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Capítulo 39 de 43
36 - No Aprendizado Comum
Cartas e Crônicas · Chico Xavier, pelo espírito Humberto de Campos
Sob a inspiração de vários amigos espirituais, eminente assembléia de investigadores da sobrevivência do homem congregava-se em extenso gabinete para serviços de materializarão.
Reunia-se, ali, em atitudes solenes, uma dúzia de cavalheiros bem postos e senhoras de bom gosto, com admiráveis aparências, primando cada um no esforço de particularizar a própria personalidade.
Acompanhando as conversações, com a malícia cordial do observador que ainda se não desligou totalmente das ilusões e desenganos da carne, reconhecemos que era de pasmar a copiosa bagagem de conhecimentos no grupo expressivamente adornado.
Um professor de doutrina comentava, gostosamente, as teorias richeístas, exaltando a individualidade do fisiologista, todas as idéias mais destacáveis do famoso criador da Metapsíquica eram postos à mira, tocadas por moderna conceituação da filosofia negativista. Os livros dele foram examinados, um a um, com dilatado primor verbalístico e, logo após, um companheiro intelectualizado explanou sobre as pesquisas de Lombroso e Oliver Lodge, médiuns dos Estados Unidos, da Inglaterra e da Itália eram apontados, um a um, com extravagantes definições. As irmãs Fox, Ualientine, a senhora Roberts e Eusápia Paladino, além de outros instrumentos de nomeada, padeciam análise cruel.
É imprescindível situar a percentagem de influência do aparelho medianímico nas comunicações, exclamavam enfáticos, como se constituíssem o mais alto tribunal do mundo, para apreciação e julgamento da verdade.
Teses variadas eram trazidas a estudo.
Os raios rígidos, a emoção nervosa, as emersões do subconsciente, o hipnotismo vulgar e até o demonismo são recordados com intenso interesse.
Ochorowiez, Barrett, De Rochas e Gibier foram reverenciados com indiscutível atenção.
Uma senhora mais romântica se reportou a Flammarion e deteve-se na Astronomia, comentando as últimas observações do monte Palomar. Assinalou com dicção correta e inegável beleza o infinito da vida, que palpita nos lares suspensos, em torno de maravilhosas constelações. Sírius e Arctúrus, as nebulosas da Andrômeda e Orion, surgem na sua palavra bem inspirada revelando-lhe o trato minucioso com os clássicos do assunto.
Companheiros outros se referem a experiências novas na Bélgica, e na França, tecendo comentários longos e nobres.
É difícil encontrar assembléia tão fundamente esclarecida em matéria de ciência e realidade.
A visão do caminho evolutivo, a solução ao problema do ser e ao enigma da morte, o conhecimento da espiritualidade vitoriosa resplandeciam, através de cada frase bem feita.
O horário do encontro entre os vivos do Além e os vivos da carne aparece no relógio comum e uma prece labial ressoa no ambiente, com todo o preciosismo gramatical de Camilo ou Herculano...
Uma centena de trabalhadores espirituais se esforça, sofre e sua para materializar uma entidade que se expõe ao trato direto com os observadores chorando de aflição pela responsabilidade que o fenômeno envolve em sua estruturarão mais íntima, demorando-se por mais de uma hora, sob o controle desagradável da reduzida assistência, que, ao término dos trabalhos, relaciona vasta colheita de dúvidas venenosas...
Abre-se a porta e, em plena via pública, alguns mensageiros espiritual da caridade conduzem, até aquele punhado de príncipes da inteligência, dois homens andrajosos e famintos, suicidas potencial, vencidos pela enfermidade negra implorando-lhes socorro, mas ninguém, nem mesmo um só deles, se volta para os dois rebotalhos humanos, que se arrastam sem rumo.
Boquiaberto pelo que via, o Fagundes, companheiro recém-chegado ao nosso circulo, dirigiuse a mim, perguntando:
– Meu amigo, para que se reúne esta gente, provando a sobrevivência espiritual, com tanta idéia luminosa na cabeça e tanto gelo no coração?
Convencido quanto à transcendência do assunto, e sem tempo para compridas divagações, pude apenas considerar:
– Fagundes, a rigor, não lhe posso responder.
Lembro-me somente de que, em certa ocasião, a serviço de um jornal, acompanhei reduzida assembléia de magnatas da economia e da indústria, carregados de assistentes e de livros de cheques. Discutiram, por noites consecutivas, sobre a libra esterlina e sobre o dólar, com o mesmo furor com que examinavam o franco e o peso argentino, estudando processos de multiplicar as riquezas que lhes abarrotavam os cofres. Surpreendi-me ao reparar tanta ciência da vida e tanto senso na direção dos negócios que lhes diziam respeito; contudo, decorridos alguns anos, vim a saber que todos os componentes do grupo morreram de fome, castigados por úlceras cancerosas no duodeno ou no estômago.
Fagundes fitou-me de estranha maneira, enquanto me despedia, mas, até hoje, não sei se ele percebeu o que eu desejava dizer.
Leitura livre, oferecida pelo Conhecer para Transformar.