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Capítulo 2 de 5

Parte 2 de 4

O Progresso · Léon Denis

Cedo o pensamento apresenta sua preciosa semeadura; é a primavera, a renascença do progresso e da razão! O pensamento humano desperta e busca sacudir o peso que o esmaga. Emprega-se contra ele o ferro, o fogo, a tortura, porém inutilmente. Ele se fortifica nos suplícios e cresce sempre. Pensam esmagá-lo logo, na cruzada contra os Albigeois, porém eis que reaparece com Jean Huss, Jerônimo de Praga, os Vaudois.

Para o carrasco, Jean Huss! Para o carrasco, Jerônimo de Praga, para o carrasco, todos os renovadores! E os inquisidores da fé vão por toda parte, usando seu machado, sua tocha e os instrumentos de suplício. Ondas de sangue correm em nome de um Deus de misericórdia e incontáveis vítimas são sacrificadas. Oh!

Então o germe da heresia deve ser aniquilado, porém eis que dos vales da Europa Central se eleva um grito de protesto contra os excessos do Catolicismo, um grito formidável de liberdade. A razão reaparece com os apóstolos da Reforma. A unidade católica se partiu e o jugo da teocracia romana foi rejeitado por vinte milhões de homens. O Protestantismo proclama o princípio do livre exame e, apesar dos punhais de Saint-Barthélemy, apesar dos sabres dos dragões, do exílio e da Bastilha, é desse princípio do livre exame, ampliado e fortalecido, que sairá a filosofia do século XVIII e o livre pensamento moderno. E eis que o pensamento renascente descobre um recurso para se expandir no mundo, um instrumento admirável.

Um homem funde caracteres de metal que se agrupam e formam palavras: é a imprensa. Graças a ela, o livro, tão raro, tão custoso quando era só um manuscrito copiado a pena, o livro e, mais tarde, o jornal vão penetrar até nas mais humildes residências, iniciando o camponês e o operário na vida intelectual; arrancando, um a um, de suas almas os instintos grosseiros que a servidão engendra, preparando-os para a liberdade. Desde então, o pensamento toma seu impulso e avança com passo rápido. A Arte resplandece; a Ciência sonda os céus profundos e revela a suprema harmonia dos mundos. A Filosofia cuida dos maiores problemas, a História se esclarece.

A Igreja e os tronos ficam abalados, as velhas crenças e as superstições batem em retirada; a razão e a consciência se expandem e esse imenso trabalho de elaboração, que dura três séculos, chega enfim à formidável explosão moral que denominamos Revolução de 89, explosão esta que, abalando a velha sociedade autoritária e feudal, fez nascer na face do mundo a moderna civilização, apoiada em bases inabaláveis: o direito e a liberdade. A Revolução é para nosso país, para nossa raça, o que é, para cada um de nós, a hora de sua maioridade. É a sociedade humana tomando posse do governo de si mesma, substituindo o reino da justiça ao do favor, a lei ao belprazer, a liberdade à escravidão. Na ordem política e social, o passado, para dirigir os homens, invoca uma vontade superior, uma vontade exterior à consciência. É nas crenças obscuras, nas revelações sobrenaturais, é muitas vezes na forma brutal que as instituições da Idade Média encontram as fontes da autoridade.

A Revolução põe as bases da nova ordem social sobre leis imutáveis da natureza e sobre os eternos ensinamentos da razão. Nada de milagres, nem revelações. É na consciência humana que se encontram os princípios que darão autoridade para todos, quando forem proclamados pela vontade nacional e convertidos em leis pelos eleitos do povo. Eis o direito moderno e não apenas o dos franceses, porém o de todos os homens, direitos que, acompanhados dos deveres correspondentes, ficarão inscritos um dia em cada povo no alto de sua Constituição. Os constituintes de 1789 não falaram somente para a França, mas para o mundo inteiro.

É a grandeza e a glória imortal da Revolução Francesa, por ter inaugurado esses princípios de igualdade, solidariedade e fraternidade em torno dos quais as nações se unirão um dia como membros de uma única família, da grande família universal. Senhores, nessa rápida exposição da marcha do progresso através dos tempos, eu paro na Revolução. Com efeito, a Revolução é o abismo que se coloca entre duas épocas: uma marcando a infância da humanidade e a outra sua idade adulta. Antes da Revolução, o mundo olha para trás e acredita na queda, na decadência, pondo toda sua confiança nas lendas religiosas. A partir de 1789, o mundo olha o futuro, o homem só conta com sua própria iniciativa, seu trabalho, seu gênio, para criar esse futuro que será tanto maior quanto maiores forem os esforços para prepará-lo.

A Revolução, é preciso dizê-lo, se fez no meio de uma geração que não tinha maturidade. A ignorância, a luta de interesses egoístas impediram o desenvolvimento durante oitenta anos. Hoje, amadurecida pelas provas, nossa geração religa a cadeia interrompida do progresso. Pacífica, porém resolutamente, ela retoma a obra de nossos antepassados para continuá-la em todas as suas conseqüências lógicas, para realizar a emancipação intelectual e moral do gênero humano. Vejamos, portanto, o que é o presente, a quem está reservada essa tarefa, o que faz sua força, o que faz sua fraqueza, o que temos de fazer nós mesmos para torná-lo grande e frutífero.

Capítulo III O Progresso Político Examinemos a situação atual de nosso país, da França; examinemos, não como apologistas, não como admiradores, porém como homens nos quais, acima de suas opiniões, de suas tendências, acima de todas as coisas, paira a verdade. Faremos esse exame colocando-nos em três pontos de vista sucessivos: político, social e religioso. Nós o faremos dispensando tudo quanto poderia ter um caráter polêmico e nos colocando num plano elevado, na esfera serena dos princípios. Após ter tentado, durante meio século, todas as formas de governo monárquicas, após ter sido jogada numa multidão de aventuras comprometedoras, após ter derramado seu sangue sobre todos os campos de batalha da Europa para a consolidação de dinastias efêmeras, abandonada pelas nações, diminuída em seu território e na sua honra, a França se refugiou na república como em uma derradeira e suprema esperança, como a única forma de governo capaz de lhe dar o que ela deseja ardentemente: a paz e a liberdade! A república democrática é a mais racional e a mais lógica forma de liberdade e só ela pode levantar, valorizar as almas que o despotismo humilhou.

Só ela pode fazer a verdadeira igualdade entre os homens, sem rebaixar os grandes ao nível dos pequenos, porém dando aos pequenos os meios de se elevarem gradualmente ao nível dos grandes, pela instrução, pela liberdade de trabalho e de associação, pela uniformidade dos direitos. O governo da república é a expressão da vontade nacional. O povo, reunido em seus comícios, nomeia seus representantes e estes elegem o chefe do poder. É, portanto, o povo que se governa a si próprio por meio do sufrágio universal. Cada cidadão participa da soberania.

Uma nação republicana é um vasto organismo, um grande corpo, do qual cada eleitor é um membro. Ela será, portanto, em geral, o que cada um de nós é em particular. O Estado social valerá o que nós valemos. Se nós somos retos, justos, esclarecidos, o Estado será grande; se somos pequenos, ignorantes e viciosos, o próprio Estado será frágil e miserável. Portanto, o progresso social só é possível com o progresso de cada um de nós.

Vede, cidadãos, quanto, com a república, nossa responsabilidade aumenta, pois a sorte de nosso país está em nossas mãos. Somos nós que, por nossas escolhas e nossos sufrágios, fazemos nossos destinos. Compreendei, agora, quanto é necessário que cada um de nós se esclareça e se aperfeiçoe, quando é necessário que o julgamento de todos se fortifique, porque, eu vos pergunto, que faríamos dos direitos e das liberdades, se não soubéssemos empregá-los com sabedoria, com discernimento? Republicano significa quem se governa, quem se dirige por si mesmo em todas as esferas de suas atividades. Esse título impõe a todos os que o adotam mais mérito, mais valor intelectual e moral.

E, além disso, sondai a História e vereis que todos os governos, quaisquer que sejam, pereceram pela corrupção ou pela ignorância. Os gregos e os romanos foram vencidos pelo luxo, pela indolência; foi após as orgias da regência que a aristocracia francesa perdeu seu prestígio; foi pela corrupção do orleanismo que a burguesia se amesquinhou. Portanto, a república não pode viver, prosperar, engrandecerse, sem que cada um de nós trabalhe sem cessar, para um futuro melhor, mais sábio, mais virtuoso. Nossos antepassados da primeira revolução tinham razão para colocar a virtude como ordem do dia da pátria. Inspiremo-nos no exemplo desses republicanos austeros, desses grandes patriotas, cujo espírito de devotamento e de sacrifício deles fizeram eternos modelos para gerações do porvir.

Com efeito, não basta combater o despotismo para fazer nascer a liberdade; não basta afastar a tirania do poder para implantar os costumes republicanos. Se o servilismo, a paixão e a noite permanecerem em nossas almas, nada teremos feito e o despotismo um dia renascerá. Entretanto nós, republicanos, que desejamos uma ordem social baseada na justiça e na liberdade, façamos inicialmente justos e virtuosos a nós mesmos, tornemos nossos corações livres, as razões esclarecidas, os costumes dignos, as consciências honestas e marchemos nós, em frente, sem fraquejar. Não atingiremos a perfeição, sem dúvida, porém cada um de nossos passos para frente nos mostrará um ideal, uma ordem maior e mais harmoniosa; cada um de nossos esforços nos livrará de um mal, de uma paixão e de um erro. Contribuiremos, assim, para elevar a França e estabelecer a república definitiva, impedindo que a democracia caia no cesarismo.

Todavia, senhores, se devemos não abusar dessas coisas, devemos também nos alegrar diante de um grande exemplo que nosso país dá, nesse momento, à Europa. Se, após vinte anos de realeza burguesa, depois de vinte anos de império, os costumes republicanos, austeros e graves, não puderam se desenvolver espontaneamente em nós, devemos dizer, entretanto, que a França, amadurecida pelas provações do ano terrível, fortalecida pelo sofrimento, recolheu de suas instituições republicanas, embora ainda incompletas, um grande bem, uma nova força moral. Se estendermos, nesse momento, nosso olhar sobre a Europa, ali veremos, realmente, um vento de guerra que passou sobre as nações. Soberanos belicosos e diplomatas astuciosos se preparam para a luta. Por toda parte alguém se arma, como na proximidade de um terrível choque.

Desperdiçam-se recursos, aguardando que o sangue corra; os povos sofrem e a miséria é profunda. Por toda parte surdos estrondos anunciam sangrentas revoltas. A Irlanda se agita, os socialistas alemães se preparam. Na Rússia os negativistas prosseguem sua obra sinistra, a Turquia agoniza e o Oriente inteiro se desconjunta. Durante esse tempo o que faz a França? a França republicana trabalha, fortifica-se e se esclarece; reduz seus impostos e se cobre de escolas.

A França quer nascer para uma nova vida, se desembaraça do vírus da Idade Média e torna-se laica. Põe-se em situação de resolver pacífica e gradualmente a questão social. Bem armada, mas para a defesa e não para o ataque, ela deixa os déspotas se atirarem uns contra os outros. Que ela persevere em sua política de paz e de justiça; que ela esqueça para sempre as funestas tradições de um passado cheio de lágrima e de sangue. Que a França dos corsos morra!

Que a França republicana viva para sempre! Que suas livres instituições se desenvolvam e

cresçam. Que o espírito do Syllabus dela se afaste; que seu povo se fortifique pelo trabalho e pelo estudo e então sua influência se estenderá de novo sobre o mundo. As mesmas nações que a evitavam, que outrora a odiavam, porão nela sua esperança, no dia em que, no meio da miséria geral e dos conflitos armados, a França se mostre para a Europa como um poderoso exemplo do que pode fazer um grande povo em um regime de paz, de luz e de liberdade. Capítulo IV O Progresso Social Após a questão política se ergue a questão social, assunto vasto e complexo que, para ser tratado com algum desenvolvimento, exigiria muitas horas. Limitar-me-ei a indicar somente as soluções que me parecem ser as mais práticas e mais de acordo com o espírito de justiça.

Pretensões apaixonadas atraíram, durante algum tempo, a atenção pública para essas questões. Essas reivindicações já produziram protestos numerosos no próprio seio da classe operária e delas não me ocuparei. Tratarei somente das reclamações que considero legítimas, do operário honesto, laborioso, que desejava assegurar sua velhice contra a miséria, que desejava preparar-se para essas eventualidades lamentáveis chamadas recesso, doença e os encargos de família. Isto não é um direito sagrado do trabalho? Um perigo ameaça, ao mesmo tempo, o progresso social e a república: é o envolvimento do trabalhador pelo clericalismo.

Vós não ignorais os apelos melífluos que a imprensa católica apresenta à classe operária e à instituição dos círculos católicos de operários; os discursos pronunciados nos congressos de Chartres e de Augers vos oferecem a medida do que se pode esperar desse movimento. A massa dos trabalhadores tem muito bom senso para se deixar prender nessas armadilhas, pois não ignora o que eram as corporações e seus dirigentes do passado, não tendo nenhuma infantilidade de desejá-las restabelecer. Seja como for, os republicanos influentes, os dirigentes de indústria têm o dever de se ocupar com o trabalhador, de corresponder às suas aspirações, quando se apresenta de uma forma calma, pacífica, moderada. Uma grande responsabilidade pesa sobre os favorecidos da sorte; o fato de que eles têm mais recursos e conhecimentos lhes impõe maiores obrigações. Digamos que muitos dentre eles deram nobres e generosos exemplos.

Os Ménier, os Godin de Guise e tantos outros, fazendo seus trabalhadores participarem nos lucros da produção industrial, estabelecendo para eles e suas famílias moradias higiênicas e escolas gratuitas, demonstraram o que se precisava fazer para o bem-estar e o aperfeiçoamento físico, intelectual e moral da maior parte. Onde a participação dos lucros não é aplicada, a associação cooperativa vem resolver o problema e aí está o grande segredo do futuro, pois só o princípio de associação transformará o mundo. É um dos fatos mais notáveis de nossa época essa tendência, sempre crescente, em substituir o esforço isolado pelo esforço coletivo. As forças se agrupam, os capitais se associam, os interesses se unem e, graças a esse grande movimento, a sociedade vê aumentar seu poder e seu bem-estar, avançando com o passo mais rápido para uma distribuição eqüitativa dos recursos após o trabalho de cada um. Se considerarmos o que já produziu o princípio de associação nas inumeráveis instituições de previdência e mutualidade – seguros de vida, câmaras sindicais e bancos populares, tais como funcionam na Alemanha e na Itália, sociedades cooperativas de produção e de consumo –, ficaremos admirados com o desenvolvimento colossal dessa idéia.

O que ela criou é ainda pouca coisa em comparação com o que ela pode realizar no futuro. Entretanto, se a essas criações acrescentarmos as reformas nascentes, as leis protetoras da associação, as caixas de auxílio para os inválidos do trabalho, a reforma do imposto, em seguida a instrução ampla, a questão será bem simplificada, se não for resolvida. A humanidade marcha para a solidariedade e não para a divisão. Essa grande idéia de associação germinou durante muito tempo na sombra; atualmente ela começa a crescer, trazendo seus frutos. Os trabalhadores não têm o que destruir, mas transformar.

Eles têm a quantidade e a eleição; se souberem limitar suas pretensões dentro dos limites do direito e da justiça, o seu sucesso é apenas uma questão de tempo e de paciência. A vitória está assegurada num futuro próximo. A questão social não comporta somente a melhoria da sorte do operário; ela visa também a mulher, para quem uma instrução insuficiente, baseada em superstições religiosas, tem o apoio dos representantes do passado. Nela existe uma força imensa perdida pelo progresso. Realmente, a mulher é dotada de qualidades inatas, de faculdades e aptidões que, em muitos pontos a tornam superior ao homem.

Bastará desenvolver essas qualidades com uma instrução séria, por uma educação forte que retire de seu espírito os preconceitos, as sombras da superstição, e que a coloque à altura do espírito do homem. Então a família estará unida; então a mulher, transformada, por sua vez, em defensora da causa do progresso, saberá educar gerações viris e contribuir para assegurar o futuro que, sem ela, sem sua participação, seria sempre precário e incerto. Capítulo V O Progresso Religioso Após ter lançado um rápido olhar sobre essas duas faces da questão do progresso: o problema político e o problema social, resta-nos examinar uma terceira face do assunto, que não é nem a menos delicada, nem a menos perigosa, isto é, a questão religiosa. Aqui, mais do que nunca, devo esforçar-me para permanecer numa esfera elevada dos princípios, evitando descer para a arena onde se agitam as paixões furiosas e onde se entrechocam os interesses espezinhados. O que é a religião?

E é preciso uma religião? A palavra religião vem do latim religare, que significa religar, unir. Tomada no sentido exato da palavra, a religião deveria ser uma força, um elo que unisse os homens entre si e que os unisse também a um princípio superior das coisas. Na alma humana existe um sentimento natural que a eleva acima de si mesma para um ideal de perfeição no qual se resumem essas potências morais denominadas o bem, a verdade e a justiça. Esse sentimento, quando está esclarecido pela ciência, quando é fortificado pela razão, quando tem por base essencial a liberdade de consciência, da consciência autônoma e responsável, é o mais nobre de quantos possamos conhecer.

Ele pode tornar-se um motor das maiores ações e é também uma das manifestações da lei sublime de progresso. Todavia, senhores, não é o que acontece entre as religiões que cobrem a superfície do mundo. E quando eu digo as religiões, pretendo falar das religiões sacerdotais. O sentimento religioso, mantido e desenvolvido por elas, é baseado na liberdade de consciência, é motivo de progresso, é um liame para a humanidade? Não!

Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.