[user_registration_my_account]
Capítulo 2 de 23
Introdução
Magnetismo Curador · Alphonse Bué
Ação curadora do magnetismo, e maneira pela qual esta ação pode
exercer-se no organismo.
A vida é a resultante do conflito de duas forças opostas: força centrífuga e força centrípeta (dispersão e condensação, eliminação e reabsorção). O sistema nervoso, regulador fisiológico do organismo, entretém, por sua tensão normal, este duplo movimento da vida. A ação magnética, por sua influência direta sobre o sistema nervoso, atua no sentido do funcionamento vital, e, mantendo o equilíbrio funcional, restabelece e conserva a saúde.
Não se pode tratar da patologia, da matéria médica ou da terapêutica, sem que primeiro se faça uma idéia do fenômeno vital. A ciência só existe quando fecundada por uma concepção filosófica; e o prático, qualquer que seja a escola a que pertença, não pode encontrar a explicação dos seus atos sem que primeiramente tenha levantado este problema em seu espírito e o resolva. Esta necessidade de reunir os estudos de análise sob a predominância de uma síntese, promana da própria história das doutrinas médicas, e pode dizer-se que esta história Espiritualismo e Materialismo se resume no antagonismo perpétuo de dois princípios: , Imponderável Ponderável conforme se tinha julgado conceder preeminência ao ou ao, ao Espírito Matéria ou à. Ainda atualmente esta luta continua; a escola oficial, agindo largamente na constituição orgânica e na influência dos meios, sacrifica absolutamente aos agentes físicoquímicos o influxo vital, de que os vitalistas, no seu açodamento de reagir contra as teorias materialistas, fizeram, também, sem razão de ser, o deus ex-máquina de suas concepções.
Infelizmente, levado a dirigir-se aos extremos, o espírito humano confinou-se intimamente em especializações estéreis, admitindo apenas a experimentação pura, ou transviou-se nos meandros de uma metafísica nebulosa, apoiando-se exclusivamente em dados hipotéticos. Impulsados pelo ardor da nossa imaginação não possuímos, geralmente falando, nem o critério nem a prudência de nos determos em um meio termo: somos exclusivistas por natureza. Impressionados profundamente pela singularidade pasmosa dos fenômenos do universo, onde nos deixamos arrebatar pelas regiões da fantasia, ou, céticos pela razão, nos esforçamos em reagir contra estes desvios, limitando-nos a tudo materializar e só admitir o que cai sob o domínio dos nossos sentidos. Este último excesso, parece-nos, sobrelevou sempre o outro, e eis de que modo, depois de passados tantos séculos, o velho lema da antiga filosofia peripatética: Nihil est intellectu quod prius non fuerit in sensu, ainda é a senha da escola científica moderna. É aí que se acha o verdadeiro escolho contra o qual tem vindo e virá de contínuo chocar-se o espírito humano, todas as vezes que tenta ou procura abordar a explicação dos fenômenos da natureza.
1 a Tese sustentada pela Sr Bué em 24 de outubro de 1809 no Congresso Internacional Magnético. Alphonse Bué
Referirmo-nos unicamente aos nossos sentidos para julgar o que nos cerca, é não somente estreitar voluntariamente o círculo de nossas percepções, mas também é principalmente criar para nós uma fonte inesgotável de erros. Efetivamente, quantas coisas existem fora dos nossos sentidos! Quão inúmeras combinações de formas e forças lhes escapam! E quando casualmente algumas dessas metamorfoses caem sob o raio das nossas percepções, passando por nossos instrumentos sensoriais, que precauções não é preciso tomarmos para que as aparências não nos enganem? A cada momento algum fenômeno na natureza fornece-nos a prova: se mudamos de lugar com qualquer velocidade, quer em estradas de ferro, quer em balão, a ilusão dos nossos sentidos nos apresenta todos os objetos movendo-se em derredor de nós, e, entretanto temos a sensação de estarmos imóveis. As graduações da perspectiva não nos mostram os objetos se aproximando uns dos outros, à proporção que nos afastamos deles?
O homem, finalmente, não começou por considerar a Terra como o eixo do Universo; e, iludido pelos sentidos, não afirmou que os inúmeros fogos acesos nas profundezas infinitas do espaço giravam em torno do seu globo ínfimo? Para voltar a realidade, para ver as coisas debaixo do seu verdadeiro aspecto, foinos preciso, e nos é ainda, fazer um esforço sensível, apelarmos para certa evolução cerebral, mui especialmente preposta a elevação de nossas percepções sensoriais, como têm por fim certos órgãos do cérebro por si mesmos, levantar a imagem invertida que a nossa retina recebe pelo mecanismo da visão. Esta evolução cerebral, que sem esforço se pode considerar um sexto sentido encarregado de sintetizar as impressões percebidas pelos outros cinco, é o que se conveio chamar a abstração; e cumpre que nos compenetremos bem deste fato, que nenhum juízo preciso pode ser feito sem o auxílio e o exame do sentido abstrativo.
Se, portanto, quisermos encontrar um terreno de conciliação, sobre o qual os dois partidos inimigos, que não cessam de trocar epítetos malsonantes de materialista e fofo sonhador, possam vir tratar e se congraçar, é absolutamente preciso que se não menospreze a observação direta e a abstração, a experimentação pura e a idéia metafísica. Em uma palavra, cumpre com um traço de união ligar o objetivo ao subjetivo. Somente deste modo poder-se-á dar bases sólidas a fisiologia e a terapêutica, estabelecer as relações de reciprocidade orgânica pelas quais as propriedades dos corpos vivos se nos manifestam, e fazer-se uma idéia justa daquilo que se chama o fenômeno vital. As palavras vida, morte, saúde, moléstia não têm, aliás, para nós nenhuma realidade objetiva; são expressões úteis para a comodidade da linguagem, porém, estas abstrações nos permitem estabelecer a relação dum movimento a sua causa, e é assim que podemos até certo ponto, penetrar os mistérios da vida!...
Partindo deste ponto de vista, podemos dizer (e nisto estamos de acordo com os nossos mestres de fisiologia) que a vida nos aparece desde logo como resultado de uma colaboração íntima entre dois fatores absolutamente solidários, igualmente impotentes um
sem o outro, e sem a união dos quais estaciona qualquer expansão vital. Estes dois fatores são, de um lado, a forma vital ou inicial do ser; do outro, a força físico-química dos meios da matéria. Ainda por outro lado, vemos que a vida só subsiste pelo encadeamento de duas ordens de fenômenos indivisivelmente unidos:
1. Os fenômenos funcionais ou de despesa vital, pelos quais se vai consumindo a matéria viva nos órgãos em função.
2 Claude Bernard: Phénomènes de la vie.
Magnetismo Curador
2. Os fenômenos plásticos ou de organização nutritiva, pelos quais se formam as reservas de nutrição e se regeneram os tecidos pelos órgãos em repouso. A vida, procedendo assim por eliminações e reabsorções, sucessivas, se entretém, pois, por um duplo movimento de irradiação e atração, cuja alternativa obedece regularmente às forças centrífugas e centrípetas Do mesmo modo que a pêndula de um cronômetro, com as suas oscilações para a direita e para a esquerda da vertical, deixa continuamente o ponto de equilíbrio e volta sempre para ele, formando um equilíbrio instável em cada pancada obtida e em cada pancada destruída, assim também se nos apresenta a vida como a imagem de um equilíbrio oscilatório produzido por um trabalho incessante de desassimilação e assimilação. A saúde, isto é, a integridade de toda vida, prende-se à regularidade absoluta deste duplo movimento, do mesmo modo que a correção do tic-tac de um cronômetro é o indício certo da perfeição de seu regulador.
De que modo, pois, se firma o equilíbrio entre a eliminação e a reabsorção, entre estas duas ordens de fatos inversos tão indispensáveis à expressão do fenômeno vital? Qual é, em última análise, o regulador da vida? Intervém aqui o terceiro fator, completando a admirável triplicidade que constitui a unidade sintética do organismo humano. Este terceiro fator é o sistema nervoso. A exemplo da grande corda do cronômetro de que falamos há pouco, ele forma a peça de compensação entre as aquisições e as perdas da economia. É ele que, nas profundezas silenciosas da vida vegetativa que se furta aos nossos olhares, tem a missão de equilibrar o movimento de reconstituição orgânica com as ruidosas manifestações dessas combustões funcionais que são a expressão exterior da vida!
Poderoso agente térmico, é ele que mantém o calor animal em seu grau normal, e que, pelas relações anatômicas existentes entre os dois grandes aparelhos vitais, o sistema nervoso cérebro-espinhal e o sistema nervoso grande simpático, estabelece essa troca constante de ações e reações entre a vida animal e a vida vegetativa, por interposição de uma série de pares nervosos que unem as faculdades da alma às faculdades vegetativas, assim
como os dois pólos de um ímã estão unidos entre si por um eixo. É ele que nos une a Força à Matéria por um princípio de subserviência recíproca, graduada, tonalizada. É, finalmente, ele que regulariza de maneira absoluta, por seu estado de tensão, o diapasão da tonalidade viva. Quando esta subserviência recíproca e devidamente tonalizada da Força e da Matéria acontece romper-se, por haver predominância de um dos antagonismos; e quando o sistema nervoso não mais impõe sua ação moderadora, instantaneamente o equilíbrio tonal se quebra, as funções de eliminação se travam, as metamorfoses nutritivas se suspendem ou se Moléstia !... perturbam, e o ato patológico denuncia-se: eis a Efetivamente, a moléstia não é mais que uma tensão orgânica deslocada e indevidamente acumulada num ponto: mais ou menos, ou é uma simples migração de tensão ou um rompimento de tonalização. A destruição da tonalidade, com a impossibilidade de retorno ao grau de tensão Morte. normal: eis a Apresentando o sistema nervoso como o grande regulador fisiológico dos organismos (assim como lhe chama o próprio Claude Bernard), encontramos o verdadeiro veículo do duplo movimento centrípeto e centrífugo da vida, e por conseguinte podemos explicar as íntimas relações existentes no homem entre o seu físico e o seu moral.
3 Claude Bernard. 4 Philips: Électro-dynamisme vital. Alphonse Bué
Estamos constantemente sob a influência das excitações partidas dos centros e das impressões vindas do exterior, e podemos, de alguma maneira, classificar as nossas paixões e as nossas moléstias centrífugas e centrípetas... A integridade de nosso equilíbrio tonal pode, portanto, ser atacada e perturbada de duas maneiras: quer pela reação do físico sobre o moral, quer pela reação do moral sobre o físico; e a impressão mental, por mais inapreciável que seja, é muitas vezes o agente morbífero mais rápido, mais irresistível e mais fatal. O medo, a cólera, a indignação, o desgosto, podem perturbar o equilíbrio de nossa tonalidade indefinidamente, e o choque de um pensamento violento pode também romper instantaneamente os laços da vida, do mesmo modo que uma simples, perturbação material de nossos órgãos digestivos pode nulificar os sentimentos de nossa alma e cercear o nosso livre arbítrio.
De qualquer lado que parta o obstáculo, desde que a relação íntima que deve existir entre a Força livre e a Matéria especificada está perturbada, desde que não há mais igualdade perfeita entre a ação centrífuga e a ação centrípeta, dá-se a destruição do equilíbrio, e por conseguinte uma tendência iminente à suspensão e à cessação do fenômeno vital. Para que as pancadas do pêndulo do cronômetro se conservem regulares, para que o mecanismo do aparelho funcione sem interrupção, é preciso que haja uma perfeita proporção no antagonismo das duas forças que o acionam, porque a lei fundamental do encontro das forças em a natureza é a Limitação. Todo o segredo dos organismos vivos está, portanto, na justa Limitação da Força Inicial do Ser pelas Forças Exteriores, e a realização correta do fenômeno vital reside na justa Limitação da Força vital pelas forças Físico-Químicas, debaixo da influência reguladora e preponderante do sistema nervoso, mantido cuidadosamente em sua tensão normal.
Em uma palavra, a vida é a conseqüência do antagonismo destas duas potências, antagonismo que, entretendo o duplo movimento de expansão e de retração, de dispersão centrífuga, e de condensação centrípeta, destrói incessantemente um equilíbrio continuamente renovado, e mantém assim o estado constante da tonalização, que é a forma estabelecida pela natureza para manietar o antagonismo da Força e da Matéria em um intuito
sintético. Se é, portanto, na rede nervosa que se opera o encontro das duas forças antagônicas, as quais, por seu movimento centrífugo e centrípeto, formam a dupla pulsação da vida; se é nele e por ele que se efetua a justa limitação da força inicial do ser pelas forças externas; se é por intermédio do sistema nervoso que percebemos as excitações partidas dos centros vitais e as impressões vindas do exterior; se, em uma palavra (com a própria confissão dos nossos mais eminentes fisiologistas modernos), o sistema nervoso é o grande regulador fisiológico dos organismos vivos, não há dúvida que, se se consegue encontrar o meio de acionar diretamente o sistema nervoso de maneira a reconduzi-lo à sua tensão normal quando dela se afaste, também não há dúvida de que nos apossaremos incontestavelmente do mais seguro, mais poderoso e mais eficaz dos agentes terapêuticos. Esta confirmação, tê-mo-la da própria boca de um dos nossos fisiologistas, que incontestavelmente consideramos o mais autorizado a decidir nesta matéria.
Em suas notáveis lições sobre o calor animal, Claude Bernard, efetivamente, depois de haver exposto o método refrigerante empregado para dominar as febres graves; depois de ter demonstrado que fora dos perigos que apresenta o emprego dos antipiréticos, a ação destes específicos sobre o organismo nada tem de certo nem de cientificamente aceitável; depois de ter explicado, finalmente, com aquela admirável clareza que o caracteriza, a
5 Medicine nouvelle. Louis Lucas:
Magnetismo Curador
influência preponderante e absoluta do sistema nervoso na realização dos fenômenos vitais, Claude Bernard se exprime deste modo: "Nestas circunstâncias, a mais racional ação terapêutica, a única indicada fisiologicamente, seria evidentemente a que se dirigisse diretamente ao sistema nervoso,
porém, no estado atual dos nossos conhecimentos, esta ação nos é impossível!" Por esta confissão de fraqueza do sábio professor do Colégio de França, nós, humildes operários do pensamento, que temos procurado a solução do problema, podemos responder: "Esta ação terapêutica que julgais impossível, nós a conhecemos! Tê-mo-la em nossas mãos, e servimo-nos dela! Por um trabalho perseverante e tenaz estudamos o seu mecanismo, averiguamos a sua eficácia e admiramos o seu poder! Este agente maravilhoso cuja existência não conhecestes, nem pressentistes, é tão velho como o mundo! É uma destas admiráveis forças da natureza posta à disposição de todos, do mais ignorante como do mais sábio, do mais humilde como do mais poderoso. É o agente terapêutico universal que nos chega das profundezas do infinito e que emerge das próprias fontes da vida, como o calor, a eletricidade e a luz!
É o magnetismo! " Bem sei que se contesta aos magnetizadores a influência benéfica que pretendem imposições passes exercer com suas e seus; também não ignoro que se vai até negar a possibilidade de uma transmissão nervosa de organismo para organismo. Mas os fatos aí estão, numerosos, indiscutíveis; e na verdade não pode haver dúvida senão para aqueles que não querem ver! Podemos, afinal, responder aos adversários do mesmerismo servindo-nos de seu próprio argumento. Não dizem eles (e é um fato, aliás, reconhecido pela doutrina hipocrática) que "quando uma causa nociva vem lesar uma parte do corpo ou perturbar o jogo de uma função, produz-se desde logo, na parte interessada, e mesmo em todo o organismo, uma série de atos que têm como efeito, ou antes que tendem a reparar a lesão e restabelecer o funcionamento? " Ora, se é verdade que a natureza (natura medicatrix, como lhe chama o próprio Hipócrates) possui uma tendência irresistível para recuperar por si mesma o seu equilíbrio momentaneamente interrompido; se, por outro lado, os nossos mestres de fisiologia admitem (como se conclui de seus escritos) que o sistema nervoso, por suas extremidades periféricas haure continuamente, na radiação solar, elementos de força que transmite aos órgãos,
segundo as necessidades da metamorfose orgânica será, pois, tão ilógico admitir que o sistema nervoso posto em contato com um outro aparelho idêntico a si mesmo, porém melhor equilibrado, possa conseguir duplicar a sua atividade funcional, e, por uma espécie de transfusão nervosa possa trazer aos centros vitais, momentaneamente desamparados, os elementos de regeneração orgânica que lhes falta, ajudando deste modo a vida a prosseguir mais ativamente o objeto que a lei de vitalidade lhe impõe? Isto é física pura, e todos os dias tocamos com o dedo neste fenômeno em uma ordem hierárquica menos elevada, quando, em vez de dois organismos vivos, pomos em contato duas pilhas elétricas. Se, malgrado a sua grande simplicidade, esta interpretação dos fenômenos magnéticos não saltar aos olhos de todos como a expressão da verdade, é que, seguindo neste ponto as velhas tradições, os espíritos prevenidos continuam a julgar o magnetismo como que se aproximando mais das ciências ocultas do que da ciência positiva. Os nossos próprios sábios contribuem grandemente para a propagação deste erro, colocando no ativo do magnetismo as escamoteações dos prestidigitadores de feira, as possessões diabólicas da
6 Leçons sur le chaleur animale, pag. 447. Claude bernard: 7 Dr. Bouchard. Alphonse Bué
idade medieval, e as práticas bizarras dos derviches giradores ou dos Aïa-Oussas, e proclamando que vêm aniquilar esses preconceitos soezes e dissipar as espessas trevas que
outrora ainda envolviam a questão perturbadora do magnetismo animal. "A palavra "magnetismo" dizem eles, já não deve intimidar ninguém; o que ela designa, viveu, e de então em diante só pertence à história! " Fazendo tábua rasa do passado, riscando com um traço de pena a palavra "magnetismo" que os incomoda, instalaram uma coisa que eles batizaram com o novo nome de "hipnotismo", só conservando em sua prática os processos artificiais e violentos cuja aplicação qualquer magnetista consciencioso e honesto considerou sempre perigosa ou inútil. Trouxeram à publicidade o que deviam conservar na sombra; detiveram-se principalmente nos fenômenos insólitos produzidos sobre o organismo humano pelo sonambulismo, a sugestão, a letargia, a catalepsia e o êxtase, permitindo assim uma grande parte de fenômenos estranhos, que transviam a opinião pública e contribuem para velar o caráter de grande simplicidade, que faz precisamente da virtude curativa do magnetismo o fato mais belo, mais natural, mais útil e ao mesmo tempo o mais acessível a todos!
E mesmo esses que pretendem iluminar com o archote da ciência um acervo confuso de grosseiros erros e esclarecer a estrada do progresso derrubando velhas heresias, caíram precisamente nas piores barreiras daqueles que criticam e condenam, obedecendo neste ponto à propensão que todos temos para só julgar as coisas pelos nossos sentidos, e pelo hábito que contraímos de nos referirmos sempre a percepções insuficientemente averiguadas pelo senso abstrativo. E acontece que assim nos escapam as forças da natureza quando se acham no estado de estabilidade e de equilíbrio, e que somente as percebemos quando em via de mutação e de deslocamento; a eletricidade, esta força fecundante a que é devida uma tão grande parte da obra regeneradora universal, nunca teria sido pressentida pelo homem, se não lhe fosse conhecida por um fenômeno de choque, e é pelo raio que desorganiza e destrói que se manifestou esse manancial de vida.
Assim acontece com todas as forças hierarquizadas que evoluem em torno de nós; quanto mais se aproximam estas forças do agrupamento e do equilíbrio, tanto mais escapam aos nossos sentidos e maior atenção se nos torna necessária para constatar-lhe a existência e estudar-lhe o funcionamento; e se (apelando para a imagem do cronômetro de que nos servimos há pouco, a fim de assentarmos melhor o nosso pensamento por uma comparação tangível) considerarmos as três agulhas do quadrante, conviremos facilmente que o movimento da grande cursiva, que, por sucessões de choques rápidos, marca a divisão dos segundos, é notada pelo olhar o mais distraído e o menos experimentado, que o papel das agulhas que marcam os minutos e as horas só se torna apreciável por uma atenção mais paciente e mais firme.
Não surpreende, portanto, que na ordem dos fenômenos que aqui nos ocupam, sejam os fenômenos migrações provocadas que tenham desde logo atraído a atenção dos experimentadores, impressionando-lhes os sentidos; e eis de que modo os observadores impacientes ou superficiais não viram e não continuam a ver, no magnetismo, senão os fenômenos de choque. Conhecem a força magnética em seus movimentos de desequilibração, de dispersão improdutiva; desconhecem-na em seu movimento de tonalização e de concentração regeneradora. Seguem-na na excentricidade de seus desvios, quando se acha desequilibrada; mas não a suspeitam no admirável jogo de sua tensão normal. Eis aqui, se me não engano, a chave da ignorância de uns e da má apreciação dos outros, causas inevitáveis da interpretação errônea da maior parte dos fenômenos magnéticos.
8 Dr. Cullère: Magnétisme et hypnotisme.
Magnetismo Curador
Em matéria de magnetismo, como em todas as coisas, é o alcance de nossa vista filosófica, auxiliada por uma observação paciente, que nos classifica. Na ciência, há míopes e presbitas; há pessoas que não percebem senão o movimento da agulha dos segundos no cronômetro. Estes só se impressionam com as manifestações ruidosas das migrações no movimento. Quanto às misteriosas metamorfoses, devidas às forças equilibradas, que realizam silenciosamente a sua obra regeneradora no próprio seio dos corpos, estas escapam-lhes absolutamente !!... Concluamos, pois, e digamos: O fenômeno vital é o resultado da íntima colaboração de três fatores que constituem, por seu conjunto a triplicidade viva do organismo; o movimento da vida reside no encadeamento de dois fenômenos indissoluvelmente unidos em uma ação inversa e constante, destruição, renascimento, sob a influência reguladora de uma tensão equilibrada; e o sistema nervoso é precisamente o regulador fisiológico encarregado de manter esta tensão normal no organismo.
Se assim é, torna-se incontestável que o agente terapêutico, que agir diretamente sobre o sistema nervoso no sentido do funcionamento vital, regulará seguramente os fenômenos funcionais, entreterá e ativará as metamorfoses orgânicas, e presidirá deste modo soberanamente à manutenção da tonalidade viva ou à sua reconstituição, quando ela estiver desequilibrada. Ora, qualquer que seja a diversidade das opiniões emitidas sobre a ação magnética, como esta ação se resume, enfim, numa espécie de transmissão de força pela rede nervosa; como esta transfusão nervosa é um fato certo, facilmente verificável pela experiência, como esta transfusão se obtém pelos mais simples processos, cuja eficácia nos demonstra uma prática diária, nos julgamos autorizados a apresentar o magnetismo como o meio mais seguro de entreter o equilíbrio vital e curar as afecções mórbidas as mais rebeldes.
Somente, enquanto estes problemas complexos não forem melhor elucidados, conservemo-nos, prudentemente, nas aplicações práticas de uma força cujas evoluções nos são ainda insuficientemente conhecidas, evitemos a encenação ruidosa dos fenômenos mal estudados, evitemos o abuso dessas experiências de sugestão e de sono provocado, os quais, dando ao magnetismo uma cor diabólica ou mística, perturbam e inquietam as consciências; confinemo-nos na parte verdadeiramente útil do magnetismo, sua aplicação à cura das moléstias. Eis aí, em nossa opinião, o único fim que deve ter o emprego do magnetismo. Alphonse Bué
Manual Técnico
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.