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Capítulo 5 de 5
Por Alessandro Zangrando — parte 4 de 4
As Vidas de João Evangelista
Inquisição de Veneza. Em Frankfurt um editor veneziano que o encontra traz-lhe os chamados insistentes de um patrício João Mocenigo, que desejava aprender suas técnicas mnemônicas. Bruno talvez estivesse saudoso da Itália, ou talvez não tivesse mais qualquer outra opção melhor. Não tinha tranqüilidade em Frankfurt e não podia voltar a Paris. Aceita o convite acreditando na independência da República Veneziana. O risco não pareceu muito grande: Veneza era de longe a mais liberal dos estados italianos; a tensão européia tinha afrouxado temporariamente após a morte do intransigente papa Sixtus V em 1590. Além do mais, Bruno ainda estava procurando por um estrado acadêmico da qual pudesse expor suas teorias, e ele deve ter sabido que a cadeira de matemática da Universidade de Pádua estava então vaga. Regressou à Itália em agosto de 1591. Ele foi imediatamente para Pádua e durante o verão de 1591 iniciou uma série de cursos privados para estudantes alemães e escreveu o Praelectiones geometricae e Ars deformationum. Em Pádua, dita a um discípulo uma obra: "Sobre as forças atrativas em geral" que é um estudo sobre a fascinação, suas causas e formas". No início do inverno, quando parecia que ele não iria receber a cátedra (ela foi oferecida a Galileu em 1592) ele seguiu para Veneza, como hóspede de Mocenigo, e tomou parte nas discussões dos aristocratas venezianos progressistas que, como ele, favoreciam a investigação filosófica independentemente de suas implicações teológicas. Em maio de 1592, Bruno havia terminado um outro trabalho e preparava-se para viajar a Frankfurt para publicá-lo, quando se viu trancado por Mocenigo em suas acomodações no sótão da casa. Desapontado com as lições privadas de Bruno sobre as técnicas mnemônicas que em nada ajudaram sua precária memória, além de considerar-se atraiçoado por não conseguir o milagre esperado, Mocenigo também ficou ressentido com a intenção de Bruno de voltar para Frankfurt para publicar seu novo trabalho. Depois de prendê-lo, Mocenigo denunciou-o à Inquisição Veneziana por suas teorias heréticas. Levado pelo Santo Ofício com todos os seus papéis, Bruno defendeu-se admitindo alguns erros teológicos menores, insistindo, no entanto, nos seus postulados básicos. Pretende a dupla verdade (razão e filosofia separada da verdade revelada). Consegue esclarecer à Inquisição a sua posição e chega-se a um acordo, prometendo ele fazer a reforma de sua vida, arrependido de todos os erros em que houvesse incorrido provocando escândalo. O palco do julgamento veneziano parecia proceder de modo favorável a Bruno, quando então a Inquisição Romana pediu sua extradição. Por solicitação insistente do Papa, curioso sobre a personalidade de Bruno e o conteúdo do processo com respeito a suas idéias, o tribunal de Veneza encaminha o prisioneiro para Roma, e no início de 1593 Bruno entrou na cadeia do palácio romano do Santo Ofício.
Inquisição de Roma. Em Roma, um frade, Celestino de Verona, junta novos testemunhos acusadores. Inicia-se um novo processo em 1593, este mais sério, acompanhado de torturas, e que haveria de prolongar-se por sete anos. O papa Clemente VIII (1592-1605) viria a ter papel decisivo no julgamento de Bruno. O papa encarregou o cardeal Bellarminode analisar e acompanhar o processo de Giordano Bruno.
Não se sabe com precisão os detalhes do processo, e exatamente quais as acusações lhe foram feitas porque o seu processo tem paradeiro desconhecido. Sabe-se, porém, que o cardeal Bellarmino extraiu das obras de Bruno 8 heresias, as quatro mais graves são duas teológicas e duas filosóficas: Teológicas: a) negaria a transubstanciação; b) prioridade ideal e real do Pai e da subordinação do Filho, este originado de um ato da vontade do Pai, que lhe é preexistente. Filosóficas: a) pluralidade dos mundos (os atos divinos devem corresponder à potência infinita de Deus) implicaria também várias encarnações de Cristo um número infinito de vezes...(raciocínio tipicamente escolástico) b) alma presente no corpo como o piloto no barco. Não figura entre essas acusações alguma relativa à teoria heliocêntrica de Copérnico e, portanto, Bruno foi acusado puramente no campo teológico, não no campo científico. O tema do seu "Sobre o Universo Infinito e Mundos" não é um livro de astronomia, mas de panteísmo, e é o mesmo tema do seu "Sobre a sombra das Idéias". Seu panteísmo foi interpretado como puro materialismo constituindo um ataque frontal ao ensino espiritual da Igreja quanto à natureza do homem e primazia da alma. A Igreja deve tê-lo condenado por esta sua tese panteísta central, entendendo que a teoria heliocêntrica de Copérnico que ele difundia era apenas material de apoio para sua revolução. Antes de Galileu, o heliocentrismo de Copérnico tinha rara aceitação e a própria Igreja havia permitido a impressão de seu livro De Revolutionibus na Itália, com as alterações prescritas, ao que parece esclarecendo que se tratava de hipótese e não de verdade definitiva da teoria. A condenação formal da teoria, segundo revela R. W. Pogge, viria somente em 1664 quando o Papa Alexandre VII lançou uma bula banindo "todos os livros que afirmam o movimento da terra". Durante os sete anos do julgamento romano, Bruno a princípio desenvolveu sua linha defensiva previa, negando qualquer interesse particular em questões teológicas e reafirmando o caráter filosófico de suas especulações. Essa distinção não satisfez os inquisidores, que pediram uma retratação incondicional de suas teorias. Em certa época lhe foram dados quarenta dias para reconsiderar sua posição; ele prometia retratar-se, mas renovava suas "tolices". Bruno então fez uma tentativa desesperada de demonstrar que seus pontos de vista não eram incompatíveis com a concepção cristã de Deus. Então conseguiu mais quarenta dias para deliberar, mas não fez mais que confundir o papa e a inquisição. Bruno faz sua defesa sempre tentando convencer os inquisidores, 1.) da legitimidade das suas idéias filosóficas e da possibilidade de conciliá-las com a revelação religiosa, e 2.) alegando que a acusação toma peças isoladas do contexto de seu trabalho, e 3.) que não sabe sobre o que se emendar. Bruno finalmente declarou que não tinha nada de que se retratar e que ele nem sabia de que se esperava que retratasse. Os inquisidores rejeitaram seus argumentos e o pressionaram para uma retratação formal. A esta altura o Papa Clemente VIII ordenou que ele deveria ser sentenciado como um impenitente e herege pertinaz.
Condenação. Na primavera de 1599 teve início seu julgamento por uma comissão da Inquisição Romana. Foi condenado devido a sua doutrina teológica de que Cristo não era Deus, mas sim um mágico de habilidade incomum, que o Espírito Santo era a alma do mundo, que o demônio seria salvo um dia, etc. A 20 de janeiro de 1600 Bruno é condenado. Ao final foi levado, a oito de fevereiro, ao palácio do Grande Inquisidor para ouvir sua sentença de joelhos, diante dos acólitos assistentes e do governador da cidade. Quando a sentença de morte foi lida para ele, ele dirigiu-se aos juizes dizendo: "Talvez vocês, meus juízes, pronunciem esta sentença contra mim com maior medo que o meu em recebê-la”. Foram-lhe dados mais oito dias para ver se ele se arrependia. Não adiantou. Em 17 de fevereiro ele foi trazido ao Campo di Fiori, sua boca com uma mordaça, para ser queimado vivo. Foi levado ao poste e quando estava morrendo um crucifixo lhe foi apresentado, mas ele empurrou-o para longe com marcado desdém. Seus trabalhos foram colocados no Índex em agosto de 1603 e seus livros tornaram-se raros.
Barão do Rio Branco José Maria da Silva Paranhos Júnior, professor, político, jornalista, diplomata, historiador, biógrafo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 20 de abril de 1845, e faleceu na mesma cidade, em 10 de fevereiro de 1912. Eleito em 1o de outubro de 1898 para a Cadeira n. 34, na sucessão de Pereira da Silva, foi considerado empossado por meio de carta, em 10 de novembro de 1898. Era filho de José Maria da Silva Paranhos, o Visconde do Rio Branco, figura ímpar de estadista, que elevou tão alto o nome do Brasil no seu tempo. Cursou o Colégio Pedro II, a Faculdade de Direito de São Paulo, depois a de Recife. Bacharel em 1866, viajou pela Europa e, na volta, regeu a cadeira de Corografia e História do Brasil no Imperial Colégio. Em 1869, foi nomeado promotor público de Nova Friburgo. No mesmo ano acompanhou, como secretário da Missão Especial, o Visconde do Rio Branco ao Rio da Prata e ao Paraguai. No mesmo caráter se manteve, em 1870 e 1871, nas negociações da paz entre os Aliados e o Paraguai. Foi deputado (1868/1872), Secretário Particular na missão de negociação de paz com o Paraguai (1870/1871) e Cônsul-Geral em Liverpool (1876). No período que esteve a frente do Ministério das Relações Exteriores (1902-1912), o Barão do Rio Branco foi responsável pela consolidação das atuais fronteiras do país, e por importante modernização das ações da Chancelaria brasileira. O Barão do Rio Branco personaliza a tradição de excelência dos serviços prestados ao país pelo Ministério das Relações Exteriores.
Regressando ao Rio, dedicou-se ao jornalismo. Foi dirigir A Nação, juntamente com Gusmão Lobo. Em maio de 1876, Rio Branco deixava o jornalismo, para aceitar o cargo de cônsul geral do Brasil em Liverpool. Em 1884, recebeu a comissão de delegado à Exposição Internacional de São Petersburgo e, depois de proclamada a República, foi nomeado, em 1891, em substituição do conselheiro Antonio Prado, superintendente geral na Europa da emigração para o Brasil, cargo que exerceu até 1893. Durante a estadia na Europa, produziu várias obras, sempre em torno da história pátria: redigiu uma Memória sobre o Brasil para a Exposição de São Petersburgo; para o Le Brésil de Sant’Anna Nery, escreveu a Esquisse de l’Histoire du Brésil; apresentou contribuições para a Grande Encyclopédie de Levasseur, na parte relativa ao Brasil; iniciou no Jornal do Brasil a publicação das Efemérides brasileiras, acumulou material para as Anotações à História da Guerra da Tríplice Aliança de Schneider e a Biografia do Visconde do Rio Branco. Em 1893, Floriano Peixoto escolheu Rio Branco para substituir o Barão Aguiar de Andrade, falecido no desempenho da missão encarregada de defender os direitos do Brasil aos territórios das Missões. A questão, nos últimos dias do Império, fora submetida ao arbitramento do presidente Cleveland, dos EUA, como resultado do tratado de 7 de setembro de 1889, concluído com a República Argentina. Rio Branco, encarregado de advogar os pontos de vista brasileiros, apresentou ao presidente Cleveland uma exposição, acompanhada de valiosa documentação, reunida em seis volumes A questão de limites entre o Brasil e a República Argentina obra que em muito contribuiu para o laudo arbitral de 5 de fevereiro de 1895, inteiramente favorável às pretensões brasileiras. Em 1898, foi encarregado de resolver outro importante assunto diplomático a questão do Amapá. O Tratado de 10 de abril de 1897 escolheu para árbitro da questão o presidente da Suiça. Rio Branco vinha estudando a questão do Amapá desde 1895. Ao chegar a Berna, apresentou uma memória de sete volumes. A sentença arbitral, de 1o de dezembro de 1900, foi favorável ao Brasil, e o nome de Rio Branco foi colocado em plano de superioridade em relação a qualquer outro político ou estadista brasileiro da época. Em 31 de dezembro de 1900 foi nomeado ministro plenipotenciário em Berlim. Em 1902 foi convidado pelo presidente Rodrigues Alves a assumir a pasta das Relações Exteriores, na qual permaneceu até a morte, em 1912. Logo no início de sua gestão, defrontou-se com a questão do Acre, território fronteiriço que a Bolívia pretendia ocupar, solucionando-a pelo Tratado de Petrópolis. A seguir, encetou negociações com outros países limítrofes cujas fronteiras com o Brasil suscitavam questões litigiosas. Erigiu como bandeira das reivindicações o princípio do uti possidetis solis, e foi com ele que dirimiu velhas disputas do Brasil com quase todos os países da América do Sul. Em 1901, a questão da Guiana Inglesa foi resolvida, por laudo do árbitro Victor Emanuel, o rei da Itália, contra o Brasil, apesar dos esforços e do valor intelectual do plenipotenciário brasileiro Joaquim Nabuco. Rio Branco soube conhecer os motivos do laudo que despojava o Brasil de uma parte do seu território. E deu a Joaquim Nabuco a compensação de nomeá-lo embaixador do Brasil em Washington. Veio, depois, uma série de tratados memoráveis: em 1904, com o Equador; em 1906, com a Guiana Holandesa; em 1907, com a Colômbia; em 1904 e 1909, com o Peru; em 1910, com a Argentina. Ficavam definidos, de um modo geral, os contornos do território brasileiro, assim como, com pequenas alterações, ainda hoje subsistem. Além da solução dos problemas de fronteira, Rio Branco lançou as bases de uma nova política internacional, adaptada às necessidades do Brasil moderno. Foi, nesse sentido, um devotado pan-americanista, preparando o terreno
para uma aproximação mais estreita com as repúblicas hispano-americanas e acentuando a tradição de amizade e cooperação com os Estados Unidos. Ao se fundar a Academia, em 1897, Rio Branco se encontrava ausente do país. Talvez por essa razão não foi ele um dos fundadores da casa. Seu nome esteve, entretanto, desde logo lembrado para uma das vagas que ocorressem. Em 1898, ocorria o falecimento de Pereira da Silva. Rio Branco foi eleito para essa vaga. Foi o segundo acadêmico eleito (o primeiro foi João Ribeiro), mas não chegou a tomar posse.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.