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Capítulo 4 de 7

O Espiritualismo Experimental — parte 3 de 6

Os Espíritos e os Médiuns · Léon Denis

"Uma noite do mês de julho de 1918, subi a um vagão de terceira classe, na estação de Marylebene (bairro de Londres) para ir a Chesham. No fundo do compartimento se achavam sentadas duas senhoras, uma de frente para outra. Pusme a ler meu diário” The Evening Standard.”Quando o trem se aproximava de Harrow, ouvi que uma das senhoras dizia a sua acompanhante:” Permita-me: sou espírita e médium; suponho que não terá a senhora medo, mas sua mãe está sentada ao seu lado. Disse-me que passou para o Além mente, e me roga que lhe transmita algo." Recente Não esquecerei nunca a expressão da senhora a quem se dirigiam estas palavras inquietantes. Ficou pálida. Sem dúvida despertaram-lhe todos os seus preconceitos religiosos e, com uma disposição de espírito anticientífica, murmurou: "Mas eu não creio no Espiritismo. É contrário a meus princípios. Por outra parte, eu não a conheço e a senhora não conhece a mim. Como sabe a senhora que minha mãe morreu?"

"Eu sei que sua mãe passou para o Além, porque ela mesma me disse, respondeu a outra. Está sentada a seu lado, e me disse, ademais, que a senhora se chama Gracia." (Aqui lhe informou de uma comunicação pessoal que fez trocar de imediato as idéias da cética senhora. É-me impossível publicar esta comunicação, ainda que seja parte desta assombrosa revelação). Voltando-se para mim, a médium disse: "Creio conhecê-lo. 0 senhor é Mr. Wynn, de Chesham, verdade? Seu filho Ruperto veio outra noite a uma de minhas reuniões e me rogou que lhe pedisse para ter uma sessão com meu marido e comigo, em sua biblioteca e que permitisse a meu marido fotografá-lo." A senhora me falava tão tranqüilamente e de um modo tão natural como se me estivesse oferecendo uma taça de chocolate. "Senhora, disse-lhe, tanto minha senhora quanto eu teremos muito gosto em recebê-la." "A senhora Rice, que assim se chamava, veio a Chesham com seu marido. Sentamo-nos em minha biblioteca. Esta senhora que vive em Nara, Northwood, Middiesex, não havia estado nunca em nossa casa.

Eu não lhe havia dito nada de Ruperto, e lhe tinha preparadas certas perguntas para pôr à prova sua clarividência. Fazia só alguns minutos que se havia sentado, quando se manifestou Mr. W.T.Stead. Era o aspecto, os trejeitos, a voz do grande periodista, e me deu provas de identidade incontestáveis. Depois veio Ruperto, falando com seu tom familiar habitual. Respondendo as minhas perguntas, me mostrou o lugar da casa onde dormia, a gaveta onde colocava suas cartas. Falou da gata que uma vez trouxe do campo, pequenina, suja e meio morta, nos disse o nome, a cor do pelo, e nos deu uma porção de detalhes de nossa vida íntima, que a médium não podia conhecer de maneira nenhuma. Depois, obtivemos a fotografia de Ruperto, esta de forma tal que os peritos fotógrafos a quem lha mostrei, afirmaram-me que seria impossível, com todos os seus recursos, obter um resultado semelhante. Todos os membros da família e amigos de meu filho o reconheceram exatamente." Como conclusão, o pastor Wynn declara: "Antes eu cria na sobrevivência, pelo ato de fé: hoje, creio nela porque sei que é certa."

Com respeito às suas convicções religiosas, acrescenta: "Estas investigações tiveram como resultado fortificar minha crença em Cristo e no ensinamento do Novo Testamento. Hoje compreendo centenas de coisas da Bíblia que antes não podia compreender."

Capítulo III NATUREZA DA MEDIUNIDADE

Chama-se mediunidade o conjunto de faculdades que permitem ao ser humano comunicar-se com o mundo invisível. 0 médium desfruta, por antecipação, dos meios de percepção e de sensação que pertencem mais à vida do espírito que a do homem. Por isso tem o privilégio de servir de laço de união entre eles. Temos que ver neste estado o resultado da lei de evolução e não um efeito regressivo, uma tara, como crêem certos fisiologistas, que comparam os médiuns como histéricos e enfermos. Seu erro provém da grande sensibilidade; a impressão de certos médiuns provoca em seu organismo físico perturbações sensoriais e nervosas; mas isto são exceções que seria errado generalizar, porque a maioria dos médiuns possui uma boa saúde e um perfeito equilíbrio mental. Toda extensão das percepções da alma é uma preparação para uma vida mais ampla e mais elevada, uma saída aberta a um horizonte mais vasto.

Sob este ponto de vista, as mediunidades, em conjunto, representam uma fase transitória entre a vida terrestre e a vida livre do espaço. 0 primeiro fenômeno deste gênero, que chamou a atenção dos homens, foi o da visão. Por ela se revelaram desde a origem dos tempos, a existência do mundo do Além e a intervenção entre nós das almas dos mortos. Estas manifestações, ao se repetirem, deram nascimento ao culto dos espíritos, ponto de partida e base de todas as religiões. Depois, as relações entre os habitantes da Terra e do espaço se estabeleceram das mais diversas e variadas formas, que se foram desenvolvendo através das idades, sob diferentes nomes, mas todas partem de um único princípio. Por meio da mediunidade sempre existiu um laço entre ambos os mundos, uma via traçada pela qual a alma humana recebia revelações, gradualmente mais elevadas, acerca do bem e do dever, luzes cada vez mais vivas sobre seus destinos imortais.

Os grandes espíritos, por motivo de sua evolução, adquirem conhecimentos progressivamente mais amplos e se convertem em instrutores, em guias dos humanos cativos na matéria. A autoridade e o prestígio de seus ensinamentos ficam realçados ainda mais pelas profecias, as previsões que os precedem ou os acompanham. Em outra parte temos estudado detalhadamente os diferentes gêneros de mediunidade e os fenômenos que produzem. Então se pode ver como se estabeleceu a comunicação dos vivos e dos mortos; como se constitui essa fronteira ideal onde as duas humanidades, uma visível e a outra invisível, se põem em contato; como, graças a essa penetração, se estende e se esclarece nosso conhecimento da vida futura, a noção que possuímos das leis morais, que a regem, com todas as suas conseqüências e suas sanções.

Por todos os procedimentos medianímicos os espíritos superiores se esforçam em trazer a alma humana das profundidades da matéria para as altas e sublimes verdades que regem o Universo, para que se revistam dos altos fins da vida e encarem a morte sem terror, para que aprendam a desprender-se dos bens passageiros da Terra e prefiram os bens imperecíveis do espírito. -A alma não pode achar harmonia senão no conhecimento e na prática do bem e somente dessa harmonia flui para ela a felicidade. -Aos Espíritos superiores se unem as almas amantes dos parentes de mortos, cuja solicitude continua, estendendo-se sobre nós e nos assiste em nossas dolorosas lutas contra a adversidade e contra o mal. - Assim, a mediunidade bem exercida, se converte em um manancial de luzes e consolos. Por seu intermédio, as vozes do Alto nos dizem: "Escutai nossas chamadas, vós que buscais e chorais: Não estais abandonados... Temos sofrido para lograr estabelecer um meio de comunicação entre o vosso mundo esquecido e nosso mundo de recordações.

A mediunidade já não se verá enxovalhada, menosprezada, maldita, porque os homens já não poderão desconhecê-la. Ela é o único laço possível entre os vivos e nós, a quem nos chamam mortos. Esperai: não deixaremos fechar-se a porta que temos entreaberta para que em meio a vossas dúvidas e vossas inquietudes possam entrever as claridades celestes “. Depois de haver mostrado o grande papel da mediunidade, convém assinalar as dificuldades que há em sua aplicação. Em primeiro lugar são escassos os bons médiuns. Não porque faltem faculdades notáveis, senão porque logo ficam sem utilidade prática por falta de estudos sérios e profundos. Muitos médiuns se escondem nos círculos íntimos, nas reuniões familiares, ao abrigo das exigências exageradas e dos contatos desagradáveis. Quantas jovens de organismo delicado, quantas senhoras que conhecemos, retraídas pelo temor à crítica e às más línguas; afogam e perdem bonitas faculdades medianímicas por não empregá-las bem, com uma boa direção!

Os adversários do Espiritismo sempre se dedicaram a denegrir médiuns, acusando-os de fraude, procurando fazê-los passar por neuróticos e tratando por todos os meios de desviá-los de sua missão; sabendo que o médium é condição essencial dos fenômenos, esperam deste modo destruir o Espiritismo em seu alicerce. É importante que façamos fracassar esta tática e, para isso, temos de dar ânimo e ajuda aos médiuns, rodeando o exercício de suas faculdades de todas as precauções necessárias. A guerra ceifou milhões de vidas em plena juventude e virilidade. As epidemias, os açoites de todas as classes, deixaram enormes vazios no seio das famílias. Todos estes espíritos inumeráveis tratam de se manifestar àqueles a quem amaram na Terra, para provar-lhes seu afeto, sua ternura, para secar suas lágrimas, para acalmar suas dores. Por outra parte, as mães, as viúvas, as noivas, os órfãos, estendem suas mãos e seus pensamentos para o céu, na angustiosa espera de notícias de seus mortos, ávidos de recolher provas de sua presença, testemunhos de sua sobrevivência.

Quase todos possuem faculdades latentes e ignoradas que poderiam permitir-lhes estabelecer relações com seus mortos. Por toda as partes existem possibilidades de estabelecer um laço entre estas duas multidões de seres que se buscam, se atraem e desejam fundir seus sentimentos e seus corações em uma comum harmonia. 0 Espiritismo e a mediunidade são os únicos que podem realizar esta doce e santa comunhão e trazer a todos a paz e a serenidade da alma, que dá fortaleza e convicção. É sobretudo entre essas vítimas da guerra cruel, no seio do povo, entre os humildes, os pequenos, os modestos, onde há que se buscar os recursos psíquicos que permitam a nossos amigos do espaço proporcionar-nos provas de persistência de sua vitalidade e a prova de nossa reunião futura. Quantas faculdades dormem silenciosamente no fundo desses seres, esperando a hora de abrir se, de florescer, de produzir frutos de verdade e de beleza moral! Neste aspecto, grande é a tarefa que cabe aos espíritos esclarecidos, aos abnegados crentes, aos apóstolos da grande doutrina.

Seu dever é sacudir a indiferença de uns, a apatia de outros, ir ao encontro de todos esses agentes obscuros da obra de renovação, instruí-los, pôr em ação os recursos escondidos, as riquezas insuspeitadas que possuem e conduzi-los ao fim assinalado. Para cumprir esta tarefa, há que possuir ciência e fé. Graças a esta última, e por análogos procedimentos, os apóstolos dos primeiros tempos do Cristianismo suscitaram ao seu redor "os milagres" e, com eles, o entusiasmo religioso, que devia transformar a face do globo. Em nossos dias, é necessário não somente a fé ardente, senão também o conhecimento das leis precisas que regem os mundos visível e invisível, com o fim de facilitar sua harmonia, sua recíproca interpenetração, separando da experimentação os elementos de erros, de perturbação e de confusão. Com um adestramento gradual, veremos ampliar-se o círculo das percepções e das sensações psíquicas, e ficará evidenciada a mais imponente certeza da perenidade do princípio vital que nos anima. A alma humana aprenderá a conhecer as sombras e os esplendores do Mais- Além e, neste conhecimento, achará uma trégua para suas dores e um manancial de força na desgraça em frente à morte.

Capítulo IV PRÁTICA DA MEDIUNIDADE

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.