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Capítulo 1 de 5

As Vidas Conhecidas

As Vidas de João Evangelista

DE NOSSO DIRETOR da GALÁXIA

coletânea de biografias realizada por Mara Draugelis Castro, 2009

Sumário

Eliseu Samuel Daniel João Evangelista Antônio de Pádua Erasmo de Rotterdam Giordano Bruno Barão do Rio Branco

Elias e Eliseu O eremita e o agricultor: Um restitui a tradição e destrói os falsos ídolos. O outro realiza numerosos milagres, mesmo depois da sua morte POR ALESSANDRO ZANGRANDO

Após a morte de Salomão, em 931 a.C., o reino dos judeus se divide: as dez tribos do norte escolhem o caminho da secessão e fundam um reino com capital em Samaria (reino de Israel); ao sul fica o reino de Judá, com capital em Jerusalém. Na metade do século IX a.C., o chefe do reino de Israel é Acab, guerreiro que não conhece o medo, político hábil e astuto. Mas seu ponto fraco é Jezabel, de origem fenícia. Jezabel exerce uma notável ascendência sobre o marido, procura influenciá-lo na política, mas sua palavra é decisiva sobretudo em matéria de religião: o culto de Baal se difunde, quem segue ao verdadeiro Deus é perseguido, e ganha espaço uma confusa mistura das duas religiões. À divindade pagã é até mesmo dedicado um templo em Samaria, com as despesas de pessoal pagas pela corte. Elias é o homem enviado por Deus para dar fim a tudo isso. Seu estilo de vida é ascético, de eremita. Está acostumado à vida no deserto e às privações. Os servos de Ocozias, sucessor de Acab, o descrevem como um homem peludo, com um cinto de couro cingindo os rins – um aspecto e um vestuário que lembram João Batista, o precursor de Cristo –. A iconografia tradicional retrata-o coberto de peles, ou então vestido com o hábito carmelita (capa branca sobre uma túnica escura). Elias é um profeta: sua atividade, suas palavras e sua missão encarnam o profetismo judaico. Isso fica evidente já desde o significado do seu nome: “O meu Deus é JHWH”. A tarefa que lhe foi designada é restaurar a tradição, pôr termo ao sincretismo, destruir os falsos ídolos. São dois os caminhos: Iahweh ou Baal, mas o único caminho certo é o primeiro, não há acordo sobre isso. E para afirmar a verdade ele está pronto a combater e correr perigos. O carisma de Elias é claro e potente: o profeta é o arauto de Deus, um enviado extraordinário: “Aquilo que ele, o profeta, diz em vista da sua missão é Deus quem o diz: aquele que envia fala pela boca do enviado, este substitui aquele, e ambos, quem envia e quem foi enviado, na prática são a mesma coisa. Mesmo enquanto indivíduo, o profeta vive em relação muito íntima com Deus, chegando quase a despir-se da sua personalidade: Deus e a sua missão o conquistaram a tal ponto que ele realiza ações consideradas indecorosas e inconvenientes pela maioria dos homens”, explica o abade Ricciotti (História de Israel, p. 305).

A grande seca e o sacrifício Quando Elias irrompe na história do Antigo Testamento, os profetas de Iahweh eram perseguidos e tinham sido dispersos, até serem reduzidos a apenas uma centena (por profetas, no Antigo Testamento, entende-se também os judeus que viviam em comunidade sob a direção de uma figura carismática chamada “pai”), um número cinco vezes inferior em relação aos servidores de Baal. Uma situação intolerável: Elias anuncia a punição divina, a grande seca (1 Rs 17, 1). E em 857 a terra começa a se tornar árida. Sob indicação do Senhor, Elias se estabelece na torrente de Carit, onde os corvos lhe levam pão de manhã e carne à noite. A torrente seca depois de algum tempo e o profeta se dirige para Sarepta, perto de Sidônia, onde encontra abrigo na casa de uma viúva paupérrima. Porém, aquela pouca farinha e óleo que a mulher pode oferecer não acaba, e todos ficam saciados. O filho da viúva adoece e morre, Elias o ressuscita (a primeira ressurreição na Bíblia). Mais de um ano depois, o rei Acab cede, vencido pela seca implacável. Manda procurar Elias e aceita o confronto. O encontro é no monte Carmelo, onde Acab reúne os 450 sacerdotes de Baal e o único profeta de Iahweh que restou, ou seja, o próprio Elias. É a hora da verdade. Eis a proposta de Elias: “Dêem-nos dois novilhos; que eles escolham um para si e depois de esquartejá-lo o coloquem sobre a lenha, sem lhe pôr fogo. Prepararei o outro novilho sem lhe por fogo. Invocareis depois o nome de vosso deus, e eu invocarei o nome de Iahweh: o deus que responder enviando fogo, é ele o Deus” (1Rs 18, 23-24). O que acontece em seguida não deixa alternativa aos adoradores da divindade pagã: “Então caiu o fogo de Iahweh e consumiu o holocausto e a lenha, secando a água que estava no rego” (1Rs 18, 38). Os profetas de Baal são degolados e chega finalmente a chuva que põe fim à seca.

No Horeb, uma experiência Mas para Elias não há descanso. Jezabel ficou furiosa por causa da morte dos seus profetas e ameaça de morte o profeta de Iahweh. As Escrituras acrescentam um toque de humanidade: Elias é um homem que teve a coragem de desafiar o rei, agora sente medo e foge. Chega a Bersabéia de Judá. O desânimo toma conta dele, quer até mesmo

morrer: “Agora basta Iahweh! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais” (1Rs19, 4). Mas o Anjo do Senhor vem em seu socorro, com água e comida. Refeito, Elias retoma o caminho e depois de uma marcha de 40 dias e 40 noites (os mesmos 40 dias, a mesma duração da permanência de Moisés na “montanha do Senhor”, um período de tempo que encontraremos muitas vezes nos Evangelhos) chega ao Horeb, o monte da revelação de Deus a Moisés. Elias também encontrou a Deus ali, porém de uma maneira diferente. Os sinais que o preanunciam são impressionantes: um furacão que quebrava os rochedos, o terremoto, o fogo. Mas Deus não estava em nenhum desses elementos. Ele prefere se manifestar como uma brisa suave, símbolo da sua natureza espiritual. O profeta se condói pelas faltas do seu povo, o Senhor o envia para novas missões em Damasco.

Crime e castigo divino Elias, o profeta da volta da tradição, da luta contra o sincretismo. Mas também o profeta da justiça, como se revela no episódio de Nabot, o dono de uma vinha que o rei Acab queria para si. Diante da recusa de Nabot, entra em cena a perversa Jezabel, que faz com que Nabot seja acusado injustamente e depois morto. Acab está pronto para tomar posse da vinha, mas se vê face a face com Elias, que enfrenta o rei com firmeza, joga-lhe na cara o crime cometido e anuncia-lhe o castigo divino. A vida de Elias aproxima-se do fim. Perto de Jericó, às margens do Jordão, Elias bate nas águas com seu manto, e elas se separam para deixá-lo passar a pé enxuto. Enquanto conversa com o discípulo Eliseu, “eis que um carro de fogo e cavalos de fogo os separaram um do outro, e Elias subiu ao céu no turbilhão. Eliseu olhava e gritava: ‘Meu pai! Meu pai! Carro e cavalaria de Israel!’. Depois não mais o viu” (2 Rs 2, 11-12). E assim, também para Elias, como para Moisés, não houve um túmulo. E o profeta Malaquias anuncia o seu retorno como precursor do Messias. Muitas vezes nos Evangelhos aparecem referências que relacionam Elias a Jesus; no monte da Transfiguração, o profeta aparece ao lado do Messias.

Eliseu, o discípulo Um agricultor natural do vale do Jordão, bem de vida, uma vez que arava os campos com doze juntas de boi. Eliseu é chamado pelo profeta no exato momento em que realiza essa atividade. O profeta joga sobre seus ombros o próprio manto: o agricultor torna-se seu discípulo e será seu sucessor. O chamado não dá margens para dúvidas e incertezas: “‘Deixa-me abraçar meu pai e minha mãe, depois te seguirei’. Elias respondeu: ‘Vai e volta; pois [sabes bem] que te fiz eu?’. Eliseu afastou-se de Elias e, tomando a junta de bois, a imolou. Serviu-se da lenha do arado para cozinhar a carne e deu-a ao pessoal para comer. Depois levantou-se e seguiu Elias na qualidade de servo” (1 Rs 19, 20-21). Eliseu viveu nos últimos anos do reinado de Acab e morreu no reinado de Joás. Assiste ao arrebatamento de Elias ao céu sobre o carro de fogo e logo depois toma seu lugar. Enquanto passava entre as águas do Jordão, Elias pergunta a seu discípulo o que podia fazer por ele antes de ser “arrebatado para longe”. “E Eliseu respondeu: ‘Que me sejam dados dois terços do teu espírito!’” (2 Rs 2, 9). Isto é, pede-lhe a parte do filho mais velho. Quando o profeta sobe ao carro de fogo, cai-lhe por terra o manto, sinal do poder conferido por Deus. Eliseu o recolhe imediatamente e dirige-se para o Jordão. “Tomou o manto de Elias e bateu com ele nas águas, dizendo: ‘Onde está Iahweh, o Deus de Elias?’. Bateu nas águas, que se dividiram de um lado e de outro, e Eliseu atravessou o rio. Os irmãos profetas viram-no a distância e disseram: ‘O espírito de Elias repousa sobre Eliseu!’” (2 Rs 2, 14-15). A iconografia o representa como um homem calvo, com o hábito dos carmelitas, uma jarra de óleo ou um machado como atributos; muitas vezes às suas costas está apoiada uma coluna com duas cabeças, simbolizando os dois terços herdados do espírito de Elias. Eliseu escolheu um estilo de vida diferente do de Elias. Pelas Escrituras não se deduz que o seu estilo de vida fosse austero no que diz respeito à sua maneira de se vestir, nem que procurasse lugares solitários para viver como eremita. Eliseu prefere os centros habitados, freqüenta os grupos de profetas, é acompanhado por um servo, Giezi, mas, assim como seu mestre, vive por algum tempo sobre o monte Carmelo.

Grandes prodígios Mas o que distingue Eliseu é a grande quantidade de prodígios relatados nas Escrituras. Como o que ele fez para ajudar a viúva, que suplica que Eliseu a ajude porque estava sendo pressionada pelos seus credores. O profeta a instrui para que peça emprestado o maior número possível de ânforas vazias, que, milagrosamente, não param de se encher com o pouco de óleo que a mulher ainda possuía. Quando as ânforas vazias acabam, Eliseu ordena: “Vai, vende esse óleo e paga tua dívida e vivereis, tu e teus filhos, do que restar!” (2 Rs 4,7). Uma mulher sunamita que se lamentava de não ter filhos, um ano depois, como predito por Eliseu, dá à luz um menino. O mesmo menino depois adoece e morre. Eliseu intervém pela segunda vez: “Lá estava o menino morto e estendido sobre sua própria cama. Ele entrou, fechou a porta atrás deles dois e orou a Iahweh. Depois subiu à cama, deitou-se sobre o menino, pondo a boca sobre a dele, os olhos sobre os dele, as mãos sobre as dele, estendeu-se sobre ele e a carne do menino se aqueceu. Eliseu pôs-se a andar novamente de um lado para outro na casa, depois tornou a subir e se estendeu sobre ele, até sete vezes: então o menino espirrou e abriu os olhos. Eliseu chamou Giezi e disse-lhe: ‘Chama

a sunamita’. Chamou-a e, quando ela chegou perto de Eliseu, este lhe disse: ‘Toma teu filho’. Ela entrou, lançou-se a seus pés e prostrou-se por terra; depois tomou seu filho e saiu” (2 Rs 4, 32-37). Sua fama de curandeiro se espalha, e ele cura até a Naamã, chefe do exército do rei de Aram, acometido de lepra. Seus prodígios têm a marca da caridade e da solidariedade: como o episódio dos vinte pães de cevada e trigo com os quais nutre cem famintos nos fossos que mataram a sede de homens e animais durante a guerra contra Moab conduzida por Jorão, rei de Israel, e Josafá, rei de Judá. Eliseu contrai uma doença que o leva à morte. O rei Joás vai visitá-lo. O profeta lhe garante a vitória sobre o inimigo de Damasco. “Disse-lhe Eliseu: ‘Vai buscar um arco e flechas’; e Joás foi buscar um arco e flechas. Eliseu disse ao rei: ‘Empunha o arco’; e ele o empunhou. Eliseu pôs as mãos sobre as mãos do rei, e disse: ‘Abre a janela do lado do oriente’, e ele a abriu. Então Eliseu disse: ‘Atira’; e ele atirou. Eliseu disse: ‘Flecha de vitória para Iahweh! Flecha de vitória contra Aram! Vencerás Aram em Afec até o extermínio’. Depois disse Eliseu: ‘Toma as flechas’; e Joás tomouas. Eliseu disse ao rei: ‘Fere a terra’; e ele deu três golpes e parou. Então o homem de Deus irritou-se contra ele e disse: ‘Era preciso dar cinco ou seis golpes! Então terias derrotado Aram até o extermínio; agora, porém, vencerás Aram três vezes só!’. Eliseu morreu e foi sepultado. Bandos de moabitas faziam incursões na terra todo ano. Aconteceu que, enquanto alguns homens estavam sepultado um morto, avistaram um desses bandos; jogaram o corpo dentro do túmulo de Eliseu e partiram. O corpo tocou nos ossos de Eliseu, recobrou vida e pôs-se de pé” (2 Rs 13, 15-21). O último milagre de Eliseu.

Profeta Samuel

Samuel e Natã. Dois novos interlocutores escolhidos por Deus para reatar o fio de uma história nunca interrompida. E para dar um rei ao povo escolhido. Uma pequenina faixa de terra de poucos quilômetros quadrados, habitada pela tribo desunida entre si e impotente diante do inimigo, os filisteus que os assediavam: isto era Israel, por volta do ano 1050 a.C. Silo, pequena aldeia entre a Samaria e a Judéia, era a pequena e pobre capital religiosa. Ali se conservava a Arca da Aliança, dada em custódia ao último dos judeus, Eli, personagem fatalisticamente destinado à derrota. Não era uma autoridade política, pois seu papel era o de referência religiosa. Assim, quando os, filisteus aprofundaram o golpe, a resistência das tribos de Israel se esfarelou. Chegaram a Silo os inimigos que desembarcavam sobre a estreita faixa de Gaza, rechaçadas do Egito do faraó. Destruíram o templo, apreenderam a Arca e fizeram uma imensa chacina entre as filas desordenadas dos pobres israelitas. Enfim, se um outro fator imprevisto não interviesse, bem se poderia considerar acabada a história das tribos de Moisés. Mas esse outro fator havia já retomado, uma vez mais, in extremis, o fio daquela história. O método escolhido tinha consonância com o passado: uma mulher estéril, como antes Sara e Raquel, que se dirige ao templo pedindo a Iahweh a graça e fazendo voto de oferecer ao sacerdócio o fruto de seu ventre. A mulher se chamava Ana, era a mulher de Elcana, um levita que, portanto, legitimava o caminho ao sacerdócio de um eventual filho. Iahweh manteve a palavra, assim como Ana. E Samuel, o menino, tornou-se aquele homem por meio do qual Deus retomaria o diálogo com seu povo: um novo profeta. Naqueles dias a palavra de Deus era preciosa, porque as visões não eram freqüentes”, diz a Bíblia. Mas uma voz o chama na noite e ele se levanta da cama para aproximar-se do velho e desiludido Eli. Este, porém, nega tê-lo chamado. Isto por três vezes. Até que o velho intui de quem poderia ser a voz e ordena ao rapazinho que assim responda a um provável novo chamado:“Fala, Senhor, teu servo te escuta!”. Assim, Deus voltava a fazer-se presente para recolocar em caminho a história de seu povo predileto. E o intermediário é um profeta. Como diz a Bíblia (1Sm 3, 19), “o Senhor estava com ele e não negligenciava nenhuma de suas palavras. Samuel, enquanto autoridade religiosa, compreendera que o que faltava às tribos que Josué havia levado até a Terra Prometida era um chefe político. Um pouco com a ajuda dos dois filhos procurou substituir ele mesmo este vazio. Envolto por seu efod de linho, tinha transmitido a Israel as promessas recebidas de Iahweh: “Fixai o vosso coração

em Iahweh, rendei culto apenas a Ele. E, então, ele vos arrancará das mãos dos filisteus”. Chamou o povo à batalha de Masfa, ficou a rezar no monte como lhe haviam suplicado que fizesse todos os israelitas. Por fim, pela primeira vez, os filisteus bateram em retirada”. Samuel tomou uma pedra, ergueu-a entre Masfa e Sen, chamou-a Ebenezer e disse:“Até aqui nos socorreu o Senhor”.

Um outro rei: As pressões do povo para ter um rei eram cada vez mais insistentes. Assim, Samuel começou a pensar que chegara o momento, para Israel, de ter um monarca como acontecia para todos os outros povos ao redor. Mas, como é possível ter um outro rei, quando o seu rei não é outro senão o próprio Iahweh? Samuel, já velho, procura resistir. Melhor sofrer outra derrota que trair o único Deus. E, depois, onde encontrar um rei, qual critério humano seria mais adequado para fazer uma escolha desse gênero: dar um rei ao povo que já tinha Iahweh como seu rei? Uma coisa impossível. Eis que a Bíblia conta como o próprio Deus, com um tato quase comovente, tira Samuel do dilema. Tem razão, lhe diz, o povo erra ao desejar um rei. Mas, tu vais agora contentá-lo, eu te autorizo. Assim, te indico quem deve ser o ungido. Iahweh, então, coloca-se de lado e ainda tem a delicadeza de não ferir a fidelidade daquele seu velho servo, Samuel. Indica-lhe também um candidato: um rapaz alto e belíssimo que teria vindo a Samuel no encalço das jumentas de seu pai. Seu nome era Saul. Um personagem impetuoso, generoso, mas também cheio de orgulho; corajoso mas um pouco confiante demais em seus próprios méritos. Samuel o reconhece como aquele que lhe foi indicado por Deus e o unge “príncipe” de Israel, numa cerimônia quase secreta. Não é rei, ainda: o profeta quer colocá-lo à prova. A oportunidade para isso apresentou-se rapidamente, por volta do ano 1040 a.C.; era preciso expulsar os filisteus que haviam colocado em Gabaá um governador seu. Saul, primeiramente, enviou seu filho, Jônatas, para matá-lo, depois, aceitou a guerra em campo aberto e o venceu. Samuel renunciou, então, ao juizado e limitou-se a permanecer como chefe religioso de Israel. Saul era o rei para todos os efeitos. Não obstante, Samuel vigiava. Via Saul espremido entre a fidelidade ao seu dever e os ímpetos do seu orgulho. Pega-o primeiro, em flagrante, quando, pela pressa de combater, havia realizado ele próprio o sacrifício antes da batalha, sem esperar por Samuel. A seguir, vem o ato de rebelião de Saul, que se recusa seguir a ordem de Iahweh e não mata Agag, o rei dos amalecitas. Samuel se encarrega, ele próprio, de realizar a vontade de Deus mas, a partir daquele momento, cortará todo o relacionamento com o rei. Não mais o verá “até o dia de sua morte”, escreve a Bíblia.

Davi, o sucessor O velho Samuel sabe que se faz necessário um sucessor. Encontra-o, mais uma vez, por meios imperscrutáveis: o último dos sete filhos de Jessé, cuja família era uma das principais de Beth-lehem, da tribo de Judá. Unge-o às escondidas, sem que Saul o saiba, o introduz na corte com seu cetro e desencadeia no coração de Saul a espantosa avalanche do ciúme. Davi, o jovenzinho capaz de desafiar Golias, o gigante dos filisteus; Davi, que conquista os corações e a simpatia dos dois filhos de Saul; Davi, que leva os duzentos prepúcios dos guerreiros filisteus ao rei, como este lhe havia pedido, em troca da mão de sua filha. Pois bem, Davi é de forma demasiadamente clara o eleito do Senhor para não fazer em pedaços o equilíbrio psicológico de Saul, que, em seguida, declara-lhe guerra aberta, obriga-o a passar pelo campo do inimigo até refugiar-se em Ramá, nos braços do velho Samuel. Era uma perseguição sem nenhuma possibilidade de sucesso, pois, confiando-se a Samuel, Davi confiava-se, na verdade, ao próprio Iahweh. Assim, Saul fracassou na última batalha e Davi podia sair a descoberto: seria o rei que, daquela pequenina faixa de terra, ao redor de Silo, viria a criar um grande reino. Samuel podia morrer em paz, sem ter de ficar de olhos abertos para outras pequenas traições de seu rei. Para vigiar, severíssimo, sobre eles, chegaria outro profeta, Natã. Aquele que aplicaria tremendas punições a Davi, acusado de cometer adultério com a bela Betsabéia, mas, sobretudo, acusado de ter ordenado a morte do marido dela, Urias. Mas o feito principal de Natã seria o de atar as mãos de Davi, impedindo-o de ser prisioneiro de sua glória: não seria ele a completar o grande templo de Jerusalém, como não tinha sido Moisés a fazer seu povo varar as fronteiras da Terra Prometida. Por intermédio de seus profetas, Iahweh vigia sempre: só Ele é o amigo e o protetor de Seu povo. Como anunciou Natã a Davi, não seria este que construiria para Iahweh, mas Iahweh que construiria para ele, Davi, uma “casa”, isto é, uma linhagem, isto é, um reino.

O profeta Samuel, que era ponderado como Moshé e Aharon (Taanit, 5), morreu no dia 29 de Iyar (Meguilat Taanit). Alguns afirmam ter ele falecido no próprio Dia de Jerusalém (Shulchan Aruch, 580:2). Não é por acaso que o dia do falecimento do profeta Samuel associa-se ao Dia de Jerusalém. Samuel tinha uma relação única e profunda com a cidade. Foi o primeiro a descobrir que Jerusalém seria a Cidade Sagrada, difundindo isso para o povo judeu. No Deuteronômio, relata-se que, no futuro, haverá uma cidade escolhida por Hashem, para nela estabelecer a sua Shechiná. “No lugar que escolher o Eterno, numa de tuas tribos, ali oferecerás as tuas ofertas de elevação, e ali farás tudo o que eu te ordeno” (Deuteronômio, 12:14). No entanto, a Torá não quis nos dizer explicitamente onde seria este lugar. Ao invés de “na cidade sagrada de Jerusalém”, está escrito “na cidade em que o Eterno escolher”. O local do âmago do

povo judeu foi mantido em segredo por mais de 400 anos. A Guemará (Zevachim, 54) relata que o profeta Samuel e o rei David procuraram, exaustivamente, nas alusões da Torá, até descobrir que a cidade escolhida era Jerusalém. Alguns anos mais tarde, David comprou o lugar no Monte Moriá onde mais tarde seria construído o Templo, pagando por ele o preço total (Samuel 2, 24:24). Desde então, Jerusalém tornou-se a cidade eterna e o coração do povo. Por que a Torá ocultou o nome de Jerusalém como cidade sagrada do povo judeu? O Rambam (Maimônides), em sua obra Guia dos Perplexos (parte III, cap. 45), apresenta três razões para o fato, todas elas muito relevantes e atuais. 1. Se a localização da cidade sagrada fosse mencionada na Torá, se tornaria conhecida também por todas as nações do mundo. Por conseguinte, os demais povos não renunciariam à cidade facilmente, lutando para conquistá-la. Na atualidade, vemos em especial como este argumento é verdadeiro. Os árabes travam sua luta mais feroz justamente pela posse de Jerusalém, sabendo o alto valor que tem a cidade sagrada. Eles entendem que a posse da cidade lhes dará uma força espiritual muito especial para lutar contra nós. 2. Para que os gentios não destruíssem a cidade. Também esta explicação é compreendida nos dias de hoje. Vemos a grande destruição que os árabes causam aos resquícios arqueológicos do nosso mikdash. Sabendo que a cidade é importante para nós, querem apagar toda e qualquer lembrança da presença judaica. 3. Para que não haja disputas entre as tribos de Israel sobre quem terá o privilégio de herdar a região na qual Jerusalém se encontra.

Daniel

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.