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Capítulo 1 de 3
Allan Kardec — parte 1 de 3
Allan Kardec – Sua Vida e Sua Obra · André Dumas
SUAVIDAE SUAOBRA ANDRÉ DUMAS PENSE - PENSAMENTO SOCIAL ESPÍRITA www.viasantos.com/pense ANDRÉ DUMAS Secretário da Union des Sociétés Francophones pour l'Investigation Psyquique et l'Étude de la Survivance (USFIPES) Paris - França ALLAN KARDEC SUA VIDA E SUA OBRA ESTUDOS PSÍQUICOS EDITORA ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA - André Dumas PENSE Titulo original: Allan Kardec, sa vie et son oeuvre Tradução de: Maria Raquel Duarte dos Santos Edição Digital: Pense - Pensamento Social Espírita www.viasantos.com/pense março de 2009 Direitos reservados em língua portuguesa Edição de: Estudos Psíquicos Editora Rua do Salitre, 149, 1°, Dir. 1200 Lisboa - Portugal Tel. 556605 Composição e impressão: Tipografia. Marques & Monteiro, Lda. R. Diogo Rodrigues, 13 – Montijo Depósito Legal n.° 3486/83
ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA - André Dumas PENSE ÍNDICE Apresentação 3 Allan Kardec, sua Vida e sua Obra 5 O Pedagogo 6 Um Investigador Prudente 7 Precursor da Parapsicologia 11 A Matéria e o Fluido Universal 16 Allan Kardec Evolucionista 24 Allan Kardec e as Religiões 28 O Método de Allan Kardec 34
ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA - André Dumas PENSE APRESENTAÇÃO
ndré Dumas, escritor e dirigente espírita francês, foi presidente da A União Espírita Francesa (UEF) e diretor da Revista Espírita na década de 1970. Por muitos anos administrou o legado de Kardec e seus seguidores. No entanto, é mais lembrado pela mudança do nome desta tradicional instituição espírita, em 1976: União Científica Francofônica para a Investigação Psíquica e o Estudo da Sobrevivência da Alma (USFIPES), em vez de UEF. Nesse mesmo ano, para desagrado dos espíritas, principalmente brasileiros, a tradicional revista fundada por Kardec deixa de circular. Em seu lugar Dumas lança um periódico denominado Renaître 2000. Segundo ele, as palavras espírita e espiritismo se descaracterizaram em seu verdadeiro significado, vinculando-se ao misticismo, ao religiosismo. Por isso a mudança. O resultado foi a completa marginalização de Dumas e a briga jurídica com a União Espírita Francesa e Francofônica, fundada por Roger Perez em 1985, pelos direitos da Revista Espírita.
Dois anos depois a instituição obtém sentença judicial favorável a Perez e a revista volta a circular novamente após 12 anos de interrupção, mas agora com um conteúdo mais religioso e doutrinante. Apesar de ser lembrado como uma espécie de traidor, de Judas da causa espírita, Dumas foi um dirigente e um intelectual espírita importante na história do Espiritismo francês. Sua visão, laica e filosófica, destoava da grande maioria dos espíritas, notadamente os brasileiros, afeitos a concepções religiosas e sectárias, influenciados em demasia pelos cânones do cristianismo. Além desta obra, Dumas escreveu La science de l'âme: initiation méthodique à l'étude des phénomènes supranormaux et aux théories de la métapsychologie, inédita no Brasil, e vários artigos para a Revista Espírita. André Dumas desencarnou em 1997. Este ensaio biográfico que o Pense lança com exclusividade, em edição digital, foi distribuído em 1983 na forma de opúsculo, como um suplemento, uma separata da revista espírita portuguesa Estudos Psíquicos. A tradução é de Maria Raquel Duarte Santos, esposa de Isidoro Duarte Santos, fundador do periódico; ambos com eminente atuação no movimento espírita português, ao tempo da ditadura de António Salazar.
ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA - André Dumas PENSE ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA Hippolite Léon Denizard Rivail, que se tornou conhecido pelo pseudônimo céltico de Allan Kardec, nasceu em Lyon (França) a 3 de outubro de 1804, oriundo duma família de advogados e magistrados. Foi, portanto, num ambiente marcado pelo estudo da ciência e da filosofia que decorreu a sua adolescência. No entanto, a época em que viveu era pouco propícia ao exercício do livre-pensamento. O Império havia proibido todos os ensinamentos que pudessem contribuir para despertar e desenvolver o espírito crítico e, principalmente, o ensino da filosofia (1), culminando com autos-de-fé em praças públicas das obras de Rousseau e Voltaire. As famílias mais abastadas enviavam seus filhos para fora de França, a fim de fazerem seus estudos, sendo assim que Léon Rivail foi enviado para Yverdon (Suíça), onde frequentou o Instituto Henri Pestalozzi, iniciador da pedagogia moderna, cujos ensinamentos se baseiam no desenvolvimento simultâneo das qualidades físicas e intelectuais e no despertar gradual da criança segundo a sua ordem natural. (1) Albert Malet, História de França, de 1779 a 1875.
ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA - André Dumas PENSE Foi na Escola de Pestalozzi, onde chegou a ser colaborador, que em Léon Rivail se desenvolveram as qualidades que mais tarde fariam dele um homem de ciência e um livre-pensador. Além disso e embora nascido na religião católica e sofrendo a influência do meio em que vivia — um país protestante—, bem cedo concebeu a ideia de uma reforma baseada na unificação das crenças. Quando Léon Denizard voltou a Paris, a fim de fundar o Instituto Técnico estruturado no método de Pestalozzi, já havia adquirido uma sólida formação científica e moral, falando numerosas línguas, assegurando-nos um dos seus biógrafos que era "Doutor em Medicina, tendo feito todos os seus estudos médicos e apresentado brilhantemente a sua tese." (2) (2) Henri Sausse: Biografia de Allan Kardec. Esta afirmação é posta em dúvida por André Moreil: A Vida e Obra de Allan Kardec. Capítulo II, 6, II "O Estudante".
ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA - André Dumas PENSE O PEDAGOGO Léon Rivail publicou numerosos trabalhos didáticos: — Plano proposto para o aperfeiçoamento da instrução pública (1828); — Curso Prático e Teórico de Aritmética (1829), a fim de ser usado pelas mães de família e professores após o método de Pestalozzi; — Gramática Francesa Clássica (1831). No mesmo ano foi doutorado pela Academia Real de Assis, com um estudo sobre o tema: — Qual o sistema de estudo que mais se harmoniza com as necessidades da época? De 1835 a 1840, organiza em sua casa, situada na Rua de Sèvres, cursos gratuitos de química, física, astronomia e anatomia comparada. Em 1848 publica: — Catecismo gramatical de língua francesa. Em 1849, dirige no Licée Polimathique cursos de filosofia, astronomia, química e física.
ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA - André Dumas PENSE UM INVESTIGADOR PRUDENTE Contrariando numerosas opiniões, aquele que viria a ser Allan Kardec era um homem ponderado, prudente e pouco dado a entusiasmos irrefletidos. Após a sua juventude, familiarizou-se com o magnetismo e sonambulismo, prosseguindo seus estudos paralelamente com seus trabalhos pedagógicos e cursos científicos que dirigia no liceu. Quando ouviu falar da existência de mesas girantes e falantes, teve a seguinte exclamação: "histórias para adormecer". No entanto, isto não o impediu de mais tarde se interessar e interrogar sobre o assunto. Passou-se em 1854. Tinha ele 50 anos. As sessões a que fora convidado a assistir persuadiram-no de que, sob a aparente futilidade da "espécie de diversão que faziam com aqueles fenômenos", havia "algo de sério e como que a revelação duma nova lei", que a si mesmo prometeu investigar a fundo. No entanto, ele continuava prudente: Apliquei a esta nova ciência, como sempre fizera, o método da experimentação: jamais
ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA - André Dumas PENSE utilizei teorias preconcebidas; observava atentamente, comparava e deduzia as consequências e através dos efeitos procuro remontar às causas pela dedução e o encadeamento lógico dos fatos, admitindo somente qualquer explicação como válida, quando esta resolver todas as dificuldades da questão... vislumbro naqueles fenômenos a chave do problema, tão obscuro quanto controverso, do passado e do futuro da humanidade, a solução daquilo que tenho procurado toda a minha vida; em suma, uma total revolução nas ideias e nas crenças; era, portanto, necessário agir com circunspecção, não levianamente; ser positivista e não idealista, para não me deixar arrastar por ilusões. (3) Não compartilhava do entusiasmo de alguns experimentadores, entre eles Victorien Sardou, o editor Didier e René Taillandier, membro da Academia Francesa, os quais, após cinco anos de reuniões, lhe solicitaram coligisse e organizasse, numa síntese, todas as comunicações contidas em cinquenta cadernos.
Ele, porém, recusou e é através duma mensagem mediúnica pessoal, assegurando-lhe o apoio do mundo invisível, que se decidiu a aceitar tão ingrata incumbência. Examinando estas mensagens, a fim de as coligir, as perguntas científicas e filosóficas que interpos através de vários médiuns e das pesquisas experimentais, levaram Rivail à convicção da realidade dum mundo invisível; no entanto, para ele, os espí- (3) Allan Kardec: Minha Primeira Iniciação no Espiritismo - Livro das Previsões - Obras Póstumas).
ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA - André Dumas PENSE ritos, não sendo necessariamente os detentores da Verdade, nada mais são do que a alma dos homens, sendo seu saber condicionado ao nível da sua evolução, "cada um de nós pode ensinar alguma coisa, ao passo que individualmente nenhum nos poderia ter inteirado de tudo, cabe ao observador formular o conjunto com o auxílio dos dados provenientes de várias fontes, comparados, coordenados e controlados uns pelos outros". Os espíritos foram para mim — dizia o futuro Allan Kardec — "desde o menorzinho até ao maior, veículos de informação e não reveladores predestinados". * * * É da síntese dos resultados desta investigação — da sua "sondagem", em suma — sobre a opinião filosófica em intercâmbio com o lado de lá, mais precisamente o lado de lá europeu em 1857, como diremos, que nasceu O Livro dos Espíritos. O professor Léon Denizard Rivail, bastante conhecido pelos seus trabalhos pedagógicos, publicou esta obra com o objetivo de esclarecer um assunto tão controverso e estabelecer em bases concretas todo o esforço que lhe foi exigido, e sem qualquer evidência (4), razão por que adotou o pseudônimo de Allan Kardec, seu guia espiritual e cuja existência remontava dos tempos dos druidas. (4) Revista Espirita, junho de 1865, pp. 164-165.
ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA - André Dumas PENSE No entanto, o sucesso desta obra obrigou o batalhador a renunciar ao desejo de retirada. "Prontamente ao trabalho", dizia ele, "entendo dever prosseguir". Impulsionando e orientando o movimento de interesse que despertara, lança a Revista Espirita, cujo primeiro número aparece a público em 1º de janeiro de 1858, funda a Sociedade Parisiense de Estudos Espiritas e publica dois novos trabalhos que as circunstâncias de momento exigiam.
ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA - André Dumas PENSE PRECURSOR DA PARAPSICOLOGIA Ao mesmo tempo que definia o espiritismo como uma teoria filosófica, Allan Kardec criava-lhe bases científicas, podendo ser considerado como o verdadeiro fundador do que hoje em dia se chama "metapsíquica" ou "parapsicologia", embora grande parte dos especialistas de outros ramos de investigação científica se esforçassem por minimizar as implicações teóricas decorrentes de tais fatos. É o prof. Charles Richet que, em seu Tratado de Metapsíquica, afirma: quanto às célebres experiências de William Crookes em 1871, foi Allan Kardec o homem que "exerceu a mais intensa influência, abrindo rasgo profundo na ciência metapsíquica. Sua obra não é apenas uma teoria grandiosa e homogênea, mas também um imponente repositório de fatos." (5) Com efeito, Allan Kardec estudou e classificou todas as categorias de fenômenos paranormais, ba- (5) Charles Richet: Tratado de Metapsíquica, livro 1, § 3.°, p. 334 (Alcan, 1923).
ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA - André Dumas PENSE seando a sua teoria, tal como já o havia definido nas diversas modalidades das faculdades mediúnicas:
O estudo das propriedades do perispírito, dos fluidos espirituais e dos atributos fisiológicos da alma, abre novos horizontes à ciência e fornece a chave para a compreensão de grande número de fenômenos até então incompreendidos, por desconhecimento da lei que os rege, fenômenos negados pelo materialismo, por se ligarem à espiritualidade, e qualificados, segundo as crenças, de milagres ou sortilégios. Tais são, entre outros, os fenômenos da dupla visão, da visão à distância, do sonambulismo natural e artificial, dos efeitos psíquicos da catalepsia e da letargia, da presciência, dos pressentimentos, das aparições, das transfigurações, da transmissão de pensamento, da fascinação, das curas instantâneas, das obsessões e possessões etc. Demonstrando que esses fenômenos se baseiam em leis naturais, assim como os fenômenos elétricos e as condições normais em que se podem reproduzir, o espiritismo fez derrocar o reino do maravilhoso e do sobrenatural, e consequentemente a fonte da maior parte das superstições, além de outras coisas consideradas por alguns como quiméricas, impedindo também de se crer em muitas outras cuja possibilidade e escassez ele demonstra. (6) (6) Allan Kardec: A Gênese, cap. I 40 (Derby Livros).
ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA - André Dumas PENSE A leitura de O Livro dos Médiuns, de A Gênese e de Obras Póstumas, revela-nos toda a elaboração, por Allan Kardec, das bases científicas da parapsicologia moderna; ele conhecia a telepatia, que designava por "telegrafia espiritual", a fotografia do pensamento, a clarividência, a qual denominava "lucidez", a precognição (para a qual tentou uma explicação racional), as aparições de vivos, dos fenômenos de bilocação (out-of-body, assim dizem os parapsicólogos anglo-americanos) e que designam pelo termo de "bicorporeidade", e os fantasmas materializados, a que deu o nome de "agêneres". Também não ignorava, tão pouco, a ideoplastia (modelagem da matéria, subtil ou completa, pelo pensamento), que tem um papel importante na ectoplasmia e nas teorias metapsíquicas; deu numerosos exemplos das descobertas "fluídicas" do pensamento, observadas no "laboratório do mundo invisível." (7) Num estudo publicado na Revista Espírita (julho de 1861), Allan Kardec escrevia: Não se tendo em conta o elemento espiritual, a ciência encontra-se na impossibilidade de explicar uma série de fenômenos, caindo no absurdo por querer considerar tudo como matéria. É, principalmente, na medicina que o elemento espiritual tem um papel impor- (7) Allan Kardec: Livro dos Médiuns, cap. VII (Derby Livros).
ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA - André Dumas PENSE tante; quando os médicos não o têm em conta eles se afastam do caminho, onde muitas vezes poderão encontrar a luz que os guiará mais seguramente no diagnóstico e no tratamento das doenças. Poderá não ter sido ele, de fato, o detentor da verdade fundamental que hoje em dia se pretende demonstrar com a psicoterapia, a psicanálise, o método de Coué, a medicina psicossomática e a sofrologia, sabendo que aquilo a que chamamos "subconsciente", a criptopsíquica (como dizia Charles Richet), é a parte oculta do ser que exerce uma influência permanente no nosso equilíbrio físico e mental e no nosso comportamento cotidiano? Não será isso, também, uma forte intuição dos "circuitos de energia" que o Ocidente só muito recentemente conheceu e que está na base da acupuntura chinesa? E dos diagnósticos médicos praticados pelos investigadores soviéticos para a análise das "auras" obtidos com a ajuda dos processos foto-eletrônicos kirlian? A influência do subconsciente exerce-se igualmente nos fenômenos paranormais e nas diversas formas de mediunidade, como o demonstrou Gabriel Delanne (8) e Allan Kardec jamais o ignorou. Apesar do estudo da mediunidade como parte integrante do espiritismo ainda estar longe de se completar, estamos também longe dos tempos em que bastava crer-se no recebi- (8) Gabriel Delanne: Investigações sobre a Mediunidade (Derby Livros).
ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA - André Dumas PENSE mento dum impulso mecânico para nos considerarmos médiuns e estarmos aptos a receber as comunicações dos espíritos. O progresso da ciência espirita, que é enriquecido em cada dia através de novas observações, demonstra-nos todavia as diversas causas e sensíveis influências, das quais não podemos duvidar e que com todos os seus benefícios nos advém do mundo espiritual. (9) (9) Revista Espirita, maio de 1865, pág. 155.
ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA - André Dumas PENSE A MATÉRIA E O FLUIDO UNIVERSAL A noção de "fluido" foi elaborada no século 17 e no início do século 19, pela escola magnética, com Mesmer, Puységur, Deleuze, Cachagnet e o Barão Du Potet, pelos investigadores da Reichen Back e através das experiências de Agenor de Gasparin (1853) e de Marc Thury (1858) sobre as mesas girantes. Na obra de Allan Kardec, o fluido individual donde provém o "perispírito", elo semimaterial entre o espírito e o corpo, é uma particularidade do "fluido cósmico universal". Este corresponde ao que William Crookes mais tarde apelidou de "protyle". É a matéria elementar primitiva "da qual as modificações e transformações constituem as inumeráveis variedades dos corpos da natureza." (10) Como princípio elementar universal, oferece dois estados distintos: o de eterização ou de imponderabilidade que se pode considerar como estado normal primitivo, e o de (10) Allan Kardec: A Gênese, cap. XIV, § 2.
ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA - André Dumas PENSE materialização ou de ponderabilidade, que é, de certo modo, consecutivo àquele. O ponto intermediário é o da transformação do fluido em matéria tangível; porém, ainda neste caso, não há transição brusca, pois podemos considerar os nossos fluidos imponderáveis como um termo médio entre dois estados. (11) Estas linhas, escritas em 1868, demonstram que a noção de "fluido", segundo Allan Kardec, se integra num conceito nitidamente "monista", unitário, de substância universal e constitui uma demarcada antecipação das teorias energéticas modernas. Numa outra passagem, ele é também bastante claro: A matéria tangível, tendo por elemento primitivo o fluido cósmico etéreo, ao desagregarse deve poder voltar ao estado de eterização, assim como o diamante, o mais duro dos corpos, se pode volatizar num gás impalpável. A solidificação da matéria, na realidade, não passa de um estado transitório do fluido universal, o qual pode voltar ao seu estado primitivo quando as condições de coesão cessam de existir. (12) Estes estudos de Allan Kardec precedem, curiosamente, os de Gustave le Bon, publicados em 1906 (11) Allan Kardec: A Gênese, cap. XIV, § 2. (12) Allan Kardec: A Gênese, cap. XIV, § 6.
ALLAN KARDEC, SUA VIDA E SUA OBRA - André Dumas PENSE e 1907, sobre a "materialização do éter" e a "volta da matéria ao éter". (13) Precedem ainda, e em maior número, as experiências de Fréderic e Irene Juliot-Curie, sobre a materialização dum "Photo-Gama", corpúsculo de luz, em duas cargas eléctricas de tipos opostos, ou seja num "pare" constituinte elementar da matéria. Allan Kardec parece ainda ter tido a presciência, trinta anos antes da descoberta por Becquerel, da rádioatividade: Quem sabe mesmo se, no estado de tangibilidade, a matéria não é susceptível de adquirir uma espécie de eterização que lhe daria propriedades particulares? (14) Em O Livro dos Espíritos, publicado em 1857, já encontramos ensinamentos monistas, atribuídos não só a Allan Kardec, como também aos seus instrutores espirituais; segundo estes ensinamentos, a matéria é formada por "um só elemento primitivo": Os corpos que considerais simples não são verdadeiros elementos, mas sim transformações de matéria primitiva. As diferentes propriedades de matéria são modificações que as moléculas elementares sofrem, por defeito da sua união, em certas circunstâncias. (13) Gustave Le Bon: A Evolução da Matéria (1906); A Evolução das Forças (1907). (14) Allan Kardec: A Gênese, 1868, cap. XIV, § 6.
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