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Capítulo 2 de 26

Parte 2 de 26

Os Mensageiros · Chico Xavier, pelo espírito André Luiz

Aniceto Comunicando meus novos propósitos a Tobias, verifiquei a satisfação que lhe transpareceu do olhar. – Fique tranqüilo – disse, bondoso –, você possui a quantidade necessária de horas de trabalho para justificar o pedido. Temos, por nossa vez, grande número de colegas na Comunicação. Não será difícil localizá-lo com instrutores amigos. Conhece o nosso estimado Aniceto? – Não tenho esse prazer. – É antigo companheiro de serviço – continuou informando, amável – e esteve conosco na Regeneração, algum tempo. Em seguida, devotou-se a tarefas sacrificiais no Ministério do Auxílio e, hoje, é instrutor competente na Comunicação, onde vem prestando concurso respeitável. Conversarei, a respeito, com o Ministro Genésio. Não tenha dúvidas. Seu desejo, André, é muito nobre aos nossos olhos. O prestimoso companheiro deixou-me num mar de contentamento indefinível. Comecei a compreender o valor do trabalho. A amizade de Narcisa e Tobias era tesouro de inapreciável grandeza, que o espírito de serviço me havia descortinado ao coração. Novo setor de luta desdobrar-se-ia à minh’alma. Não deveria perder a oportunidade. “Nosso Lar” estava cheio de entidades ansiosas por aquisições dessa natureza.

Não seria justo entregar-me, de boa vontade, ao novo aprendizado? Além disso, certo da minha volta à carne, em futuro talvez não distante, a providência constituiria realização de profundo interesse ao meu aproveitamento geral. Misteriosa alegria dominava-me todo, sublimada esperança iluminava-me os sentimentos. Aquele desejo ardente de colaborar em benefício dos outros, que Narcisa me acendera no íntimo, parecia encher, agora, a taça vazia do meu coração. Trabalharia, sim. Conheceria a satisfação dos cooperadores anônimos da felicidade alheia. Procuraria a prodigiosa luz da fraternidade, através do serviço às criaturas. À noite, fui procurado por Tobias, sempre generoso, trazendo-me a confortadora aquiescência do Ministro Genésio. Com sorrisos afetuosos, convidou-me a acompanhá-lo. Conduzir-me-ia à presença de Aniceto, para conversarmos relativamente ao assunto. Emocionadíssimo, segui para a residência da nova personagem que se ligaria fundamente à minha vida espiritual. Aniceto, ao contrário de Tobias, não se consorciara em “Nosso Lar”.

Vivia ao lado de cinco amigos que lhe foram discípulos na Terra, em edifício confortável, encravado entre árvores frondosas e tranqüilas, que pareciam postas ali para protegerem extenso e maravilhoso roseiral. Recebeu-nos com extrema gentileza, o que me causou excelente impressão. Aparentava ele a calma refletida do homem que chegou à idade madura, sem fantasias da mocidade inexperiente. Embora lhe transparecesse muita energia no rosto, revelava o otimismo sadio do coração cheio de ideais sacrossantos. Muito sereno, recebeu todas as alegações do meu benfeitor, dirigindo-me, de quando em vez, olhares amistosos e indagadores. Tobias falou longamente, comentando minha posição de ex-médico no plano terráqueo, agora em reajustamento de valores no plano espiritual. Depois de examinar-me com atenção, o orientador aduziu: – Não há o que embargar, meu prezado Tobias. No entanto, é preciso reconhecer que a solução depende do candidato. Sabe você que estamos aqui na Instituição do Homem Novo. – André está pronto e disposto – adiantou o amigo, carinhosamente. Aniceto fixou em mim o olhar penetrante e advertiu: – Nosso serviço é variado e rigoroso.

O departamento de trabalho, afeto à nossa responsabilidade, aceita somente os cooperadores interessados na descoberta da felicidade de servir. Compromete-mo-nos, mutuamente, a calar toda espécie de reclamação. Ninguém exige expressão nominal nas obras úteis realizadas e todos respondem por qualquer erro cometido. Achamo-nos, aqui, num curso de extinção das velhas vaidades pessoais, trazidas do mundo carnal. Dentro do mecanismo hierárquico de nossas obrigações, interessamo-nos tão somente pelo bem divino. Consideramos que toda possibilidade construtiva vem de nosso Pai e esta convicção nos auxilia a esquecer as exigências descabidas de nossa personalidade inferior. Identificando-me a surpresa, Aniceto esboçou um gesto significativo e continuou: – Nos trabalhos de emergência, destinados à preparação de colaboradores ativos, tenho um quadro suplementar de auxiliares, constante de cinqüenta lugares para aprendizes. No momento, disponho de três vagas. Há intensa atividade de instrução, necessária a servidores que cooperarão em socorros urgentes, na Terra. Orientadores há que se fazem acompanhar, nos serviços da crosta, por todo o pessoal em aprendizado, mas eu adoto processo diferente.

Costumo dividir a classe em grupos especializados, de acordo com a profissão familiar aos estudantes, para melhor aproveitamento no preparo e na prática. Tenho, presentemente, um sacerdote católico-romano, um médico, seis engenheiros, quatro professores, quatro enfermeiras, dois pintores, onze irmãs especializadas em trabalhos domésticos e dezoito operários diversos. Em “Nosso Lar”, a ação que nos compete é desdobrada de maneira coletiva; mas, nos dias de aplicação na crosta terrestre, não me faço seguido de todos. Naturalmente, não se negará ao engenheiro, ou ao operário, o ensejo de aquisição de conhecimentos outros, que transcendem a paisagem de realizações que lhes cabem; mas, tais manifestações devem constar do quadro de esforços espontâneos, no tempo vasto que cada qual aufere para descanso e entretenimento. Considerando, pois, o serviço atual, temos interesse em aproveitar as horas no limite máximo, não só em beneficio dos que necessitam de nosso concurso fraternal, como também a favor de nós mesmos, no que toca à eficiência. Ponderei, admirado, o curioso processo, enquanto o orientador fazia longa pausa.

Após mergulhar toda a atenção em mim, como se desejasse perceber o efeito de suas palavras, Aniceto continuou: – Este método não visa apenas a criar obrigações para os outros. Aqui, como na Terra, quem alcança a melhor porção, nas aulas e demonstrações, não é propriamente o discípulo e sim o instrutor, que enriquece observações e intensifica experiências. Quando o Ministro Espiridião me chamou a exercer o cargo, aceitei-o sob a condição de não perder tempo na melhoria e educação de mim mesmo. Desse modo, não preciso alongar-me noutras considerações. Creio haver dito o bastante. Se está, portanto, disposto, não posso recusar-me a aceitá-lo. – Compreendo seus nobres programas – respondi, comovido –, será honra para mim a possibilidade de acompanhá-lo e receber suas determinações de serviço. Aniceto esboçou a expressão fisionômica de quem atinge a solução desejada, e concluiu: – Pois bem; poderá começar amanhã. E, dirigindo-se a Tobias, acrescentou: – Encaminhe o nosso amigo, amanhã cedo, ao Centro de Mensageiros. Lá estaremos em estudo ativo e providenciarei para que André seja bonificado pelas tabelas da Comunicação. Agradecemos, satisfeitos, e, logo em seguida a Tobias, despedi-me, alimentando novas esperanças.

No Centro de Mensageiros No dia seguinte, após ouvir longas ponderações de Narcisa, demandei o Centro de Mensageiros, no Ministério da Comunicação. Acompanhava-me o prestimoso Tobias, não obstante os imensos trabalhos que lhe ocupavam o circulo pessoal. Deslumbrado, atingi a série de majestosos edifícios de que se compõe a sede da instituição. Julguei encontrar algumas universidades reunidas, tal a enorme extensão deles. Pátios amplos, povoados de arvoredo e jardins, convidavam a sublimes meditações. Tobias arrancou-me do encantamento, exclamando: – O Centro é muito vasto. Atividades complexas são desempenhadas neste departamento de nossa colônia espiritual. Não creia esteja resumida a instituição nos edifícios sob nossos olhos. Temos, nesta parte, tão somente a administração central e alguns pavilhões destinados ao ensino e à preparação em geral. – Mas esta organização imensa restringe-se ao movimento de transmissão de mensagens? – perguntei, curioso. O companheiro sorriu significativamente e esclareceu: – Não suponha se encontre aqui localizado o serviço de correio, simplesmente.

O Centro prepara entidades a fim de que se transformem em cartas vivas de socorro e auxílio aos que sofrem no Umbral, na Crosta e nas Trevas. Acreditaria, porventura, que tanto trabalho se destinasse apenas a mera movimentação de noticiário? Amplie suas vistas. Este serviço é a cópia de quantos se vêm fazendo nas mais diversas cidades espirituais dos planos superiores. Preparam-se aqui numerosos companheiros para a difusão de esperanças e consolos, instruções e avisos, nos diversos setores da evolução planetária. Não me refiro tão só a emissários invisíveis. Organizamos turmas compactas de aprendizes para a reencarnação. Médiuns e doutrinadores saem daqui às centenas, anualmente. Tarefeiros do conforto espiritual encaminham-se para os círculos carnais, em quantidade considerável, habilitados pelo nosso Centro de Mensageiros. – Que me diz? – interroguei, surpreso. – Segundo seus informes, os trabalhos de esclarecimento espiritual devem estar muitíssimo adiantados no mundo!... Fixou Tobias expressão singular, sorriu tranqüilamente e explicou: – Você não ponderou, todavia, meu caro André, que essa preparação não constitui, ainda, a realização propriamente dita.

Saem milhares de mensageiros aptos para o Serviço, mas são muito raros os que triunfam. Alguns conseguem execução parcial da tarefa, outros muitos fracassam de todo. O serviço legítimo não é fantasia. É esforço sem o qual a obra não pode aparecer nem prevalecer. Longas fileiras de médiuns e doutrinadores para o mundo carnal partem daqui, com as necessárias instruções, porque os benfeitores da Espiritualidade Superior, para intensificarem a redenção humana, precisam de renúncia e de altruísmo. Quando os mensageiros se esquecem do espírito missionário e da dedicação aos semelhantes, costumam transformar-se em instrumentos inúteis. Há médiuns e mediunidade, doutrinadores e doutrina, como existem a enxada e os trabalhadores. Pode a enxada ser excelente, mas, se falta espírito de serviço no cultivador, o ganho da enxada será inevitavelmente a ferrugem. Assim acontece com as faculdades psíquicas e com os grandes conhecimentos. A expressão mediúnica pode ser riquíssima; entretanto, se o dono não consegue olhar além dos interesses próprios, fracassará fatalmente na tarefa que lhe foi conferida.

Acredite, meu caro, que todo trabalho construtivo tem as batalhas que lhe dizem respeito. São muito escassos os servidores que toleram as dificuldades e reveses das linhas de frente. Esmagadora percentagem permanece a distância do fogo forte. Trabalhadores sem conta recuam quando a tarefa abre oportunidades mais valiosas. Algo impressionado, considerei: – Isto me surpreende sobremaneira. Não supunha fossem preparados, aqui, determinados mensageiros para a vida carnal. – Ah! Meu amigo – falou Tobias sorridente –, poderia você admitir que as obras do bem estivessem circunscritas a simples operações automáticas? Nossa visão, na Terra, costuma viciar-se no círculo dos cultos externos, na atividade religiosa. Cremos, por lá, resolver todos os problemas pela atitude suplicante. Entretanto, a genuflexão não soluciona questões fundamentais do espírito, nem a mera adoração à Divindade constitui a máxima edificação. Em verdade, todo ato de humildade e amor é respeitável e santo, e, incontestavelmente, o Senhor nos concederá suas bênçãos; no entanto, é imprescindível considerar que a manutenção e limpeza do vaso, para recolhê-las, é dever que nos assiste.

Não preparamos, pois, neste Centro, simples postalistas, mas espíritos que se transformem em cartas vivas de Jesus para a Humanidade encarnada. Pelo menos, este é o programa de nossa administração espiritual... Calei, emocionado, ponderando a grandeza dos ensinamentos. Meu companheiro, após longa pausa, prosseguiu observando: – Raros triunfam, porque quase todos estamos ainda ligados a extenso pretérito de erros criminosos, que nos deformaram a personalidade. Em cada novo ciclo de empreendimentos carnais, acreditamos muito mais em nossas tendências inferiores do passado, que nas possibilidades divinas do presente, complicando sempre o futuro. É desse modo que prosseguimos, por lá, agarrados ao mal e esquecidos do bem, chegando, por vezes, ao disparate de interpretar dificuldades como punições, quando todo obstáculo traduz oportunidade verdadeiramente preciosa aos que já tenham “olhos de ver”. A essa altura, alcançamos enorme recinto. Centenas de entidades penetravam no vasto edifício, cujas escadarias galgamos em animada conversação. Os aspectos do maravilhoso átrio impressionavam pela imponente beleza. Espécies de flores, até então desconhecidas para mim, adornavam colunatas, espalhando cores vivas e delicioso perfume.

Quebrando-me o enlevo, Tobias explicou: – As diversas turmas de aprendizes encaminham-se às aulas. Procuremos Aniceto no departamento de instrutores. Atravessamos galerias vastíssimas, sempre defrontados por verdadeiras multidões de entidades que buscavam as aulas, em palestras vibrantes. Em pequeno grupo que parecia manter conversação muito discreta, encontramos o generoso amigo da véspera, que nos abraçou sorridente e calmo. – Muito bem! – disse, alegre e bondoso – esperava o novo aluno, desde a manhãzinha. E em virtude de Tobias alegar muita pressa, o nobre instrutor explicou: – Doravante, André ficará aos meus cuidados. Volte tranqüilo. Despedi-me do companheiro, comovidamente. Notando-me o natural acanhamento, Aniceto determinou a um auxiliar de serviço: – Chame o Vicente em meu nome. E, voltando-se para mim, esclareceu: – Até agora, Vicente é o meu único aprendiz médico. Vocês ficarão juntos, em vista da afinidade profissional. Não haviam decorrido três minutos e tínhamos Vicente diante de nós. – Vicente – falou Aniceto sem afetação –, André Luiz é nosso novo colaborador. Foi também médico nas esferas carnais. Creio, pois, que ambos se encontrarão à vontade, partilhando a mesma experiência.

O interpelado abraçou-me, demonstrando extrema generosidade, e, após encorajar-me com belas palavras de estimulo, perguntou ao nosso orientador: – Quando deveremos procurá-lo para os estudos de hoje? Aniceto pensou um instante e respondeu: – Esclareça ao novo candidato os nossos regulamentos e venham juntos para as instruções, após o meio-dia.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.