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Capítulo 3 de 5

Parte 3 de 4

O Progresso · Léon Denis

Vós sabeis que essas religiões se excluem mutuamente, combatendo-se e perseguindo-se quanto podem. Cada uma delas pretende ser a única verdadeira, a única legítima, e cada uma delas acusa as outras de erro ou impostura e as outras, por sua vez, lhe devolvem suas acusações e seus anátemas. Entretanto essas religiões, tão hostis entre si, entendem-se todas num ponto: é quando se trata de oprimir o pensamento, de paralisar sua evolução secular, de combater o pensamento em suas aspirações, em seus esforços para o progresso. Todavia foram homens de progresso que as fundaram, espíritos sequiosos de justiça e apaixonados pelo bem que as estabeleceram. Eles se chamaram Cristo, Buda, Confúcio.

Eles trabalharam e sofreram pela humanidade, porém, quando partiram, seus sucessores se apoderaram de suas idéias e as modificaram ao bel-prazer, fazendo delas um instrumento de servidão, de domínio; o culto e a fé ficaram como uma pedra sepulcral que as castas sacerdotais quiseram colocar sobre o pensamento e a liberdade. Porém, após séculos de silêncio e de morte, o pensamento, que não pôde morrer, despertou. Saiu do túmulo onde acreditaram tê-lo sepultado para sempre e eis que ele se ergue na luz, diante de velhas fórmulas, de dogmas obscuros, e chamando para si a humanidade inteira, ele lhe diz: Julga e sentencia entre nós. Em matéria religiosa, o problema se coloca, em nosso país, entre o Catolicismo e o livre pensamento. O Cristianismo primitivo, saído do meio do povo e que combatia a aristocracia e o sacerdócio judeu, tinha começado pelo Comunismo, pela eleição dos padres, dos padres casados.

O Catolicismo, continuador do Cristianismo, apresentou a infalibilidade papal e no Syllabus a declaração de princípios, cujo último artigo é este: “Anátema contra aqueles que pretendem que o pontífice romano deve se reconciliar com o progresso, o liberalismo e a civilização moderna.” Não me limitarei a examinar os dogmas e os ensinos do Catolicismo e cada um de vós pode dedicar-se a esse exame. Limitar-me-ei a fazer um paralelo no que nos ensina, de um lado, a religião católica e, de outro, a ciência apoiada na razão, a propósito de duas concepções essenciais que dominam toda a existência humana e toda a organização social, isto é, sobre a concepção do universo e da finalidade da vida. As idéias que fazemos sobre a organização do universo, sobre o papel que cada um de nós deve desempenhar nesse vasto teatro do mundo, tais idéias, vós compreendeis, senhores, são de uma importância capital, porque é após elas que nós devemos dirigir todos os nossos atos. É consultando-as que assinalamos uma finalidade para a vida e marchamos para esse fim. É aí que está a base de toda a civilização; é essa concepção do mundo e da vida que inspira toda a organização e fornece ao corpo social sua direção e sua forma de governo.

Portanto daí resulta que, se tal idéia está de acordo com a verdade, as leis sociais estarão calcadas em leis naturais e a harmonia reinará no mundo; se essas idéias estiverem erradas e contrárias às leis do universo, daí decorrerão o caos, a esterilidade, a decrepitude. Examinemos, então, a concepção do mundo como o Catolicismo nos revela e sobre a qual está estabelecida a sociedade monárquica, feudal e autoritária. O mundo, o universo, diz a Igreja, foi criado em seis dias e há sete ou oito mil anos, pela única vontade de Deus, que fez todas as coisas do nada. Deus, diz o catecismo do Concílio de Trento, formou os céus. Enfeitou-os com o Sol, a Lua e outros astros, para servirem de sinais, distinguindo as estações e os dias, depois segue a enumeração da obra de cada um dos seis dias da criação, durante os quais Deus fez sair da terra, num momento espontâneo, os homens, as plantas e os animais.

Assim, agradou um dia a Deus criar o mundo, porém Deus fica fora de sua obra como a obra está fora do obreiro. Esse universo, tirado do nada, pode ser destruído, aniquilado e Deus o mantém e governa através do milagre. O homem, pelo pecado original, está condenado ao sofrimento, ele não se pode salvar por si mesmo, nem merecer o céu sem o socorro da graça, isto é, do bel-prazer, e sempre diante dele, como uma ameaça terrível, aparece a perspectiva dos braseiros eternos. Assim, não há nenhuma idéia de lei, de ordem e de solidariedade. Nada além da vontade de Deus e do capricho do Todo-Poderoso.

É sobre essas noções que o mundo viveu durante vinte séculos e é sobre esses fundamentos que se edificou a sociedade da Idade Média. No que concerne à estrutura do universo, são Tomás de Aquino acrescenta que a Terra, centro do universo, está imóvel, recoberta por uma abóbada sólida, firmamentum, dividida em várias camadas, que se engastam umas nas outras, e que os astros são como centelhas, cravos de ouro colocados nessa abóbada como ornamentos. Vejamos, agora o que nos diz a ciência sobre esse mundo, sobre esse universo. A Terra é um globo de três mil léguas de diâmetro que gira sobre si mesma e gravita em torno do Sol. Em sua corrida rápida ela percorre trinta mil léguas por segundo.

Estamos longe da imobilidade e esse globo não é o único nas profundezas do céu. De todos os lados há legiões de esferas, sóis incontáveis se movimentam nos abismos do espaço. Perto deles a Terra é um grão de areia, como um corpo mesquinho na família dos corpos celestes. Entre os planetas que circulam em torno do Sol, um é setecentas vezes maior que a Terra (Saturno) e outro mil e quatrocentas vezes maior (Júpiter). Na superfície desses mundos o telescópio observa as mesmas aparências de vida existentes na Terra, havendo atmosferas carregadas de nuvens, continentes e mares.

Distinguem-se cadeias de montanhas e acúmulos de neve e de gelo que cercam os pólos desses globos. Entretanto o olhar da ciência não pára por aí; ele sonda as regiões mais recuadas do céu e em nenhuma parte descobre os limites do universo ou uma abóbada sólida. Os limites recuam na medida em que a ciência avança, marcha, e o espaço se abre sempre mais prodigioso, mais insondável. Todavia, por mais longe que a ciência lance seus olhares, por toda parte, por sobre todos os pontos dos céus, ela vê astros em quantidade infinita, isto é, mundos e mais mundos, terras, sóis, esferas dispersas aos milhões e formando grupos, famílias estelares, perto das quais a Terra e suas irmãs e nosso próprio Sol, apesar de suas mil e duzentas léguas de diâmetro, são como átomos, grãos de poeira perdidos na imensidade dos céus. No lugar de serem destinados a uma imobilidade eterna, todos esses mundos se agitam, se movem no seio das profundidades, gravitando uns em volta de outros e percorrendo milhares de léguas em sua corrida assustadora.

Assim, por toda parte, o movimento, a vida se manifestando no espetáculo grandioso de uma criação que não começou, que jamais acabará, mas que prossegue numa transformação incessante, eterna, no seio de um espaço sem limites. Se, do espetáculo desses mundos, lançarmos nossos olhares para a Terra, quantas coisas ela nos dirá. Embora pequeno, nosso planeta tem sua vida própria, sua função na imensa harmonia das esferas. Nas camadas superpostas que formam sua crosta, lemos sua história como nas folhas de um livro; seguimos, passo a passo, as fases de um desenvolvimento que durou, não seis dias, porém milhões de séculos, e vemos, não a marca de uma criação espontânea, mas de uma formação lenta, progressiva, submetida a leis imutáveis. Segundo essas leis, os mundos, como os seres, possuem seus períodos de juventude, de maturidade, de decrepitude, após os quais se dissolvem e desaparecem para dar lugar a novos astros.

Quanto aos seres que os povoam, cada um deles, em vidas sucessivas e sempre renascentes, se eleva, de degrau em degrau, na escalada magnífica dos mundos, desde as formas mais rudimentares da vida até a plenitude da existência intelectual e moral. Dessa forma o trabalho e o progresso se tornam a lei suprema do mundo; o arbitrário e o milagre desaparecem. A criação se faz através do tempo, tempo de esforços contínuos, pelo trabalho de todos os seres, solidários uns com os outros e no proveito de cada um. É assim que, no lugar de um universo criado do nada, governado pela fantasia e pela graça, no lugar de uma monarquia absoluta, a ciência nos apresenta, no infinito dos espaços e dos tempos, a imensa república dos mundos, governada por leis imutáveis, acima das quais plana essa Razão consciente, que se conhece, que se possui e que é Deus. E agora eu vos pergunto: após ter visto, no espetáculo do mundo iluminado pela ciência, manifestarem-se por toda parte esses grandes princípios universais de ordem, solidariedade, trabalho e progresso, a sociedade moderna pode ainda aceitar esses conceitos do passado, esses sistemas ultrapassados que nos apresentam o milagre e a graça planando sem cessar acima de tudo?

Podemos acreditar ainda em Josué parando o Sol, numa palavra, em todas as lendas e superstições que alimentaram nossa infância? Não, o ideal se transforma e cresce, e diante da luz de um novo dia as sombras e os fantasmas do passado vão desaparecer. O sentimento religioso não morrerá por isso, ele se tornará apenas mais racional e mais esclarecido. O próprio Cristo disse: “Um dia chegará em que o Pai não será mais adorado nem nos templos nem na montanha.” É uma alusão à hora em que o pensamento humano, livre dos liames que o prendem, se elevará mais rápido em direção à verdade e à luz, para criar a religião do futuro, isto é, a religião natural, laica, que não terá necessidade de templos nem altares, na qual cada pai de família será o padre e no seio da qual se fundirão, como rios num oceano imenso, as crenças, as seitas que dividem e separam a humanidade. Dirão, todavia, como será a moral, onde estará sua fonte, se não está mais nas religiões reveladas.

A moral, responderei, está eternamente escrita na razão e na consciência do homem e não há necessidade dos ensinamentos dogmáticos para conhecer seu dever. Escutai a voz interior que fala a cada um de nós, aos mais ignorantes como aos mais esclarecidos, dizendo-nos: Eleva-te pelo trabalho, pelo estudo e pela prática do bem. Eis aí a revelação por excelência e, bem melhor que os ensinos do dogma, é ela quem nos faz saber que nosso papel no mundo é trabalhar pelo nosso aperfeiçoamento e pelo da humanidade. Desenvolver nossas faculdades intelectuais e nossas qualidades morais; trabalhar para colocar na Terra o reino da justiça, da paz e da fraternidade, marchando juntos para esse fim distante, para esse ideal: a perfeição. Eis a verdadeira religião e a única de acordo com as leis universais, a religião do progresso, a religião da humanidade!

Capítulo VI O Passado e o Futuro Conclusão Na primeira parte deste estudo, seguimos a marcha do progresso através dos séculos. É uma dolorosa história: a humanidade conquistando, pela luta, pelo sangue, à custa de lágrimas e suplícios, seus direitos e suas liberdades. Após cada passo para frente, vê-se o espírito de egoísmo e de dominação se erguer sobre sua passagem, porém sempre em vão. Apesar da tortura e da fogueira, apesar do patíbulo, apesar dos massacres, pedaço por pedaço, os direitos do pensamento e da consciência se revelam e se afirmam. Cada geração traz seu tributo de dores, de trabalho, de esforços e a herança comum aumenta sem cessar.

De século em século, o homem, por seu gênio, triunfa sobre os obstáculos acumulados em sua rota, livra-se da sombra das superstições e se eleva para a luz. Ele descobre as leis eternas e as realiza nas instituições sociais. Pouco a pouco, as velhas iniqüidades desaparecem. A escravidão, o servilismo e a tortura desaparecem, um após o outro. A ignorância diminui, a liberdade aparece em alguns pontos do globo e, no meio desses prodigiosos esforços, acima dos diversos organismos sociais – tribos, raças, cidades, reinos, impérios – alguma coisa maior se elabora e se desenvolve, lentamente, através dos tempos: é a civilização que, após ter sido sucessivamente asiática, grega, romana e ocidental, tende a se tornar universal, unindo os povos numa aspiração comum, para formar o grande ser coletivo, o Ser Humanidade.

Todavia, se o tempo de servidão, de esmagamento, tem fim, se um mundo novo se prepara, nós, que aproveitamos das conquistas da ciência, nós que vivemos nos tempos melhores, não esqueçamos aqueles que, nas sombrias épocas da História, prepararam, no sofrimento e nas lágrimas, os benefícios que gozamos hoje. Não esqueçamos os pensadores, os lutadores austeros que morreram na luta, que caíram combatendo pelo direito e pela verdade. A democracia e a ciência, também elas, têm seu calendário, eu digo, seu calendário, e têm seu panteon sublime, o panteon que esses grandes mortos habitam, esses poderosos espíritos que planam acima de nós e que nos inspiram! Veneremos esses mortos gloriosos. Honra a vós, ilustres mártires, que sofrestes por todas as idéias úteis, fecundas e generosas.

Para vós, ilustres mártires, que consagrastes vossas vigílias, vossa saúde e vossa vida na busca dos grandes problemas; para todos vós que, pelo bem da humanidade, fostes perseguidos e torturados, mortos nos calabouços e nas forcas, honra para todos vós em todos os séculos! Vossa obra não está perdida, oh! não! O que criastes na dor nós recolhemos e essa herança sagrada nós conservaremos preciosamente e transmitiremos, engrandecida e aumentada, aos que vierem depois de nós. Assim como o passado prepara o presente, este, que somos nós, deve preparar o futuro; eis aí a lei da imensa solidariedade que une todos os tempos e todas as raças. Nossos antepassados lutaram por nós, trabalhemos, por nossa vez, para nossos descendentes.

Aliás, não conhecemos todos os segredos do passado. Quem sabe se não chegaremos um dia a colher na paz e na alegria o que semearmos na dor. Tudo se encadeia na vida dos seres e na história do mundo; cada século e cada geração têm seu papel fecundo e glorioso. O século XVI viu o renascimento das artes e o sentimento do belo emergir da noite da Idade Média. O século XVII foi a eclosão do pensamento, o século XVIII viu o triunfo da razão, a grande revolução, e o século XIX é o século da ciência.

O século XX, que está próximo, será o complemento, o coroamento dos séculos anteriores. Escutai os surdos rumores que rompem de todas as partes. Por todos os cantos os povos se agitam, ansiosos para sacudir a antiga opressão monárquica e clerical. A Europa está em armas, é verdade, milhões de baionetas brilham ao sol, porém as nações não suportam mais essa situação que as arruína. Elas voltam as costas ao espírito de conquista e se dirigem aos homens de pensamento.

O despotismo estertora e o velho mundo agoniza. O gênio do nosso país se separa das correntes seculares de Roma e convida os povos para fundar a nova era, a era da concórdia, do trabalho e da pacificação universal. Apesar de todos os egoísmos, essa era aparecerá, porque a corrente da civilização ali chegou tão necessariamente como os cursos d’água chegam ao mar. Dia virá em que todos os flagelos, criados pelo erro, morrerão. A guerra cessará, as superstições se extinguirão, a forca desaparecerá.

O saber regenerará o mundo e, diante dessa grande luz, os preconceitos seculares, os ódios entre as classes e entre as nações desaparecerão, como as brumas matinais diante do sol de julho. Esses tempos ainda estão longe, dirão! Não muito longe, responderei eu, se soubermos prepará-los, não tão longe se nos tornarmos dignos deles, nós e todos os nossos semelhantes. Não basta se dizer republicano; é preciso que o sejamos pelos costumes e pelo caráter; é necessário que cada um de nós trabalhe para se instruir, para se moralizar e para se tornar melhor. Que cada um espalhe em torno de si idéias de justiça e de solidariedade e o futuro será nosso.

Tenhamos confiança. Que todos cumpram seu dever. A grande lei da vida é o trabalho, é o progresso, cumpramo-la! Todos unidos, de mãos dadas, marchemos juntos para o futuro e que nossa divisa seja: “Para frente, sempre para frente e para o Alto!” Capítulo VII O Progresso na Imortalidade (Complemento filosófico publicado pelo jornal Le Devoir) Embora a humanidade avance pouco a pouco na estrada do progresso, pode-se dizer que a imensa maioria de seus membros marcha através da vida como em meio de uma noite obscura, ignorando de onde vem, não sabendo para onde vai, não tendo jamais sonhado com o objetivo real da existência. Espessas trevas dominam a razão humana; os raios destes poderosos focos, que são a justiça e a verdade, só chegam a ela pálidos, enfraquecidos e insuficientes para aclarar os caminhos sinuosos por onde as inúmeras legiões seguem em marcha, para fazer brilhar a seus olhos o objetivo ideal e distante.

Ignorante de seus destinos, indeciso entre o preconceito e o erro, o homem maldiz, por vezes, a vida. Desfalecendo ao peso do seu fardo, lança sobre seus semelhantes a causa das provas que ele engendra e sofre, muitas vezes por sua imprevidência. Revoltado contra Deus, que ele acusa de injusto, em sua loucura e seu desespero chega mesmo, algumas vezes, a desertar do combate salutar, da luta que só pode fortificar sua alma, aclarar seu julgamento, prepará-lo para trabalhos de ordem mais elevada. Por que é assim? Por que o homem desce frágil e desarmado na grande arena onde se trava, sem tréguas e sem descanso, a eterna e gigantesca batalha?

É que esse globo terrestre é simplesmente um dos degraus inferiores da escala dos mundos e nele moram apenas espíritos novos, isto é, almas nascidas recentemente com a razão. A matéria reina soberana em nosso mundo e curva sob seu jugo até os melhores dentre nós; limita nossas faculdades, paralisa nossos anseios para o bem e nossas aspirações para o ideal. Assim, para discernir o porquê da vida, para conhecer sua razão de ser, para entrever a lei suprema que rege as almas e os mundos é preciso saber libertar-se dessas pesadas influências, liberar-se das preocupações de ordem material, de todas essas coisas passageiras e volúveis que acobertam nosso espírito, dificultando nossos julgamentos. Somente nos elevando algumas vezes pelo pensamento, acima dos próprios horizontes da vida, fazendo abstração do tempo e do espaço e planando, de certa forma, acima dos pormenores da existência, é que perceberemos a verdade. Com um esforço de vontade, abandonemos por um instante a Terra e subamos essas encostas sublimes.

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.