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Capítulo 2 de 4

Parte 2 de 4

Conselhos, Reflexões e Máximas · Allan Kardec

Mesmo o apoio da imprensa não os teria salvado do naufrágio, enquanto que, mesmo privados desse apoio, não deixaram de fazer um caminho rápido, porque tiveram o apoio dos bons Espíritos cuja boa vontade compensou, e ultrapassou, a má vontade dos homens. Assim o será de todas as idéias emanadas dos Espíritos e dos homens, que não puderem suportar a prova desse controle, do qual ninguém pode contestar o poder.” R. E. 1859, p. 176: “Os Espíritos são aquilo que são, e não podemos mudar a ordem das coisas; não sendo todos perfeitos, não aceitamos suas palavras senão sob análise e não com a credulidade das crianças; julgamos, comparamos, tiramos as conseqüências de nossas observações, e mesmo seus erros são para nós ensinamentos, porque não fazemos abnegação de nosso discernimento. Essas observações se aplicam igualmente a todas as teorias científicas que os Espíritos possam dar. Seria muito cômodo ter apenas que os interrogar para encontrar a ciência toda feita, e para possuir todos os segredos industriais: não adquirimos a ciência senão ao preço do trabalho e das pesquisas; sua missão não é de nos livrar desta obrigação.

Sabemos aliás, que não somente nem todos não sabem tudo, mas que há entre eles, como entre nós, falsos sábios, que crêem saber aquilo que não sabem, e falam daquilo que ignoram com o mais imperturbável desembaraço. Um Espírito poderia então dizer que é o Sol que gira em torno da Terra e não o contrário, e sua teoria não seria mais verdadeira porque vinda de um Espírito. Que aqueles que nos supõem uma credulidade assim pueril, saibam pois que tomamos toda opinião exprimida por um Espírito por uma opinião individual; que não a aceitamos senão depois de a haver submetido ao controle da lógica e dos meios de investigação que a própria ciência Espírita nos forneceu.” R. E. 1859, p. 178: “Nossos estudos nos ensinam que o mundo invisível que nos cerca reage constantemente sobre o mundo visível; no-lo mostram como uma das forças da Natureza; conhecer os efeitos desta força oculta que nos domina e nos subjuga com nosso desconhecimento não é ter a chave de mais um problema, a explicação de uma multidão de fatos que passam desapercebidos? Se esses efeitos podem ser funestos, conhecer a causa do mal não é ter um meio de se prevenir, como o conhecimento das propriedades da eletricidade nos tem dado o meio de atenuar os efeitos desastrosos do raio?

Se então sucumbirmos, não poderemos nos queixar senão de nós mesmos, porque não teremos a ignorância por desculpa. O perigo está no império que os maus Espíritos impõem sobre os indivíduos, e esse império não é somente funesto do ponto de vista dos interesses da vida material. A experiência nos ensina que jamais é impunemente que alguém se abandona à sua dominação; porque suas intenções não podem nunca ser boas. Uma de suas táticas para chegar a seus fins é a desunião, porque sabem muito bem que poderão facilmente tirar vantagens daquele que está privado de apoio; também, seu primeiro cuidado, quando querem se apoderar de alguém, é sempre o de lhe inspirar a desconfiança e a antipatia por quem possa desmascará-lo com esclarecimentos, por conselhos salutares. Uma vez senhores do terreno, podem, a seu gosto, fasciná-lo com promessas sedutoras, subjugá-lo lisonjeando suas inclinações, aproveitando para isso todos os pontos fracos que encontram, para melhor fazê-lo sentir em seguida a amargura das decepções, afligi-lo em suas afeições, humilhá-lo em seu orgulho e, freqüentemente, elevá-lo por um momento senão para o precipitar de mais alto.” Para se prevenir contra tais perigos, Allan Kardec nos dá o seguinte sábio conselho: R.

E. 1859, p. 180: “Direi primeiro que, segundo o seu conselho – o conselho de seus Guias – Eu não aceito jamais nada sem exame e sem controle; não adoto uma idéia a não ser que ela me pareça racional, lógica, se está de acordo com os fatos e as observações, se nada de sério a vem contradizer. Mas meu julgamento não poderia ser um critério infalível; o consentimento que tenho encontrado junto de uma multidão de gente mais esclarecida do que eu é para mim uma primeira garantia; encontro uma outra, não menos preponderante, no caráter das comunicações que me têm sido feitas desde que me ocupo com o Espiritismo; jamais, posso dizê-lo, escapou uma única dessas palavras, um só desses sinais pelos quais se traem os Espíritos inferiores, mesmo os mais astuciosos; jamais dominação; jamais conselhos equivocados ou contrários à caridade e à benevolência, jamais prescrições ridículas; longe disso, não encontrei neles senão pensamentos grandes, nobres, sublimes, isentos de pequenez e mesquinharia; em uma palavra, suas relações comigo, nas menores, como nas maiores coisas, têm sido sempre tais que, se tivesse sido um homem que me houvesse falado, eu o teria pelo melhor, o mais sábio, o mais prudente, o mais moral e o mais iluminado.

Eis, senhores, os motivos de minha confiança, corroborada pela identidade de ensinamento dado a uma multidão de outras pessoas, antes e depois da publicação de minhas obras...” R. E. 1859, p. 182: “Pode-se diferir de opinião sobre pontos da ciência sem se morder e se atirar pedras; é mesmo muito pouco digno e muito pouco científico fazê-lo. Busque de seu lado como buscamos do nosso; o porvir dará razão àquele de direito.

Se nos enganamos, não tenhamos o tolo amor-próprio de nos obstinar com idéias falsas; mas há princípios sobre os quais se está certo de não se enganar: são o amor do bem, a abnegação, a abjuração de todo sentimento de inveja e ciúme; esses princípios são os nossos, e com esses princípios pode-se sempre simpatizar sem se comprometer; é o laço que deve unir todos os homens de bem, qualquer que seja a divergência de suas opiniões: somente o egoísmo coloca entre eles uma barreira intransponível.” R. E. 1859, p. 183: “Onde quer que chegue, minha vida está consagrada à obra que empreendemos, e serei feliz se meus esforços puderem ajudar a fazê-la entrar na via séria que é sua essência, a única que poderá assegurar seu porvir. O objetivo do Espiritismo é fazer melhores aqueles que o compreendem; tratemos de dar o bom exemplo e de mostrar que para nós a Doutrina não é letra morta; em uma palavra sejamos dignos dos bons Espíritos, se queremos que os bons Espíritos nos assistam. O bem é uma couraça contra a qual virão sempre se quebrar as armas da malevolência.” R. E. 1865, p. 66: “As idéias do homem são em razão do que ele sabe; como em todas as descobertas importantes, a da construção dos mundos deveu dar-lhes um outro curso.

Sob o império desses novos conhecimentos, as crenças devem se modificar; o céu foi transferido. A região das estrelas sendo sem limites não pode mais lhe servir. Onde ele está? Diante desta questão, todas as religiões permanecem mudas. O Espiritismo vem resolvê-la demonstrando o verdadeiro destino do homem.

A natureza deste último e os atributos de Deus sendo tomados por ponto de partida, se chega à conclusão. O homem é composto do corpo e do Espírito. O Espírito é o ser principal, o ser da razão, o ser inteligente; o corpo é o envelope material que reveste temporariamente o Espírito para o cumprimento de sua missão sobre a Terra e a execução do trabalho necessário ao seu avanço. O corpo usado se destrói e o Espírito sobrevive a essa destruição. Sem o Espírito, o corpo não é senão uma matéria inerte, como um instrumento privado do braço que o faz agir; no corpo, o Espírito é tudo: a vida e a inteligência.

Deixando o corpo, ele reentra no mundo espiritual de onde tinha saído para se encarnar. Há então o mundo corpóreo, composto dos Espíritos encarnados, e o mundo espiritual, formado dos Espíritos desencarnados. Os Espíritos são criados simples e ignorantes, mas com a aptidão de tudo adquirir e a progredir em virtude de seu livrearbítrio. Pelo progresso, adquirem novos conhecimentos, novas faculdades, novas percepções e, em conseqüência, novos gozos desconhecidos aos Espíritos inferiores; eles vêem, ouvem, sentem e compreendem o que os Espíritos atrasados não podem nem ver, nem ouvir, nem sentir, nem compreender. A felicidade está em razão do progresso alcançado; de sorte que, de dois Espíritos, um pode não estar tão feliz quanto o outro, unicamente porque não é tão avançado intelectualmente e moralmente, sem que tenham necessidade de estar cada um num lugar distinto.

Ainda que estando ao lado um do outro, um pode estar nas trevas, ao passo que tudo é resplendente ao redor do outro, absolutamente como para um cego e um vidente que se dão a mão; um percebe a luz, que não causa nenhuma impressão sobre seu vizinho. A felicidade dos Espíritos sendo inerente às qualidades que possuem, eles a haurem por toda parte onde se encontrem, na superfície da Terra, no meio dos encarnados ou no espaço.” R. E. 1865, p. 37: “A Doutrina Espírita muda inteiramente a maneira de encarar o porvir. A vida futura não é mais uma hipótese, mas uma realidade; o estado das almas após a morte não é mais um sistema, mas um resultado da observação. O véu foi levantado; o mundo invisível nos aparece em toda sua realidade prática; não são os homens que o descobriram por esforço de uma concepção engenhosa; foram os próprios habitantes desse mundo que vieram nos descrever sua situação.

Nós os vemos em todos os graus da escala espiritual, em todas as fases de felicidade ou de infelicidade; assistimos a todas as peripécias da vida de além-túmulo. Aí está para os espíritas a causa da calma com a qual eles encaram a morte, a serenidade de seus derradeiros instantes sobre a Terra. O que os sustenta não é somente a esperança, é a certeza; sabem que a vida futura não é senão a continuação da vida presente em melhores condições, e a esperam com a mesma confiança que esperam o alvorecer do Sol depois de uma noite de tempestade. Os motivos dessa confiança estão nos fatos de que são testemunhas e na concordância desses fatos com a lógica, a justiça e a bondade de Deus e as aspirações íntimas do homem.” R. E. 1865 p. 41: “O Espiritismo não se afastará da verdade e não terá nada a temer das opiniões contraditórias, uma vez que sua teoria científica e sua doutrina moral são uma dedução dos fatos escrupulosamente e conscienciosamente observados, sem preconceitos nem sistemas preconcebidos.

É diante de uma observação mais completa que todas as teorias prematuras e arriscadas, eclodidas na origem dos fenômenos espíritas modernos, caíram e vieram se fundir na imponente unidade que existe hoje e contra a qual não se vêem mais senão raras individualidades que diminuem todos os dias. As lacunas que a teoria atual pode ainda encerrar se completarão da mesma maneira. O Espiritismo está longe de haver dito sua última palavra quanto às suas conseqüências, mas está inabalável nesta base, porque esta base se assenta sobre os fatos. Que os espíritas fiquem, pois, sem receio: o porvir é para eles; que deixem seus adversários se debater sob o peso da verdade que os ofusca, porque toda negação é impotente contra a evidência que triunfa inevitavelmente pela força das coisas. É uma questão de tempo, e neste século o tempo caminha a passos de gigante sob o impulso do progresso.” R.

E. 1868, p. 209: “O Espiritismo, por sua natureza e seus princípios, é essencialmente pacífico; é uma idéia que se infiltra sem ruído, e se encontra numerosos adeptos, é porque agrada; jamais fez declamações, nem propaganda, nem qualquer encenação; forte pelas leis naturais sobre as quais se apóia, se vê crescer sem esforços nem abalos, não vai atrás de ninguém; não violenta nenhuma consciência; diz aquilo que é, e espera que venham a ele. Todo o ruído que é feito ao seu redor é obra de seus adversários; se é atacado, deve se defender, mas sempre o fez com calma, moderação e apenas pelo raciocínio, jamais se afastou da dignidade que é própria de toda causa que tem a consciência de sua força moral; jamais usou de represálias restituindo injúrias com injúrias, maus procedimentos com maus procedimentos. Não é esse, convenhamos, o caráter ordinário dos partidos inquietos por natureza, fomentando a agitação, e a quem tudo é bom para atingir aos seus fins?

Mas desde que lhe demos este nome – de partido – o aceita, certo que não o desonrará por nenhum excesso; porque repudiaria qualquer um que disso se prevalecesse para suscitar o menor problema. O Espiritismo prosseguia em sua rota sem provocar nenhuma manifestação pública, aproveitando totalmente a publicidade que lhe davam seus adversários; quanto mais sua crítica fosse zombeteira, acerba, virulenta, mais excitava a curiosidade daqueles que não o conheciam, e que, para saber que opinião se ter sobre essa, assim dizendo, nova excentricidade, iam simplesmente se informar na fonte, isto é, nas obras especiais; se estudava, e se encontrava totalmente outra coisa que não aquilo que se estava pretendendo dele dizer.

É um fato notório que as declamações furiosas, os anátemas e as perseguições ajudaram fortemente à sua propagação, porque, em lugar de dissuadir, provocavam o exame, não fosse isso que atrai um fruto defendido. As massas têm sua lógica; dizem que se uma coisa nada fosse, dela não se falaria, e medem sua importância precisamente pela violência dos ataques de que são objeto e pelo esforço que causa a seus antagonistas.” P, E. 1866, p. 114: “Inscrevendo no frontispício do Espiritismo a lei suprema do Cristo, abrimos a via do Espiritismo Cristão; fomos pois instituídos a lhe desenvolver os princípios, como também os caracteres do verdadeiro espírita sob esse ponto de vista. Que outros possam fazer melhor do que nós, não iremos contra, porque jamais dissemos: “Fora de nós não há verdade”.

Nossas instruções sendo, pois, para aqueles que as acham boas, são aceitas livremente, e traçamos uma rota sem restrições, segue-a quem quer; damos conselhos àqueles que no-los pedem, e não àqueles que crêem poder dispensá-los; não impomos nada a ninguém, não temos qualidade para isso. Quanto à supremacia, ela é toda moral, e na adesão dos que partilham nossa maneira de ver, não somos investidos, por isso mesmo, de nenhum poder oficial, não solicitamos nem reivindicamos nenhum privilégio; não nos concedemos nenhum título, e o único que tomamos com os partidários de nossas idéias é aquele de irmão em crença; se nos consideram como seu chefe, é em conseqüência da posição que nos dão nosso trabalho e não em virtude de uma decisão qualquer.

Nossa posição é aquela que cada um podia ter antes de nós; nosso direito, aquele que todo mundo tem de trabalhar como entende e de correr o risco do julgamento público.” R. E. 1866, p. 299: “Ele não disse: Fora do Espiritismo não há salvação, mas com o Cristo: Fora da caridade não há salvação, princípio de união, de tolerância, que unirá os homens dentro de um sentimento de fraternidade, em lugar de os dividir em seitas inimigas. Por este outro princípio: Não há fé inabalável senão aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade, ele destrói o império da fé cega que aniquila a razão, da obediência passiva que embrutece; ele emancipa a inteligência do homem e levanta sua moral.” R. E. 1868, p. 377: “Acrescentamos que a tolerância, conseqüência da caridade, que é a base da moral espírita, lhe fez como dever respeitar todas as crenças. Querendo ser aceito livremente por convicção e não por contrição, proclamando a liberdade de consciência como um direito natural imprescindível, disse: Se tenho razão, os outros acabarão por pensar como eu; se estiver errado, acabarei por pensar como os outros.

Em virtude desses princípios, não lançando pedra em ninguém, não dará nenhum pretexto a represálias, e deixará aos dissidentes toda a responsabilidade de suas palavras e de seus atos.” Os amigos desastrados R. E. 1863, p. 74: “Dessa forma, se ninguém pode deter a marcha geral do Espiritismo, são as circunstâncias que lhe podem trazer entraves parciais, como uma pequena barragem que pode diminuir o curso de um rio sem o impedir de escoar. Dessa espécie são os passos inconsiderados de certos adeptos, mais zelosos que prudentes, que não calculam bem a importância de seus atos ou de suas palavras; por isso produzem sobre as pessoas ainda não iniciadas na Doutrina uma impressão desfavorável, bem mais própria a afastá-los que as diatribes dos adversários. O Espiritismo está, sem dúvida, muito difundido, mas o seria ainda mais se todos os adeptos tivessem sempre escutado os conselhos da prudência e soubessem se colocar em uma sábia reserva. É preciso, sem dúvida, ter em conta a intenção, mas é certo que mais de um tem justificado o provérbio: Mais vale um inimigo declarado do que um amigo desastrado.

O pior disto, é fornecer as armas aos adversários que habitualmente sabem explorar uma falta de jeito. Não seria pois excessivo recomendar aos espíritas para refletir maduramente antes de agir; em tal caso, manda a prudência o não referir-se à sua opinião pessoal. Hoje, que de todos os lados se formam grupos ou sociedades, nada é mais simples que se harmonizar antes de agir. O verdadeiro Espírita, não tendo em vista senão o bem da coisa, sabe fazer abnegação do amor-próprio; crer em sua própria infalibilidade, recusar se render à opinião da maioria e persistir em um caminho que se demonstra mau e comprometedor, não é a postura de um verdadeiro espírita; isto seria fazer prova de orgulho se não for de fato uma obsessão.” Allan Kardec não pára de nos colocar em guarda contra as comunicações de certas categorias de Espíritos e nos recomenda a cada instante a sempre passar todos os seus ditados pelo cadinho da consciência e da razão. R.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.