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Capítulo 2 de 2
Parte 2 de 2
A Nova Revelação · Arthur Conan Doyle
Reuniam-se de novo os que se amavam. Fiz este resumo de uma comunicação, para mostrar de que gênero eram as que obtínhamos, se bem que a amostra apresentada seja das mais favoráveis, quer em extensão, quer em coerência. Serve, entretanto, para demonstrar que não é justo dizer-se, como fazem muitos críticas, que só se conseguem mensagens vazias de senso. Nestas, nenhuma insensatez se nota, a menos que assim qualifiquemos tudo que não se adapte às nossas idéias preconcebidas. Mas, por outro lado, que provas possuímos da veracidade daquelas afirmações?
Não tendo meio de comprová-Ias, elas me deixaram simplesmente desorientada. Agora, entretanto, que uma experiência mais larga me permitiu verificar que informações da mesma natureza foram dadas a muitas pessoas, desconhecidas umas das outras e de países diferentes, creio que a concordância dos testemunhos constitui, até certo ponto, como em todos os casos de investigação, um argumento a favor da veracidade de tais informes. Naquela época, não me era possível harmonizar se - melhante concepção da vida futura com o meu sis tema de filosofia. Limitei-me par isso a anotá-la e passei adiante. Continuei a ler muito sobre o assunto e pude apreciar cada vez mais a infinidade dos testemunhos existentes e quão meticulosos tinham sido em suas experiências os que os davam.
Isso me impressionava muito mais do que os limitados fenômenos que lograva obter nas minhas sessões. Então, ou pouco depois, li uma obra do Sr. Jacolliot sobre os fenô menos de ocultismo na Índia. Jacolliot era presidente do tribunal da colônia francesa de Chandernagor. Espírita de feitio muito jurídico, nutria prevenções contra o Espiritismo.
Efetuou uma série de experiências com faquires, que nele depositavam confiança pela simpatia que inspirava e porque lhes falava no idioma deles. No seu livro, Jacolliot descreve as múltiplas precauções que tomou para evitar toda espécie de fraude. Resumindo a sua longa narrativa, direi que entre os faquires se lhe depararam todos os fenômenos da mais adiantada mediunidade européia, tudo, por exemplo, o que Home realizara. Observou a levitação do corpo, a imunidade contra o fogo, o movimento de objetos à distância, rápido crescimento de plantas, levantamento de mesas. Explicando a produção desses fenômenos, diziam os faquires que quem os operava eram os Pitris, ou espíritos, sendo que a única diferença notada entre aqueles processos e os nossos parecia consistir em que lá faziam maior uso da evo cação direta.
Pretendem os faquires que tais poderes lhes foram outorgados desde tempos imemoriais e remontavam aos caldeus. Tudo isso me causou enorme impressão, porquanto os faquires chegavam aos mesmos resultados que nós, sem que se lhes pudesse imputar os embustes tão freqüentes na América, ou a vulgaridade atual, como se costumava fazer amiúde com relação aos fenômenos semelhantes que se produziam na Europa. Também na mesma época fui influenciado pelo relatório da Dialectical Society, relatório muito antigo, datando de 1869. E um trabalho convincente e, conquanto tenha sido ridiculizado em uníssono pelos jornais ignorantes e materialistas daquele tempo, constitui um documento de grande valor. A Dialectícal Society se compunha de certo número de pessoas distintas e imparciais, desejosas de investigar os fenômenos físicos do Espiritismo.
O relatório a que aluda faz uma exposição minuciosa das experiências que realizam e das precauções que adotaram contra as fraudes. Atentando nas provas de que ele dá conta, ninguém compreenderá de que moda seus autores teriam podido chegar a uma con clusão diversa da que proclamaram, isto é: que os fenômenos eram sem dúvida alguma autênticos e indicavam a existência de leis e forças que a ciência ainda não explorara. Há no caso um fato singular a ser notado e é que, se a conclusão fora contrária ao Espiritismo, o relatório teria sido saudado como o golpe de morte no movimento espírita; mas porque, em vez disso, assegurou a realidade dos fenômenos, cobriram-no de ridículo. O mesmo, aliás, sucedeu a muitas outras investigações, desde as que se fizeram em Hydesville, no ano de 1848, e a que se verificou quando o professor Hare, de Filadélfia, se atirou como S. Paulo outrora, contra a verdade e teve que se curvar diante dela.
Por volta de 1891, eu me fiz membro da Psychical Research Society, o que me facultou ler todos os seus relatos. Muito deve o mundo à infatigável diligência dessa Sociedade e à sobriedade de suas exposições, embora eu reconheça que estas são, às vezes, de impacientar e que, no propósito de evitarem o cunho de maravilhosas, desanimam o público, levando-o a desinteressar-se de um esplêndido trabalho e de tirar dele proveito. A terminologia meio científica de que usam também desnorteia o leitor comum. Assim é que, depois da leitura daqueles relatórios, se podem dizer a que, em certa ocasião, me disse um caçador americano das Montanhas Rochosas com referência a um membro de uma universidade a quem ele escoltara durante toda uma estação de caça: "Era tão sábio que se não conseguia compreender o que dizia." A despeito, porém, dessas pequenas esquisitices, todos os que, na obscuridade, hão buscada a luz a têm encontrado nos metódicos trabalhos dessa Sociedade, cuja influência foi um dos fatores da atual orientação de minhas idéias. Além dessa, entretanto, outra influência se fez sentir profundamente em mim.
Inteirara-me até ali das admiráveis experiências realizadas pelos grandes investigadores, mas ainda não descobrira da parte deles qualquer esforço para elaborar um sistema que as abrangesse e contivesse todas. Foi então que lia obra monumental de Myers - Human Personality (A Personalidade Humana) - obra de cujas formidáveis raízes se há de erguer toda uma árvore de conhecimentos. Myers não pôde apresentar nenhuma fórmula que envolvesse todos os fenômenos ditos "espíritas". Contudo, discutindo a ação, a que deu o nome de telepatia, da mente sobre a mente, a expôs e estabeleceu de modo tão claro e completo, apoiando-se em numerosos exemplos, que, para todos, exceto para os que deliberadamente cerram os olhos à evidência, aquela ação passou a figurar entre os fatos científicos. Foi um grande passo dado.
Se a mente podia atuar, a distância, sobre a mente, é que existia no homem poderes de todo independentes da matéria, tal coma a temos compreendido sempre. O terreno fugia debaixo dos pés do materialista e a minha posição de outrora fora destroçada. Eu dissera que, consumida a vela, a chama se apagava. Surgiu-me uma chama muito afastada da vela e agindo por si mesma. A analogia, portanto, era evidentemente falsa.
Se a mente, o espírito, a inteli gência do homem podia operar à instância do corpo, é que era coisa independente deste. Por que então não poderia continuar a existir, mesmo depois de haver perecido o corpo? E não só essas impressões se produziam, a distância, no caso dos que tinham morrido, como também o mesmo fato provava que aquilo donde elas provinham revestia as aparências da pessoa morta, demonstrando que eram transmitidas por alguma coisa exatamente semelhante ao corpo, mas que obrava independente deste e que lhe sobrevivia. Ininterrupta se apresentava a cadeia das provas, desde o simples caso de leitura do pensamento, num extremo, até a manifestação mesma do espírita sem o carpo, no outra extrema. As frases se sucediam sem hiato.
Esta circunstância me pareceu conter os primeiros elementos de um sistema cientifico, de uma classificação do que até ali não passara de mera coleção de fatos confusos e mais ou menos discordantes uns dos outros. Por aquela mesma época tive ensejo de participar de interessante experiência, como um dos três comis sionadas pela Psychical Society para passarem a noite numa casa assombrada. Era um caso de poltergeist (3), um desses casos em que, durante anos, se ouvem barulhos estranhos, pancadas inexplicáveis, muita parecido, em suma, como caso clássico da família de John Wesley, em Epworth, no ano de 1762, ou ainda com o da família Fox, em Hydesville, perto de Rochester, em 1848, e que foi o ponto de partida do moderno espiritualismo. Nada de extraordinário assinalou a nossa viagem, que, todavia, não foi de todo improfícua. Na primeira noite, nenhum incidente.
No decorrer da segunda, ouvimos formidáveis barulhos semelhantes aos que se produzem batendo-se numa mesa com uma bengala. Nós nos cercamos, está visto, de todas as precauções, mas não pudemos descobrir a causa do ruído. Contudo, não ousaríamos, no momento, jurar que alguém não estivesse habilmente a divertir-se conosco. E o caso permaneceu assim. Decorridos alguns anos, encontrei um membro da família que residia naquela casa e por ele me foi dito que, depois da nossa visita, descobriram-se no jardim os ossos de uma criança, enterrada evidentemente desde muito tempo.
Hão de convir que seja este um fato digno de nota. Raras são os casos assombradas e não menos raras devem ser, suponho, as que nos seus jardins tenham restos humanos enterrados. Reunir numa casa essas duas circunstâncias excepcionais, sem dúvida, constitui argumento em prol da autenticidade do fenômeno. É interessante lembrar que também na caso da família Fox se falou da descoberta de ossos enterrados na cava, provando que um assassínio ali se cometera, sem que entretanto se tivesse podido verificar a hipótese de um crime recente. Não duvido de que, se a família Wesley houvesse conseguido chegar à fala com seus perseguidores, também teria conhecido o motivo da perseguição.
Isto quase parece indicar que, quando uma vida é cortada violenta e prematuramente, certa quantidade de energia vital não consumida permanece em condições de se manifestar de modo estranho e maléfico. Mais tarde observei um outro fenômeno do mesmo gênero que descreverei no fim deste trabalho. Desde então, até que estalou a guerra, continuei a consagrar as horas de lazer de uma existência muito laboriosa ao estudo atento deste assunto. Assisti a uma série de sessões que deram surpreendentes resultados, inclusive várias materializações visíveis numa meia obscuridade. Como, porém, pouco depois o médium foi surpreendido em fraude, deixei de considerar probantes aquelas sessões.
Penso, entretanto, não ser a presunção de que, pelo fato de alguns médiuns, como Eusápia Paladino, se tornarem culpa dos de fraude, quando lhes sucede falharem as faculdades que possuem, de outras vezes não produzam fenômenos cuja autenticidade se possa provar. A mediunidade, nas suas formas menos elevadas, é um dom puramente físico, que nenhuma relação tem com a moralidade; em muitos casos é intermitente e não pode ser governada à vontade. Pelo menos duas vezes Eusápia foi apanhada a cometer fraudes grosseiras e estúpidas, ao passo que de outras muitas sofreu demorados exames, feitos em condições de excluírem toda suspeita de embuste, por comissões cientificas compostas dos homens mais eminentes da França, da Itália e da Inglaterra. Não obstante, prefiro riscar do rol das minhas observações todas as experiências realizadas com um médium desacreditado e tenho para mim que os fenômenos físicos produzidos no escuro necessariamente perdem muito do seu valor, a menos que sejam acompanhados de comunicações inteiramente comprobatórias. Pretendem os que costumam criticar-nos que, se excluirmos os médiuns que se tornaram suspeitos, teremos que abrir mão da maior parte das provas em que nos apoiamos.
Absolutamente não é assim. Eu, até então, ainda não travara relações com um médium profissional e, no entanto, já reunira algumas provas. O mais notável de todos os médiuns, D. D. Home, produziu fenômenos à plena luz do dia e estava sempre disposto a submeter-se a todas as verificações e jamais contra ele se pode levantar qualquer acusação de fraude.
E, como esse, muitos outros. Cumpre ainda ponderar que, quando um médium público serve de reclamo aos que andam a busca de notoriedade, aos detetives amadores e a repórteres ávidos de noticias de sensação; quando intervém na produção de fenômenos obscuros e inelucidáveis, tendo que se defender perante júris e juízes que, de ordinário, nada conhecem do que influencia as manifestações mediúnicas, seria prodigioso que lograsse escapar de um escândalo ocasional. Também importa reconhecer que o sistema, em geral adotado presentemente, de pagar-se ao médium conforme os resultados obtidos, nada recebendo ele se nada produzir, é o pior possível. Somente quando se assegurar ao médium profissional um honorário determinado, independente dos resultados que com ele se consigam, estará afastada definitivamente a tentação de substituir por pretensos fenômenos os que não se produzam. Tenho assim esboçado a evolução de minhas idéias até quando rebentou a guerra.
Creio poder pretender se reconheça que ela foi bem cautelosa e que nenhum traço apresenta dessa credulidade de que nos fazem carga os nossos adversários. Foi mesmo por demais demorada, pois que me sinto culpado de lentidão em atirar à balança da verdade a pouca influência de que porventura goze. Sem a guerra, provavelmente houvera passado o resto de minha vida qual simples investigador dos problemas psíquicos, demonstrando uma atitude de simpático diletantismo para com este assunto, como se tratasse de alguma coisa impessoal, como se tratasse, por exemplo, da existência da Atlântida ou da controvérsia Baconiana. Mas, veio a guerra e, fervor das almas, nos obrigou a olhar mais intimamente para as nossas crenças, a fim de lhes renovarmos o valor.
Em face de um mundo que agonizava, ouvindo narrar diariamente como morria a flor da nossa raça, nos primeiros albores da sua juventude, observando, à volta de nós, às esposas e as mães sem fazerem idéia clara do destino que teriam tido os seres a quem amavam, de pronto se me afigurou que o assunto com que desde tanto tempo eu brincava não se resumia apenas no estudo de uma força que escapava aos preceitos da ciência, que nele havia alguma coisa verdadeiramente tremenda; o desabar de muralhas entre dois mundos, uma mensagem inegável vinda diretamente do Além, um brado de esperança e de encaminhamento para o gênero humano, na hora da sua mais viva aflição.
O lado objetivo da questão deixou de me interessar. Convencido, afinal, da sua veracidade, não havia mais por que prosseguir. Seu lado religioso apresentava importância infinitamente maior. A campainhada do telefone é coisa em si mesmo pueril, mas pode dar-se que seja a chamada para uma comunicação de vital interesse. Afigurou-se-me que todos esses fenômenos, grandes e pequenas, eram campainhadas de telefones que, sem significação em si mesmas, bradavam aos homens: "Levantai-vos!
Alerta! Atendei! Estes sinais são para vós outros! Eles vos previnem da mensagem que Deus vos quer enviar!" O que tem valor real é a mensagem, não os sinais. Pareceu-me que uma Nova Revelação estava em via de ser dada ao mundo, embora ainda se achasse num ponto que podemos comparar ao de S.
João Batista com relaç ão ao Cristo e sem que ninguém possa saber se chegaremos algum dia a recebê-la com maior precisão e clareza. Na minha opinião, os fenômenos psíquicos, verificados até à evidência par todos os que hão tido o cuidado de estudá-los, em si nada valem; o justo valor deles está em que servem de base, dandolhe uma realidade objetiva, a um imenso corpo de doutrina que há de modific
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