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Capítulo 4 de 4
Parte 4 de 4
Conselhos, Reflexões e Máximas · Allan Kardec
Comprometer o Espiritismo e torná-lo ridículo, tal é a tática por meio da qual esperam, a princípio, desacreditá-lo, para ter mais tarde um pretexto de interditar, se isso for possível, seu exercício público. Esta é a armadilha contra a qual é preciso estar em guarda, porque é armada de todos os lados, e à qual, sem o saber, dão a mão aqueles que se deixam levar pelas sugestões dos Espíritos zombeteiros e mistificadores.” R. E. 1869, p. 357: “Trabalhemos para compreender, para crescer nossa inteligência e nosso coração; lutemos com os outros; mas lutemos com caridade e abnegação. Que o amor ao próximo, inscrito sobre nossa bandeira, seja nossa divisa: a pesquisa e a verdade, de qualquer parte que ela venha, nosso propósito único! Com tais sentimentos, desafiemos as zombarias de nossos adversários e as investidas de nossos competidores.
Se nos enganamos, não tenhamos o tolo amor próprio de nos obstinar nas idéias falsas; mas estamos certos de que há princípios sobre os quais jamais podemos nos enganar: é o amor ao bem, a abnegação, a abjuração de todo sentimento de inveja e ciúme. Esses princípios são os nossos; vemos neles o laço que deve unir todos os homens de bem, qualquer que seja a divergência de sua opinião; somente entre eles o egoísmo e a má fé colocam barreiras intransponíveis. Mas qual será a conseqüência desse estado de coisas? Sem contradita, os conluios dos falsos frades poderão trazer momentaneamente algumas perturbações parciais. Por isso é preciso fazer todos os esforços para os frustrar tanto quanto possível.
Mas, necessariamente, não o farão senão por um tempo e não poderão ser prejudiciais para o porvir: primeiramente porque são uma manobra da oposição que cairá pela força das coisas; por outro, qualquer que seja que digam e que façam, não poderão suprimir da Doutrina seu caráter distintivo: sua filosofia racional é lógica, sua moral consoladora e regeneradora. Hoje, as bases do Espiritismo estão colocadas de uma maneira inabalável; os livros escritos sem equívocos e colocados à disposição de todas as inteligências serão sempre a expressão clara e exata do ensino dos Espíritos e a transmitirão intacta àqueles que virão depois de nós. Não precisamos perder de vista que estamos em um momento de transição, e que nenhuma transição se opera sem conflito. Não é preciso pois se admirar de ver se agitarem certas paixões; as ambições, os compromissos, os interesses contrariados, as pretensões decepcionadas; mas pouco a pouco tudo isso se extingue, a febre se acalma, os homens passam e as novas idéias permanecem. Espíritas, se querem ser invencíveis, sejam benevolentes e caridosos; o bem é uma couraça contra a qual sempre vêm se quebrar as manobras da malevolência.” R.
E. 1865, p. 264: “Por ora façamos o maior bem possível com ajuda do Espiritismo: façamo-lo mesmo a nossos inimigos; ser pagos com a ingratidão é o melhor meio de vencer certas resistências e de provar que o Espiritismo não é tão negro como alguns o pretendem.” R. E. 1864, p. 326: “O Espiritismo, repito, em demonstrando, não por hipótese, mas por fatos, a existência de um mundo invisível e o porvir que nos espera, muda totalmente o curso das idéias; dá ao homem a força moral, a coragem e a resignação, porque não trabalha mais somente para o presente, mas para o futuro; sabe que se não desfruta hoje, desfrutará amanhã. Demonstrando a ação do elemento espiritual sobre o mundo material, amplia o domínio da ciência e abre, por isso mesmo, uma nova via ao progresso material.
O homem terá então uma base sólida para o estabelecimento da ordem moral sobre a Terra; compreenderá melhor a solidariedade que existe entre os seres deste mundo, posto que esta solidariedade se perpetua indefinidamente; a fraternidade não é um palavra vã; ela destrói o egoísmo em lugar de ser destruída por ele e, muito naturalmente, o homem imbuído dessas idéias conformará a elas suas leis e suas instituições sociais.” R. E. 1864, p. 26: “A caridade e a fraternidade se reconhecem por suas obras e não por suas palavras; é uma medida da apreciação de que não se pode enganar senão aqueles que se cegam com seus próprios méritos, mas não aos terceiros desinteressados; é a pedra de toque à qual se reconhece a sinceridade dos sentimentos; e quando se fala de caridade, em Espiritismo, se sabe que não se trata só daquela que dá, mas também e sobretudo daquela que esquece e perdoa, que é benevolente e indulgente, que repudia todo sentimento de ciúme e de rancor.
Toda reunião espírita que não estiver fundamentada sobre o princípio da verdadeira caridade, será mais nociva que útil à causa, porque tenderá a dividir em vez de reunir, levando além disso, em si mesma, seu elemento destruidor. Nossas simpatias pessoais serão então sempre cedidas a todos aqueles que provarem, por seus atos, o bom espírito que os anima, porque os bons Espíritos não podem inspirar senão o bem.” R. E. 1867, p. 278: “Um último caráter da revelação espírita, e que ressalta das condições mesmas nas quais foi feita, é que, apoiando-se sobre os fatos, ela não pode ser senão essencialmente progressiva, como todas as ciências de observação. Por sua essência, contrai aliança com a ciência que, sendo a exposição das leis da natureza, em uma certa ordem dos fatos, não pode ser contrária à vontade de Deus, o autor dessas leis. As descobertas da ciência glorificam a Deus em lugar de O rebaixar, elas não destroem senão o que os homens têm construído sobre as idéias falsas que se tem feito de Deus.
O Espiritismo não coloca então, como princípio absoluto, senão aquilo que é demonstrado pela evidência, ou que ressalta logicamente da observação. Tocando em todos os ramos da economia social, aos quais prestou o apoio de suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que elas sejam, chegadas ao estado de verdades práticas, e saídas do domínio da utopia, sem isso se suicidaria; em cessando de ser o que ele é, mentiria à sua origem e ao seu objetivo providencial. O Espiritismo, marchando com o progresso, não será jamais ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe mostrarem que está em erro sobre um ponto, ele se modificará nesse ponto; se uma nova verdade se revela, ele a aceita.” R. E. 1869, p. 258: “O Espiritismo não é mais solidário com aqueles que prazam em se dizerem espíritas, do que a medicina o é com os charlatães que a exploram, nem do que a saudável religião o é com os abusos ou mesmo com os crimes cometidos em seu nome.
Não reconhece por seus adeptos senão os que colocam em prática seus ensinamentos, isto é, que trabalham para sua própria melhora moral, esforçando-se em vencer suas más inclinações, ser menos egoístas e menos orgulhosos, mais doces, mais humildes, mais pacientes, mais benevolentes, mais caridosos para com o próximo, mais moderados em todas as questões, porque este é o sinal característico do verdadeiro Espírita.” R.
E. 1869, p. 25: “O conhecimento das leis que regem o princípio espiritual se relaciona de uma maneira direta à questão do passado e do porvir do Homem. Sua vida está limitada à existência atual? Entrando neste mundo sai ele do nada, e reentra no nada ao deixá-lo? Já tinha vivido antes e viverá outra vez? Como viverá e em que condições?
Em uma palavra, de onde veio e para onde irá? Por que está sobre a Terra e por que sofre? Tais são as questões que cada um se põe porque têm, para todo mundo, um interesse capital, e que nenhuma doutrina deu ainda uma solução racional. Isto que dá o Espiritismo, apoiado em fatos, satisfazendo às exigências da lógica e da justiça mais rigorosa, é uma das causas principais da rapidez de sua propagação. O Espiritismo não é uma concepção pessoal nem o resultado de um sistema preconcebido.
É a resultante de milhares de observações feitas em todos os pontos do globo e que convergem para o centro que os colige e coordena. Todos os seus princípios constituintes, sem exceção, são deduzidos da experiência. A experiência sempre tem precedido a teoria. O Espiritismo, assim se pensa, desde seu início, tem raízes por toda parte; a história não oferece nenhum exemplo de uma doutrina filosófica ou religiosa que tenha, em dez anos, reunido um tão grande número de adeptos; e entretanto não empregou, para se fazer conhecer, nenhum dos métodos vulgarmente em uso; propagou-se por si mesma, pelos simpatizantes que encontrou. É ainda evidente que a propagação do Espiritismo seguiu, desde sua origem, uma marcha constantemente ascendente, malgrado tudo que se fez para o entravar e desnaturar seu caráter, visando desacreditá-lo na opinião pública.
É mesmo notável que tudo que se fez com esse propósito lhe favoreceu a difusão; o barulho que foi feito na ocasião levou as pessoas, que nunca haviam escutado dele falar, a conhecerem-no; quanto mais se o há difamado ou ridicularizado, quanto mais as declamações tenham sido violentas, mais se instigou a curiosidade; e como só podia sair ganhando no exame, resultou que seus adversários se fizeram, sem o querer, os seus ardentes propagadores; se as diatribes não lhe trouxeram nenhum prejuízo, foi porque, estudando-o em sua fonte verdadeira, se encontrou tudo diferente daquilo que havia sido sustentado. Na luta que sustentou, as pessoas imparciais constataram sua moderação: nunca usou de represálias contra os seus adversários nem devolveu injúria com injúria. O Espiritismo é uma Doutrina filosófica que tem conseqüências religiosas, como toda filosofia espiritual; por isso mesmo, toca nas bases fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma e a vida futura; mas não é neste ponto uma religião constituída, visto que não há culto, nem rituais, nem templo, e que, entre seus adeptos, não há nenhum padre ou bispo. Essas qualificações são pura invenção da crítica. Só é espírita quem simpatiza com os princípios da Doutrina, e quem nela conforma sua conduta.
É uma opinião, como qualquer outra, que cada um deve ter o direito de professar, como se o tem de ser judeu, católico, protestante, fourierista, sansimoniano, voltariano, cartesiano, deísta e mesmo materialista. O Espiritismo proclama a liberdade de consciência como um direito natural, e a reclama para os seus, como para todo o mundo. Respeita todas as convicções sinceras, e demanda para si a reciprocidade. Da liberdade de consciência decorre o direito ao livre exame em matéria de fé. O espiritismo combate o princípio da fé cega, que impõe ao homem a abdicação de seu próprio julgamento; diz que toda fé imposta é sem raiz.
É por isso que inscreveu na lista de suas máximas: “Não há fé inabalável senão aquela que pode enfrentar a razão face a face em todas as épocas da humanidade.” Conseqüente com seus princípios, o Espiritismo não se impõe a ninguém; ele quer ser aceito livremente e por convicção. Expõe suas doutrinas e recebe aqueles que vêem a ele voluntariamente. Não procura tirar ninguém de suas convicções religiosas; não se dirige àqueles que têm uma fé e a quem essa fé satisfaz, mas àqueles que, não estando satisfeitos do que se lhes foi dado, procuram qualquer coisa melhor.” – 0 – Para completar este estudo sobre Allan Kardec e sua obra, e precisar o propósito que o mestre queria assinar ao Espiritismo, cremos ser útil reproduzir, para terminar, as passagens seguintes do último capítulo de A Gênese – “Os tempos são chegados”:
Nº 14: A vida espiritual é a vida normal e eterna do Espírito, e a encarnação não é senão uma forma temporária de sua existência. Exceto pela vestimenta exterior, há, pois, identidade entre os encarnados e os desencarnados; são as mesmas individualidades sob dois aspectos diferentes, pertencendo tanto ao mundo visível, quanto ao mundo invisível, se reencontrando seja num, seja no outro, convergindo num e no outro ao mesmo propósito, pelos meios apropriados à sua situação. Desta lei decorre aquela da perpetuidade da relação entre os seres; a morte não os separa e não dá término às suas relações simpáticas nem aos seus deveres recíprocos. Daí a SOLIDARIEDADE do todos por um, e de um por todos, daí também a FRATERNIDADE. Os homens não viverão felizes sobre a Terra senão quando esses dois sentimentos tiverem entrado em seus corações e nos seus costumes, porque então o conformarão a suas leis e suas instituições. Isto será um dos principais resultados da transformação que se opera.
Mas como conciliar os deveres de solidariedade e da fraternidade com a crença de que a morte tornaria todos os homens estranhos uns aos outros? Pela lei da perpetuidade das relações que une todos os seres, o Espiritismo funda este duplo princípio sobre as próprias leis da natureza. Ele fez disso não só um dever mas uma necessidade. Por aquela da pluralidade das existências, o homem se relaciona a tudo que fez e a tudo que fará, aos homens do passado e aos homens do porvir; não pode mais dizer que não tem nada em comum com aqueles que morreram, uma vez que uns e outros se reencontram sem cessar, neste mundo e no outro, para ascenderem juntos a escada do progresso e se prestarem um apoio mútuo. A fraternidade não é mais circunscrita a alguns indivíduos que o acaso reúne durante a duração efêmera da vida; ela é perpétua como a vida do Espírito, universal como a humanidade, que constitui uma grande família em que todos os membros são solidários uns aos outros, qualquer que seja a época na qual morreram.
Tais são as idéias que ressaltam do Espiritismo, e que ele suscitará entre todos os homens quando estiver universalmente disseminado, compreendido, ensinado e praticado. Com o Espiritismo, a fraternidade, sinônima da caridade pregada pelo Cristo, não é mais uma palavra vã; ela tem sua razão de ser. Do sentimento da fraternidade nasce aquele da reciprocidade e dos deveres sociais, de homem a homem, de pessoa a pessoa, de raça a raça; estes dois sentimentos bem compreendidos forçosamente farão as instituições mais proveitosas ao bem estar de todos.” Nº 15: A fraternidade deve ser a pedra angular da nova ordem social; mas, não há fraternidade real, sólida, efetiva, se não estiver assentada sobre uma base inabalável; essa base é a fé, não a fé em tais ou tais dogmas particulares, que mudam com os tempos e os povos e que se apedrejam mutuamente, porque, em se anatematizando, alimentam o antagonismo; mas a fé nos princípios fundamentais que todo o mundo pode aceitar: Deus, a alma, o porvir, O PROGRESSO INDIVIDUAL, INDEFINIDO, A PERPE- TUIDADE DAS RELAÇÕES ENTRE OS SERES.
Quando todos os homens estiverem convencidos de que Deus é o mesmo para todos, de que esse Deus, soberanamente justo e bom, não pode querer nada de injusto, que o mal vem dos homens e não dele, se considerarão como os filhos do mesmo Pai e se estenderão as mãos. Essa a fé que o Espiritismo dá, e que será daqui por diante o eixo em torno do qual girará o gênero humano, quaisquer que sejam seus modos de adoração e suas crenças particulares, que o Espiritismo respeita, mas de que não se ocupa. Somente desta fé pode sair o verdadeiro progresso moral, porque somente ela oferece uma sanção lógica aos direitos legítimos e aos deveres; sem ela, o direito é determinado pela força; o dever, um código humano imposto pela pressão. Sem ela que é o homem? Um pouco de matéria que se dissolve, um ser efêmero que só passa; mesmo o gênio não é mais que uma chama que brilha um instante para se extinguir para sempre; não há, certamente, motivo para valorizá-lo a seus próprios olhos.
Com tal pensamento, onde estão realmente os direitos e os deveres? Qual é o objetivo do progresso? Somente essa fé fez o homem sentir sua dignidade pela perpetuidade da progressão de seu ser, não em um porvir mesquinho e circunscrito à personalidade, mas grandioso e esplêndido: esse pensamento o eleva acima da Terra; ele se sente crescer sonhando que possui sua parte no universo; que esse universo é seu domínio que ele poderá percorrer um dia, e que a morte não fará dele uma nulidade, ou um ser inútil a si mesmo e aos outros. O progresso intelectual, realizado até este dia nas mais largas proporções, é um grande passo, e marca uma primeira fase da Humanidade; mas sozinho é impotente para regenerá-la; enquanto o homem estiver dominado pelo orgulho e o egoísmo, utilizará sua inteligência e seus conhecimentos para proveito de suas paixões e de seus interesses pessoais; por isso que os aplica no aperfeiçoamento de meios de prejudicar os outros e de se destruir entre si.
SOMENTE O PROGRESSO MORAL PODE ASSEGURAR AOS HO- MENS A FELICIDADE NA TERRA, COLOCANDO UM FREIO ÀS PAI- XÕES MÁS; SOMENTE ELE PODE FAZER REINAR ENTRE OS HOMENS A CONCÓRDIA, A PAZ, A FRATERNIDADE. É ele que derrubará as barreiras entre os povos, que fará cair os preconceitos de casta e calar os antagonismos de seitas, ensinando os homens a se considerarem irmãos chamados a se auxiliarem mutuamente e não a viver à custa uns dos outros. Será ainda o progresso moral, secundado aqui pelo progresso da inteligência, que reunirá os homens numa mesma crença estabelecida sobre as verdades eternas, não sujeitas a controvérsias e, por isso mesmo, aceita por todos. A unidade de crença será o laço mais forte, o fundamento mais sólido da fraternidade universal, ferida desde todos os tempos pelos antagonismos religiosos que dividem os povos e as famílias, que fazem ver no próximo inimigos a serem evitados, combatidos, exterminados, em vez de irmãos a serem amados.”
Notas:
1 Este item 14 não corresponde ao item de mesmo número da versão em português (37ª edição da FEB, 5ª edição francesa), não tendo sido mesmo encontrado em nenhuma parte da Gênese. O item 15 que se segue corresponde aos itens 17 a 19 da Gênese. (Nota do tradutor)
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.