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Capítulo 3 de 5

Por Alessandro Zangrando — parte 2 de 4

As Vidas de João Evangelista

No domingo da ressurreição, foi o primeiro dos apóstolos em chegar ao sepulcro vazio de Jesus. Depois da ressurreição de Cristo, na segunda pesca milagrosa, João foi o primeiro em reconhecer Jesus na borda do lago. Em seguida Pedro lhe perguntou ao Senhor apontando a João: "E este o que?". Jesus lhe respondeu: "E se eu quiser que fique até que eu venha, a ti o que?". Com isto alguns acreditaram que o Senhor tinha anunciado que João não morreria. Mas o que anunciou foi que ficaria vivo por bastante tempo, até que o reinado de Cristo se estendeu muito. E em efeito viveu até o ano 100, e foi o único apóstolo ao qual não conseguiram matar os perseguidores. João se encarregou de cuidar da Maria Santíssima como o mais carinhoso dos filhos.

João Evangelista é representado com uma águia ao lado, como símbolo da elevada espiritualidade que transmite com seus textos. Nenhum outro livro tem tão elevados pensamentos como seu Evangelho. Conforme assinala Jerônimo quando João era já muito ancião se fazia levar às reuniões dos cristãos e o único que lhes dizia sempre era isto: "irmãos, amai-vos uns aos outros". Uma vez lhe perguntaram por que repetia sempre o mesmo, e respondeu: "é que esse é o mandamento de Jesus, e se o cumprimos, todo o resto virá além disso".

Antônio de Pádua Fernando Martins nasceu a 15 de agosto de 1195, numa casa pegada à Sé de Lisboa. Recebeu as primeiras lições profanas e religiosas de sua devota e religiosa mãe, completadas pelos padres da Sé. Já adolescente, rezava ajoelhado na Igreja quando lhe apareceu fascinante imagem tentando-o ao pecado. Assustado, foge subindo as escadas que dão ao coro com a imagem em seu encalço. Fez energicamente o sinal da cruz no granito da parede e a imagem desapareceu, mas esse sinal ainda pode ser visto na velha Sé. Fernando passa 15 anos no lar e com os padres da Sé, recebendo destes os ensinos de teologia, ciências, idiomas, música e arte em geral, ultrapassando seus professores em conhecimentos porque, dotado de memória prodigiosa, grava à primeira vista tudo o que lê, a ponto de saber as Sagradas Escrituras de cor. O Papa Gregório IX nominou-o, mais tarde, a Arca do Testamento. Resolve, então, entrar no Convento de São Vicente de Fora, nos arredores de Lisboa, como Cônego regrante de Santo Agostinho (uma aristocracia religiosa cuja etapa final seria o sacerdócio), e ali passa dois anos como professor. Nada mais tendo o que aprender ali, parte para o Mosteiro de Santa Cruz, Coimbra, o maior centro cultural de Portugal, com a mais completa biblioteca e onde ensinavam famosos professores nacionais e estrangeiros. Só retornaria a Lisboa em espírito, em fenômeno de bilocação, para salvar seu pai de um crime que não cometera. A fama de Fernando Martins já havia chegado ao Mosteiro e sua recepção foi calorosa. Logo se torna um dos mais famosos professores de direito canônico, filosofia, ciências naturais, hebraico e caldeu, línguas que falava com a mesma fluência com que falava o português. Magoado com a atitude de desprezo pela humildade dos franciscanos da parte dos padres de onde estava, e assombrado pela diferença entre a riqueza da Santa Cruz, onde vivia, e a pobreza de Santo Antão (convento de frades menores de São Francisco), despe a sobrepeliz de Cônego regrante e enverga o burel cor de terra e a corda simbólica de Frade Menor de São Francisco, internando-se no Convento de Santo Antão dos Olivais, mudando o nome, de Fernando para Antônio. Cinco franciscanos haviam sido torturados em Marrocos pelos muçulmanos, e Antônio parte para a África a fim de substituí-los. Lá chegando, acomete-o uma peste que por lá grassava, ficando longo tempo de cama. Tenta voltar, mas uma violenta tempestade muda o rumo de sua embarcação que é jogada à costa siciliana. Deixara Portugal para sempre o grande Taumaturgo, sendo até hoje o santo que mais se impregnou na alma dos lusitanos. Na cidade de Messina, abandonado e desconhecido, apieda-se dele o Frei Graciano, alojando-o no Eremitério de Monte Paulo, nos contrafortes das serras dos Apeninos. Humilde entre os mais humildes de seus irmãos, o rico sábio de antes agora se dedica aos serviços caseiros, varrendo e lavando o convento, lidando com as tarefas domésticas por um ano e meio. No dia 19 de março de 1222, o Cardeal Ugolino ordenará vários dominicanos e franciscanos. O templo está repleto de altos dignitários e o Frei Graciano pede a vários dominicanos que façam o sermão de saudação e todos se recusam, com a alegação de não estarem preparados para falarem diante de autoridades tão eminentes da Igreja. Pede, então, a frei Antônio que faça o discurso, e ele o obedece. Segue a descrição do catedrático Antônio de Vasconcelos : “O pobre fradinho vai prostrar-se ante o altar, concentrando-se em breve oração; sobe, muito acanhado, os degraus do sólio pontificial e toma a bênção do Bispo, e, em seguida, aparece no púlpito, muito encolhido e minguado pela confusão, envolto em miserável saial de burel, cingido pela rude corda da Ordem, olhar posto no chão, sem se atrever a relanceá-lo pela imponentíssima assembléia”. “O que foi esse impressionante e famoso discurso, esse primeiro sermão de Santo Antônio, dizem-no todos os antigos biógrafos, tomados de assombro. Toma para tema o texto de São Paulo na epístola aos Filipenses: “Cristo, por nosso amor, foi obediente até à morte; até à morte na Cruz” o que mais vem confirmar que isso se passava no sábado,

vigília de domingo de Páscoa. Começa muito humildemente, em voz submissa e apagada, falando na maior singeleza, provavelmente, que era a obediência de que Nosso Senhor Jesus Cristo deu tão sublime exemplo que o obrigou a falar ali, apesar da sua incompetência. Mas depois a ação do Espírito Santo apossa-se do orador, excita-o, ilumina-o, move-o, torna brilhante o seu discurso, inspirada a sua palavra. (...)” “O Bispo, os cônegos, os religiosos, todos estavam dominados pela admiração de tais torrentes de eloqüência, de tão límpida e clara exposição dos mais transcendentes mistérios da Fé. E depois, a facilidade, a naturalidade como ocorria e como expunha com propósitos oportuníssimos, grande abundância de textos da sagrada escritura. Um milagre espantoso, um verdadeiro assombro para todos os ouvintes! Santo Antônio revelou-se ali, inesperadamente, um apóstolo, um missionário repleto de qualidades excepcionais, únicas. Foi uma verdadeira Epifania, uma Epifania solene da vocação missionária de santo Antônio”. Depois deste sermão, Antônio passa a ser o mais importante membro da Ordem Franciscana, depois de Francisco de Assis, e inicia a missão de apostolado pela Itália e pela França. Francisco de Assis pede-lhe para visitar as cidades onde reina a heresia e, onde houver conventos da Ordem, ensinar teologia a seus irmãos. Seus sermões, em grandes praças públicas, às vezes reúnem mais de 30 mil pessoas, fazendo silenciar toda a gente com sua voz poderosa e vibrante. Os sermões de António não poderiam obter total aprovação de Francisco de Assis, pois eram fulgurantes, majestosos, eloqüentes ao condenarem o mal; já os irmãos franciscanos sempre se inspiravam na serenidade, humildade e perdão. Padre Antônio Vieira disse dele: “As palavras de Santo Antônio são doces como mel, e parece que sua boca está cheia de favos”.... mas, em 1223, Francisco de Assis envia-lhe uma carta com os dizeres: “A frei Antônio, meu bispo, envio muita saúde. Apraz-me pedir-vos que leiais aos meus irmãos a sagrada teologia de maneira que, com o seu estudo, não matem o espírito da oração e devoção como na regra se contém. Adeus. Francesco.” Em 1225, no X Concílio de Burges, França, onde estavam seis arcebispos, mais de 100 bispos, o representante do Papa e outros altos membros do clero, e presidido pelo Arcebispo Simão de Sully. Chega Antônio com suas vestes simples em contraste com o luxo dos demais e aponta com a mão a Simão, dizendo-lhe: “Tibi loquar cornute” – Contigo falo mitrado. É a vós, homem, que vos adornais com essa mitra, é a vós que me dirijo. E o sermão continua numa investida contra o Arcebispo, apelando para que ele se arrependesse e que volvesse aos caminhos de Jesus. Depois deste iniciar desta forma o sermão, recomeça numa eloqüente demonstração doutrinária diante da emocionada platéia. Ao fim, Simão de Sully chama-o à parte, lança-se de joelhos aos pés do sábio português pedindolhe perdão e prometendo arrependimento. Nada havia na cultura do século XIII que o grande Taumaturgo não soubesse, e desse saber enriquecia os seus sermões, tornando-os eloqüentes e sábios: a teologia, a filosofia, a matemática, a embriologia, a obstetrícia, a fisiologia, a botânica, a astronomia, a terapêutica e até a psicopatia eram brinquedos de criança para Antônio porque, com a sua genial inteligência, a todas abarcava profundamente. Certa vez, em Rimini, onde havia muitos hereges, pregava ele na principal praça a uma grande multidão, quando começaram a se afastar sem o quererem ouvir. Acompanhado pelos assistentes, dirige-se à embocadura do rio Marecchia e começa pregar aos peixes: “Peixes do mar e do rio, atendei vós à palavra de Deus, visto que os infiéis e os hereges recusam a ouvi-la!” A esta exclamação, as águas estremeceram e cardumes de grandes e pequenos peixes formaram um matizado de cores, como jamais visto, e o apóstolo conclui seu sermão. Cada assistente tornou-se um arauto de Antônio, proclamando-o enviado de Deus. Os hereges, levados por este conhecimento, começam a assistir os sermões. Em outra ocasião foi desafiado pelo chefe da heresia de Tolosa, França. Disse-lhe ele: “Tenho um cavalo. Vou deixá-lo três dias sem comer e, em praça pública, lançarei alimento forte a ele, e tu lhe mostrarás a tua Eucaristia, e vamos ver o que ele preferirá”. Apesar de solto bem na frente do alimento, o cavalo voltou-se para Antônio e abaixou-se o que pôde, numa atitude de respeito, deixando a assistência espantada. Os fiéis presentes louvaram a Deus pela manifestação ali testemunhada e o desafiante se arrependeu, como em outros lugares aconteceu. Seu último sermão em Burges, na principal praça, estava ameaçado por grossas nuvens e a multidão olhava aflita. Disse Antônio: “Ficai tranqüilos. Ouvi a palavra de Deus, porque nem uma só gota de água cairá sobre as vossas cabeças”. Ventos e trovões cessaram, o dia clareou e não caiu uma só gota. Estava o Taumaturgo pregando em Montpellier, França, quando por um tempo ficou em pé, imóvel, como que dormindo. Tinha-se lhe dito que seu pai, em Portugal, estava para ser condenado por um homicídio que não praticar, mas não podia provar sua inocência. O filho socorreu-o apresentando-se perante os juízes e levou-os ao cemitério. Mandou abrir a sepultura do assassinado e disse ao cadáver: “Dize se foi Martinho Bulhões que te tirou a vida”. Para espanto de todos, o defunto abre a boca e diz: “Não foi Martinho de Bulhões que me matou”. Os assistentes dos sermões de Santo Antônio já estavam avisados que, por vezes, no púlpito, inclinava a cabeça e, cobrindo-a com um capuz, ficava longo tempo silencioso, em bilocação, materializando-se em outros locais. Um grande teólogo da Igreja, Tomás Galo, admirador de Antônio, sofria de doença crônica e incurável na garganta. Um dia, Antônio aparece-lhe, põe a mão em sua garganta, dizendo-lhe: “Meu querido amigo, senhor abade, acabo de deixar o meu pobre corpo em Pádua e dirijo-me agora, resplandecente, à Pátria”. O abade pensara que ele voltava a Portugal, mas soube que, naquela mesma hora, ele havia desencarnado em Acella, arredores de Pádua...

A coragem fora a sua característica, como podemos conferir na ocasião em que Ezzelino de Romano, o maior tirano do século XIII na Itália, até para divertimento, chamou Antônio a Verona, para ouvir um discurso seu. E dele ouviu: “Ó inimigo de Deus, tirano crudelíssimo, até quando continuarás a derramar sangue inocente dos cristãos? A sentença divina, tremenda e duríssima, aproxima-se para vos condenar”. A corte aguarda ordens para prendê-lo, mas ele continua seu sermão. Ao fim deste, Ezzelino lança-se aos pés do humilde português pedindo-lhe perdão. Arrependido, promete soltar todos os presos políticos. Depois, comentou a amigos que vira na frente do padre tamanho fulgor que já se julgava precipitado nos abismos do inferno. Em fins de 1227, Antônio foi visitar Roma e, depois de um eloqüente sermão, o Papa quis lhe dar o título de cardeal para retê-lo ali. Antônio pediu dispensa das honrarias porque sua missão era caminhar pelas estradas da vida salvando almas para Deus. Na despedida foi o orador do sermão do domingo de Páscoa e os forasteiros deram o testemunho de terem entendido o que ele falava como se tivesse pronunciado o sermão na língua de cada um. Um historiador declara ter havido ali uma manifestação pelo “maravilhoso vaso do Espírito Santo, o bem-aventurado Antônio de Pádua”. Naquele dia os cardeais exclamaram: “Ele é realmente a Arca do Testamento, é o tesouro da sagrada Escritura”. Em 13 de junho de 1231 desencarnou o frei Antônio. É enterrado no túmulo da Igreja de Santa Maria Mãe de Deus, de Pádua. Em toda a Europa levanta-se um clamor para a imediata santificação, a qual se dá onze meses depois de sua morte, a 30 de maio de 1232, em Espoleto, por Sua Santidade Gregório IX. Sua imagem, depois de santo, foi colocada como tenente-general do exército português e exército lusobrasileiro. Inflamava os soldados, dando-lhes apoio, ardor e fé. Sábios foram os reis portugueses em alistá-lo nas fileiras como soldado raso que, pelos méritos passou a general, porque sabendo da fé que as almas simples dos soldados tinham por este santo, lutavam na certeza da vitória e, se por acaso fossem vitimados pela morte, havia entre eles a convicção do recolhimento ao Paraíso pelas mãos do companheiro de lutas. Pela mesma fé, foi feito almirante na luta de reconquista da cidade de Oran, Espanha. Logo depois de seu desencarne, inicia-se a construção da Basílica de Santo Antônio de Pádua, que fica pronta 31 anos depois de sua morte, sendo uma das mais belas da Europa, 91m de fundo por 45m de largura. Procede-se à trasladação dos restos mortais para a nova basílica e, ao se abrir o túmulo, emoção e assombro: tudo é pó e ossos, salvo a língua, intacta e vermelha, como se nela ainda a vida palpitasse.

Erasmo de Rotterdam. ANTECEDENTES DA REFORMA É claro que de acordo com os pressupostos históricos que o historiador vier aplicar na interpretação da reforma, irá determinar a sua causa. Assim, temos várias correntes e escolas pelas quais os historiadores farão sua análise crítica da reforma de maneira puramente racionalista secular, tais como aquelas que só vêem as causas da reforma nos fatores político-sociais, outros no fator da economia e outros ainda vêem a reforma puramente como produto do intelectualismo. Entretanto, uma cosmovisão puramente racionalista tende a distorcer a definição e dar razões incompletas e deficientes à verdadeira origem da reforma. Ora, se analisarmos o assunto somente sob a ótica religiosa, ignorando a corroboração de todos esses fatores seculares e o impacto que tiveram sobre o movimento reformista é tão errado quanto analisar a reforma sem levar em conta a sua principal causa, qual seja, a religiosa. Na verdade, a reforma

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