de sua esposa. Banhada pela luz do arrebol, aquela jovem esposa sorria, certa de que abraçaria o seu Abel antes da noite. Contemplando o sol em seu declinar sobre as campinas de onde esperava vê-lo regressar, com saudade lembrava do alvorecer que em sua luz revelara os olhos de seu esposo, compassivos como os de um cordeiro. Emocionou-se ao lembrar do pedido que num sussurro lhe fizera: - Tudo o que eu quero é que seus olhos jamais se fechem para mim. Lembra-se de sua resposta carinhosa: - Querida, somente a morte poderá fechá-los; mas mesmo essa não poderá cerrá-los para sempre, pois no alvorecer eternal eles se abrirão para você com um brilho que jamais será desfeito por essa sombra". Com essa lembrança, a jovem esposa viu enfim o sol mergulhar em seu túmulo de morte e vida, envolvendo com seu último clarão a campina vazia e seu coração que a pulsar com saudade, permaneceria também vazio. Franzindo a testa com preocupação, aquela jovem indagava: - Por que não vem o meu amado?! Movida pelo anseio, correu até a casa de seus pais, onde imaginava o encontrar. Chamando-o, porém, não ouviu nenhuma resposta além do ruído dos passos de seus pais que, curiosos saíram-lhe ao encontro , indagando: - Filha, você está procurando por Abel? Ele ainda não chegou? -Não,- respondeu a filha, já com lágrimas nos olhos, - ele ainda não chegou! Embora preocupados, aqueles pais abraçaram a filha procurando consolá-la, dizendo que ele logo estaria em seus braços. Em sua preocupação velada, perguntaram então à filha: - Já faz tempo que ele saiu? - Logo após despertarmos, no alvorecer - respondeu. A esta resposta, seguiu um silêncio de inquietantes indagações, enquanto juntos tentavam divisar em vão seu vulto sob aquele prado banhado pelo último rastro de luz. Suspirando profundo, Adão já suspeitando um possível mal, indagou de sua filha: - Ele saiu sozinho? Soluçando ela respondeu: - Caim nos despertou pela manhã, pedindo um cordeiro, e Abel saiu com ele. Preocupado, Adão saiu silencioso e dirigiu-se à casa de Caim. Chamando ali por ele, não ouviu nenhuma resposta. Rompeu então através das folhagens para o interior daquela cabana, onde leu no triste vazio um presságio doloroso de traição , confirmado numa veste manchada de sangue, apagando-se na penumbra. Vencido pela angústia, Adão caiu ao solo rompendo-se em pranto; Não querendo, contudo, revelar seu desespero à sua filha e esposa que precisavam de consolo para vencerem aquela triste noite, Adão num esforço imenso enxugou as lágrimas e firmou-se contra as emoções, ao ouvir os passos delas em aproximação. Do lado de fora, Eva e sua filha esperançosas de encontrarem ali Abel em visita a seu irmão, indagou: - Eles estão aí papai? A voz esperançosa de sua filha em meio àquela noite, foi qual seta a sangrar seu coração, e temia responder sua pergunta. Finalmente, caminhou na direção de sua filha, e vendo-a sofrer pela ausência de seu companheiro, procurou consolá-la dizendo: - Filha, confie no poder do Criador. Ele cuidará dele, e o trará no alvorecer! As palavras de consolo de Adão, contudo, longe de suavizarem o pranto daquela jovem, mergulhou-a em maior sofrimento, fazendo-a reviver em lembranças as promessas de Abel proferidas naquela manhã; Ele havia dito que se algum dia os seus olhos fossem apagados pela morte, eles se abririam para ela no alvorecer do sábado eterno. Caim e sua companheira em seus passos apressados de fuga, encontraram-se finalmente distantes da colina, mergulhados naquele vale de trevas que jamais entregaria de volta àquelas pais sofredores seus filhos rebeldes. Caim agora, ao lado de sua esposa, ufanava-se zombando das trevas, prometendo desfazê-la em breve com sua força. Vencidos pelo cansaço, tombaram ao solo, onde adormecidos ficaram até serem despertos pelo alvorecer. Refeitos da fadiga, continuaram a jornada pelo caminho da aventura, em passos que faziam Caim se lembrar daquela caminhada interrompida pela incoerência. Quão tolo havia sido, pensava, em dar ouvido a voz do anjo! Se houvesse continuado em sua missão, possivelmente já teriam um paraíso banhado por uma eterna luz. Entardecia quando o casal fugitivo alcançou o vale de ossos, lugar em que Caim outrora sentira grande medo. Ao passar por aquele lugar, Caim estremeceu. Temia agora não as trevas que lentamente baixavam sobre o vale, mas a luz. Percebendo o seu temor, sua companheira perguntou-lhe: - Você está temendo as trevas? - Estou temendo a luz, respondeu Cai: - Aquela que me fez caminhar rumo à morte. Não entendendo o que ele queria dizer, sua companheira insistiu para que ele esclarecesse o mistério. Com impaciência, Caim revelou que estavam nas divisas do Éden; lugar onde encontrou-se outrora com o anjo. Tendo dito isto, apontou para a esquerda acrescentando: - Sigamos nesta direção, pois não quero encontrá-lo novamente. Tomando-a pelo braço, caminharam rápidos, aproveitando a última luminosidade do arrebol. Quando enfim seus passos não podiam ser dados sem dificuldades por causa das trevas, contemplaram por entre as ramagens um brilho que, mais intenso que o do sol, permaneceu por um momento, desvanecendo-se. Imóvel ao lado de Caim, suas esposa, curiosa indagou: - Você viu? - Sim , respondeu Caim a tremer. - O que será? À essa indagação, Caim não respondeu, simplesmente tomou-a pela mão e disse: - Voltemos. Fujamos dessa luz que nos poderá matar. Sem compreender o mistério, a jovem esposa o seguiu em passos rápidos que, aqui e acolá, eram impedidos por tropeções que os lançavam ao chão. Nessa fuga, porém, não conseguiram esquivar-se do brilho que surgiu-lhes mais forte diante dos olhos. Enquanto espantados tentavam num último esforço fugir noutra direção, foram detidos por uma forte mão que, desvendando os seus olhos, revelou diante deles a face do Eterno, mais brilhante que o sol. Não sabendo como encará-Lo em Sua luz de justiça, Caim temendo ser castigado pelo seu crime, curvou a cabeça entre as mãos. O Criador indagou-lhe então com seriedade: - Onde está Abel o seu irmão?! Como insistisse nesta pergunta, Caim envergonhado por ter de confessar o seu terrível crime diante de sua companheira, de quem queria ocultar, respondeu simplesmente: - Não sei. Sou eu o guardador de meu irmão?! Indignado por esta resposta de desprezo e irresponsabilidade, o Eterno disse-lhe com firmeza: - Que fizeste Caim! A voz do sangue do seu irmão clama a mim desde a terra. Agora - continuou D-us - maldito será nesta terra que recebeu o sangue inocente de seu irmão. Com voz cheia de tristeza, o Eterno continuou: - Até este dia, o cobri de bênçãos, fazendo prosperar o seu labor na terra, dandolhe prazer nesta realização; desde agora, já não poderei abençoá-lo, pois pela espontânea rebeldia você cerrou os canais desta benção. Por isso, caminhará sempre vagabundo sobre esta terra amaldiçoada por sua culpa, fugitivo da luz desta face que sempre sorriu-lhe perdão e salvação, até tombar vencido pela rebeldia dentro da eterna noite. Depois de revelar sua triste e irremediável situação, o Criador ergueu a voz e chorou amargamente. Duro Lhe era despedir para a morte aquele filho amado que, pela insistente rebeldia selara seu destino eterno. Caim todo trêmulo, tomado pelo medo e horror pela sua deplorável condição, com desespero clamou a D-us: - Volta Senhor, volta! Conceda-me somente uma benção! Movido pelo Seu infinito amor, o Eterno tornou-se para Caim que trêmulo Lhe falou de seu temor: - Tenho medo dos perigos da floresta, e daqueles que quererão no futuro procurar-me para vingar o sangue de meu irmão que derramei". O Criador teve compaixão de Caim, prometendo-lhe proteção. Como sinal dessa promessa, acariciou-lhe a face, fazendo-lhe desaparecer a abundante barba. Depois deste gesto de pai amoroso que acaricia o filho mesmo na eterna partida, Caim viu desaparecer diante de seus olhos o brilho daquela face banhada pelas lágrimas, produzidas por sua ingratidão. A noite de desespero e pranto foi finalmente foi banida pelo brilho de um novo alvorecer que com sua luz revelaria uma tristeza ainda maior. Antes mesmo que o sol mostrasse sua face sobre o vale oriental, a jovem viúva juntamente com seus pais caminharam apressados pelos campos rumo às pastagens onde o rebanho pastava naqueles dias. Com o coração ainda a palpitar esperança, avistaram ao longe o rebanho. Chamaram ali por Abel, mas suas vozes não trouxeram nenhuma resposta além de um eco vazio. Seus olhos discerniram então através das lágrimas, as marcas da dor, naquele gramado amassado e coberto de sangue. Vencidos pela tristeza, seguiram dolorosamente as manchas de sangue, até encontrarem o seu corpo dilacerado, sob aquele capim coberto de moscas. Diante desta cena de terrível humilhação, ergueram as vozes em gritos de pavor, não suportando a dor da separação. Ali permaneceram em agonia, até verem o sol tombar em seu mais melancólico entardecer. Quão dolorosa lhes era o pensamento de terem de regressar para casa, deixando ali o amado Abel a desfazer-se em sua fria noite. Lembrando de sua infância, quando em seu leito o cobriam com amor, prometendo despertá-lo no alvorecer com um beijo, aqueles pais com um doloroso esforço o cobriram novamente com aquele capim, com a certeza de que no alvorecer do dia eterno o beijariam em seu em seu despertar feliz. Com dificuldade deixaram finalmente aquele lugar já tomado pela noite e apalparam-se na direção daquelas casas vazias, cujas paredes floridas já não traria para eles alegria. Vencida pelo horror da dura revelação, a esposa de Caim prostrara em desmaio, vindo a despertar pouco depois da partida do Eterno. Ali em meio às trevas, lembrou-se da terrível revelação de D-us, e ficou possuída por grande medo. Temia não somente as trevas, mas principalmente a Caim. Pensou em gritar por socorro; mas quem a salvaria?! Dominada por esses sentimentos, ficou atenta, esperando pelo amanhecer que revelou ao seu lado o corpo adormecido de alguém que não se parecia com Caim. Assustada, temendo despertá-lo, afastou-se alguns passos recostando-se num tronco de árvore, onde permaneceu até vê-lo levantar a face lisa , chamando por ela. Reconhecendo ser a voz de seu esposo, moveu-se em sua direção, mas logo deteve-se dominada pelo receio. Indagando em seu coração sobre o mistério de sua face agora lisa, disse-lhe: - Tenho medo de aproximar-me de você! Depois de expressar o seu temor, revelou outro maior: - Tenho também medo de fugir de você! Erguendo-se com um sorriso, Caim perguntou-lhe: - Por quê você me teme? - Porque temo a morte, respondeu aflita. - Eu também, até ontem era como você, tinha medo da morte, disse-lhe Caim. - Agora não a teme mais? Indagou-lhe sua esposa. - Não a temo, respondeu Caim, passando a mão no rosto liso. - Mas o que baniu-lhe o seu temor? Perguntou-lhe a jovem, temendo ainda aproximar-se. - Vê minha face agora lisa? Este é o sinal de uma promessa feita pelo Senhor. - Qual promessa? perguntou-lhe sua companheira, aproximando-se agora sem receio. Caim falou-lhe então da benção prometida e confirmada naquele sinal, da qual partilharia também ela, se o seguisse em seus passos. Não encontraria segurança e vida, contudo, ausentando-se dele. Consolada pela promessa de proteção garantida no rosto liso de seu esposo, aquela jovem o seguiu numa longa caminhada em contorno ao Éden. Planejavam transpô-lo, alcançando o vale oriental que estendia-se para além de seu impenetrável prado; Ali construiriam um altar estabelecendo o seu novo lar. Caim e sua companheira alcançaram finalmente em sua jornada um vale que, coberto por densa floresta estendia-se ao oriente do paraíso. Ali naquele ambiente de aparência hostil teriam temido não fosse a promessa assinalada na face de Caim. Almejando encontrar além um lugar melhor, construíram ali um altar provisório, onde no alvorecer do primeiro dia de uma nova semana, ofereceram ao Senhor revelado na face do Sol, flores e frutos - símbolos de fecundidade. Sob a luz do alvorecer uniram-se novamente naquele ato comemorativo da vitória que julgavam haver encontrado. Depois de unir-se à sua mulher, Caim ergueu-se ante o altar dedicando ao Senhor representado pelo sol, o seu lar. Pediu que os tornassem fecundos para darem a muitos filhos o direito de contemplar-lhe a face de brilho. Caim concluiu sua prece de consagração, com uma promessa confirmada por um sinal, dizendo: - Se atentares para a nossa súplica, trazendo em teu brilho fecundidade, construiremos por onde andarmos altares em honra a ti, onde o adoraremos com ofertas de gratidão. Como sinal de nossa fidelidade, consagraremos para o teu culto, este dia que nos unes sob tua luz, o qual chamaremos pelo teu nome: O DIA DO SOL.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.