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Capítulo 12 de 67
O Cristianismo — parte 2 de 3
Depois da Morte · Léon Denis
Tal Idéia, encarnada na pessoa de Jesus (55), penetrou pouco a pouco os espíritos, e hoje se manifesta no Ocidente com todas as conseqüências sociais que se lhe prendem. A esta idéia, ele acrescentava as da lei moral e da vida eterna, que até ai tinham sido somente do domínio dos sábios e dos pensadores. Desde então, o dever do homem seria preparar por todas as suas obras, por todos os seus atos da vida social e individual, o reinado de Deus, Isto é, o do Bem, da Verdade e da Justiça. “Venha a nós o vosso reino, assim na Terra como no céu.” Mas, esse reinado só se pode realizar pelo aperfeiçoamento de todos, pela melhoria constante das almas e das instituições. Essas noções encerram, pois, em si, uma potência Ilimitada de desenvolvimento. E não nos devemos admirar que depois de vinte séculos de incubação, de trabalho obscuro, elas comecem apenas a produzir os seus efeitos na ordem social.
O Cristianismo continha, no estado virtual, todos os elementos do Socialismo, mas desviou-se deles desde os primeiros séculos, e os princípios verdadeiros, tornando-se desconhecidos pelos seus representantes oficiais, passaram para a consciência dos povos, para a alma desses mesmos que, não se acreditando ou não se dizendo cristãos, trazem inconscientemente em si o ideal sonhado por Jesus. Não é, pois, na Igreja nem nas instituições do pretenso direito divino, o qual outra coisa não é que o reinado da força, onde se deve procurar a herança do Cristo. Essas, em realidade, não passam de instituições pagãs ou bárbaras. O pensamento de Jesus, agora, só vive na alma do povo. É por seus esforços para elevar-se, épor suas aspirações para um estado social mais conforme à Justiça e à Solidariedade, que se revela essa grande corrente humanitária, cuj a nascente está no alto do Calvário, e cujas ondas nos arrastam para um futuro que jamais conhecerá as vergonhas do pauperismo, da ignorância ou da guerra.
O Catolicismo desnaturou as belas e puras doutrinas do Evangelho com falsas concepções de salvação pelas indulgências ou graças, de pecado original, de inferno e de redenção. Porém, o Catolicismo, na obra do Cristianismo, não passa em realidade de um elemento parasita, que parece ter tomado à Índia sua organização hierárquica, seus sacramentos e simbolos. Numerosos concílios têm, em todos os séculos, discutido a Bíblia, modificado os textos, proclamado novos dogmas, afastando-se cada vez mais dos preceitos do Cristo. O fausto e a simonia invadiram o culto. A Igrej a dominou o mundo pelo terror, pela ameaça com os suplícios, e no entanto Jesus queria reinar pelo amor e pela caridade. Armou uns povos contra outros, animou e tornou sistemática a perseguição, fez correr rios de sangue. Em vão a Ciência, em sua marcha progressiva, assinalou as contradições que existem entre o ensino católico e a ordem real das coisas; a Igreja não trepidou em mal-dizê-la como invenção de Satanás.
Um abismo agora separa as doutrinas romanas da antiga sabedoria dos iniciados, que foi a mãe do Cristianismo. O materialismo aproveitou-se deste estado de coisas e implantou em toda parte as suas raízes vivazes. Por outro lado, sensivelmente se enfraqueceu o sentimento religioso. O dogma não exerce atualmente influência alguma sobre a vida das sociedades. Fatigada dos embaraços em que a tinham envolvido, a alma humana atirou-se para a luz; despedaçou esses frouxos laços para unir-se aos grandes espíritos, que não pertencem a uma seita nem a uma raça determinada, mas cujo pensamento alumia e aquece a Humanidade inteira. Livre de qualquer tutela
sacerdotal, ela quer, para o futuro, pensar, proceder e viver por si mesma. Só queremos falar do Catolicismo com moderação. Essa religião, não o esqueçamos, foi a de nossos pais; embalou inumeráveis gerações. A moderação, porém, não exclui o exame. Ora, duma análise séria resulta Isto: a Igreja infalível enganou-se, tanto na sua concepção física do Universo, como na sua idéia moral da vida humana. A Terra não é o corpo central mais importante do Universo, nem a vida presente é o único teatro das nossas lutas e do nosso progresso. O trabalho não é um castigo, mas sim um meio regenerador pelo qual se fortifica e eleva a Humanidade. O Catolicismo, pela sua falsa idéia da vida, foi conduzido ao ódio do progresso e da civilização, e este sentimento está, sem nenhuma reserva, expresso no último artigo do Syflabus: “Anátema sobre esses que pretendem que o pontífice romano deve reconciliar-se com o progresso, o liberalismo e a civilização moderna.” O Catolicismo atribui ao Ser Supremo fraquezas iguais às nossas.
Faz dele uma espécie de carrasco que vota aos últimos suplícios os seres débeis, obra das suas mãos. Os homens, criados para a felicidade, sucumbem em multidão às tentações do mal e vão povoar os infernos. Assim, sua impotência iguala sua imprevidência, e Satanás é mais hábil que Deus. Será esse o Pai que Jesus nos faz conhecer, quando nos recomenda, em seu nome, o esquecimento das ofensas; quando nos acónselha dar o bem pelo mal, e nos prega a piedade, o amor, o perdão? O homem compassivo e bom será portanto superior a Deus? É verdade que, para intentar a salvação do mundo, Deus sacrifica o seu próprio filho, membro da Trindade e parte de si mesmo, o que é cair ainda num erro monstruoso e justificar a alusão de Diderot: “Deus matou Deus para apaziguar Deus.” O Catolicismo, nos tempos de perseguição, escavou bastantes cárceres, ateou muitas fogueiras, inventou torturas inauditas. Porém tudo isso é pouco ao lado da Influência perniciosa que derramou sobre as almas.
Não só torturou os corpos, mas também obscureceu as consciências pela superstição, turvou as inteligências pela idéia terrível e sombria de um Deus vingador. Ensinou a abafar as dúvidas, a aniquilar a razão e as mais belas faculdades, a fugir, como de animais ferozes, de todos os que livre e sinceramente procuravam a verdade e a estimular somente aqueles que suportavam o mesmo jugo. As cruzadas do Oriente e do Ocidente, os autos-de-fé e a Inquisição são males menores do que essa tirania secular e do que esse espírito de seita, carolice e intolerância, em cujo meio se velou a inteligência e se falseou o discernimento de centenas de milhões de homens.
Depois, ao lado do ensino errôneo, os abusos sem-número, as preces e as cerimônias tarifadas, a tabela dos pecados, a confissão, as relíquias, o purgatório, o resgate das almas, enfim, os dogmas da infalibilidade do papa e da Imaculada Conceição, o poder temporal, violação flagrante deste preceito do Deuteronômio (capítulo 18º, versículos 1 e 2): que proibe aos sacerdotes “possuirem bens da Terra e co-participarem de qualquer herança, porque o Senhor é que é a sua herança”; tudo isto mostra a distância que separa as concepções católicas dos verdadeiros ensinos do Evangelho. Contudo, a Igreja fez obra útil. Teve suas épocas de grandeza. Opôs diques à barbaria, cobriu o mundo com instituições de beneficência. Mas, como que petrificada em seus dogmas, ela se imobiliza, enquanto em torno de si tudo
caminha e avança; de dia em dia, a Ciência avulta e a razão humana se enriquece. Nada escapa à lei do progresso, e as religiões são como tudo o mais. Puderam corresponder às necessidades de uma época e de um estado social atrasados, porém, chega o tempo em que, encerradas nas suas fórmulas como num circulo de ferro, devem resignar-se a morrer. É a situação do Catolicismo. Tendo dado à História tudo o que lhe podia oferecer, e tornando-se impotente para fecundar o Espírito humano, este o abandona, e, em sua marcha incessante, adianta-se para concepções mais vastas e elevadas. Mas, nem por isso perecerá a idéia cristã; esta somente se transformará para reaparecer sob forma nova e mais depurada. Chegará a ocasião em que o Catolicismo, seus dogmas e práticas mais não serão que vagas reminiscências quase apagadas da memória dos homens, como o são para nós os paganismos romano e escandinavo. A grande figura do Crucificado dominará os séculos, e três coisas subsistirão do seu ensino, por serem a expressão da verdade eterna: a unidade de Deus, a imortalidade da alma e a fraternidade humana.
Apesar das persegu Ições religiosas, a doutrina secreta perpetuou-se através dos séculos, e o seu vestígio é encontrado em toda a Idade Média. Já os iniciados judaicos, em época remota, a tinham registrado em duas obras célebres: o Zohar e o Scpher-Jésiraft. O seu conjunto forma a Cabala, uma das obras capitais da ciência esotérica. (56) No Cristianismo primitivo sente-se perfeitamente acentuado o seu cunho. Os primeiros cristãos acreditavam, com efeito, na preexistência e na sobrevivência da alma em outros corpos, como já vimos a propósito das perguntas feitas a Jesus sobre João Batista e Elias, e também da que os apóstolos fizeram relativamente ao cego de nascença, que parecia “ter atraído esta punição por pecados cometidos antes de nascer” (57). A idéia da reencarnação estava espalhada por tal forma entre o povo judeu, que o historiador Josefo censurou os fariseus do seu tempo, por não admitirem a transmigração das almas senão entre as pessoas de bem (58). Os cristãos entregavam-se às evocações e comunicavam-se com os Espíritos dos mortos.
Encontram-se nos Atos dos Apóstolos numerosas indicações sobre este ponto (59); S. Paulo, em sua primeira Epístola aos Coríntios, descreve, sob o nome de dons espirituais, todas as espécies de mediunidade (60). Ele se declara instruído diretamente pelo Espírito de Jesus na verdade evangélica. Atribuiam-se algumas vezes essas inspirações aos maus Espíritos, aos quais certas pessoas chamavam — espírito de Píton: “Meus bem-amados, dizia João Evangelista, não acrediteis em qualquer espírito, mas vede se os espíritos são de Deus.” (61) Durante vários séculos, estiveram em uso as práticas espíritas. Quase todos os filósofos de Alexandria, Fílon, Amônio Sakas, Plotino, Porfírio, Arnóbio, se dizem inspirados por gênios superiores; São Gregório, taumaturgo, recebe os simbolos da fé do Espírito de S. João. A escola de Alexandria resplandecia então com a mais viva claridade, pois todas as grandes correntes do pensamento pareciam aí convergir e se confundir. Essa célebre escola havia produzido uma plêiade de espíritos brilhantes que se esforçavam por fundir a filosofia de Pitágoras e de Platão
com as tradições da Cabala judaica, e com os princípios do Cristianismo. Esperavam assim formar uma doutrina definitiva de largas e poderosas perspectivas, uma religião universal e imorredoura. Era esse o sonho de Fílon. Como Sócrates, este grande pensador teve um Espírito familiar que o assistia, Inspirava e fazia escrever durante o sono (62). Também sucedia o mesmo com Amônius e Plotino, os quais, diz Porfiro, eram inspirados por Gênios, “não os que são chamados demônios, mas sim os que são designados como deuses” (63). Plotino escreveu um livro sobre os Espíritos familiares. Como esses filósofos, Jâmblico também era versado na teurgia e comunicava-se com o mundo invisível. De todos os campeões do Cristianismo esotérico, Orígenes éo mais conhecido. Esse homem de gênio, que se tornou um grande filósofo e um santo, estabeleceu nas suas obras (64) que a desigualdade dos seres é conseqüência dos seus méritos diversos.
As únicas penas, conformes àbondade e à justiça divinas, são, diz ele, as penas medicinais, as que têm por efeito a purificação progressiva das almas nas séries das existências, antes de merecerem admissão no céu. Entre os padres da Igreja, muitos participavam dessas opiniões (65) e apoiavam-se nas revelações dos Espíritos aos profetas ou médiuns. (66) Tertuliano assim se exprime num trecho da sua Apologética: “Se é permitido aos mágicos fazer aparecer fantasmas, evocar as almas dos mortos, obrigar os lábios duma criança a proferir oráculos... se eles têm às suas ordens espíritos mensageiros, pela virtude dos quais as mesas profetizam, quanto maior zelo e solicitude não empregarão esses espíritos poderosos para operarem por conta própria o que executam com auxílio de outrem.”
Santo Agostinho, o grande bispo da Hipona, no seu tratado De Cura pra Mortais, fala das manifestações ocultas e ajunta: “Por que não atribuir esses fatos aos espíritos dos finados, e deixar de acreditar que a divina Providência faz de tudo um uso acertado, para Instruir os homens, consolá-los e induzi-los ao bem?” Na sua obra Cidade de Deus (67), tratando do corpo fluídico, etéreo, suave, que é o invólucro da alma e que conserva a Imagem do corpo material, esse padre da Igreja fala das operações teúrgicas, conhecidas sob o nome de Télêtes, que o punham em condições de se comunicar com os Espíritos e os anjos, e de ter visões admiráveis. Quanto à pluralidade das vidas, afirmada por Orígenes, e que Santo Agostinho parece em certos casos combàter, pode-se até dizer que ela está estabelecida no seguinte trecho da obra deste: “Estou convencido de que se achará no Platonismo muitas coisas que não repugnam aos nossos dogmas...
A voz de Platão, a mais pura e brilhante que tem havido na filosofia, está inteiramente reproduzida em Platino, e lhe é tão semelhante que parecem contemporâneos; entretanto, há um intervalo de tempo tão grande entre os dois, que o primeiro parece até estar ressuscitado no segundo.” (68) S. Clemente de Alexandria (69) e S. Gregório de Nice exprimem-se no mesmo sentido. Este último expõe que “a alma imortal deve ser melhorada e purificada; se ela não o foi na existência terrestre, o aperfeiçoamento se opera nas vidas futuras e subseqüentes”. (70) Tais revelações tinham-se tornado outros tantos embaraços à Igrej a oficial. Nelas iam os heréticos basear seus argumentos e sua força; abalada se
achava a autoridade do sacerdócio. Com a reencarnação, com o resgate das faltas cometidas, pela prova e pelo trabalho na sucessão das vidas, a morte deixava de ser um motivo de terror; cada qual a si mesmo se libertava do purgatório terrestre por seus esforços e progressos, e o sacerdote perdia a razão de ser. Já não podendo a Igreja abrir àvontade as portas do paraiso e do Inferno, via diminuir o seu poder e prestigio. Julgou portanto necessário impor silêncio aos partidários da doutrina secreta, renunciar a toda comunicação com os Espíritos e condenar os ensinos destes como inspirados pelo demônio. Desde esse dia Satanás foi ganhando cada vez mais importância na religião católica. Tudo o que a esta embaraçava foi-lhe atribuído. A Igreja declarou-se a única profecia viva e permanente, a única intérprete de Deus. Orígenes e os Gnósticos foram condenados pelo Concílio de Constantinopla (553); a doutrina secreta desapareceu com os profetas, e a Igreja pôde executar à vontade a sua obra de absolutismo e de imobilização.
Viu-se então os sacerdotes romanos perderem de vista a luz que Jesus tinha trazido a este mundo, e recairem na obscuridade. A noite que quiseram para os outros fez-se neles mesmos. O templo deixou de ser, como nos tempos antigos, o asilo da verdade. E esta abandonou os altares para buscar um refúgio oculto. Desceu às classes pobres; foi inspirar humildès missionários, apóstolos obscuros que sob o nome do Evangelho de São João procuravam restabelecer, em diferentes pontos da Europa, a simples e pura religião de Jesus, a religião da igualdade e do amor. Porém estas doutrinas foram asfixiadas pela fumaça das fogueiras, ou afogadas em lagos de sangue. Toda a história da Idade Média está cheia dessas tentativas do pensamento, desse despertar imponente, vindo depois as reações do despotismo religioso e monárquico, e períodos de triste silêncio. A ciência sagrada, porem, estava guardada sob diferentes aspectos por diversas ordens secretas. Os Alquimistas, Templários, Rosa-Cruzes e outros lhe conservavam os princípios. Os Templários foram encarniçadamente perseguidos pela Igreja oficial.
Esta temia extraordinariamente as escolas secretas e o império que elas exerciam sobre as inteligências. Sob o pretexto de feitiçaria e de pactos com o diabo, as destruia quase todas a feno e fogo. O Protestantismo é superior ao Catolicismo porque repousa sobre o princípio do livre exame. Sua moral émais perfeita, e tem o mérito de se aproximar bastante da simplicidade evangélica. Mas a ortodoxia protestante não pode ser considerada como a última palavra da renovação religiosa, pois se apega exclusivamente à “letra que mata”, e à bagagem dogmática que em parte conservou. Apesar dos esforços da teocracia, não se perdeu a doutrina secreta. Por muito tempo ficou velada a todos. Os Concílios e os esbirros do Santo Ofício acreditaram tê-las sepultado para sempre, mas, debaixo da pedra que lhe haviam colocado em cima, ela vivia ainda, semelhante à lâmpada sepulcral que arde, solitária, durante a noite. Mesmo no selo do clero, sempre houve partidários dessas magníficas Idéias de reabilitação pelas provas, da sucessão das vidas e da comunicação com o mundo invisível.
Alguns têm até ousado elevar as suas vozes. Há meio século (1843), o Sr. de Montal, arcebispo de Chartres, falava nestes termos sobre a preexistência da alma e sobre as reencarnações: “Visto não ser proibido acreditar na preexistência das almas, quem saberá o
que em épocas vindouras virá a suceder entre as inteligências?” O Cardeal Bona (o Fénelon da Itália), na sua obra sobre o discernimento dos espíritos, assim se exprime: “É muito para estranhar que se encontrem homens de bom senso, que tenham ousada negar as aparições e as comunicações das almas com os vivos, ou atribui-las à imaginação transviada, ou ainda às artes do diabo.”
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